1. Algo de muito preocupante se passa no governo do SNS, quando um gestor hospitalar como Alexandre Lourenço, que colhe apreço e apoio generalizado e transpartidário pelo êxito da sua gestão à frente da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra - como se prova na notável resposta ao presente surto da gripe (relatada AQUI) -, não é reconduzido no cargo, sem qualquer justificação, salvo porventura a de não ter sido originariamente nomeado pelo Governo ora em funções.
Aquando da criação do diretor executivo do SNS em 2022 (que apoiei), julgava-se que, além de permitir aliviar o/a ministro/a da saúde da sua gestão operacional, libertando-o/a para a gestão política do sistema de saúde, o novo cargo, por definição mais técnico, também proporcionaria um recrutamento dos gestores das ULS menos sensível à habitual tentação de captura pelo partido de Governo em cada momento. Lamentavelmente, a substituição de gestores com excelentes provas dadas, como é o caso o presidente da ULS de Coimbra, mostra que o critério partidário na seleção ou afastamento de gestores hospitalares continua a prevalecer e a fazer estragos.
2. Sustento há muito que o principal "défice estrutural" do SNS, que justifica a sua ineficiência e os desperdícios que lhe são geralmente assinalados, tem a ver com a sua gestão, nomeadamente com: (i) o recrutamento politicamente discricionário dos gestores; (ii) a falta de avaliação da gestão, quanto aos resultados, ao cumprimento de metas e orçamentos e à organização dos serviços, para efeitos de renovação, ou não, dos cargos; (iii) a falta de avaliação de desempenho dos serviços e dos profissionais, para efeitos de verificação de assiduidade e de horário de trabalho e da sua produtividade; e (iv) o manifesto atraso na utilização de instrumentos informáticos, desde as bases de dados à IA.
Quando se verificam experiências bem-sucedidas de inovação na gestão, com resultados à vista, como no caso de Coimbra, e o Governo, em vez de as valorizar e tomar como exemplo, decide afastar quem as empreendeu, isso só pode compreender-se se houver um projeto assumido, embora não declarado, de deixar definhar o SNS, para assim abrir mais espaço à medicina privada, seja como concessionária da gestão das unidades de saúde públicas (as chamadas PPP), seja como concorrente no crescente mercado de serviços (e seguros) de saúde, em situação de vantagem, desde logo quanto à eficiência da gestão.
Uma coisa parece evidente: pelo caminho por que vai, o SNS sob gestão pública não tem salvação - e o Governo sabe disso e, pelos vistos, quer isso mesmo!