quarta-feira, 9 de abril de 2008

Armas nas escolas - pois se circulam por todo o país!...

As declarações do Procurador Geral da República sobre o aumento dos casos de armas nas escolas são alarmantes. E é tentador - no meio de tanta exposição sobre falhanços diversos do sistema educativo - ver este fenómeno como apenas mais um aspecto da 'crise da escola'.
Mas a proliferação de armas ligeiras e a sua aparente acessibilidade reflecte antes de mais nada uma falha de governação – de sucessivos governos portugueses.
Um dos papéis principais (talvez o principal) de um Estado moderno é o de manter o monopólio da violência, devidamente enquadrado e legitimado pelas leis da República.
A presença das armas nas escolas não é culpa dos professores. Não é culpa da Ministra da Educação. Não é, certamente, culpa das crianças.
É culpa da sociedade e das autoridades que desvalorizam as consequências de cada vez circularem mais armas em Portugal e por Portugal.
É resultado de políticas ineficazes de combate ao tráfico de armas, incluindo a falta de recursos ao dispor da policia criminal, a rivalidade ou sobreposição de competências fomentada entre forças policiais, a inacção ou a desinvestimento na intervenção judicial. E da falta de consciência geral da localização estratégica de Portugal na rota do tráfico de armas e de todo o tipo de produtos ilegais e/ou perigosos.
Também aqui precisamos de mais Europa, porque só num contexto de estreita colaboração entre forças policiais europeias se pode aspirar realisticamente a eliminar (ou pelo menos mitigar) um cancro social que não conhece fronteiras. Declare-se guerra aberta à posse e tráfico de armas em Portugal e na Europa!

Crianças guineenses escravizadas no Senegal


Muito importante a reportagem de Ana Dias Cordeiro, no PÚBLICO, de 31.03.2008, sobre a exploração de milhares de crianças, entregues pelos pais para estudar o Corão no Senegal, que acabam a pedir nas ruas de Dacar, para enriquecer escroques que se intitulam marabouts (mestres corânicos).
Como denuncia a reportagem, esta tradição, a pretexto da educação religiosa, está a dar cobertura a redes de tráfico de crianças vindas do Mali, da Guiné-Conacri, da Gâmbia e, sobretudo, da Guiné-Bissau. A pobreza generalizada evidentemente incentiva os pais de familias muçulmanas a enviar os filhos para os centros de estudos corânicos.
Estas crianças vivem em condições deploráveis, sem acesso a cuidados de saúde e escolarização, geralmente maltratadas, espancadas e instrumentalizadas, hoje para pedir esmola, amanhã sabe-se lá para quê...
Quem explora ou colabora com estas redes deve ser preso e julgado como criminoso. Os pais devem ser alertados e dissuadidos de continuar a entregar crianças a tais redes.
Portugal e a União Europeia, como doadores e parceiros do Senegal, da Guiné-Bissau e de outros países de onde provêem as crianças, designadamente no quadro do Acordo ACP-UE, têm obrigação de instigar e ajudar as respectivas autoridades a tomar medidas para rapidamente levar à justiça os criminosos, desarticular as suas redes e travar esta forma de moderna escravatura infantil.

Encorajar a adopção de crianças


O Ministério da Justiça fez bem.
Em fazer rapidamente marcha atrás. No inacreditável projecto de fazer os processos de adopção deixarem de beneficiar da isenção de custas judiciais.
Sem hesitar em deixar “descalços” os incautos membros do governo que, zelosamente, se afoitaram a dar a cara na defesa de tão indefensável projecto...
Era incompreensível que num país que conta entre 12 a 15 mil menores institucionalizados (os números variam consoantes as fontes, mas são, em qualquer dos casos, demasiado elevados, representando um dos mais altos índices relativos a nível da UE) se introduzissem medidas tendentes a dificultar ainda mais os processos de adopção, por norma já penosamente morosos e complicados.
Era uma medida injusta: desencorajava famílias de médios ou baixos rendimentos, que se deveriam antes estimular a adoptar crianças. E, sobretudo, prejudicava o próprios interesse das crianças.
Era também uma medida contra os interesses do Estado: cada criança não adoptada fica evidentemente, a cargo e sob protecção do Estado. Nem numa óptica mesquinhamente economicista esta medida era justificável

terça-feira, 8 de abril de 2008

Técnica e política

Alguns dos que aplaudiram o relatório do LNEC sobre a localização do aeroporto -- que, como aqui se mostrou, padecia de evidente enviesamento a favor do CT de Alcochete -- atiram-se agora ao mesmo instituto por causa do relatório sobre a terceira travessia do Tejo.
O LNEC paga assim o seu envolvimento na fundamentação técnica de decisões politicamente controversas. A verdade é que não há escolhas puramente técnicas...

Sociologia dos media

A questão mais contestada do regime legal do concurso para professor titular era a fixação de quotas para as notas mais altas em cada escola, que os sindicatos acusavam de super-inconstitucional. O Tribunal Constitucional decidiu agora que tal regime não é inconstitucional. Mas a Lusa preferiu dar destaque à decisão do Tribunal que considerou inconstitucional a exclusão do concurso dos professores que se encontravam fora de serviço por motivo de doença.
Critérios!...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Erro

«(...) quem preside às comemorações do centenário da República é, como se sabe, Vital Moreira (...)» - escreve-se aqui.
Já corrigi várias vezes esse equívoco. Presidi a uma "comissão de ideias" para o centenário da República, cujo mandato foi concluído há mais de um ano, estando obviamente fora de causa integrar a comissão que há-de organizar as comemorações. Por que é que os jornais insistem tantas vezes em notícias tantas vezes desmentidas?

Brasil

O sucesso presidencial de Lula da Silva está a suscitar a ideia de alterar a Constituição brasileira para lhe permitir um terceiro mandato.
Seria, porém, uma má ideia. Primeiro, dois mandatos é a norma em várias sistemas presidencialistas (a começar pelos Estados Unidos); segundo, a alteração do número de mandatos dos presidentes não deve ser feita para beneficiar o incumbente; por último, depois do terceiro mandato, por que não um quarto e um quinto...?

PSD (2)

«Menezes: Portugal precisa de uma nova Constituição».
Ao colocar como prioridade política uma "nova Cosntituição", questão que só alguns restritos círculos da direita liberal radical suscitam, o líder do PSD mostra quão desfasada está a sua agenda politica em relação às preocupações dos portugueses. Por esse caminho não vai longe...

PSD

A interpelação feita à RTP por um deputado do PSD sobre a aquisição a uma produtora externa de um programa da jornalista Fernanda Câncio mostra a que baixo nível desceu o principal partido da oposição, em termos de seriedade e de decência política.
Simplesmente lastimável!

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Um pouco mais de rigor, sff.

«Função pública vai trabalhar mais horas» -- diz o Diário Económico em manchete. Mas não é assim, pois isso vai depender de negociação colectiva. A notícia correcta, como aliás resulta do corpo da notícia, é: «Função vai poder trabalhar mais horas».
Por que é que os jornais recorrem tantas vezes a títulos enganadores?

A lei penal e as escolas

«PGR: órgãos directivos de escolas "têm dever cívico" de comunicar casos de violência».
De facto, a denúncia de infracções criminais constitui uma obrigação legal das autoridades e dos funcionários públicos, tanto segundo a lei processual penal como a legislação disciplinar, não havendo excepção para as escolas. O que, aliás, não dispensa, bem entendido, o exercício da acção disciplinar.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Ilógico

A ideia de que as provas legitimamente obtidas em processo penal não podem ser usadas em processos disciplinares -- aliás, um ilícito sem as mesmas garantias do processo penal -- parece-me um tanto bizarra.
Por essa ordem de ideias, um funcionário pode ser condenado criminalmente por corrupção com base em escutas telefónicas, mas não pode ser punido disciplinarmente com base na mesma prova! Há alguma lógica nisso?
Uma coisa é só poder haver escutas telefónicas em processos penais, com controlo judicial, outra coisa é não poder haver utilização das provas licitamente obtidas em processo penal para outros efeitos sancionatórios.

Dois coelhos de uma cajadada

O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa lamentou que os transportes colectivos de Lisboa não estejam sob jurisdição municipal, ao propor que as portagens da nova travessia rodoviária do Tejo contribuam para o seu financiamento.
O Estado tem agora uma ocasião de ouro para devolver ao município a gestão dos transportes colectivos urbanos de Lisboa, indevidamente assumida pelo Estado, mas também para libertar o orçamento do Estado dos encargos com a sua exploração, que indevidamente está a ser suportada por todos os portugueses...

"Impostos? Sou contra!"

O editorial de hoje do Jornal de Negócios, contra a aplicação de um imposto sobre as mais-valias fundiárias geradas pelo TGV junto às respectivas estações, é um excelente exemplo de um fundamentalismo antitributário vulgar, que só surpreende ver perfilhado por um jornal económico de referência.
De facto, esse imposto, mais do que justo, é justíssimo. Se eu vejo o valor dos meus prédios aumentado por simples efeito de infra-estruturas públicas, é mais do que justo que retribua ao menos com uma parte desse enriquecimento "caído do céu".

Direitos Humanos em Angola

Foi esta a resposta que recebi do Conselho da União Europeia a uma pergunta parlamentar que submeti a respeito da situação dos defensores de direitos humanos e jornalistas em Angola.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

IVA

Argumento:
1º - Dizem alguns que o corte de 1% na taxa do IVA é irrelevante;
2º - Logo, um ulterior corte de mais 1% na taxa do IVA será igualmente irrelevante;
3º - Logo, o corte de 2% (1% + 1%) na taxa do IVA é irrelevante;
4º - Logo, o aumento de 2% na taxa do IVA foi... irrelevante!
Sofisma? Evidentemente, desde o princípio.

Para o lixo?

Parece que o PS vai mesmo deixar cair a reforma do sistema de governo autárquico, por não concordar com o direito de voto dos presidentes de junta de freguesia nos orçamentos municipais, que o PSD quer repor, rompendo o acordo entre ambos os partidos. Sendo assim, fica tudo como está, incluindo... o tal direito de voto dos presidentes de junta de freguesia. Portanto, o PS fica com o que não quer e fica também sem a reforma!
A conclusão a tirar é que a reforma não é coisa muito importante.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Viés politico (2)

O PSD queixa-se, com razão, de ser prejudicado pela cobertura noticiosa da RTP (pelo menos no período analisado pelo estudo da ERC). Maliciosamente, porém, pode perguntar-se se o PSD, no lastimável estado em que se encontra, ganha alguma coisa em ter maior exposição noticiosa...

Viés político no noticiário da RTP

É evidente que o número de "presenças" noticiosas de cada força política no noticiário político é um critério relevante da avaliação da representação política do noticiário de uma estação de televisão. Mas será o mais importante? Se as referências forem predominantemente negativas, mais valeria ter menos tempo...

Bispos

Revelando uma notável imaginação, o presidente dos bispos portugueses queixa-se de uma «incrível exclusão da presença católica dos ambientes públicos e políticos». Só não disse de que «espaços públicos e políticos" é que se encontra excluída e, já agora, a que título é que deveria estar presente nos «espaços políticos».
Será que alguma vez veremos a Igreja Católica entre nós aceitar a mais elementar regra da separação entre o Estado e as igrejas, entre a esfera política e a esfera religiosa, entre César e Deus?

IRC

A taxa efectiva de IRC dos bancos voltou a baixar para valores inaceitáveis e muito inferiores à média das demais empresas. Ainda dizem que temos uma taxa de IRC muito alta! A ter em conta a taxa efectiva, poucos países devem superar-nos...
Será tudo legal, sem dúvida, mas uma lei que permite que isso seja legal deve ser mudada. Quanto antes, aliás. O Governo deveria proibir-se a si mesmo de pensar em baixar a taxa nominal do IRC sem corrigir primeiro estes "buracos" legais por onde as empresas se evadem ao imposto..

Escrutínio de embaixadores

Merece aplauso esta ideia de Luís Amado de promover um escrutínio parlamentar dos embaixadores nacionais no estrangeiro, antes de assumirem os respectivos cargos.
Mas seria ainda melhor se essa "sabatina" tivesse lugar antes da sua nomeação...

Relatório do Crisis Group sobre Timor-Leste

Óptimo este relatório do International Crisis Group sobre Timor-Leste! De leitura obrigatória.

Idade para ter juízo

Há alguns dias, no contexto de uma viagem ao Médio Oriente, o candidato do partido Republicano à Casa Branca, John McCain, declarou durante uma conferência de imprensa que estava preocupado com o facto de o regime iraniano "levar a Al-Qaeda para o Irão, para treiná-los e enviá-los de volta para o Iraque".
Não é segredo para ninguém que um ódio visceral separa o Irão da al-Qaeda, não tanto por causa de disputas teológicas entre sunitas e xiitas, mas antes porque os esbirros de Bin Laden consideram o regime iraniano uma barreira geopolítica para a renovação de um califado ortodoxo sunita. Nem mesmo a Administração Bush, insuspeita de se coibir em salientar o jogo sujo de Teerão, alguma vez defendeu qualquer ligação entre o Irão e a Al Qaeda.
Perante tal gaffe, um apoiante e amigo do Senador McCain, o Senador Lieberman, sussurrou qualquer coisa no ouvido do candidato. Imediatamente McCain tentou pôr água na fervura e precisou: "Desculpem, os iranianos estão a treinar extremistas, mas não a al-Qaeda."
A campanha de McCain pôs-se rapidamente em campo e explicou: "Numa conferência de imprensa, John McCain enganou-se e imediatamente corrigiu o que disse, explicando que o Irão suporta de facto extremistas islâmicos radicais no Iraque, mas não a Al Qaeda..."
Claro que os Democratas aproveitaram este erro crasso para atacar a reputação de especialista em questões de segurança sobre a qual McCain tem construído a sua campanha presidencial.
Interessante também a exposição considerável que esta gaffe teve em jornais tão insuspeitos de McCain-fobia, ou mesmo de "amor pelo Irão", como o Wall Street Journal e a Fox News.

segunda-feira, 31 de março de 2008

100 000 ou 20 000?

«A Plataforma que reúne os sindicatos dos professores entregou hoje no Ministério da Educação um abaixo-assinado com 20 mil assinaturas a exigir a suspensão do processo de avaliação até final do ano lectivo.»
De duas uma: ou só 20 000 dos 100 000 manifestantes é que eram professores, ou só 20 000 dos 100 000 professores manifestantes é que assinaram o protesto. Poderão os sindicatos esclarecer a enorme diferença?

"Eleitoralismo"

É extraordinário considerar como "eleitoralismo" medidas políticas tomadas a um ano e meio das eleições. Ora, no caso da descida do IVA, parece evidente que seria eleitoralmente mais rendoso adiá-la para o ano das eleições, com a vantagem de entretanto continuar a beneficiar da receita do imposto, que permitiria fazer mais umas "flores de política social" daqui a um ano. Curioso é ouvir essa acusação da boca de quem entende que ela deveria ser tomada só no próximo orçamento, ou seja, no orçamento de 2009!...

Seguidismo fiscal

O líder do PSD não pára de surpreender. Agora vem propor o alinhamento dos nossos impostos com Espanha, esquecendo que, se o IVA espanhol é mais baixo (16%), já são mais elevados o IRS e o IRC...

Uma coisa não impede a outra

«Louçã critica qualquer tentativa de criminalização da indisciplina escolar».
Embora não aplauda, em geral, a criminalização da indisciplina escolar, a verdade é que, ao contrário do que Louçã pressupõe, a punição penal de um crime praticado numa escola não impede que o mesmo facto seja disciplinarmente punido pela escola. Uma coisa não preclude a outra.
O que aconteceu demasiadas vezes é que não havia nenhuma punição. A reacção normal é passar-se do zero para o cem...

sexta-feira, 28 de março de 2008

Somague: soma ou subtracção?

O Tribunal Constitucional indeferiu a reclamação da SOMAGUE e confirmou a coima de 600.000 euros que lhe aplicou pelo financiamento ilícito do PSD na campanha eleitoral de 2001.
Não se sabe se Diogo Vaz Guedes, então presidente da SOMAGUE, e Vieira de Castro, o então SG-adjunto do PSD, já pagaram as coimas de 10.000 euros a que cada um foi condenado pelo TC.
O PSD diz que há-de pagar, mas não sabe como, nem quando, a quantia de 35.000 euros em que foi multado, além dos 233.415 euros que foi condenado a devolver ao Estado...
Para o ar continuam indecorosamente a assobiar José Luis Arnault, o então Secretário-Geral do PSD e Durão Barroso, o então Presidente do PSD.... Um ar abafado onde ressoa o silêncio ensurdecedor do PS.

(PS - encontrei a fotomontagem no site da JS da Amora. Valha-nos a JS!)

Estado investe em off-shores?




Ah, também estou à espera de que o Governo confirme se é verdade que o Estado português tem 235 milhões de dólares investidos em paraísos fiscais.
E se sim, que explique por que carga de água. E como tenciona agir doravante.