1. Custa a compreender como é que o candidato Marques Mendes fez entrar Luís Montenegro, o SG do seu partido, mas também PM, na abertura da sua campanha eleitoral, pois é evidente que isso exibe explicitamente o patrocínio oficial da PSD e do Governo ao candidato, abrindo espaço para a crítica da partidarização e governamentalização da sua candidatura.
Além de contrariar a filosofia constitucional da separação entre eleições presidenciais e partidos políticos e da magistratura presidencial como "poder neutro", acima da dialética entre Governo e oposição (como mostrei no meu recente livro sobre o Presidente da República), a explícita "benção" partidária e governamental da candidatura na própria campanha eleitoral apenas sublinha o risco, apontado pelos adversários, de concentração do poder político nas mãos do PSD, e em Montenegro, caso Marques Mendes fosse eleito.
2. Pior ainda foi o alegado precedente que o candidato invocou, segundo o qual, em 1980, também Sá Carneiro - que então acumulava igualmente a condição de SG do PSD e de PM -, tinha participado ativamente na campanha do seu candidato presidencial, o general Soares Carneiro.
Marques Mende esquece, porém, duas coisas elementares: 1º - que nessa altura a Constituição ainda considerava que o Governo era politicamente responsável perante o PR, o que dava a este um poder de tutela política sobre aquele, pelo que era conveniente ter em Belém um Presidente amigo; 2º - que esse apoio a Soares Carneiro se inscrevia no programa pessoal e político de Sá Carneiro de unificar os três órgãos do poder político sob a égide do PSD, segundo o lema «uma maioria [parlamentar] - um governo - um presidente» (como se pode recordar AQUI).
Como se sabe, essa aposta foi rotundamente perdida com a expressiva derrota de Soares Carneiro nas urnas, em dezembro de 1980. Creio bem que, hoje em dia, ressuscitar implicitamente um lema desses, sob a égide de Montenegro - que está longe de ter a "estrela" de Sá Carneiro -, é uma aposta ainda menos ganhadora do que em 1980 e só pode correr contra Marques Mendes.
3. Este aparente passo em falso da campanha de Marques Mendes só faz algum sentido, se a sua ambição nesta disputa presidencial já se limita a tentar segurar o eleitorado do PSD (onde há mostras de fuga para o candidato liberal).
No entanto, além de estar longe de garantido, como é notório, trata-se de um objetivo muito pouco ambicioso para quem quer chegar a Belém...
[A rubrica originária foi substituída e o § 3. foi autonomizado]