segunda-feira, 18 de maio de 2026

Pobre Língua (27): A alegada "inutilidade" do AO

1. Não consigo compreender o argumento de Marco Neves contra o Acordo Ortográfico de 1990, baseado na sua alegada «inutilidade», emprestando a sua autoridade de linguista à pequena minoria — aliás, em vias de desaparecimento — que persiste em alimentar a hostilidade à nova norma ortográfica.

Como autor português com diálogo académico com o Brasil, vejo na nova norma ortográfica dois grandes efeitos úteis: (i) ter eliminado a maior parte das divergências ortográficas entre a variedade europeia e a variedade brasileira da Língua comum, permitindo que os textos escritos em qualquer das versões tenham deixado de parecer estranhos aos leitores que falam a outra; (ii) permitir agora identificar claramente as várias diferenças de pronúncia e de escrita realmente existentes entre uma e outra variedade da Língua, como, por exemplo, contacto (pt.) e contato (br.), receção (pt.) e recepção (br.), aspeto (pt.) e aspecto (br). 

Além disso, a eliminação do c e do p mudos veio facilitar a aprendizagem do português pelos estudantes estrangeiros, por não conseguirem compreender a diferença de pronúncia entre acto e facto, actual e factual e tantas outras situações semelhantes.

Por mim, estas três grandes vantagens justificam plenamente o AO de 1990.

2. Também não vejo a pertinência da invocação pelo Autor dos exemplos do inglês e do japonês, línguas que, apesar da sua ortografia complexa, não a mudam. 

A verdade é que nenhuma delas padece da profunda divergência ortográfica entre duas versões nacionais da língua, como sucedia com o português até ao AO, por causa de mudanças ortográficas oficiais unilaterais — iniciadas do lado português, com a reforma ortográfica de 1911, quando o Brasil já era a principal potência da língua lusa — e de várias tentativas falhadas de acordos luso-brasileiros (1919, 1931, 1943), para tentar reparar os estragos causados por aquelas mal-avisadas reformas ortográficas unilaterais.

Foi aí que, levando de vencida oito décadas de cisão ortográfica, o AO de 1990 foi bem-sucedido, vindo a entrar em vigor nos dois países em 2009, consumando o grande feito de restaurar, até onde era possível, a unidade ortográfica da Língua, cuja "utilidade" não consigo deixar de valorizar.