segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Eleições presidenciais 2026 (32): O candidato de Montenegro

1. Custa a compreender como é que o candidato Marques Mendes fez entrar Luís Montenegro, o SG do seu partido, mas também PM, na abertura da sua campanha eleitoral, pois é evidente que isso exibe explicitamente o patrocínio oficial da PSD e do Governo ao candidato, abrindo espaço para a crítica da partidarização e governamentalização da sua candidatura.

Além de contrariar a filosofia constitucional da separação entre eleições presidenciais e partidos políticos e da magistratura presidencial como "poder neutro", acima da dialética entre Governo e oposição (como mostrei no meu recente livro sobre o Presidente da República), a explícita "benção" partidária e governamental da candidatura na própria campanha eleitoral apenas sublinha o risco, apontado pelos adversários, de concentração do poder político nas mãos do PSD, e em Montenegro, caso Marques Mendes fosse eleito.

2. Pior ainda foi o alegado precedente que o candidato invocou, segundo o qual, em 1980, também Sá Carneiro - que então acumulava igualmente a condição de SG do PSD e de PM -, tinha participado ativamente na campanha do seu candidato presidencial, o general Soares Carneiro. 

Marques Mende esquece, porém, duas coisas elementares: 1º - que nessa altura a Constituição ainda considerava que o Governo era politicamente responsável perante o PR, o que dava a este um poder de tutela política sobre aquele, pelo que era conveniente ter em Belém um Presidente amigo; 2º - que esse apoio a Soares Carneiro se inscrevia no programa pessoal e político de Sá Carneiro de unificar os três órgãos do poder político sob a égide do PSD, segundo o lema «uma maioria [parlamentar] - um governo - um presidente» (como se pode recordar AQUI).

Como se sabe, essa aposta foi rotundamente perdida com a expressiva derrota de Soares Carneiro nas urnas, em dezembro de 1980. Creio bem que, hoje em dia, ressuscitar implicitamente um lema desses, sob a égide de Montenegro - que está longe de ter a "estrela" de Sá Carneiro -, é uma aposta ainda menos ganhadora do que em 1980 e só pode correr contra Marques Mendes. 

3. Este aparente passo em falso da campanha de Marques Mendes só faz algum sentido, se a sua ambição nesta disputa presidencial já se limita a tentar segurar o eleitorado do PSD (onde há mostras de fuga para o candidato liberal).

No entanto, além de estar longe de garantido, como é notório, trata-se de um objetivo muito pouco ambicioso para quem quer chegar a Belém...

[A rubrica originária foi substituída e o § 3. foi autonomizado]

Adenda
Um leitor, que se diz bem informado, comenta que se trata efetivamente de uma nova estratégia, que consiste em: 1º - fixar o voto do PSD na 1ª volta, de modo a assegurar a ida à 2ª volta, dada a fragmentação existente; 2º - ganhar a 2ª volta, seja contra Ventura (contando com os votos do centro e da esquerda), seja contra Seguro (contando com os votos da direita). A estratégia pode ser inteligente, mas pode não ser bem-sucedida, porque: 1º - parte importante do eleitorado do PSD (eleitores independentes) pode não alinhar nessa descarada partidarização da magistratura presidencial; 2º - na 2ª volta, os eleitores dos candidatos afastados na 1ª volta podem resistir a sufragar uma estratégia tão claramente oportunista. A instrumentalização política dos eleitores nem sempre resulta.

Adenda 2
As posteriores declarações do candidato (relatadas AQUI e AQUI), confirmam o novo enfoque na tentativa de fixação do voto da AD, contra a «dispersão e o desperdício de votos», incluindo o explícito alerta de que os eleitores da coligação governamental não podem dar por assente a sua ida à 2ª volta. E o mesmo se passa ao nível do partido, com a chamada geral dos presidentes de câmara do PSD à campanha. Resta saber se este afunilamento partidário da mensagem de Marques Mendes e a mobilização pública do partido em seu socorro não vão anular o efeito do apoio daquelas personalidades politicamente independetes que constam das listas de apoio ao candidato