quarta-feira, 27 de maio de 2026

Lisbon first (31): Filhos e enteados

1. Segundo a imprensa regional de Coimbra, o Governo anunciou o propósito de o Estado deixar de ser sócio majoritário da empresa pública do Metro Mondego

A notícia não deixa de ser surpreendente, sabendo-se que o Estado só tem 53% do capital na empresa (mais 5% da Infraestruturas de Portugal) — pertencendo o resto do capital aos três municípios cobertos —, enquanto se mantém dono de 100% do Metropolitano de Lisboa e de quase 100% do Metropolitano do Porto. O propósito parece ser óbvio: reduzir a responsabilidade do Estado na operação do sistema de mobilidade do Mondego e no investimento necessário para a expansão da rede, que na sua atual fase (em vias de conclusão) abrange somente duas linhas, ou seja, a linha intermunicipal entre Coimbra e Serpins (Lousã) — que, aliás, corresponde ao antigo ramal ferroviário, que já era responsabilidade do Estado — e a nova linha interna da cidade (entre a baixa da cidade e os Hospitais da Universidade), como mostra o mapa. 

A que se deve tão óbvia discriminação? Será somente porque Coimbra tem menos eleitores e deputados do que Lisboa e o Porto e, por isso, merece menos investimento do Estado? Parece evidente que Coimbra e os demais municípios da Metro Mondego, assim como os deputados por Coimbra na AR, devem rejeitar vigorosamente esta provocação política do Governo, que vai contra a igualdade de tratamento dos territórios e a coesão territorial do País, privilegiando as duas grandes metrópoles nacionais.

2. Há muito que sustento que, numa perspectiva constitucional de descentralização territorial do país e de respeito pelo princípio da subsidiariedade, todos os transportes públicos urbanos deveriam deixar de ser competência do Estado, passando a ser responsabilidade dos respectivos municípios ou agrupamentos intermunicipais — que devem ser munidos das correspondentes atribuições e dos necessários recursos financeiros —, a fim de pôr termo à situação em que os contribuintes de todo o país, incluindo as regiões menos favorecidas, cofinanciam os pesados investimentos que os transportes urbanos exigem, especialmente os metropolitanos.

No entanto, enquanto não houver uma mudança estratégica nesta matéria — que não está no horizonte no país hipercentralista que continuamos a ser —, e enquanto o Estado continuar a ser responsável a 100% pelos metropolitanos de Lisboa e do Porto, ele tem a obrigação de assegurar o mesmo meio de transporte nas demais cidades onde ele se justifique. Mesmo sem a "discriminação positiva" que se impunha em favor das cidades e dos territórios menos ricos, pelo menos não se incorra em discriminação negativa contra elas.

Adenda
Um leitor objeta que «no caso de Coimbra se trata de metrobus (metro de superfície), ao contrário do que sucede em Lisboa e no Porto». Mas não tem razão: 1.º — o metrobus do Porto também pertence à empresa Metro do Porto; 2.º — o metro subterrâneo de Lisboa e do Porto é seguramente um investimento financeiramente bastante mais pesado que o metrobus de Coimbra.