Blogue fundado em 22 de Novembro de 2003 por Ana Gomes, Jorge Wemans, Luís Filipe Borges, Luís Nazaré, Luís Osório, Maria Manuel Leitão Marques, Vicente Jorge Silva e Vital Moreira
terça-feira, 4 de julho de 2017
Corporativismo (3): Ordem ou sindicato oficial?
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Vital Moreira
A Ordem dos Enfermeiros já tinha ultrapassado as marcas da legalidade ao apoiar ativamente a greve dos "enfermeiros especialistas", o que não cabe nas suas atribuições. Mas a acusação desta entrevista do presidente da Associação dos Administradores Hospitalares, hoje no Público, segundo a qual houve elementos da Ordem a "assumir piquetes de greve" e a ameaçar com "procedimentos internos da Ordem a quem não fizesse greve", é de uma gravidade inaudita na tentação das ordens profissionais para se intrometerem nos conflitos profissionais e para assumirem funções sindicais, que não têm nem podem ter.
A gravidade desta acusação exige que o Ministro da Saúde requeira imediatamente à OE que investigue e proceda disciplinarmente contra os autores deste abuso qualificado, sob pena de recurso aos poderes de tutela de que o Governo legalmente dispõe e, em última instância, de ameaça de... extinção da Ordem. O Estado não pode persistir na sua atitude de complacência em relação aos reiterados e despudorados abusos de poder das ordens profissionais.
Adenda
Entre as imponderadas tomadas de posição públicas da bastonária da Ordem dos Enfermeiros registe-se uma de março passado, em que se rebela contra o "boicote" de que a OE estaria a ser objeto, para a impedir de participar na negociação das condições laborais dos enfermeiros, a que supostamente teria direito. Ora, não só não tem direito nenhum como nem sequer pode intervir nem tomar posição sobre tais negociações. Por definição e por impedimento constitucional e legal, as relações laborais estão fora do mandato das ordens profissionais.
Este país não tem emenda (10)
Publicado por
Vital Moreira
Da interessante entrevista do ex-presidente da CP, Manuel Queiró (cujo mandato há que elogiar), ao semanário Expresso, colhe-se a informação de que existe fraude maciça nos comboios urbanos (Lisboa e Porto) e que o Fisco tem por cobrar cerca de 12 milhões de euros de coimas aplicadas.
Já sabíamos que o resto do país subsidia os transportes coletivos de Lisboa e do Porto. Ficamos agora a saber que também subsidiamos os commuter trains das duas cidades! De resto, não se sabe que mais lamentar nesta história: se a falta de civismo dos que fogem ao pagamento das suas passagens, se a falta de meios para limitar a fraude, se a negligência dos serviços tributários em cobrar as receitas que não sejam as próprias. Seja como for, a fraude campeia e mesmo quando "apanhada", fica impune. As finanças da CP pagam a incúria.
Decididamente, este país não tem emenda!
Já sabíamos que o resto do país subsidia os transportes coletivos de Lisboa e do Porto. Ficamos agora a saber que também subsidiamos os commuter trains das duas cidades! De resto, não se sabe que mais lamentar nesta história: se a falta de civismo dos que fogem ao pagamento das suas passagens, se a falta de meios para limitar a fraude, se a negligência dos serviços tributários em cobrar as receitas que não sejam as próprias. Seja como for, a fraude campeia e mesmo quando "apanhada", fica impune. As finanças da CP pagam a incúria.
Decididamente, este país não tem emenda!
sábado, 1 de julho de 2017
Era o que faltava!
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Vital Moreira
Não é possível negar nem relativizar, como alguns responsáveis políticos tentaram fazer, que o furto de armamento do quartel de Tancos constitui um profundo golpe na imagem de segurança das Forças Armadas e do próprio país.
Importa por isso apurar e efetivar sem demora e sem complacência as devidas responsabilidades disciplinares, criminais e políticas do caso e tomar as medidas que se impõem para tornar casos destes irrepetíveis. E obviamente recuperar o material desaparecido, antes que faça estragos maiores.
Adenda
Para agravar as coisas, a lista do material desaparecido foi publicado por um jornal espanhol, obviamente em consequência de uma fuga de informação de dentro do processo. Nao há mal que venha só. Portugal presta-se ao ridículo.
Adenda (4/7)
Este artigo do El País ridiculariza o caso. Não é para menos, infelizmente.
Importa por isso apurar e efetivar sem demora e sem complacência as devidas responsabilidades disciplinares, criminais e políticas do caso e tomar as medidas que se impõem para tornar casos destes irrepetíveis. E obviamente recuperar o material desaparecido, antes que faça estragos maiores.
Adenda
Para agravar as coisas, a lista do material desaparecido foi publicado por um jornal espanhol, obviamente em consequência de uma fuga de informação de dentro do processo. Nao há mal que venha só. Portugal presta-se ao ridículo.
Adenda (4/7)
Este artigo do El País ridiculariza o caso. Não é para menos, infelizmente.
quinta-feira, 29 de junho de 2017
Portucaliptal (21)
Publicado por
Vital Moreira
É bom saber que não vai haver mais expansão do eucaliptal. Há mais de vinte anos que clamo por isso!
Todavia, entretanto, como aqui se assinalou, o eucalipto já é o campeão da floresta no país, Portugal já é campeão mundial do eucalipto e só no último ano foram plantados mais de três milhões de eucaliptos, enquanto o Governo tardava em adotar a sua reforma florestal.
Além disso, a questão do eucalipto não é somente a sua expansão em termos absolutos. É também a eucaliptização em monocultura extensiva, que degrada a paisagem, empobrece a diversidade biológica e favorece a propagação dos fogos florestais.
Pelos vistos, neste país tudo é reversível (desde as "conquistas da revolução" às reformas de todos os governos), salvo o império do eucalipto e a submissão do país aos interesses da celulose, apajeada por todos os governos.
Todavia, entretanto, como aqui se assinalou, o eucalipto já é o campeão da floresta no país, Portugal já é campeão mundial do eucalipto e só no último ano foram plantados mais de três milhões de eucaliptos, enquanto o Governo tardava em adotar a sua reforma florestal.
Além disso, a questão do eucalipto não é somente a sua expansão em termos absolutos. É também a eucaliptização em monocultura extensiva, que degrada a paisagem, empobrece a diversidade biológica e favorece a propagação dos fogos florestais.
Pelos vistos, neste país tudo é reversível (desde as "conquistas da revolução" às reformas de todos os governos), salvo o império do eucalipto e a submissão do país aos interesses da celulose, apajeada por todos os governos.
quarta-feira, 28 de junho de 2017
Europa+ (3)
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Vital Moreira
A coima record de quase 2 500 milhões de euros aplicada à Google pela Comissão Europeia, por abuso de posição dominante, confirma dois traços marcantes da UE:
- que a economia de mercado não significa somente assegurar a liberdade de empresa contra as ingerências arbitrárias do Estado, mas também contra as conspirações e os abusos dos poderes económicos privados: é esta a função primeira da defesa da concorrência, segundo a doutrina que inspirou a "constituição económica" da União, o "ordoliberalismo";
- que somente a União, com a sua enorme força económica e política, tem a autoridade para punir um megapoder privado, como a Google; nenhuma autoridade da concorrência nacional teria os recursos de investigação e a autoridade para o fazer, sem receio de retaliação da multinacional.
Decididamente, há problemas que não têm solução no quadro das fronteiras e do poder político nacional. É isso que torna a UE incontornável. Se não existisse ainda, era preciso inventá-la, de novo.
Contra poderes privados globais, só um poder público de alcance global.
Adenda
Afinal, a esquerda antieuropeísta deveria tornar-se convicta apoiante da UE. É a mais eficaz autoridade antimonopolista no mundo!
terça-feira, 27 de junho de 2017
A conversão reformista
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Vital Moreira
1. A principal surpresa da atual fórmula governativa - cuja improbabilidade inicial gerou a alcunha de "Geringonça" - está no facto de os dois partidos da extrema-esquerda parlamentar (o PCP e o BE), até aí assumidamente "partidos de protesto" e antissistema, se terem rendido ao papel de pajens do Governo PS, a troco de umas centenas de milhões de euros para as suas cosntituencies eleitorais e de alguns lugares nas altas instituições do Estado (como o Tribunal Constitucional e o Conselho de Estado), metendo na gaveta os seus princípios doutrinários mais identitários, nomeadamente a condenação do capitalismo, o desprezo da democracia liberal, a repulsa pela globalização, a rejeição da integração europeia em geral e do euro em particular, a hostilidade à disciplina orçamental e a defesa das reestruturação da dívida pública.
Essas "vacas sagradas" ainda figuram na sua retórica política. Mas já são só "lip service" para militante ouvir. Tal como tantos a quem condenaram no passado, os revolucionários viraram reformistas soft.
Expedita conversão e barata feira!
2. Desde o final do séc. XIX, a extrema-esquerda sempre denunciou sem contemplações as cedências da social-democracia ao "reformismo" e a sua conversão à "democracia burguesa" e ao capitalismo. Só que desde o congresso de Gotha (1875), já criticado por Marx, até ao congresso de Bad-Godesberg (1969), que abandonou definitivamente a perspetiva marxista, revolucionária e anticapitalista, essa lenta transição da social-democracia europeia, que vai de Berstein a Willi Brandt, demorou quase um século e foi "transacionada" pela construção do Estado social, a grande conquista política do sec. XX, baseada nos direitos dos trabalhadores e nos direitos sociais.
Em comparação, a conversão da extrema-esquerda lusa ao "reformismo social" demorou um breve momento e foi feita a troco de algumas "prendas" orçamentais e políticas avulsas. Lénine e Rosa Luxemburgo não devem acreditar no que veem por estas bandas.
3. Mesmo que a Geringonça não tenha continuidade - e para já nada indica que a fórmula esteja esgotada -, as coisas não voltarão a ser como eram no panorama político em Portugal.
Uma vez perdida a "virgindade" na partilha do poder e na barganha governativa, os dois partidos da esquerda da esquerda não podem mais voltar às posições anteriores de radicalismo protestário, sob pena de descrédito. Para todos os efeitos passaram a fazer parte do "arco do poder" do sistema político que até agora tinham combatido.
Afinal, a inédita experiência da Geringonça pode redundar numa inestimável contribuição para a renovação e inclusividade do atual sistema político! Ainda bem!
sábado, 24 de junho de 2017
Assassínio da paisagem
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Vital Moreira
1. Entre as piores malfeitorias do Governo PSD-CDS conta-se a meu ver a revogação do Decreto-lei de 1998, aprovado no I Governo de António Guterres, que proibia a publicidade junto das estradas, fora das povoações, que preservou a nossa paisagem da invasão de painéis publicitários, especialmente ao longo das autoestradas.
Ora, mercê da forte influência política da indústria da publicidade, o novo estatuto das estradas de 2015 revogou esse diploma e substituiu-o pela liberdade de publicidade visível das estradas, com apenas algumas limitações genéricas. Apesar de dependente de licenciamento dos municípios (precedido de parecer da administração rodoviária nacional), estes vão rapidamente rentabilizar essa nova competência por razões financeiras, até porque deixou de haver proibição legal.
2. Além do risco de distração dos condutores, a liberalização da publicidade virada para das rodovias vai ter um impacto paisagístico profundamente negativo, dada a grande dimensão dos painéis publicitários, como sabemos de exemplos estrangeiros (na imagem o exemplo brasileiro). Os primeiros efeitos nocivos entre nós já começam a ver-se junto de algumas autoestradas. Nem uma floresta eucaliptos merece ser sacrificada por uma floresta de anúncios junto às estradas.
Antes que se consume este iminente desastre paisagístico, urge revogar essa revogação e repristinar o virtuoso diploma de 1998. Normalmente tão empenhada na reversão das medidas do Governo anterior, a maioria parlamentar de apoio ao Governo, onde se contam partidos ecologistas, deve reverter esta situação quanto antes. Antes que os danos sejam irreversíveis.
Ora, mercê da forte influência política da indústria da publicidade, o novo estatuto das estradas de 2015 revogou esse diploma e substituiu-o pela liberdade de publicidade visível das estradas, com apenas algumas limitações genéricas. Apesar de dependente de licenciamento dos municípios (precedido de parecer da administração rodoviária nacional), estes vão rapidamente rentabilizar essa nova competência por razões financeiras, até porque deixou de haver proibição legal.
2. Além do risco de distração dos condutores, a liberalização da publicidade virada para das rodovias vai ter um impacto paisagístico profundamente negativo, dada a grande dimensão dos painéis publicitários, como sabemos de exemplos estrangeiros (na imagem o exemplo brasileiro). Os primeiros efeitos nocivos entre nós já começam a ver-se junto de algumas autoestradas. Nem uma floresta eucaliptos merece ser sacrificada por uma floresta de anúncios junto às estradas.
Antes que se consume este iminente desastre paisagístico, urge revogar essa revogação e repristinar o virtuoso diploma de 1998. Normalmente tão empenhada na reversão das medidas do Governo anterior, a maioria parlamentar de apoio ao Governo, onde se contam partidos ecologistas, deve reverter esta situação quanto antes. Antes que os danos sejam irreversíveis.
Portucaliptal (20) - Era mesmo o que faltava neste momento!
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Vital Moreira
Confirma-se o financiamento público do eucaliptal (já anteriormente referido aqui).
Então, quando estamos a pagar da maneira mais dura o preço do excesso de eucaliptos, incluindo com vidas humanas, vamos agora subsidiar a sua plantação com os nossos impostos?! Era mesmo o que faltava neste momento! Então esse dinheiro não seria muito mais bem empregue no apoio à plantação de carvalhos, castanheiros e sobreiros (e outras espécies autóctones), que são bem menos rentáveis do que o eucalipto e por isso precisam de mais apoio?
Não dá mesmo para entender!
Então, quando estamos a pagar da maneira mais dura o preço do excesso de eucaliptos, incluindo com vidas humanas, vamos agora subsidiar a sua plantação com os nossos impostos?! Era mesmo o que faltava neste momento! Então esse dinheiro não seria muito mais bem empregue no apoio à plantação de carvalhos, castanheiros e sobreiros (e outras espécies autóctones), que são bem menos rentáveis do que o eucalipto e por isso precisam de mais apoio?
Não dá mesmo para entender!
sexta-feira, 23 de junho de 2017
Na próxima semana vou estar aqui
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Vital Moreira
Em São Paulo, na 6ª edição do Curso de Direitos Fundamentais, uma parceria do IBCCRIM (São Paulo) e do Centro de Direitos Humanos (FDUC, Coimbra).
Ai, a dívida! (12)
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Vital Moreira
1. Sabendo-se que o primeiro trimestre é sempre mais ingrato para as contas públicas, o défice hoje anunciado pelo INE, bem acima da meta orçamental anual de 1,5%, não é muito preocupante, deixando entender que ela pode ser atingido no final do ano, até com alguma folga.
A questão que se coloca é a de saber se, com a economia a crescer muito acima do ritmo estimado no orçamento (que era de 1,8%), a referida meta do défice não deveria ser também revista em baixa, dado que um crescimento económico mais elevado traz mais receita pública (impostos, contribuições e taxas, bem como melhores resultados das empresas públicas) e menos despesa, tanto com prestações sociais (desemprego e proteção social) como com juros da divida pública (dada a baixa da taxa nos mercados internacionais).
2. Nestes condições económicas e orçamentais excecionalmente favoráveis, sem paralelo desde há vinte anos, há obrigação de ser mais ambicioso na redução do défice orçamental, não apenas para cumprir a obrigação de redução do "défice estrutural" (em que mantemos uma situação de "défice excessivo"), mas também para assim reduzir mais rapidamente o rácio da dívida, desencadeando um círculo virtuoso na relação entre descida da dívida, descida dos juros e descida do défice orçamental.
Se há um lição a reter de há duas décadas é a de que os ciclos económicos favoráveis não podem ser "esturrados" orçamentalmente em irresponsáveis aumentos estruturais da despesa pública (em 2002 já estávamos em défice excessivo!) mas sim para criar folga orçamental para quando o período das "vacas gordas" chegar ao fim (como sempre acontece, tarde ou cedo).
A questão que se coloca é a de saber se, com a economia a crescer muito acima do ritmo estimado no orçamento (que era de 1,8%), a referida meta do défice não deveria ser também revista em baixa, dado que um crescimento económico mais elevado traz mais receita pública (impostos, contribuições e taxas, bem como melhores resultados das empresas públicas) e menos despesa, tanto com prestações sociais (desemprego e proteção social) como com juros da divida pública (dada a baixa da taxa nos mercados internacionais).
2. Nestes condições económicas e orçamentais excecionalmente favoráveis, sem paralelo desde há vinte anos, há obrigação de ser mais ambicioso na redução do défice orçamental, não apenas para cumprir a obrigação de redução do "défice estrutural" (em que mantemos uma situação de "défice excessivo"), mas também para assim reduzir mais rapidamente o rácio da dívida, desencadeando um círculo virtuoso na relação entre descida da dívida, descida dos juros e descida do défice orçamental.
Se há um lição a reter de há duas décadas é a de que os ciclos económicos favoráveis não podem ser "esturrados" orçamentalmente em irresponsáveis aumentos estruturais da despesa pública (em 2002 já estávamos em défice excessivo!) mas sim para criar folga orçamental para quando o período das "vacas gordas" chegar ao fim (como sempre acontece, tarde ou cedo).
Falsas taxas
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Vital Moreira
1. Segundo esta notícia, já com algum tempo, o Provedor de Justiça considera inconstitucional a taxa de proteção civil do município de Lisboa.
E considera bem, a meu ver. Por definição, as taxas são tributos bilaterais, que supõem uma ligação individual específica do facto gerador da taxa com quem é chamado a pagá-la. Só há que pagar taxas por serviços ou encargos individualmente divisíveis. Uma "taxa" universal não é uma taxa. Ora, a referida pseudotaxa é cobrada a todos os munícipes, independentemente de qualquer ocorrência de que resulte uma prestação individual do serviço de proteção civil. Uma verdadeira taxa implica que só quem a paga tem acesso a algo que sem ela não terá.
A simples existência do serviço de proteção civil constitui um típico "bem coletivo", que beneficia toda a gente por igual e de que ninguém poder ser excluído, por não pagar. Por conseguinte, uma taxa de proteção civil só é concebível para os casos em que alguém recorra ao respetivo serviço municipal, por exemplo, em caso de incêndio ou inundação doméstica, ou situação semelhante.
Uma "taxa" municipal universal pelo serviço de proteção civil faz tão pouco sentido como uma taxa municipal pelo serviço de polícia municipal ou pelo serviço de iluminação pública, ou, já agora, uma taxa nacional pelo serviço de defesa!
2. Que importância é que isso tem? Muita!
Seguindo o exemplo de Lisboa, outros municípios criaram a mesma pseudotaxa.
Ora, o municípios podem legalmente criar taxas como contrapartida de serviços municipais, por exemplo, serviços de urbanismo, de estacionamento, de atividades dependentes de autorização municipal, etc. Mas não podem criar impostos (que a Constituição reserva à lei) nem contribuições parafiscais (poder que a lei não lhes atribui).
As pseudotaxas constituem uma violação qualificada de um princípio essencial do constitucionalismo democrático, que é o princípio da reserva parlamentar em matéria fiscal (no taxation without representation). Mesmo quando afetos aos municípios, os impostos só podem ser criados por lei.
Já basta de substituir verdadeiros impostos (ou contribuições parafiscais) por taxas fictícias.
Adenda
Um leitor observa que essa taxa está prevista na lei-quadro das taxas municipais. Mas nenhuma lei pode criar livremente taxas onde elas não sejam constitucionalmente admissíveis. A distinção constitucional entre impostos, contribuições parafiscais e taxas não pode ser esvaziada pela lei. De resto, a norma em causa pode ser interpretada em conformidade com a Constituição, com o sentido que sugeri no texto.
quarta-feira, 21 de junho de 2017
Justiça e Efetivação dos Direitos Humanos
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Vital Moreira
Congresso em Coimbra, 11-13 de outubro, uma coorganização luso-brasileira. Informações e inscrições no sítio da organização.
Portucaliptal (19) - Portugal, líder mundial do eucalipto
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Vital Moreira
1. Houve quem se apressasse a apontar responsabilidades políticas, pedindo a cabeça da Ministra da Administração Interna, que superintende na proteção civil.
É fácil selecionar os bodes expiatórios mais à mão, mas a precipitação e a miopia são más conselheiras. É obviamente importante saber quanto antes se houve falha na previsão e prevenção do desastre e se se poderia ter evitado a explosão da pólvora e prevenido o desastre. É, todavia, ainda mais importante saber porque é que as matas portuguesas SÃO barris de pólvora.
Creio que responsabilidade é mais duradoura e mais diversificada, cabendo principalmente aos sucessivos governos que foram alimentado e apoiando a fileira industrial da celulose e deixando transformar o País num imenso e desordenado eucaliptal. Como mostra a figura junta, Portugal é o 5º país no ranking mundial do eucalipto (acima da Austrália!), mas é líder quando se considera a dimensão do território.
Líder nos eucaliptos e líder nos fogos florestais, pois claro!
2. Tem havido uma manifesta falta de vontade política para enfrentar os interesses dos produtores florestais e da indústria de celulose, que deveriam suportar os custos do reordenamento fundiário (emparcelamento ou gestão comum do minifúndio), da limpeza das matas e especialmente do reordenamanto e da diversificação florestal, incluindo a reversão da invasão do eucalipto.
Há muita gente que continua a pensar que as plantações florestais, e em especial o eucalipto, são uma espécie de "petróleo verde", que só tem de ser extraído e que importa acarinhar e, mesmo, subsidiar a troco de nada (o setor tem recebido centenas de milhões de subsídios públicos...).
Pagamos quatro vezes as "rendas" da fileira da celulose: (i) subsídios e outros apoios; (ii) danos ambientais (solos, recursos hídricos, paisagem e diversidade biológica); (iii) custos do sistema de prevenção e combate a incêndios; e (iv) perda de vidas humanas.
A FLORESTA QUE TEMOS FICA DEMASIADO CARA AO PAÍS!
Enquanto os governos continuarem a cortejar a indústria de celulose e a namorar a CAP, pautando a política florestal pelos interesses comuns de ambos, os interesses de poucos continuarão a prevalecer sobre os interesses de todos. É essa captura do Estado que tem de ser revertida!
Adenda
Em janeiro do ano passado, o Governo anunciava ir cumprir o seu compromisso de revogar a lei de liberalização do eucalipto "em três semanas". Passado um ano e meio, esse compromisso continua por cumprir e vários diplomas da nova reforma florestal arrastam os pés na AR. O lobby da celulose rejubila, agradece a folga e aproveita para eucaliptizar a toda a velocidade: só no passado inverno foram plantados mais de três milhões de eucaliptos e o Governo decidiu subsidiar a sua plantação com 9 milhões de euros. Decididamente, este país não tem emenda!
terça-feira, 20 de junho de 2017
Muito para fazer
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Vital Moreira
Sem surpresa, Portugal mantém um modesto 39º lugar, muito longe do pelotão da frente! Muito a fazer, portanto, quanto à eficiência empresarial e governativa e quanto ao desempenho económico em geral!
O atual período de robusto crescimento económico não deve criar ilusões a esse respeito. Se queremos elevar sustentadamente os rendimentos, os níveis de bem-estar e de qualidade de vida e o Estado social, temos de fazer melhor.
Portucaliptal (18) - "Little Australia"
Publicado por
Vital Moreira
Pedrógão Grande fica situada na tradicionalmente designada "zona do pinhal" no centro do País e antes da mais recente reordenação administrativa do território (2010) a respetiva comunidade intermunicipal (CIM) chamava-se oficialmente Pinhal Interior Norte (na imagem), situada entre a CIM do Pinhal Litoral e a do Pinhal Interior Sul.
Em boa hora a reforma das CIMs abandonou essas designações de referência florestal, pois de outro modo teriam de mudar o nome de Pinhal para Eucaliptal, visto que nessas sub-regiões, como em todo o país aliás, o pinhal está em vias de ser superado pelo eucalipto. Também se poderia designar por Little Australia, pois a densidade do eucaliptal supera a da pátria originária do eucalipto.
Decididamente, o eucalipto não está a mudar somente a nossa secular história florestal mas também a própria compreensão da geografia nacional.
segunda-feira, 19 de junho de 2017
Portucaliptal (17) - "Killer forest"
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Vital Moreira
A minha expressão "floresta assassina", que usei neste post, foi utilizada para título desta peça do jornal eletrónico Politico sobre o eucalipto em Portugal, que vale a pena ler.
Portucaliptal (16) - Portugal à frente!
Publicado por
Vital Moreira
Não são as condições climáticas, que se agravaram para todos os países. Também não é o abandono e envelhecimento da população rural, que é igualmente comum. Tampouco é a eficácia dos meios de combate aos incêndios, onde Portugal tem investido maciçamente. Qual é então a diferença? É obviamente a floresta! Essa divergência coincide com a invasão selvagem do eucalipto em Portugal, transformando o país num imenso eucaliptal industrial, sem paralelo em nenhum outro pais europeu. Já cheguei a escrever que se a Toscana ficasse situada em Portugal já estava coberta de eucaliptos.
Por isso, a "floresta assassina" a que me referi em post anterior tem um nome próprio - o eucaliptal assassino!
Adenda (20/6)
O Público de hoje traz um artigo de João Camargo ("Tirar a Floresta das Mãos do Eucalipto") que defende o mesmo argumento da ligação entre o aumento dos incêndios florestas e a invasão do eucalipto nas últimas décadas. Vale a pena ler.
Gostaria de ter escrito isto (19)
Publicado por
Vital Moreira
"Os imbecis" (ou os espectadores de incêndios), por Anselmo Crespo, no Diário de Notícias.
O país pode sair do défice orçamental excessivo e até, mais tarde, do crónico défice de competitividade e de desempenho económico. Mas há um défice que não vamos superar num futuro previsível, o da educação e da responsabilidade cívica.
O país pode sair do défice orçamental excessivo e até, mais tarde, do crónico défice de competitividade e de desempenho económico. Mas há um défice que não vamos superar num futuro previsível, o da educação e da responsabilidade cívica.
domingo, 18 de junho de 2017
Portucaliptal (15) - Floresta assassina
Publicado por
Vital Moreira
1. Condições climáticas propícias aos fogos florestais sempre tivemos e teremos cada vez mais, à medida que as alterações climáticas se acentuarem. Mas os fogos florestais dependem essencialmente do combustível, ou seja, do tipo de floresta que temos e do ordenamento florestal que estabelecemos.
Infelizmente em Portugal, nas últimas décadas escolhemos deixar invadir o país por eucaliptos, sem qualquer ordenamento. Enormes áreas, mesmo nas serranias de difícil acesso, estão ocupadas pelo monocultura extensiva do eucalipto, pasto privilegiado para os fogos florestais.
O trágico incêndio florestal de ontem em Pedrógão Grande - uma dessas manchas de floresta contínua e de quase monocultura do eucalipto -, que reclamou várias dezenas de vidas, muitas delas apanhadas de surpresa dentro de automóveis em estradas no meio de pinheirais e eucaliptais, transformadas em fornos crematórios, testemunha o risco em que levianamente incorremos, em aras aos interesse da fileira da celulose.
2. Não basta agora chorar os mortos e lamentar as "condições climáticas atípicas", que podem repetir-se no futuro.
Além de responsabilizar os proprietários pela limpeza das suas matas e pela abertura e manutenção de caminhos e aceiros, bem como das margens de segurança em relação a habitações e vias de comunicação, é preciso encarar de vez o paiol de pólvora representada pela floresta que escolhemos ter. Se os interesses da celulose e o poder do seu lobby impedem a reversão da área eucaliptizada - uma nova teoria perversa dos "direitos adquiridos" e da "proteção de confiança" -, ao menos que se reduzam os perigos da monocultura extensiva, obrigando a criar clareiras corta-fogo que sirvam de barreira à propagação dos fogos e, sobretudo, a intercalar as plantações florestais de pinheiro bravo e de eucalipto com faixas de espécies menos vulneráveis aos fogos, como os sobreiros e os carvalhos (como várias vezes aqui defendi nesta longa série de textos sobre o tema).
Se o terrível incêndio de ontem deixa muitas interrogações no ar sobre a capacidade existente de previsão e prevenção de desastres destes, a sua repetição seria imperdoável. É preciso convencermo-nos de que deixámos criar uma floresta assassina.
Privatizações
Publicado por
Vital Moreira
Há um pequeno senão neste cálculo demagógico de que os "lucros das empresas privatizadas pagavam metade do défice público". É que, tendo em conta o seu histórico, as ditas empresas não teriam dado os mesmos lucros (e algumas até dariam prejuízos) se não tivessem sido privatizadas! Isto sem entrar em conta com a enorme receita pública que a sua privatização representou - sem a qual défice e dívida teriam sido muito maiores do que foram - e os avultados impostos que os seus lucros geram, quer a título de IRC quer a título de IRS sobre os lucros distribuídos aos seus acionistas...
Mais importante é saber se as vantagens económicas imediatas justificam todas as privatizações efetuadas (na imagem as privatizações do Governo PSD/CDS), como, por exemplo, as da ANA e da REN, que exploram "monopólios naturais", que são os aeroportos e as redes de gás e de eletricidade, infraestruturas de serviços de valor económico estratégico essencial, cujo controlo passou para empresas estrangeiras e que, no caso da REN, foi parar às mãos a uma empresa estatal chinesa! Suponho que caso único na UE.
[revisto]
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