sábado, 3 de janeiro de 2026

Stars & stripes (22): Banditismo internacional

1. Recorrendo à intervenção armada para capturar e raptar o Presidente da Venezuela, assumir o governo do País e mudar o regime, Washington pratica um ato de puro banditismo internacional

Sob Trump, os Estados Unidos, mandando o direito internacional e a soberania constitucional dos Estados às urtigas, regressam às práticas mais características e mais intoleráveis de agressão e de ingerência externa do imperialismo estadunidense ao longo dos tempos na América Latina e nas Caraíbas, como se fossem um quintal seu, de que pudesse dispor a seu bel-prazer. Decididamente, de cofundadores da "ordem internacional sujeita a regras" desde a II GG (que, aliás, não poucas vezes ignoraram), os Estados Unidos passaram a seus inimigos e assassinos declarados

2. Perante a gravidade e a arbitrariedade desta insólita intervenção norte-americana - cujas motivações económicas são óbvias -, custa a compreender a complacência, se não a "compreensão" implícita, da UE e dos seus Estados-membros em relação a Washington. 

O facto de a UE de muitos outros países não terem reconhecido o mandato presidencial de Maduro em Caracas não pode constituir luz verde para aceitar e muito menos para aplaudir a intervenção de Washington. Todos os Estados têm o direito a adotar e praticar o regime político que queiram (liberais ou iliberais, democráticos ou autocráticos), sem estarem sujeitos à imposição externa da democracia liberal (regime aliás minoritário por esse mundo fora), desde que não ameaçam a paz e a segurança internacional nem incorram na prática de crimes contra a humanidade a nível interno. Ao contrário de Netanyahu, que Washington e Bruxelas vergonhosamente apoiam no genocídio palestino, Maduro não está acusado de nenhum crime contra a humanidade... 

Neste ponto, a declaração do MNE portugês sobre a questão (perguntando a quem critica a intervenção, «se preferiam a continuação de Maduro») é de um cinismo político inaceitável.  Que se saiba, a política de "mudanças de regime" (regime change) impostas de fora não faz parte dos princípios da política externa da UE nem de Portugal.

Adenda
Uma leitora pergunta: «E a seguir, será a Gronelândia?» Sim, com a complacência internacional com que esta agressão foi recebida, todos os países em relação aos quais Trump tem queixas ou ambições económicas ou territoriais (Gronelândia, México, Cuba, Colômbia...) passam a ser alvos "legítimos". Entrámos num inquietante mundo novo, em que o poder substitui o direito (might is right), como há muito tempo não podíamos prever.

Adenda 2 
Outro leitor escreve: «Nunca foi tão necessário defender o direito internacional público e com ele os artigos 1.º e 2º da Carta das Nações Unidas! É nestes momentos de torpe violação do Direito que importa afirmar a sua importância e necessidade ». Concordo: tão grave como a agressão de Washington é o silêncio cúmplice dos países, a começar pelos da UE, que a deviam condenar, sem tergiversações, em nome do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, como o fez imediatamente o SG das Nações Unidas, António Guterres.
[Corrigido quanto à referência a António Guterres]