sábado, 28 de janeiro de 2017

Não podia estar mais de acordo

"Neste tempo de muitas incertezas ao nível mundial é essencial termos uma União Europeia mais forte e mais unida em torno dos seus valores da democracia, das suas quatro liberdades e do comércio livre a nível mundial" (António Costa, no final da cimeira dos países do sul da União Europeia, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa).
A novidade nesta oportuna declaração política do Primeiro-Ministro está no facto de ele ter cuidado de acrescentar a liberdade de comércio internacional junto com as "liberdades do mercado interno" (que incluem a liberdade de circulação de pessoas), que constituem o fundamento da "constituição económica" da União Europeia.
Costa tem razão: quando do outro lado do Atlântico, contra todos os compromissos internacionais dos Estados Unidos, se prega agora o protecionismo, com o aplauso das forças nacionalistas e soberanistas neste lado do Atlântico, desde sempre protecionistas, importa sublinhar a fundamental importância da liberdade do comércio internacional, que é um dos "core values" da União, tal como definidos nos Tratados, e uma das fontes da sua prosperidade e da sua influência no Mundo.
Só é pena que tais valores não sejam de modo algum compartilhados - pelo contrário - pelos parceiros da aliança parlamentar que sustenta o Governo. A próxima votação na AR do acordo de comércio e investimento com o Canadá (CETA) vai ser um bom teste...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Mercados protegidos

A notícia de que «mais de metade das vagas de especialidade [médica] ficaram por preencher» exibe mais uma vez a rotunda falácia dos "médicos a mais" periodicamente alimentada pela Ordem dos Médicos e pelos sindicatos médicos para justificar a reivindicação de redução do numerus clausus no acesso aos cursos de medicina, apenas para manterem uma escassez deliberada no respetivo mercado profissional, em benefício próprio.
O malthusianismo profissional é um dos traços mais evidentes da cultura corporativista que continua a prevalecer entre nós, que procura a benção do Estado para proteger os interesses económico-profissionais estabelecidos contra a entrada de novos profissionais ou operadores económicos. Enquanto perdurar a defesa de mercados protegidos (seja nos táxis, seja nos médicos), nunca teremos uma verdadeira economia de mercado baseada na liberdade de entrada e na concorrência nos serviços profissionais.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Contradições


1. Com a aprovação no Parlamento Europeu aproxima-se a conclusão do acordo de comércio e investimento entre a UE e o Canadá (conhecido pela sigla CETA), o mais avançado dos muitos tratados comerciais da União até agora.
Embora o tratado possa ser posto provisoriamente em vigor pelo Conselho da União depois da aprovação parlamentar, o processo só ficará definitivamente concluído com a ratificação de todos os Estados-membros, incluindo Portugal, o que vai expor uma das mais profundas contradições políticas na atual aliança governamental, entre o PS, que apoia a política comercial da União e o CETA, e os seus aliados, BE e PCP, que se opõem visceralmente à redução dos obstáculos ao comércio internacional e que têm liderado a aguerrida campanha contra o CETA.

2. Não sendo provável desta vez que o PSD se alie oportunisticamente à extrema-esquerda parlamentar para chumbar o CETA, é de prever, porém, que sublinhe a incapacidade do PS, apesar da proclamada maioria parlamentar, de levar a cabo as suas mais importantes posições políticas, sem a colaboração... da oposição!
Como aqui se advertiu anteriormente, a ideia de que, mercê da aliança de esquerda, "o PS já não precisa do apoio da direita para governar" era "ligeiramente exagerada".

"Geringonça" em Berlim?


A indicação de Martin Schultz, ex-presidente do Parlamento Europeu, como candidato à chefia do governo alemão nas próximas eleições em setembro vai seguramente dinamizar o SPD e inverter o declínio eleitoral que as sondagens indicam até agora.
Mesmo que isso não chegue, como não chegará, para derrotar a chancelerina Merkel, que se candidata a um quarto mandato, um bom score de Schultz pode melhorar as condições negociais dos social-democratas na renovação da atual "grande coligação" em Berlim. Outra hipótese em que Schultz pode estar a pensar é a de, mesmo não ganhando as eleições, tentar uma solução "à António Costa", negociando uma aliança tripartida de governo com os verdes e com a esquerda neocomunista (a chamada coligação "vermelho-vermelho-verde"). Mas para isso seria necessário obter uma maioria parlamentar em conjunto com eles, o que se afigura pouco provável, e vencer a oposição neocomunista à integração europeia, o que se apresenta pouco viável.

As universidades-fundação são tão públicas como as outras


1. Em nome da "defesa da universidade pública", a coligação PCP/BE/FENPROF mantém desde o início uma combate sem tréguas à adoção do regime fundacional por parte das universidades públicas.
Agora é Coimbra o centro das operações de combate (como mostra a imagem), depois de perdida a batalha no caso de Aveiro, do Porto, do ISCTE, de Braga e da Universidade Nova de Lisboa.
Pode haver vários argumentos pertinentes contra as universidades-fundação, mas entre esses argumentos não podem estar os dois principais usados pela coligação contrária, a saber, que elas constituem uma forma de privatização das universidades e que comprometem a autonomia universitária.
Quanto ao argumento da privatização, é evidente que as universidades-fundação continuam a pertencer ao Estado. As próprias fundações são públicas, embora sujeitas ao regime de direito privado, apenas para efeitos de gestão patrimonial, financeira e de pessoal, tal como muitas outras entidades públicas.
O argumento da autonomia também não faz nenhum sentido, pois as universidades-fundação tornam-se muito mais autónomas do Governo, visto que a autoridade máxima da gestão da instituição passa a ser o conselho de curadores, cujos membros são todos indicados pelas próprias universidades e não podem ser livremente demitidos pelo Governo.

2. O melhor modo de defender as universidades públicas é aumentar a sua autonomia e responsabilidade, reforçar os seus meios financeiros, bem como a flexibilidade e eficiência da sua gestão. É isso que o regime fundacional proporciona.
O que a troika BE/PCP/FENPROF defende não é o interesse geral das universidades públicas, mas sim somente o interesse sindical de manter o regime tradicional do pessoal académico e administrativo como funcionários públicos. Não é irrelevante, mas é pouco.
O regime fundacional não foi criado por nenhum governo de direita, mas sim por um governo do PS, sob a responsabilidade de um dos melhores ministros do ensino superior do Portugal democrático, J. Mariano Gago, com o apoio da OCDE. Ver no regime fundacional uma conspiração contra a universidade pública não faz ao mínimo sentido.
De resto, o combate contra o regime fundacional não se tem mostrado propriamente convincente para impedir as referidas universidades de o requererem (pois trata-se de um estatuto voluntário). Ninguém acredita que as universidades-fundação já existentes tenham passado a ser menos públicas ou menos autónomas do que as demais. E nenhuma quer abandonar esse estatuto...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Ai a dívida!

1. Esta tabela do Eurostat, relativa ao terceiro trimestre de 2016, mostra que dos sete países que têm um rácio dívida pública / PIB superior à média da zona euro (a vermelho) cinco deles são da corda sul da União, os suspeitos habituais, com Portugal num desconfortável segundo lugar ex-aequo com a Itália.



2. O segundo quadro, abaixo, mostra que na comparação com um ano antes (3ºT 2015), enquanto a Grécia, a Itália e a Espanha melhoraram o seu rácio, Portugal e Chipre agravaram-no, em contraciclo com o resto da União, acentuando a sua divergência para a média da UE (a azul) e da zona euro (a vermelho), que também diminuíram.














3. Mesmo que os dados relativos à dívida líquida (que deduz os depósitos) atenuem a gravidade destes quadros, a situação não pode deixar de inspirar preocupação.
Não nos admiremos, portanto, que a nossa taxa de juro também tenha subido em contraciclo com a de outros países, agravando o spread em relação à divida espanhola e italiana e encarecendo o custo das novas emissões da nossa dívida. E não nos admiremos também que as agências de rating mantenham Portugal em maus lençóis.
Esta tendência negativa tem de ser revertida (aqui, sim, uma reversão virtuosa!), antes que as atuais condições favoráveis de juros baixos (inflação reduzida e intervenção do BCE) se alterem, tornando tudo ainda mais difícil.

"Contra as eleições"


1. Antes do livro "Contra a Democracia", anteriormente referido aqui no Causa Nossa, também já havia o livro "Contra as Eleições", publicado no ano passado e recentemente analisado no Observador.
Embora se afirme a favor da democracia, o livro representa uma tese claramente contra a democracia eleitoral, propondo a substituição, pelo menos parcial, das eleições pela seleção à sorte dos titulares de cargos públicos, invocando o exemplo da antiga democracia ateniense (Conselho dos 200) e de algumas repúblicas italianas na época do Renascimento.
Todavia, a tese contra a democracia eleitoral não deixa de ser tão estapafúrdia como a tese da "democracia elitista" antes referida.

2. Podendo servir para escolher os membros do júris nos tribunais, o sorteio não serve seguramente para selecionar os representantes políticos numa democracia representativa. Por três razões:
   - primeiro, o sorteio "despolitizaria" a democracia, ao não permitir escolher os representantes em função das suas capacidades pessoais e das sua ideias políticas, que é a chave da competição política em democracia;
   - segundo,  o sorteio eliminaria a responsabilidade dos próprios cidadãos na escolha dos seus representantes, substituindo-a pelo acaso, assim quebrando qualquer relação de accountability destes em relação àqueles;
   - por último, o sorteio retiraria a necessária legitimidade e autoridade política aos representantes para governarem em nome da coletividade, que só a eleição confere.

3. Sendo embora mais uma tese falhada contra a democracia tradicional, o facto de se multiplicarem os livros a pôr em causa a democracia representativa na base do sufrágio universal e das eleições revela bem os equívocos doutrinários na resposta às perversões da democracia e aos perigos antidemocráticos do populismo e da demagogia nacionalista.
É caso para dizer "pior a cura do que a doença". Há de haver outros remédios para os perigos que corre a democracia do que... sacrificar a própria democracia.

Distanciamento

Parecem-me excessivos os aplausos oriundos do PS ao (excessivo) apoio dado publicamente pelo PR ao Governo, nomeadamente na entrevista de há dias à televisão, em que MRS surgiu como espécie de "procurador oficioso" do Governo.
Um pouco de distanciamento político recíproco não faria mal a nenhum dos lados. Por um lado, no seu papel de arbitragem e de supervisão institucional, o PR deve ser discreto na sua avaliação pública da ação governativa, mesmo quando se trata de dizer bem dela, evitando tomar partido; por sua vez, o Governo, que não depende da confiança nem do apoio político do PR (mas somente da sua lealdade institucional), não deve tomar o apoio de Belém como um favor que tenha de agradecer e retribuir. Nem o PR pode considerar o executivo como "o seu Governo" nem este pode tomar aquele como o "seu Presidente". No nosso sistema constitucional, a função governativa não é uma "joint venture" entre Belém e São Bento.
Se os ventos mudarem e a situação política se complicar, a excessiva proximidade de hoje pode ser um problema amanhã.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

"Tenho Direitos"


Mais uma iniciativa do Centro de Direitos Humanos da FDUC, a que tenho a honra de presidir, desta vez na área da educação para os direitos humanos em escolas multiculturais de ensino secundário.
O mérito cabe à equipa do IGC e às escolas participantes, a que se junta ao apoio institucional da UE (Programa Erasmus) e da Município de Coimbra. O meu agradecimento público a todos.

Derrota certa

A clara e inesperada vitória do candidato mais à esquerda (B. Hamon) na primeira volta das "primárias" do PS francês, aliás pouco participadas, para a escolha do seu candidato às eleições presidenciais deste ano deixa pouca margem para uma recuperação do ex-primeiro-ministro Manuel Valls na segunda volta (que deixou a presidência do Governo para travar esta batalha), na medida em que o terceiro candidato mais votado, A. Montbourg, já anunciou o seu apoio a Hamon.
Se efetivamente vier a ser Hamon o candidato presidencial do PS, as hipóteses de chegar à segunda volta das eleições de Abril próximo, na disputa com Le Pen, Fillon e Macron - que já eram escassas à partida, mercê do péssimo mandato de Hollande -, ficam praticamente excluídas. As ideias políticas que Hamon apresentou, manifestamente incomportáveis pelo já sobrecarregado orçamento francês (como a de um "rendimento universal" de 750 euros), podem apelar à esquerda do PS francês mas só podem afastar o cidadão comum, pelo seu radical irrealismo.
Derrota segura à vista, portanto. Com poucas exceções, as provações eleitorais da social-democracia europeia nos últimos anos não dão mostras de estar perto do fim.

Ultraliberalismo nacionalista


1. Trump confirma a sua agenda ultraliberal de desregulação maciça dos negócios, bem como de redução de impostos sobre as empresas, numa dimensão capaz de envergonhar a "revolução neoliberal" de Reagan, há três décadas, revertendo toda a nova regulação económica montada depois da crise de 2008.
Enquanto isso, porém, já começou a implementar a sua contrarrevolução protecionista e antiliberal no comércio externo, com a rejeição da "Parceria Transpacífico" (TPP).

2. Eis um mix de política económica pouco comum. Tradicionalmente, o nacionalismo económico externo é o reflexo de políticas intervencionista na ordem económica interna, enquanto o liberalismo económico interno coabita tendencialmente com uma política comercial externa igualmente liberal. Trump baralha as coisas e inaugura uma nova receita: ultraliberalismo interno e nacionalismo externo, ou seja, um ultraliberalismo nacionalista.
Pode não ser doutrinariamente muito coerente, mas para o business dos Estados Unidos pode ser o melhor de dois mundos: um mercado interno desregulado protegido do exterior por barreiras protecionistas.

Pobre Língua!

1. Não consigo deixar de me espantar ao ouvir pessoas instruídas e com formação académica, incluindo professores universitários, falarem de modo linguisticamente descuidado em público - em conferências, no parlamento, na rádio e na televisão -,  usando e abusando das simplificações e corrupções fonéticas e sintáticas próprias de conversa casual e da linguagem popular.
Há dias, numa conversa radiofónica, uma investigadora universitária usava recorrentemente "tá" em vez de "está", "pâ" em vez de "para", "tamém" em vez de "também", "mêmo" em vez de "mesmo", "qué d'zer" em vez de "quer dizer", "corenta" em vez de "quarenta", "haviam" em vez de "havia", etc., etc. Se a isto acrescentarmos a horrível palatalização da pronúncia típica de Lisboa (como, por exemplo, "chéto" em vez de "exceto" e "chêrto" em vez de "excerto", "d'chiplina" em vez de "disciplina"), temos um quadro aproximado do perigo que ameaça o Português europeu.
Infelizmente, não se trata de casos isolados e a verdade é que já há pessoas a escreverem assim, tal como ouvem e dizem!

2. O abandono do ensino da norma erudita da Língua nas escolas e a falta de formação de locutores de rádio de televisão no bom uso do Português só podiam dar este resultado.
Na generalidade das línguas há uma distinção clara entre o registo culto e o registo popular, sendo a norma erudita obrigatória no discurso formal e na comunicação no espaço público. Entre nós, manifestamente, está a deixar de ser assim. Quando políticos e académicos falam publicamente como o homem da rua, num registo informal ou mesmo vulgar, convém perder toda a esperança numa reversão dos estragos feitos pela confusão dos diferentes níveis de linguagem. A língua culta está em vias de se limitar a uma pequena e exótica tribo de falantes.

Adenda
Perante estes atropelos gritantes à norma culta da língua falada, há quem continue a "arrancar cabelos" contra a modesta reforma ortográfica de 1990. Em que mundo vivem!? Como disse noutra ocasião, o nosso problema não é a ortografia, é a ortofonia...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Um Estado à margem do Estado?

Ao dar a notícia de que o novo aeroporto complementar do aeroporto de Lisboa vai ficar na atual base aérea do Montijo, o Expresso/Economia informa que só falta fixar a "indemnização à Força Aérea", que estima em cerca de 400 milhões de euros.
A gente lê isto e não acredita! Eu julgava que as instalações das forças armadas são património do Estado, de que o Governo pode dispor de acordo com o melhor interesse do País. Se a Força Aérea não puder continuar a compartilhar a utilização da pista do Montijo com a aviação civil e se não pode mesmo prescindir de uma nova base aérea na mesma região do País, cabe ao Governo disponibilizar e equipar outra (seja em Alverca, na Ota ou em Santa Margarida). O que não faz sentido é uma "indemnização" à própria Força Aérea pelo alegado valor da base.
As forças armadas não constituem uma "ordem" separada do poder civil, como se estivéssemos na Idade Média, com direito cativo ao seu património. Este foi-lhe atribuído pelo Estado e permanece sob sua plena jurisdição, podendo ser retomado pelo Estado para outros usos. A Força Aérea não é nem pode ser um Estado à margem do Estado, com independência patrimonial e orçamento separado do Orçamento do Estado.
Era conveniente que o Governo esclarecesse publicamente esta questão.

"Fogo amigo"

1. A possibilidade de a inédita aliança governativa de esquerda perdurar até ao fim da legislatura em 2019 pressupõe pelo menos duas coisas:
  - que o Governo vai poder continuar a encontrar margem financeira suficiente todos os anos para, simultaneamente, assegurar as metas de consolidação orçamental e pagar as novas reivindicações do BE e do PCP,  de modo a "comprar" o seu apoio ao orçamento;
  - que o Governo consegue controlar o "fogo amigo" dos seus próprios aliados no parlamento, que não hesitam em fazer maioria negativa com a direita parlamentar em questões politicamente sensíveis, como sucede agora com a baixa da TSU (e já tinha sucedido anteriormente no caso da administração da CGD).
Ora, parece evidente que nenhuma destas condições é fácil de satisfazer e que isso não depende somente do PS.

2. Embora me pareça prematura a ideia de pôr a flutuar a "ameaça" de uma moção de confiança ou de eleições antecipadas, seguramente há outros meios de fazer ver aos parceiros de aliança parlamentar que não podem "esticar demasiado a corda" e que devem assumir as suas responsabilidades no apoio ao Governo.
Os supostos aliados do Governo não podem escolher apoiá-lo só quando lhes convém e aliar-se à direita para o derrotar sempre que lhes aprouver. Isso não é aliança nenhuma! Ubi commoda ibi incommoda!

domingo, 22 de janeiro de 2017

O que o Presidente não deve fazer

Na sua entrevista de há pouco à SIC, em geral bem conseguida e sem surpresas, Marcelo Rebelo de Sousa só se descuidou (?) quando, perguntado sobre o seu "hiperativismo",  invocou em seu favor os exemplos de Obama, May e Merkel.
Sucede que todos eles são chefes do governo, o que ele não é. Os benévolos jornalistas não assinalaram a evidente impropriedade da comparação, que espíritos malévolos podem ler como manifesto "ato falhado".

sábado, 21 de janeiro de 2017

Viragem

1. A tese de que, mercê da aliança de esquerda, "o PS nunca mais vai voltar a precisar da direita para governar" parece-me assaz temerária, e não é somente porque o futuro é, por definição, longo e imprevisível.
De facto, o PS vai precisar do PSD em várias situações : (i) sempre que queira tomar medidas que no nosso sistema constitucional carecem de uma maioria de 2/3 (e não são poucas); (ii) se quiser recuperar algumas das reformas que estavam no seu programa eleitoral e que foram "metidas na gaveta" por causa da oposição da extrema-esquerda parlamentar; (iii) sempre que estiver em causa aquilo que afasta decididamente o PS do PCP e do BE e o aproxima do PSD, que é afinal crucial (integração europeia, disciplina orçamental e dívida pública, política externa, incluindo política comercial, política económica, etc.).

2. A ideia de confinar ad aeternum a ação do PS a um frentismo de esquerda (aliás pouco consistente como se vê) e a um maniqueísta confronto esquerda-direita representa uma viragem estratégica que não se enquadra no património doutrinário nem na prática política do PS, tal como herdados de Mário Soares. O PS sempre se considerou como a trave-mestra central de um sistema partidário com três áreas políticas, entre a direita e a extrema-esquerda.
Não há, por isso, nenhuma razão para transformar em salvífica solução definitiva para o futuro a atual aliança de esquerda, que foi gerada num certo contexto político e ainda não passou o teste do tempo.

Pôr a Ordem na ordem

1. Em jeito de resposta a esta minha crítica (embora sem me mencionar), o bastonário da Ordem dos Médicos veio insistir na sua competência para defender as condições de trabalho dos médicos, informando mesmo que até enviou várias participações à Autoridade para as Condições de Trabalho.
Mas o argumento não procede, por várias razões:
  - primeiro, como é evidente, as condições de trabalho são do foro dos sindicatos;
  - segundo, a Constituição e a lei são claras ao dizer que as ordens profissionais não podem assumir funções sindicais;
  - terceiro, quando a lei refere que cabe às ordens defender os "interesses gerais da profissão", é óbvio que isso só faz sentido no que respeita ao exercício da profissão, independentemente do regime de trabalho em que ela é exercida;
  - por último, as condições de trabalho não cabem manifestamente na noção de "interesses gerais da profissão", desde logo porque não abarcam os médicos que prestam serviços profissionais por conta própria, não inseridos em relações de trabalho assalariado.
É claro que os médicos têm direito a condições de trabalho, mas cabe aos sindicatos (e não à OM) exigi-las, como sucede com os demais trabalhadores.

2. A posição do Bastonário mostra que há aqui um sério problema de usurpação deliberada de funções que não cabem à OM. A tutela e o MP não podem fazer de conta que não sabem.
Não basta ignorar as queixas da OM sobre questões laborais, como a ACT fez, e bem, dada a ilegitimidade da queixosa. O problema é que, como mostrei no post acima referido, a Ordem pretende usar os poderes públicos que o Estado lhe conferiu, nomeadamente o poder regulamentar, para fins alheios à suas atribuições (como as relações de trabalho ou a organização dos serviços de saúde), o que não pode ser.
Nesse ponto, é tempo de meter a OM na ordem.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Contrassenso


1. Na sua recente entrevista ao Público, o presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, J. Vera Jardim, antigo ministro e deputado do PS, criticou em termos contidos (função obriga!...) várias regalias legais da Igreja Católica, entre elas o atual regime de capelanias militares, as quais, além da remuneração do Estado, implicam a atribuição de um posto de oficial aos ministros da Igreja Católica destacados para essa missão!
Por meu lado, não tendo nenhuma obrigação de deferência política nesta matéria (nem noutras, aliás!), reitero o que sempre sustentei (por exemplo, aquiaqui), ou seja, que se trata de um contrassenso num Estado laico e de uma violação grosseira da separação entre o Estado e a religião. O Estado tem obviamente obrigação de facultar aos militares aquartelados ou em missão a disponibilidade de assistência pelas respetivas confissões religiosas (locais de culto, presença de ministros do culto, etc.). Mas não pode ele mesmo encarregar-se de manter esse serviço. Um Estado laico não pode assumir funções religiosas.

2. O que é lamentável é que os governos e as maiorias parlamentares vão e vêm, sem que esta derrogação qualificada da separação entre a Igreja e o Estado seja corrigida. Entre os grandes consensos tácitos dos partidos governantes está a vassalagem aos privilégios herdados pela Igreja Católica do Estado Novo. E nesta matéria o "respeitinho" é geral, pois nem os partidos da extrema-esquerda ousam discrepar...

Iniquidade territorial


Parece que já há projeto para a renovação estação ferroviária de Coimbra (na imagem), o mais esquálido apeadeiro da nossa principal linha ferroviária (em que a entrada é feita por uma passagem de nível!)
Projeto pode haver, mas resta o principal: financiamento e calendarização da sua execução. Obra prometida há mais de uma década, ninguém garante que não levará outra década para fazer. Não faltam centenas de milhões de euros do Estado para os transportes urbanos de Lisboa e do Porto, que aliás deviam ser sustentados pelos respetivos municípios. Mas não sobra uma pequena fração desses montantes para renovar a estação ferroviária da principal cidade do País entre Lisboa e o Porto!
Quando tanto de fala de novo em descentralização territorial, devia-se começar por resolver estes casos gritantes de iniquidade na repartição territorial dos investimentos do Estado.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O Imposto sobre Transações Financeiras (FTT)

O Imposto sobre Transações Financeiras visa introduzir justiça e regulação nos sistemas fiscais na Europa e garantir uma contribuição elementar, mais que devida, do sector financeiro para os orçamentos dos Estados Membros e da União, tanto mais que políticas de austeridade sobrecarregam brutalmente de impostos classes médias e PMEs. 
Este imposto deve obviamente ter impacto global.
 Lamento, neste quadro, que a Presidência de Malta não tenha, entre as suas prioridades, a harmonização fiscal, a transparência e o combate ao branqueamento de capitais, em especial quando membros do seu governo estão implicados nos Panama Papers e quando esta é uma questão vital também no combate à criminalidade organizada, incluindo o terrorismo.
Malta, um dos países que Comissão e Conselho toleraram que se especializasse na concorrência fiscal e práticas agressivas e opacas, tem agora acrescidas responsabilidades na Presidência da UE, de fazer avançar medidas já propostas pela Comissão para combater estas práticas, incluindo desbloquear o projeto de cooperação reforçada do Imposto sobre Transações Financeiras, já iniciado por 10 Estados Membros - incluindo o meu, Portugal.
(Minha intervenção em debate no plenário do PE, ontem)