domingo, 1 de fevereiro de 2026

Coimbra (des)encantada (6): Um retrato da cidade em meados do séc. XIX

1. Todas as pessoas interessadas pela história de Coimbra são chamadas a ler mais este livro do Prof. Jorge Alarcão, Coimbra no tempo de Antero, Eça e Teófilo Braga, dedicada a essa "década de ouro" da sua história na segunda metade do século XIX, entre a chegada de Antero à Universidade (1856) e a licenciatura de Teófilo (1867).

Em sucessivos capítulos, o Autor aborda as transformações urbanísticas, a vida política nacional e local, as duas visitas régias e a vida cultural, concluindo com a estada de Antero, Eça de Queirós, Vieira de Castro e Teófilo Braga - dos vultos mais eminentes do panorama literário e político nacional da 2ª metade de oitocentos - e outros escritores.  É um verdadeiro retrato da vida da cidade, nas suas diversas dimensões. Um anexo oferece-nos uma bela série de imagens da época, da cidade e das personagens referidas na obra.

Com mais este livro, que é o 7º dedicado a Coimbra, J. Alarcão torna-se definitivamente, por mérito próprio, um insigne coimbrólogo, ou seja, o grande cultor da história da cidade do Mondego, a quem a cidade e o município ficam a dever um conhecimento mais profundo do seu passado e da sua identidade histórica.

2. Tão interessante quanto a apresentação do livro, que o Prof. Reis Torgal enalteceu devidamente, foram as palavras do autor sobre duas importantes obras em falta quanto ao conhecimento do passado de Coimbra - uma história geral da cidade e um museu de história da cidade e da Universidade.

Na verdade, apesar de Coimbra ser uma das cidades portuguesas mais estudadas e com maior bibliografia publicada, como o autor refere no prefácio deste livro, não existe, porém, uma obra geral sobre a sua história, que somente uma equipa dedicada de investigadores pode produzir. À atenção do departamento de história da Faculdade de Letras da UC!

Por outro lado, tendo Coimbra a notável história que tem, desde a época romana, tendo sido capital do novo reino de Portugal e sendo a sede, há quase cinco séculos, da mais antiga (e durante séculos, única) Universidade do País, por onde passou quase toda a intelligentsia nacional até bem dentro do século XX, não se compreende a ausência de um museu dedicado à história da cidade e da Universidade, reunindo o património museológico atualmente disperso. À atenção do município e da Universidade!

Pior do que não ter história, como sucede com tantas outras cidades, é Coimbra não valorizar devidamente a rica história que tem.

Adenda
Uma interessante curiosidade é que quase todos os escritores referidos no livro, com exceção de Silva Gaio, eram estudantes de Direito, que, pelos vistos, era o curso que, não havendo curso de letras nessa época na UC, era o mais propício à criação literária...

Adenda 2
Algumas pequenas precisões técnicas: a) o "administrador de concelho" não era um «órgão independente da Câmara [municipal]» (p. 23), sendo um magistrado governamental junto do concelho, semelhnate ao governador civil junto do distrito; b) na primitiva lei eleitoral da Carta Constitucional, os deputados eram eleitos indiretamente, em duas fases, em que as «assembleias de paróquia» (p. 46) elegiam os membros das assembleias eleitorais de província, que elegiam os deputados; e na época a que se refere o livro, os deputados eram diretamente eleitos em círculos eleitorais de um só deputado, estando o concelho de Coimbra divido em dois; c) nessa época, já não havia «foro académico próprio» (p. 59), como antigamente (que incluía o foro criminal e cível), dado que os foros judiciais privativos tinham sido extintos pela Carta Constitucional, pelo que a Universidade só conservava autonomia disciplinar, embora forte, pois as sanções aplicadas pelo Reitor podiam incluir a prisão no presídio académico. Aqui ficam estas notas como lembrança para a 2ª edição.