sábado, 31 de janeiro de 2026

Memórias acidentais (29): A minha passagem pela revista "Vértice"


1. Não é sem alguma emoção que eu passo ocasionalmente por este portal da Rua Fernandes Tomás, em Coimbra (antiga Rua das Fangas, nome por que ainda é conhecida), pouco acima do Arco de Almedina, por onde eu entrava semanalmente, entre 1969 e 1973, para as reuniões da redação da revista Vértice, cuja sede ficava no 1º andar, incluindo a secretaria, a biblioteca e a sala de reuniões.  

Fundada em 1942 e subintitulada como "revista de cultura e arte", a Vértice foi o principal veículo de afirmação estética e doutrinária do neorrealismo, onde, nas duras condições da censura da ditadura, colaboraram todos os nomes do movimento (escritores, poetas, pintores, críticos literários, historiadores, etc.) e onde também se travaram algumas das suas polémicas político-doutrinárias internas, nomeadamente o célebre debate sobre "forma e conteúdo", em 1954, entre Álvaro Cunhal (sob o pseudónimo de "António Vale", pois se encontrava preso em Lisboa) e Mário Dionísio e Fernando Lopes-Graça, dois dos mais importantes autores do movimento, um como pensador e o outro como compositor.  

A Vértice deixou de se publicar em Coimbra em 1986. Pelo seu lugar na história intelectual nacional do século passado e por ter sido a última revista coimbrã com projeção nacional duradoura - o que faz dela um valioso elemento do património cultural da cidade -, julgo que a CMC bem podia pensar em assinalar este lugar com uma singela lápide.

2. Entrei na redação da Vértice na renovação da revista promovida por Joaquim Namorado - o seu principal animador nesssa época - a partir do final de 1969, na sequência da grande luta académica desse ano em Coimbra (iniciada em abril) e da agitação política gerada no campo da oposição ao "Estado Novo" pelo II Congresso Republicano em Aveiro (maio) e pelas pseudo-eleições para a Assembleia Nacional (outubro), a que a oposição concorreu em quase todo o País, aproveitando o breve alívio da censura e da repressão proporcionado pela designada "abertura marcelista", subsequente à substituição de Salazar por Marcelo Caetano na chefia do Governo, verificada no ano anterior.

Nessa renovação, junto com outros, entraram na redação (ou como colaboradores ativos) vários jovens assistentes da Faculdade de Direito, entre os quais me contava, a par de nomes como A. J. Avelãs Nunes, J. J. Gomes Canotilho, Aníbal Almeida, Jorge Leite, J. Teixeira Martins, que viriam a manter uma presença regular nas páginas da revista nos anos seguintes e quase todos destinados a seguir uma carreira académica bem-sucedida.

Essa renovação não rejuvenesceu somente o quadro de redatores e colaboradores da revista, tendo também provocado uma mudança notória no seu enfoque temático, que deixou de estar centrado na literatura e na arte, embora sem as abandonar, para passar a dedicar-se sobretudo à crítica social e política. O que não mudou foi obviamente a orientação doutrinária da revista, ainda que também aqui fosse notório o aparecimento de novas abordagens que refletiam a diversidade do marxismo nesses anos, tanto na Europa como nos Estados Unidos e na América Latina.

3. Apesar da estrita censura - que o marcelismo não aliviou e que, além dos cortes, nos obrigava a circunlóquios e rodeios textuais para a tentar enganar -, publiquei nesses anos várias dezenas de textos, de variada extensão e objeto, uns com o meu nome e outros com o pseudónimo de V. Tribuna Moreira, que podem ver-se listados na excelente obra de Carlos Santarém Andrade, Vértice, Índice de Autores: 1942-1986 (Coimbra, 1987), que é um impressionante repositório da vida intelectual portuguesa nas últimas décadas do dito "Estado Novo" e no período subsequente à revolução democrática, sob uma perspetiva doutrinária racionalista, humanista e de emancipaçao social, de que se reclamava o marxismo que perfilhávamos. 

Entre os vários textos que não consegui publicar, por terem sido integralmente cortados pela censura, contam-se dois extensos estudos de teoria marxista, que depois vieram a ser publicados numa revista da Faculdade de Direito, o Boletim de Ciências Económicas, dirigido pelo Professor Teixeira Ribeiro, que nos apoiava e incentivava, e logo depois em separata, que foram, respetivamente, O renovamento de Marx (1971) e Marcuse e a teoria da Revolução (1973), que são os dois primeiros textos desde então indicados no meu CV académico e que nunca enjeitei.

Não consigo imaginar a cara dos anónimos censores, quando terão visto publicados numa revista universitária financiada por dinheiros públicos, e que não estava sujeita a censura (certamente por a julgarem imune a "doutrinas subversivas"), os dois textos que eles meticulosamente tinham cortado...