1. Quase todos os principais candidatos presidenciais recorrem à noção de "liderança" nos seus materiais de propaganda, alguns mesmo no lema da sua candidatura (caso de Gouveia e Melo), como um dos seus principais ativos políticos. Ora, se bem que a capacidade de liderança (de pessoas ou organizações) possa ser de alguma utilidade no exercício do cargo, gera-se, porém, um equívoco, se com tal noção se quiser significar também que ao cargo presidencial incumbe a liderança política do País, o que não é verdade.
Na verdade, a Constituição é clara no sentido de atribuir ao Governo, chefiado pelo PM, a «condução da política geral do país» (art. 182º), sob responsabilidade política perante a AR (e não perante o PR), de cuja eleição decorre a sua legitimidade política. É nessa qualidade que o chefe do Governo representa Portugal no Conselho Europeu da UE e que o Governo representa o País nas demais organizações internacionais e negoceia convenções internacionais com outros países.
O facto de termos um sistema político birrepresentativo - em que também o PR também é diretamente eleito, tal como a AR - não se traduz numa dupla liderança política nem numa liderança política bicéfala do País (que, aliás seria uma receita para a confusão e o conflito institucional entre os dois poderes).
2. O PR não é diretamente eleito para compartilhar com o Governo ou concorrer com ele na liderança política do País, mas sim para desempenhar, como poder neutro, a tarefa de velar pelo respeito da Constituição por parte do parlamento e do Governo e de garantir o regular funcionamento das instituições. Como sói dizer-se, é um Presidente garante e não um Presidente governante, muito menos um Presidente liderante.
Não lhe cabendo definir as orientações políticas nacionais, nem legislar (nem colegislar), nem governar (nem cogovernar), o Presidente não compartilha, portanto, da função de direção política do País. Mesmo no caso do comando supremo das forças armadas, que a Constituição lhe confere, trata-se mais de um título honorífico do que de um cargo de direção, pois é ao Governo que cabe a condução da política de defesa e a administração militar, incluindo a decisão de utilização das forças armadas.
Tudo estaria bem, porém, se os candidatos reivindicassem a liderança moral do PR na vida pública e na conduta política, como representante da República, enquanto coletividade política nacional, e como referência de integridade e elevação no desempenho do seu cargo.