segunda-feira, 4 de maio de 2020

E depois da pandemia? (1): A crise económica

1. Quão profunda e duradoura pode vir a ser a crise económica decorrente da pandemia?
São ainda incertas as estimativas da possível queda do PIB, mas ninguém tem dúvidas de que vai ser de uma profundidade sem precedentes desde a Grande Depressão de há nove décadas. São menos pessimistas as previsões da retoma, havendo um relativo consenso em que ela se iniciará já fortemente no próximo ano, podendo o PIB de 2019 ser recuperado em dois ou três anos.
Penso que há razões para não ser tão otimista. 

2. Mesmo que haja um generoso programa de ajudas públicas à economia - que a UE não vai travar -, muitas empresas vão sair da crise sobreendividadas, o que limita a sua capacidade de investimento; como é tradicional em crises anteriores, os consumidores não vão retomar imediatamente a dinâmica de consumo (sobretudo de bens de consumo duradouro); o emprego vai demorar mais do que o PIB a recuperar, o que também afeta o consumo interno; o turismo vai demorar a reanimar, por causa do receio dos viajantes e da crise da transporte aéreo; as exportações vão ser duradouramente afetadas pela crise nos países importadores e pelo novo protecionismo em curso.
E o Estado, de novo constrangido por um enorme défice orçamental e um endividamento público record, vai ter pouco espaço de manobra para aumentar o gasto público, quer em despesa corrente quer em investimento, mesmo que não tenha de seguir uma política de consolidação orçamental dura (vulgo "austeridade").
Não vai ser tarefa fácil, portanto.

3. De positivo parece só haver a anotar dois fatores: (i) a baixa do preço do petróleo, que reduz a fatura energética das empresas e da economia em geral (mas com o downside de travar a aposta na mobilidade elétrica e na descarbonização da economia em geral) e (ii) o aumento do teletrabalho e da automação, que a crise forçou a crescer, o que pode poupar a fatura laboral das empresas (à custa, porém, do emprego).
Em suma, a não ser que a pandemia seja dominada antes do previsto, receio bem que não seja num par de anos que vamos superar o seu profundo impacto económico negativo.