Recordo a sua liderança parlamentar compartilhada com os seus vice-presidentes (Veiga de Oliveira e eu) e a discreta cumplicidade com que lidava com a minha ocasional heterodoxia, sobretudo quando se tratava de não apoiar os excessos soviéticos contra os dissidentes nessa época. Uma vez, quando o PS e a direita propuseram na AR um voto de protesto contra o exílio imposto a Sakharov (suponho que em 1980), propus a Brito o pedido de suspensão da sessão, a fim de discutirmos no grupo a posição a tomar quanto à moção, ao que ele acedeu imediatamente. Embora não se tenha manifestado explicitamente na reunião, era evidente que acompanhava a minha argumentação contra a medida, que — argumentava eu — nós nunca poderíamos pensar em adotar, se fôssemos Governo. E depois do inevitável nyet remoto de Cunhal a qualquer posição que não fosse o voto contra, puxou-me de lado, no regresso ao plenário, para me dizer que compreendia que eu não entrasse, para não ter de votar contra a minha consciência. Não tinha sido a primeira nem foi a última vez que isso sucedeu.
Embora não tivesse apoiado o meu processo de dissidência, na 2ª metade dos anos 80, acompanhou interessadamente as sucessivas tomadas de posição privadas e públicas do "grupo dos seis" pela "reorganização geral do Partido". Uma década depois, era ele mesmo que se via a braços com a condenação pela sua crítica da orientação e prática do Partido, vendo-se forçado ao afastamento. Tinha chegado também o seu momento de ajuste de contas pessoal com o «marxismo-leninismo»...