1. Não acompanho o aplauso generalizado à esquerda ao provocante discurso do primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, no Forum Económico Mundial, em Davos, dando como finda a ordem internacional sujeita a regras (rules-based international order) por causa da emergência do novo imperialismo de Washington, sob a batuta de Trump, à margem dela e contra ela.
Em primeiro lugar, dá-la por extinta seria libertar os EUA e outras grandes potências das suas obrigações decorrentes do direito internacional e das instituições internacionais criadas para o fazerem respeitar (desde a ONU à OMC, entre muitas outras), substituindo o Estado de direito internacional existente, por mais deficiente que seja, pela "lei da selva" nas relações internacionais, onde só o poder conta e dita a sua lei (might is right). Segundo, dar por extinta a ordem internacional sujeita a regras, incluindo a ordem económica internacional, seria premiar o infrator e desistir de o combater em nome dela, além de abrir a porta a igual conduta de outras grandes potências, como a Rússia ou a China, para não falar de outras potências regionais.
Também na ordem internacional, a pior maneira de combater os fora-da-lei é dar por caducada em relação a eles a lei que eles desprezam.
2. Em especial, a UE e os seus Estados-membros não podem aceitar a ideia de fim do rule of international law para as grandes potências, nem refugiar-se na rede de "médias potências" virtuosas, em que Carney aposta.
Primeiro, porque, não sendo uma potência militar, a UE é uma grande potência económica, com uma posição cimeira no comércio interncional e no IDE, que tem investido numa ampla rede de acordos de parceria económica com terceiros países, justamente ao abrigo da ordem económica sujeita a regras, sob a égide da OMC. Segundo, a UE só teria a perder, se deixasse de chamar à responsabilidade os EUA, a Rússia e a China pelo incumprimento das obrigações que assumiram perante a União, não somente quanto à ordem económica internacional, mas também quanto aos direitos humanos, quanto à luta contra às mudanças climáticas, entre outras esferas.
A União seria a principal vítima do eventual desmoronamento dessa ordem internacional, tal como foi laboriosamente criada desde a II GG, de que é grande beneficiária.
3. Por isso, em vez de tomar a deriva selvagem dos EUA de Trump como o fim da ordem internacional sujeita a regras - como faz o PM canadiano -, a UE deve assumir-se como o farol das regras internacionais que Washington espezinha e mobilizar os seus aliados e a comunidade internacional em geral na denúncia e na resistência a tais atropelos, incluindo os países situados na esfera de influência americana, bem como as personalidades e forças políticas que nos próprios Estados Unidos não acompanham Trump.
A verdade é que Trump há de passar, mas os EUA ficam, e a ordem internacional que ajudaram a criar desde a II Guerra Mundial e que Trump quer matar, também há de sobreviver.