sábado, 17 de outubro de 2015

Um pouco mais de sentido de responsabilidade, sff


1. Um vento funesto está a varrer o campo da direita, afetando gravemente o bom senso e o sentido de responsabilidade política de toda a gente.
Quando até um "senador" como Bagão Félix, conhecido pela sua ponderação de estadista, resolve coonestar a "golpada" para que alguns espíritos sem escrúpulos políticos pretendem arrastar o Presidente da República - a de manter durante meses em funções um governo PSD-CDS rejeitado pela AR - e defender que o País poderia não ser gravemente afetado, concluímos que ninguém escapa a esse clima de desatino compulsivo.

2. Ora, não é somente o grave abuso de poder e o intolerável desafio à autoridade da AR em que o PR incorreria (arriscando em última análise uma proposta de acusação penal na AR por "crime de responsabilidade", o que seria lamentável). É também a supina irresponsabilidade de manter o País com um governo de gestão até ao verão do próximo ano, sem orçamento, sem renovação das medidas de austeridade ainda em vigor, sujeito a ver todas as medidas governamentais contestadas no Tribunal Constitucional por excesso de poder ou revogadas por uma maioria parlamentar hostil.

3. Se esse previsível caos político e institucional é o preço que querem fazer pagar ao País para manter à outrance a direita no poder e para excluir arbitrariamente uma legítima maioria alternativa de governo, então percamos toda a esperança!

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Um pouco mais de serenidade, sff


O facto de uma "senadora" como M. Ferreira Leite vir contestar a legitimidade de um eventual acordo de governo entre o PS e os partidos à sua esquerda em termos mais próprios de uma caixa de comentários do Observador (qualificando-o como "golpe de Estado" e como "fraude eleitoral") revela o estado de raiva e de desatino da direita.
Havendo tantos argumentos políticos contra uma tal solução de governo (que eu, aliás, fui o primeiro a enunciar poucos dias antes das eleições, quando me apercebi que ela poderia vir a estar na calha...), não se compreende por que é que a direita há-de continuar a insistir na sua suposta ilegitimidade, como se fosse um delito político, qualificando como "golpe de Estado" e como "fraude eleitoral" aquilo que é perfeitamente conforme às regras da democracia parlamentar (como mostrei aqui) e que, ainda por cima, foi claramente introduzido na agenda eleitoral (como mostrei aqui)?

A contradição

1. Os dirigentes e comentadores de direita continuam a tentar convencer os eleitores do PS de que eles "não votaram num governo do PS com o PCP e o BE".
Pois não! Mas também não votaram contra. Numa democracia parlamentar os eleitores não votam em governos mas sim em partidos que depois formam o governo de acordo com a sua representação parlamentar (incluindo alianças de governo com que eles individualmente podem não concordar).

2. Há duas coisas certas quanto aos eleitores do PS: quiseram votar a favor de um governo PS e, portanto, contra o governo do PSD e do CDS. Acresce que, como mostrei aqui, ao passo que uma aliança de governo com a direita foi explicitamente excluída pelo PS antes e durante a campanha eleitoral, já a hipótese de um governo do PS com os partidos à sua esquerda não somente não foi excluída como foi inequivocamente admitida (o que a meu ver afastou eleitores que quiseram excluir essa possibilidade, sendo essa uma das razões para o insucesso eleitoral do PS).

3. É curioso que os comentadores de direita que consideram ilegítimo um acordo de governo do PS com o PCP e o BE já admitem sem problemas um acordo de governo do PSD e do CDS com o PS. É óbvia a contradição: se os eleitores do PS não votaram num governo com o PCP e o BE muito menos votaram numa aliança de governo com a direita, como eles propõem. E o mesmo se pode dizer, de resto, dos eleitores da Coligação de direita, que também não votaram numa aliança de governo com o PS.
Mais uma vez, a lógica política da direita não tem ponta por onde se lhe pegue.

Elementar

Os dirigentes e comentadores de direita deviam frequentar um curso elementar de democracia parlamentar.
Primeiro, ao contrário das democracias presidencialistas, que elegem diretamente o chefe do governo e este não precisa de ratificação parlamentar, nas democracias parlamentares não se elege diretamente nem o primeiro-ministro nem o governo. Elegem-se deputados para o parlamento, cujos partidos depois formam o governo de acordo com a sua representação parlamentar.  
Segundo, numa democracia parlamentar com sistema de representação proporcional, como a nossa, poucas vezes há um partido com maioria absoluta, pelo que o partido mais representado no parlamento pode não conseguir constituir governo se não obtiver o apoio parlamentar em falta.
Terceiro, a nossa Constituição é clara quando refere a possibilidade de os governos minoritários serem rejeitados à partida no parlamento, e é absolutamente falsa, como mostrei aqui, a ideia de que existe uma "norma não escrita" para os deixar passar.
Por último, como é lógico e é norma nas democracias parlamentares, se o partido mais representado não conseguir formar governo ou este for rejeitado, cabe ao segundo maior partido tentá-lo. E no caso português nem sequer há a opção da dissolução parlamentar e novas eleições.
Será que é tão difícil de compreender por que é que, sem nenhum "golpe de Estado" nem nenhuma "usurpação de poder", em vez de um novo governo Passos Coelho podemos vir a ter um governo António Costa?

Não é a mesma coisa

Não sendo apoiante de um eventual acordo de governo à esquerda, é-me relativamente indiferente a forma que ele venha a revestir. Mas admira-me que os seus apoiantes não debatam essa questão.
Na verdade, não é mesma coisa tratar-se de um simples acordo de sustentação parlamentar a um Governo do PS ou de um acordo de coligação propriamente dita, que inclui um Governo tripartido.
Não é o mesmo o grau de envolvimento dos dois partidos da extrema-esquerda parlamentar no Governo, mas também não é o mesmo o seu compromisso e corresponsabilidade quanto a ele.
O pior que poderia suceder ao PS era aceitar um suposto acordo de governo com os dois referidos partidos mantendo estes um pé (ou nenhum) dentro e outro (ou ambos) fora.

Adenda
Seja como for, não vejo como é que pode haver algum acordo se não houver compromisso firme, para quatro anos, pelo menos quanto ao programa do governo e quanto às metas de redução do défice orçamental e da dívida pública, de acordo com os nossos compromissos como membro da zona euro.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A treta

«(...), a ideia de que existe uma norma consuetudinária de não rejeitar à partida governos minoritários do partido vencedor das eleições é uma treta sem nenhum fundamento. Por um lado, quase sempre houve apresentação de moções de rejeição (inclusive uma moção de rejeição do PS contra o único governo minoritário do PSD, em 1985, que teria sido aprovada se o PRD a tivesse secundado). Por outro lado, e mais importante, os partidos de direita só não apresentaram moções de rejeição contra governos minoritários do PS porque em nenhum caso eles tinham maioria absoluta para a aprovar nem para depois constituir um governo alternativo. O resto é ficção.»
Esta é uma passagem da minha coluna semanal de hoje no Diário Económico.

Cenas de ódio

A imprensa de direita entrou em geral em modo bélico contra a hipótese de um acordo de governo à esquerda, não somente contestando as regras elementares da democracia parlamentar sobre a formação de governos (como tenho vindo a demonstrar) mas também enveredando por uma rasteira campanha de ataques pessoais de baixo quilate ao líder do PS, em que os termos menos ofensivos são "traição", "desonestidade", "deslealdade", etc. Verdadeiras cenas de ódio político ad hominem, como há muito não se via em Portugal.
Nesse aspeto, lamentavelmente nem órgãos menos passionais como o Observador escapam a essa vertigem, como mostram as inqualificáveis peças de alguns dos seus colunistas.

Prémio PàF

O prémio PàF vai para o jornal Público, que depois de apurados os resultados definitivos das eleições de 4 de outubro e, portanto, depois de legalmente extinta a coligação,  continua  a atribuir-lhe o conjunto os deputados obtidos pelo PSD e pelo CDS sem discriminar os de cada um, quer na versão impressa de hoje que na versão online.
Deve ser para esconder que, apesar da enorme majoração conferida pela coligação aos dois partidos na repartição dos deputados (46,5% dos deputados com 38,5% dos votos!), o PSD só conseguiu mais três deputados do que o PS (89 contra 86), o que deixa entender que, se tivessem concorrido separados, o PSD poderia não ser o partido com mais deputados na AR.

Cavaco Silva não alinha na golpada


1. Como era óbvio antecipar, Cavaco Silva nomeará um Governo de esquerda se o governo da coligação de direita for rejeitado na AR e houver um acordo de governo do PS com o PCP e o BE. Fica assim desautorizada a golpada de alguns setores da direita para impedir esse resultado.

2. A nomeação prévia de Passos Coelho como primeiro-ministro, mesmo se o seu governo estiver antecipadamente condenado, faz sentido, assim respeitando e consolidando a "convenção constitucional" de dar ao partido mais representado na AR (no caso, o PSD) oportunidade de formar Governo e de o submeter à consideração da AR.
Mas ao nomear um governo minoritário, provavelmente um nado-morto, o PR deve explicar publicamente por que é que desistiu da sua enfática exigência de um governo com apoio parlamentar maioritário.

3. Se o Governo de Passos Coelho for rejeitado na AR pelos votos conjuntos do PS, PCP e BE, o PR nomeará naturalmente o governo presidido pelo líder do segundo maior partido parlamentar, que é o PS, formado com base num acordo com os outros dois partidos, desta feita cumprindo a referido requisito presidencial.
Assim se cumprem a Constituição e as regras da democracia parlamentar, segundo as quais o juízo sobre o mérito político das soluções governativas cabe à AR e aos eleitores, não ao Presidente da República.

Adenda
Mas as habituais fontes da direita insistem na golpada.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A terceira via

Penso que o PS não pode entrar em qualquer acordo de governo com a coligação de direita, por maiores que sejam as concessões, muito menos nos termos em que a coligação propõe, ou seja um acordo de sustentação parlamentar por quatro anos, incluindo a passagem dos orçamentos.
Isso seria uma espécie de coligação disfarçada, sem as vantagens de um (impossível) governo de coligação e com todas as suas desvantagens, abdicando o PS da sua autonomia e das suas responsabilidades como partido de oposição.
Pior do que casar-se com o PCP e o BE seria amantizar-se com o PSD e o CDS. O PS não está condenado a escolher entre um acordo de governo com a esquerda ou com a direita. Pode não fazer nenhum. Se não puder rejeitar o governo da coligação, por não conseguir formar um governo alternativo à esquerda, deve fazê-lo sem qualquer acordo e conservar as mãos livres para liderar a oposição ao Governo, mantendo-o com rédea curta, como aqui defendi..

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A golpada

Parece que há setores trauliteiros da direita que querem levar o Presidente da República a negar-se a nomear um eventual governo de frente de esquerda depois da provável rejeição parlamentar de um novo governo da coligação PSD-CDS, mantendo depois este como "governo de gestão" até que haja possibilidade de dissolução da AR e de convocação de novas eleições pelo futuro PR.
Decididamente, há setores da direita que nunca abandonam a sua vocação golpista. Só que esta golpada não tem pés para andar. Primeiro, não havendo outra alterativa de governo nem possibilidade imediata de convocar novas eleições, o PR tem uma obrigação constitucional de chamar a formar governo o líder do segundo partido mais representado na AR e de nomear o governo que este lhe proponha. Segundo, Cavaco Silva, que é um institucionalista, não pode permitir-se incorrer num abuso de poder dessa gravidade, mantendo em funções um governo rejeitado pela AR, assim pondo em causa o regular funcionamento das instituições que ele próprio tem a obrigação constitucional de garantir. Terceiro, manter em funções durante mais de oito meses um "governo de gestão", com poderes muito limitados, deixaria o País em pantanas. Por último, deixar essa batata quente para o próximo PR seria envenenar dramaticamente as próximas eleições presidenciais.
Parece óbvio que na direita há gente de cabeça perdida! O líder do PSD tem o dever de esfriar essas cabeças tontas e o PR o dever de varrer preventivamente essa testada.

Adenda
Um leitor pergunta como é que concilio a minha opinião de que um governo de frente de esquerda não é politicamente viável com esta opinião de que o PR não pode deixar de o nomear se ele se formar. É fácil responder. Eu não sou a favor dessa solução governativa mas não a considero ilegítima, como tenho defendido em vários posts. Ora, no exercício das suas funções, o PR não tem competência para avaliar a bondade ou o mérito politico dos governos que se formam em conformidade com as regras constitucionais. Isso compete à AR e aos eleitores, como eu.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A responsabilidade histórica do PS (parte III)

Um PS equilibrado, progressista e pró-europeu pode, e deve, construir entendimentos  fazendo os partidos à sua esquerda aceitar guardar na gaveta a sua oposição  à UE, a NATO, o Euro e outros projectos que contestam. Em troca disso, o PS deve comprometer-se a tudo fazer para, nos planos europeu e nacional, combater os impactos perniciosos e flexibilizar as medidas mais gravosas do Tratado Orçamental. E procurar alcançar a consolidação orçamental com uma política fiscal justa e transparente que garanta ao Estado a recuperação dos recursos hoje perdidos para offshores e outras jurisdições estrangeiras, ao mesmo tempo que alivie PMEs e classes médias dos actuais níveis confiscatórios. O compromisso deve assentar ainda em tudo aquilo em que a Esquerda pode convergir, como no apoio aos mais pobres e vulneráveis, na justiça social, na criação de emprego, no relançamento do investimento na economia verde e outros sectores produtivos, na sustentabilidade da segurança social, no reinvestimento na saúde e educação públicas, na ciência e inovação, no combate ao declínio demográfico e à desertificação do interior, etc... conjugados com rigor orçamental e redução progressiva e sustentada do défice e da dívida pública. 

É por isso indispensável que o PS faça o que está a fazer: avaliar em que se traduzem concretamente as disponibilidades anunciadas por PC e BE para apoiar um governo à  esquerda. Confrontando Bloco e PC com a escolha de continuarem a fazer o jogo da direita ou viabilizarem finalmente uma solução alternativa ao programa ultra-liberal. 

Conhecendo as linhas orientadoras do PS enunciadas por António Costa na noite de 4 de Outubro, se Bloco e PC esticassem estupidamente a corda nas condições a negociar, então é porque estariam a fazer "bluff" e persistiriam entrincheirados no conforto da oposição de protesto, inconsequente. Se negociarem de má-fé ou com reserva mental - como alegam aqueles que avisam contra o "abraço de urso" ou a "inevitável picada de escorpião" antevendo que, a seu tempo, aqueles partidos precipitarão a queda de um governo socialista - pois caberá ao PS não lhes dar azo nem flanco, para além de, se for esse o caso, ter então de saber imputar-lhes o ónus.

Se PCP e BE desperdiçarem esta oportunidade histórica para governar o país à esquerda e reforçar a voz da Europa anti neo-liberal, então serei eu a primeira a admitir que não resta ao PS, para não ser responsável nem responsabilizado pela ingovernabilidade do país, senão deixar passar um programa de governo da direita travando, depois, pela negociação orçamental, as medidas mais reaccionárias que esta sem dúvida traz no bojo. 

O que o PS não pode fazer, de maneira alguma, é alinhar em mais austeridade cega e destrutiva, dando luz verde a um programa para Passos Coelho e Portas continuarem a vender o país a patacos e a empobrecer o povo, precipitando eleições quando julgarem poder obter a maioria absoluta. Seria nefasto, suicida e realmente anti-europeu se o PS se deixasse enredar no engodo da direita que nos últimos quatro anos se aplicou a arrasar o país, continuando a sustentar o centrão dos interesses que afunda Portugal.


A responsabilidade histórica do PS (parte II)

Não foi para o centro que o PS perdeu votos, foi para a esquerda, e sobretudo para o Bloco de Esquerda, que mais que duplicou o número de deputados (o PCP realmente estagnou, só obteve mais 4.500 votos do que em 2011). E não foi nenhum expediente tecnocrático que tirou a maioria absoluta à direita: foi a denúncia das injustiças, da incompetência e das fraudes da Coligação PSD/PP nos últimos 4 anos, feita com eficácia pelo Bloco de Esquerda, que desviou eleitores desiludidos com o PS. 

Sem explorar seriamente a possibilidade de uma convergência à esquerda  - para formar um governo sustentado por uma maioria parlamentar negociada com o BE e o PC  ou mesmo um governo integrando representantes destes partidos - se o PS se dispusesse a viabilizar uma governação da mesma direita austeritária, cada vez mais votantes tenderiam a abandoná-lo, condenando o PS ao destino do Pasok.

A direita omnipresente nos media e o seu apadrinhante Presidente Cavaco Silva procuram condicionar o PS e impedi-lo de buscar uma maioria à esquerda, proclamando - sem qualquer base constitucional -  que ele não pode entender-se com quem põe em causa a pertença à Europa, à NATO, ao Euro, ao Tratado Orçamental, ressuscitando até os combates de 75, o PREC, a Fonte Luminosa, etc...

Para pressionar compromissos governamentais abrangentes, Cavaco Silva em tempos citou a Finlândia:  ora em Helsínquia reina hoje uma coligação que integra como Vice-PM o líder dos preconceituosos "Verdadeiros Finlandeses", que são declaradamente anti-NATO e anti-UE, pela direita. Sem que isso os impeça de se vincularem a um programa de governação tido por respeitoso dos compromissos europeus.

Acresce que UE, Euro e NATO não se fizeram para afundar a segurança, progresso económico, emprego, justiça, Estado social, igualdade, democracia e a solidariedade europeia: muito pelo contrário! E, no entanto, é esse o resultado sentido pelos cidadãos em consequência das desastrosas decisões, economicamente neo-liberais e políticamente incapazes de fazer face aos desafios  - inclusivé aos gravíssimos problemas de segurança - com que a Europa está hoje confrontada. Decisões determinadas pela da direita prevalecente a nível europeu. UE e Euro manifestamente precisam de ser reformados e de voltar a ser postos ao serviço dos cidadãos, da democracia e da coesão europeia: nesse sentido, todos os dias se constroem maiorias, mais ou menos à esquerda, "à la carte", com o Grupo político que integra os nossos PCP e BE no Parlamento Europeu.

Porque não pode essa convergência acontecer também na Assembleia da República, para poupar aos cidadãos a mais da mesma política desastrada que a coligação de direita lhes infligiu? 

(Continua parte III)

A responsabilidade histórica do PS

Uma clara maioria de portugueses foi votar no dia 4 de Outubro contra a austeridade radical da coligação PSD/PP.  É essa maioria que agora angustia a direita. Apesar da inegável derrota do PS que almejava obter a dianteira, a Coligação não pode cantar vitória: ficou sem maioria absoluta, perdendo mais de 700.000 votos e 25 deputados.

E esta é a razão por que o PS, derrotado embora, se acha ironicamente na posição-chave de decidir como vai Portugal ser governado nos próximos tempos: se à direita ou à esquerda. Uma responsabilidade histórica recai assim sobre os socialistas. 

Uma responsabilidade que não tem apenas implicações nacionais: tem impacto europeu, se Portugal tiver um governo que no Conselho da UE reforce as vozes - hoje em minoria - que procuram travar as piores consequências engendradas pela ideologia neo-liberal: como, há dias, sublinhou o Presidente Hollande no Grupo Socialista no Parlamento Europeu, referindo a barragem que conseguiu fazer com o PM Renzi para evitar o crime histórico que seria o "Grexit", activamente promovido pelo ministro Schäuble... Hollande vincou também as suas expectativas quanto ao PS, no sentido de poder vir ajudar a fazer frente ao neo-liberalismo na UE.

Neste quadro nacional e europeu, o PS não pode atraiçoar quem nele pôs esperança e votou, indubitavelmente contra a direita austeritária. Não pode baixar braços e dispor-se a viabilizar um novo governo dessa mesma direita, quando ela perdeu a  maioria absoluta.

(Continua em parte II)

Referendo

Parece-me lógica a ideia de um referendo no PS sobre um eventual acordo de governo com o BE e o PCP, hoje adiantada pelo Diário de Notícias. Por um lado, decidiria democraticamente o divisão de posições já manifestadas dentro do partido sobre o assunto; por outro lado, associaria os militantes à responsabilidade pela decisão, fosse ela positiva (como conjeturo) ou negativa.
Só não vejo por que é que uma eventual rejeição (pouco provável, aliás) do acordo à esquerda teria de levar à demissão de Costa, como especula o mesmo diário, a não ser que ele próprio ligasse previamente essa consequência à rejeição (o que obviamente ele não fará).

Nova democracia

1. Entre nós o jornalismo de direita é mais direita do que jornalismo. É patética a sua tentativa de reescrever as regras comuns da democracia parlamentar e decretar a suposta ilegitimidade da substituição de um governo minoritário de uma coligação de direita por um governo maioritário de uma coligação de esquerda.
Pelos vistos, segundo o jornalismo de direita há duas novas regras na democracia parlamentar: (i) os partidos de direita podem fazer governos de coligação entre si, os de esquerda, não; (ii) por efeito de um decreto divino, as coligações de direita, mesmo minoritárias, devem prevalecer sobre as de esquerda, ainda que maioritárias. É a nova democracia da direita.

2. Para o jornalismo de direita, as soluções que ele considera politicamente inaceitáveis têm que ser ilegítimas. Mas não é assim. 
Como tenho reiteradamente afirmado ao longo dos anos, é preciso separar o juízo de legitimidade e o juízo político. Nem tudo o que é legítimo é politicamente meritório; nem tudo o que é politicamente mau é ilegítimo. A eventual "coligação de esquerda", que aliás ainda é uma mera hipótese em negociação, pode ser uma solução  politicamente inviável (como penso), mas não é ilegítima à luz de qualquer critério da democracia parlamentar. Pelo contrário.

sábado, 10 de outubro de 2015

Não finjam que não sabiam

1. Um dos argumentos da direita para sustentar uma suposta ilegitimidade de um eventual acordo de governo à esquerda é o de que essa hipótese "não foi colocada no debate eleitoral", pelo que "não foi sufragada pelos eleitores".
Apesar de ativamente perfilhado pela generalidade dos média (como é escandaloso o alinhamento da imprensa com a direita!), este argumento é falso.

2. Lembremos os seguintes factos, que mostram à saciedade a abertura do PS a uma solução de governo à esquerda:
a) Antes e durante a campanha eleitoral o PS rejeitou explicitamente da noção de "arco da governação", assim resgatando o BE e o PCP como potenciais atores governamentais;
b) Antes e durante a campanha eleitoral Costa rejeitou qualquer entendimento de governo com "esta direita", nunca tendo feito igual afirmação quanto à esquerda à esquerda do PS;
c) Antes e durante a campanha eleitoral o líder do PS mencionou e valorizou repetidamente a sua experiência à frente da CM de Lisboa e a sua capacidade para estabelecer pontes e fazer entendimentos à esquerda.
d) Durante a campanha, tanto o PCP como o BE surpreenderam ao reiterar a sua disponibilidade para governar ou para fazer parte de soluções governativas; esta sintonia só podia passar despercebida aos distraídos;
e) Durante a campanha, a líder do BE deixou escapar deliberadamente que havia ou tinha havido contatos com Costa sobre o assunto;
f) Neste mesmo blogue dei conta mais do que uma vez desse óbvio namoro do PS com a esquerda radical, manifestando a minha discordância e alertando para o risco eleitoral dessa opção (quer em termos de afastamento dos eleitores flutuantes do centro quer em termos de inutilização do argumento do "voto útil" no PS); nunca houve qualquer feedback do lado do PS;
g) Oito dias antes das eleições, o Expresso fazia manchete com a informação de que o PS podia fazer um aliança de governo à esquerda, mesmos no caso de a direita coligada ganhar as eleições; esta notícia não foi desmentida pelo Largo do Rato;
h) Tendo claramente recebido essa "mensagem", a coligação de direita passou toda a última semana a denunciar o perigo de um governo do PS com a sua esquerda, tendo dramatizado o apelo a uma maioria absoluta para conjurar o perigo (esforço que manifestamente saiu baldado)
i) Na própria noite eleitoral, em que não se apresentou propriamente como perdedor, o líder do PS, ao mesmo tempo que não questionou o direito do PSD de formar governo e asseverou que não faria uma "aliança do contra" para o derrubar, não excluiu porém (como apontei aqui) a hipótese um governo alternativo, tendo explicitamente mencionado a figura da "moção de censura construtiva", assim dizendo ao PCP e ao Bloco que só podiam afastar o governo de direita dispondo-se a alinhar num governo com o PS.

3. A conclusão é óbvia. Um entendimento de governo com o PCP e o BE na hipótese de a direita não ter maioria absoluta estava desde o início na equação pós-eleitoral do líder do PS. Costa não somente nunca a excluiu como a admitiu de vários modos inequívocos no seu conjunto. Não houve nenhuma reserva mental. Pagou mesmo um custo eleitoral por ter mantido publicamente essa hipótese em aberto.
Por isso, ninguém de boa fé - nem os eleitores, nem os jornalistas, nem o PR, nem muito menos os partidos de direita -- podem fingir nem alegar agora desconhecimento nem alardear surpresa.

4. Politicamente falando, um governo do PS com o PCP e o BE, se vier a ser realidade, pode ser uma péssima solução e estar votado ao fracasso (como penso), mas não pode ser acusado de ilegítimo por alegadamente defraudar a vontade dos eleitores.
Os eleitores não votam em hipotéticas soluções de governo, votam em partidos, que depois negoceiam as soluções governativas considerando a sensibilidade do seu eleitorado. De qualquer modo, os eleitores do PS e dos dois partidos à sua esquerda, mesmo os que discordam da solução, tinham obrigação de saber ou de admitir que a hipótese de um entendimento de governo entre eles nunca esteve descartada.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Sim, a "lógica da batata"

Sim, este texto é que é um genuíno sofisma. A lógica correta, como mostrei no post anterior, é esta:
"O partido que ganha as eleições, e que tem prioridade na formação do governo (o que ninguém contesta), só tem, porém, assegurada a passagem do seu governo se tiver ou conseguir reunir maioria parlamentar. Caso o não consiga e outros partidos o consigam, então cabe a estes governar. É assim a democracia parlamentar".
Como é sabido, não me conto entre os apoiantes dessa eventual solução governativa, em cuja viabilidade política não acredito, e compartilho os argumentos políticos contra ela. Mas a alegação da direita de que se trata de uma solução "ilegítima" e "antidemocrática" não tem nenhum fundamento e só pode compreender-se à luz de uma "lógica da batata" sectária.

Não é preciso ir à Dinamarca

1. A direita e os seus megafones na imprensa arrepelam os cabelos contra a hipótese de vir a ser primeiro-ministro "quem não ganhou as eleições", gritando "ilegitimidade", "fraude", "golpe de Estado", etc. Deveriam pensar um pouquinho antes de falarem ou escreverem disparates.

2. Numa democracia parlamentar, em que o Governo depende da confiança parlamentar, um executivo que não detenha maioria parlamentar absoluta corre o risco de não passar no Parlamento ou de vir a ser derrubado por uma maioria contrária. Por exemplo, onde os governos precisam de investidura parlamentar expressa, como na Espanha, quem tiver ganho as eleições sem maioria absoluta tem de negociar à partida o apoio parlamentar em falta ou nem sequer chega a formar governo. Por isso, os chefes de governo podem não ser do partido vencedor das eleições. Não é preciso ir à Dinamarca.

3. Em Portugal, os governos são primeiro nomeados e empossados pelo Presidente da República e só depois é que vão ao parlamento. Sempre tem sido nomeado primeiro-ministro o líder do partido vencedor das eleições (que é o que tem mais deputados), mesmo sem maioria absoluta, e assim deve continuar a ser. É uma regra que não decorre obrigatoriamente da Constituição, mas é uma "convenção constitucional" que assegura certeza e previsibilidade e previne "golpadas" presidenciais. Admira-me, porém, vê-la agora defendida como dogma religioso por quem antes das eleições, quando se previa que o PS poderia ser o partido vencedor, a descartava em nome de uma alegada discricionariedade presidencial para nomear o primeiro-ministro. Assim se apanham os hipócritas!

4. Obviamente, se se constituir um governo sem maioria absoluta, ele corre o risco de soçobrar na sua apresentação na AR, sendo portanto demitido sem chegar a governar. Isso é legítimo, constitucional e conforme às regras da democracia parlamentar.
Se a maioria que derruba o Governo se entender para formar um novo executivo, o Presidente da República não é constitucionalmente obrigado a nomeá-lo, podendo tentar outra alternativa de governo eventualmente disponível ou preferir convocar novas eleições, se o puder fazer (o que no caso português só poder ser feito passados seis meses sobre as anteriores eleições parlamentares). O que não pode é manter indefinidamente em funções o governo demitido.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um pouco menos de hipocrisia, sff (2)

Os círculos da direita estão em pânico com a possibilidade de o Governo PSD+CDS vir a ser chumbado na AR por uma convergência dos partidos de esquerda e gritam "aqui d'el-rei" contra a suposta "ilegitimidade" política de um tal desenlace. Alguns sicofantas chegam falar em "golpe de Estado"!
Independentemente do meu juízo sobre uma tal hipótese, não haveria porém nada de ilegítimo, muito menos de "golpista" nessa eventualidade. Governos minoritários correm sempre esse risco, se houver uma maioria contra. E, de resto, não foi isso justamente o que o PSD e o CDS fizeram em 2011, ao associarem-se ao PCP e ao BE para derrubar o Governo do PS?! Ou será que esses partidos são bons quando se aliam à direita contra o PS e já são maus quando convergem com o PS contra a direita?
Há alguma moralidade nisso?

Um pouco menos de hipocrisia, sff (1)

A direita descobriu que um governo minoritário do PSD e do CDS pode ser uma dor de cabeça, pois pode ver chumbadas muitas das suas iniciativas e ver aprovadas muitas outras contra ele pelo conjunto da oposição e começa a denunciar a suposta "ilegitimidade" política da previsível convergência entre o PS e a extrema-esquerda parlamentar contra ele.
Mas não foi isso o que os próprios PSD e CDS fizeram, em aliança com a mesma extrema-esquerda parlamentar, contra governos minoritários do PS, por exemplo em 2009, depois de o primeiro Governo Sócrates ter perdido a maioria parlamentar? O PCP e o BE são bons quando se aliam ao PSD para flagelar os governos PS e passam a ser maus quando se aliam ao PS para "chatear" governos do próprio PSD?!
Há alguma moralidade nisso?

Adenda
Sobre as leis que podem vir a ser revogadas e aprovadas pela oposição conjunta, ver esta investigação do Observador.

Receita para o desastre

Creio que o PS brinca com o fogo ao negociar os cenários pós-eleitorais com a extrema-esquerda parlamentar sem excluir à partida a hipótese de uma aliança de governo.
Não basta haver uma maioria numérica de deputados (que já houve muitas vezes) e, desta vez, uma oportunista disponibilidade do PCP e do BE para apoiarem uma solução de governo com o PS fingindo abandonar as suas "linhas vermelhas".  Primeiro, a visceral hostilidade antissocialista de ambos, como se o PS fosse o seu inimigo principal (vide a recente campanha eleitoral) não facilita nenhuma coabitação leal. Segundo, há uma manifesta incompatibilidade entre as suas propostas e as exigências de rigor orçamental a que Portugal se encontra vinculado, o que os levaria a tirar o tapete ao Governo ao primeiro orçamento. Terceiro, e sobretudo, entre o PS e a esquerda radical não há só uma diferença de grau (mais ou menos à esquerda) mas uma diferença de natureza e de filosofia política. A chamada esquerda declina-se no plural.
Trazer o PCP e o BE para a esfera do governo e apagar a fronteira entre a "esquerda de governo" e a "esquerda de protesto" pode ser uma receita para o desastre. Do PS.

Adenda
Pode haver uma razão tática para o PS não excluir à partida a hipótese de um governo alternativo à esquerda, que é a de manter pressão alta sobre as conversações que vão seguir-se com o PSD, no sentido de obter compromissos relevantes como contrapartida da abstenção socialista na passagem parlamentar do Governo.

"Kingmaker" (2)


Passagem da minha coluna semanal de hoje no Diário Económico. Ou como o PS pode ser o polo decisivo na atual quadro político.

Duplicidade


Como se adivinhava, o Presidente da República está pronto a empossar o governo minoritário da direita e a deixar cair aquilo que ainda em julho considerava essencial e indispensável: um governo com apoio parlamentar maioritário.
Mas, pelos vistos, isso não se aplica aos governos de direita. Só valia se fosse o PS a ganhar as eleições sem maioria absoluta, que seria forçado a aliar-se à direita para ser empossado.
Decididamente, de Cavaco Silva nunca sabemos até onde pode ir a sua dualidade de critérios em função da sua simpatia ou antipatia política.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Ficção

A situação pós-eleitoral está a tornar-se surrealista.
O PCP e o BE fingem que querem governar com o PS e propõem negociações. O PR e a coligação PSD-CDS fingem que é possível atrelar o PS ao governo de direita e propõem negociações. E, para não parecer ser o mau da fita, o PS resolve entrar na dança ficcional e finge-se disposto a negociar com todos.
No fim, os factos são factos. Incontornáveis. O PS não pode casar-se com a extrema esquerda parlamentar nem amantizar-se com o governo de direita. Será que é preciso um desenho para explicar?!

"King maker"

Ilude-se quem pensa que no novo quadro parlamentar o PS se encontra enfraquecido e "encurralado" entre o Governo e a esquerda radical. Pelo contrário. Na sua posição de charneira, fazendo maioria com o Governo, por um lado, e com o PCP e o BE, por outro, o PS acaba por ser o king maker desta AR!
O PS fica com um poder que poucas vezes teve no Parlamento, na medida em que, como se viu no post anterior, dele depende a viabilização (ou não) da generalidade das propostas governamentais bem como a viabilização (ou não) das propostas da extrema-esquerda parlamentar.
E além de poder manter o Governo sob rédea curta, cabe-lhe também em última instância o poder extremo de fazer cair o Governo, se tal lhe convier, mediante moção de censura. Só tem de ser prudente e responsável para não dar ao Governo um pretexto para este pedir, ele mesmo, eleições antecipadas quando lhe convier, dramatizando uma alegada "falta de condições para governar".

A diferença

1. Erra quem julga que o novo Governo PSD-CDS é apenas mais um governo minoritário que vai ter de negociar com as oposições todas as medidas políticas e legislativas, tal como outros governos minoritários antes dele.
Na verdade, formado por uma coligação de toda a direita, sem nenhum partido à sua direita, o Governo só pode negociar à sua esquerda, ao contrário dos governos minoritários do PS, que podiam procurar apoios alternadamente à esquerda ou à direita, conforme os casos. Agora não somente é mais fácil haver convergência de toda a oposição (que têm a maioria dos deputados) contra medidas do Governo (por exemplo, a "plafonização" das pensões) mas também para aprovar medidas contra o Governo (por exemplo, revogar as taxas moderadoras na IVG ou reduzir o IVA na restauração).

2. Nesta perspetiva, a questão do orçamento torna-se assaz vulnerável para o Governo.
Ao contrário do que tem sido dito por comentadores apressados, não se trata de saber se a oposição vai chumbar o orçamento. Não precisa. Sendo a proposta de orçamento livremente modificável na AR, o que está em causa é saber como é que o Governo pode impedir a oposição de fazer outro orçamento. Este vai ser indubitavelmente o primeiro grande teste do Governo.

Siria - o vácuo deixado pela UE

"A intervenção da Rússia na Síria, em socorro de Assad - que é origem do conflito e nunca será parte da solução - é pérfida por, a pretexto de atacar terroristas, bombardear patriotas sírios.
Mas é também reflexo do falhanço da UE em se concertar e empenhar para pôr fim à guerra, envolvendo minorias sírias e potências regionais na busca de uma solução política, e para  combater o terrorismo do Estado Islâmico. 
No Curdistão iraquiano, onde voltei no mês passado, os Estados Membros não se coordenam, nem para articular ajuda humanitária e de desenvolvimento garantindo escolas nos campos de refugiados e deslocados, nem para treinar, equipar e apoiar diplomaticamente os Peshmerga, que são as únicas tropas no terreno contendo o Daesh no Iraque, apesar do governo de Bagdad continuar a pagar salários em Mossul para render taxas ao Daesh, e na Síria - onde os curdos são traiçoeiramente bombardeados pela Turquia de Erdogan.
No momento em que o acordo nuclear com o Irão abre caminhos para negociar uma solução de paz para a Síria e para o Yemen, que implica por a Arábia Saudita perante as consequências da sua duplicidade, os governos europeus continuam a boicotar Política Externa e de Segurança Comum e Política Comum de Segurança e Defesa, alimentando assim as causas do êxodo de refugiados e a expansão do Estado Islâmico, agora já também na Líbia. Na prática, comprometem a segurança dos seus cidadãos e da própria Europa"

Minha intervenção hoje, no plenário do PE, em debate sobre a situação na Síria

Má-fé

Não deixa de ser patético ver a extrema-esquerda parlamentar, que há quatro anos se aliou vergonhosamente à direita para derrubar o Governo do PS e que nestas eleições tratou o PS como se fora o inimigo principal, vir agora desafiar o PS para formar governo com eles!
É óbvio que se trata somente de mais uma "jogada para a bancada" sem um mínimo de seriedade, sabendo que nenhum Governo responsável pode fugir às obrigações de rigor orçamental e de redução da dívida pública que assumiu no quadro da UE e da zona euro, incluindo as decorrentes do Tratado Orçamental, que eles abominam. A formar-se um tal Governo, ele só duraria até ao primeiro orçamento, quando os infiéis parceiros se apressariam a tirar o tapete ao PS.
É esta indecorosa encenação política do PCP e do BE que o PS tem de desmascarar.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Sem sentido

Ou Belém desatinou, ou esta proposta presidencial de associar o PS à sustentação do Governo PSD-CDS não passa de mais um frete à direita, permitindo a Passos Coelho fazer uma flor com uma proposta de negociação ao PS e depois poder queixar-se de que o PS recusou apoiar o Governo.
É evidente que não faz sentido absolutamente nenhum uma solução governativa a três.  Rejeitando, e bem, uma solução de governo à esquerda, porque não tem viabilidade política, o PS não pode agora entrar num ménage à trois com a direita. Pior a emenda do que o soneto. Seria suicidário.
Mais, mesmo que, mantendo-se à margem, venha a exigir compromissos elevantes ao Governo para o deixar passar na AR, o PS deve salvaguardar no fundamental a sua liberdade de ação (e de negociação) na oposição (obviamente oposição responsável).
Tudo o mais é hipocrisia política e perda de tempo.
[revisto]

Adenda
Na sua precipitação, Cavaco Silva colocou-se à margem da Constituição em dois aspetos: (i) procedeu à indigitação pública do primeiro-ministro sem ouvir previamente os demais partidos parlamentares, como a Lei Fundamental manda; e (ii) permitiu-se desenhar as linhas orientadoras do novo Governo, o que não cabe nas suas competências e incumbe ao primeiro-ministro.
Poderia porventura o Presidente da República produzir um discurso destes se houvesse condições para o Governo de coligação à esquerda, que ele teria de nomear, por dispor de maior parlamentar?

Líbia - o caos também resultou da falta de Europa...

"Que mais dizer sobre o caos e o desastre humanitário que ajudamos a criar na Líbia, por falta de acção europeia convergente e coordenada depois da queda de Kadaffi? Pela estupida negligência  em ajudar as autoridades transitórias na SSR/DDR (reforma do sector de segurança), assim deixando as milícias se tornarem em gangs criminosos e terroristas.
Senhor Comissário, não se iluda: a 7a. versão do acordo negociado pela ONU para um Governo de Unidade Nacional não deve vir a ser assinada em breve, segundo notícias de Tobruk e Tripoli de hoje.
Uma grande operação militar, segundo o modelo desastroso do Yemen, parece estar em preparação pelo General Heftar, aspirante a novo Khadaffi, contando com combatentes salafistas. Trágicas consequências cairão sobre o povo líbio, migrantes e outros estrangeiros dali a fugir. E inevitavelmente sobre a Europa também.
O falhanço europeu resulta da falta de União e, de facto, da rivalidade entre os nossos Estados Membros, por petróleo e outros interesses. Isto está a levar algumas capitais mais expostas à Líbia a contemplar uma intervenção militar, que vai exigir milhares de botas no terreno, para além da justificação legal.
Outro erro cometido por UE, EUA e ONU é pretender que tudo resulta apenas de faccionalismo interno e não denunciar e deter as potências que estão a alimentar uma "guerra por procuração" na Libia, nomeadamente a Arábia Saudita, o Egipto e os Emiratos apoiando o Governo em Tobruk; e a Turquia e o Qatar que apoiam a Irmandade Muçulmana no eixo Tripoli/Misrata. Ao nada fazer para travar esta "guerra por procuração", a UE está a permitir a expansão dos terroristas do Estado Islâmico e dos salafistas na Líbia. Isto é criminoso e não só contra o povo líbio, mas contra, também, os povos da Europa".

Minha intervenção hoje, em plenário do PE, sobre a situação na Líbia

Não à "fortaleza Europa"!

"Não, Presidente Tusk, a "fortaleza Europa" que parece querer não vai proteger os europeus.

Os governos no Conselho estão há muito tempo em negação e por isso hoje falham no acolhimento solidário aos refugiados, adiam a abertura de vias legais e seguras para não continuarmos a alimentar o negócio dos traficantes e falham no combate político, ideológico, diplomático e militar a causas da crise: guerra na Síria, caos na Líbia e Estado Islâmico em expansão. 

Estão a enganar os europeus com reacções nacionalistas que fragmentam a União, impedem acção coordenada, violando valores e princípios da UE, além de fazerem o jogo de terroristas que querem arrasar democracia e direitos humanos.

Os desafios com que estamos confrontados só se vencem com convergência estratégica, partilha e sinergia de recursos e de capacidades, com Política Externa e de Segurança e Defesa Comuns. Parem de as boicotar no Conselho! 

Precisamos de mais União e não de mais muros."

Minha intervenção hoje, em debate no PE sobre as "Conclusões do Conselho Informal de 23 de Setembro 2015"  com os Presidentes Tusk e Juncker

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Depois das eleições (3)

As eleições legislativas vão ter inevitavelmente consequências sobre as eleições presidenciais, que vão entrar imediatamente na agenda política, depois da suspensão destes meses.
À esquerda, com a derrota do PS nas legislativas, que é também uma derrota de António Costa, a candidatura de Sampaio da Nóvoa pode perder fôlego dentro do Partido (que aliás nunca foi muito...), tanto mais que Maria de Belém deve anunciar a sua candidatura sem demora e tomar a dianteira no centro-esquerda. Neste quadro o mais provável é que o PS não tenha condições para apoiar oficialmente qualquer candidato na primeira volta, o que condena a candidatura de Nóvoa ao insucesso (tanto mais que o seu único apoio partidário oficial, o Livre, falhou rotundamente a sua aposta política nas eleições parlamentares).
À direita mantém-se também em aberto a possibilidade de dois candidatos, com igual abstenção de posição oficial dos partidos governamentais. Neste contexto, aumentam as chances eleitorais de Marcelo Rebelo de Sousa, não só por causa da sua maior visibilidade e notoriedade mas também pelos recursos e meios políticos, financeiros e mediáticos (mais importantes do que os outros) de que vai dispor.

Adenda
Como aqui se previa, o PS decidiu dar liberdade de voto aos militantes nas eleições presidenciais. Neste quadro torna-se problemática a manutenção da candidatura de Sampaio da Nóvoa, que dependia do apoio socialista.

Depois das eleições (2)

António Costa rejeitou liminarmente a hipótese de uma "maioria do contra" (com o PCP e o Bloco) para derrubar o futuro Governo minoritário da coligação PSD-CDS, sem porém excluir de todo em todo uma futura alternativa de governo maioritário à esquerda que viabilize uma "moção de censura construtiva".
Não vejo a vantagem de ter deixado essa questão em aberto, sabendo que uma tal "coligação positiva" necessitaria do BE e do PCP e que infelizmente não existe nenhuma diferença entre eles quando à impossibilidade de constituir um governo com o PS no quadro das nossas obrigações na UE (incluindo o euro e o Tratado Orçamental).

Depois das eleições (1)

António Costa fez bem em não se demitir, quebrando assim a fatal conexão entre derrota eleitoral e demissão do líder partidário em funções.
Entendo, todavia, que ele deveria ter anunciado a convocação de um congresso para depois das eleições presidenciais, a fim de refrescar a sua legitimidade política, assim travando a tentação para um desafio imediato à sua liderança. Não o tendo feito, não é de excluir que esse desafio venha a surgir e que tenhamos novamente eleições antecipadas internas, com os inerentes custos financeiros e políticos para o PS.

Adenda
Já existe um challenger...

Adenda 2
E também vai haver Congresso...

Eleições (7)

Ao contrário quase tudo correu mal no PS.
E não foi somente a retoma económica e do consumo privado, que ajudou a direita, e a radicalização à esquerda, que ajudou o PCP e o BE. Também não foram somente o "fator Sócrates" e o "fator Seguro", mais a cena do cartazes que perturbaram a campanha.
A meu ver, a principal falha do PS nestas eleições foi não ter aprendido a lição da derrota do Labour há uns meses no Reino Unido. Também aí a oposição de esquerda centrou a sua campanha na crítica radical da austeridade orçamental, negando a retoma em curso, e num programa alternativo despesista e confuso, facilitando ao Governo erigir como fator decisivo o risco político de uma vitória do Labour.
Como aqui fui assinalando (por exemplo, aqui e aqui), o PS deveria ter combatido decididamente o suposto "risco da vitória do PS", tranquilizando convincentemente o eleitorado flutuante do centro sobre a estabilidade financeira e a estabilidade política. O PS não só não o fez como agravou a situação, insinuando a possibilidade de uma aliança de governo com a extrema-esquerda, só tendo corrigido o tiro tardiamente. Aliás, isso não atenuou, antes pelo contrario, a extraordinária agressividade do BE e do PCP contra o PS, como se este fosse o Governo e fosse o inimigo principal a abater.
Ao tentar competir com a extrema-esquerda pelo voto radical, o que se revelou infrutífero (os radicais preferem o original...), o PS enfraqueceu a sua capacidade de disputar o voto do centro, que é onde se ganham as eleições. Perdeu a batalha em ambos os tabuleiros.
Neste contexto, de pouco valeu a convicção, seriedade, determinação e combatividade de António Costa e a o empenho de quase todo o Partido. Há lutas inglórias, assim.
[revisto]

Eleições (6)

É preciso tentar compreender os resultados eleitorais.
Quanto à coligação de direita, tudo lhe correu bem. Teve ajuda decisiva de fatores externos, como a retoma da economia da zona euro, a baixa de juros provocada pelo BCE, a enorme descida do preço do petróleo, etc. Utilizou sem escrúpulos a máquina do Estado e o dinheiro público na campanha eleitoral, com centenas de milhões despejados sobre alguns setores-chave (colégios privados, produtores de leite, pessoal do SNS, etc.). Teve a seu favor a generalidade da comunicação social e um exército de editorialistas e de comentadores combativos. Não escassearam recursos nem meios durante a campanha.
Mas não podemos desvalorizar-se os méritos políticos da própria campanha da direita, bem organizada, bem focada e bem sintonizada. E acima de tudo, estrategicamente centrada sobre um argumento que provou ser decisivo, que foi o da segurança e estabilidade na saída da crise oferecida pela coligação contra o risco e o perigo de regresso atrás imputados ao PS.

Eleições (5)

Esta manhã procuro nos sites dos órgãos de informação a nova composição da AR discriminada por partidos, que são quem propõe candidatos e elege deputados. Em vão. Continuam a apresentar os "deputados da PaF", sem discriminação entre os deputados do PSD e os do CDS. Ora, as coligações eleitorais extinguem-se com as eleições e a AR é composta por partidos.
É isto o jornalismo que temos!

Eleições (4)

1. Tendo a coligação PSD+CDS ganho as eleições, embora sem maioria absoluta, e sendo o PSD o maior partido parlamentar, vamos ter mais um governo minoritário da direita (o que já não sucedia há trinta anos), dado estar fora de causa um acordo de governo com o PS assim como uma coligação de governo alternativa do PS com os partidos à sua esquerda, como o líder do PS bem expôs.
O que há de original é o facto de ser o primeiro governo minoritário de coligação.
O Presidente da República vai ter de esquecer a sua ideia de um governo com apoio parlamentar maioritário, que aliás já tinha convenientemente omitido na sua mensagem pública nas vésperas das eleições.

2. Esta situação governativa vai ser especialmente exigente para o PS, que vai ter de conjugar uma oposição forte mas responsável com a resistência às pressões do PCP e do BE para um derrube conjunto do Governo. Como mostrei aqui, sendo impossível um governo da pretensa "maioria de esquerda",  o PS sabe que só pode permitir-se derrubar o governo quando esteja em condições de ganhar as eleições que inevitavelmente se seguiriam.

Eleições (3)

Os resultados demonstraram as virtudes das coligações eleitorais, como aqui se assinalou, permitindo transformar derrotas previsíveis em vitórias,
Por um lado, tendo em conta que a coligação de direita só teve uma vantagem de 6 pp sobre o PS e que o CDS vale mais do que isso, parece seguro concluir que, se ambos tivessem concorrido separados, o PSD teria ficado atrás do PS, que teria ganho as eleições. Por outro lado, a junção dos votos permitiu uma majoração do número de deputados eleitos, que podemos cifrar sem nenhum exagero num boa meia dúzia de deputados a mais do que teriam os dois partidos somados se tivessem concorrido separados, permitindo ao PSD surgir com a maior representação parlamentar.
Chapeau!

Eleições (2)

A multiplicação de partidos candidatos às eleições não trouxe uma correspondente fragmentação da representação parlamentar.
Sem grande surpresa, como aqui se foi antecipando, tanto o Livre/TdA como o PDR ficaram pelo caminho, verificada a sua inanidade política e a falta de espaço político próprio.
Surpresa é a eleição de um deputado do PAN (Pessoas, Animais, Natureza), o que vai permitir colocar na agenda política questões como a eucaliptização galopante do país e as touradas. Bem-vindos!

Eleições (1)

1. Como a generalidade das sondagens indicavam, a Coligação PSD/CDS ganhou folgadamente as eleições, com cerca de 38% dos votos e cerca de 6 pp de vantagem sobre o PS, mas longe da maioria absoluta com que chegou a sonhar, com base em sondagens ou previsões pouco sérias. Mercê dessa vantagem o PSD é também o partido com maior representação parlamentar, o que afasta a questão por mim suscitada caso a Coligação ganhasse as eleições sem que o PSD tivesse mais deputados do que o PS.

2. Com menos de 33% dos votos o PS fica muito aquém dos seus objetivos eleitorais, ficando mesmo abaixo da média do partido nas eleições parlamentares realizadas atá agora (33,32%). Claramente, parafraseando um dito camoniano, o PS não ganhou o centro por amor à esquerda e não ganhou a esquerda por amor ao centro.

3. Em relação às eleições de 2011, os partidos de direita perdem 13 pp e o PS ganha 4,5 pp. Quem beneficia da diferença é sobretudo a esquerda à esquerda do PS (com relevo para o BE), que em conjunto alcança cerca de 18,5% e que sobe uns 6 pp em relação a 2011, ultrapassando o seu melhor resultado histórico.
Um feito que traduz a acrescida radicalização política trazida pela recessão e pela crise social dos últimos quatro anos.
[revisto]

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

As aparências iludem

1. Os círculos políticos e mediáticos afetos à direita conseguiram apresentar as sondagens eleitorais como uma surpreendente "vitória da coligação" e uma inesperada "derrota do PS". Mas as coisas podem não ser bem assim. Um pouco de história eleitoral dá outra perspetiva.

2. De facto, quanto ao primeiro aspeto, mesmo que a coligação tivesse os 37,7% que as últimas sondagem lhe dão em média, esse seria de longe o segundo pior resultado dos dois partidos somados desde sempre (só fizeram pior em 2005), além de perderem de mais de 13 pp desde 2011!
Quanto à surpresa da "derrota"  do  PS, também é de assinalar que em todas as 13 eleições até agora realizadas o PS só teve mais votos e deputados do que os dois partidos da direita em três delas (1995, 1999 e 2005), tendo ganho outras três com menos votos e deputados do que a soma dos dois (1976, 1983, 2009). Importa também referir que três das seis vitorias do PS foram obtidas com menos de 37% dos votos, sendo uma delas com 34,87% (1976), não muito acima do que as sondagens agora lhe dão e com os dois partidos da direita a somar mais de 40% (muito acima do que se prevê que tenham agora).

3. Mais importante do que isso é saber que a eventual vitória eleitoral da coligação não dá ao PSD automaticamente uma maioria de deputados, havendo que descontar os do CDS. Se o PS, mesmo com menos votos do que o PSD e o CDS juntos, tiver mais deputados do que o PSD, o partido vencedor das eleições é afinal o PS, como maior partido parlamentar, como sucedeu no passado nas três referidas situações.

"Asfixia democrática"

Ao longo desta campanha eleitoral foi-se tornando claro que a Coligação de direita não era composta só pelos dois partidos que a formaram mas também por um outro poderoso parceiro, a comunicação social, sobretudo através dos seus editorialistas e comentadores, esmagadoramente alinhados com as suas posições.
Com exceção da televisão e da rádio públicas e pouco mais, a generalidade dos media mandou a imparcialidade e a isenção política às urtigas e tomou partido contra o PS, embora sem ter a coragem de o assumir explicitamente, como é norma em alguns países. Na televisão de sinal aberto em especial, a confusão entre "comentador político" e "comentador de direita" tornou-se uma tautologia, como alguém disse certeiramente. Os dois comentadores mais mediáticos, por coincidência ex-presidentes e ex-ministros do PSD, não tiveram escrúpulos políticos em manter o seu programa durante a campanha eleitoral e em saltar do estúdio para o comício e vice-versa. Duvido que isso ocorra em algum outro país democrático.
A democracia liberal supõe um "mercado livre de ideais e de opiniões". Mas como sucede com o mercado de bens e serviços, é precisa uma concorrência efetiva que impeça monopólios no acesso e abusos de posição dominante no debate político nos meios de comunicação, sob pena de se cair na "asfixia democrática" que há anos um dirigente político da direita denunciou com muito menos fundamentos do que hoje.


Voto radical

Um dos pontos interessantes a observar é a votação nos partidos à esquerda do PS, nomeadamente PCP e BE.
As sondagens revelam um crescimento dos dois partidos em relação a 2011, o que traduz o aumento do voto radical resistente à lógica do voto útil no PS. Resta saber se o PCP e o BE vão superar em conjunto o score de 2009 (17% e 31 deputados), mesmo assim longe dos resultados das primeiras eleições do regime democrático, em que esse setor, nessa altura hegemonizado pelo PCP, ultrapassou os 18% e chegou aos 44 deputados (1983).
Incerta também é a possibilidade de o Livre / TPA eleger deputados, havendo indicações de que ele pode estar a ser esvaziado pela pressão do voto útil no PS e pela dinâmica revelada pelo BE.

Manigâncias


1. A ideia de criar um grupo parlamentar conjunto do PSD e do CDS, caso a coligação eleitoral entre ambos tinha mais votos mas o PSD tenha menos deputados do que o PS  constitui uma canhestra manobra política em que só os seus autores podem acreditar. Além de não resolver nada, a ideia é estúpida.
Primeiro, não resolve nada, porque o PSD continuaria a não ser o primeiro partido na AR. O grupo parlamentar conjunto não daria ao PSD os deputados que lhe faltem. Os deputados do CDS não se podem transferir para o PSD, pois perderiam o mandato.
Segundo, seria um solução estúpida, pois os dois partidos deixariam de ser considerados separadamente para efeitos de composição da mesa da AR, de composição e repartição das presidências das comissões parlamentares, de tempos de intervenção, de número de interpelações, etc. Não é por acaso que nunca houve nenhum grupo parlamentar conjunto até agora em quatro décadas de regime constitucional entre nós.

2. Mas esta manobra mostra até que ponto a direita pode ir no desrespeito pela democracia parlamentar na sua ânsia de manter o poder a todo o custo.
Numa democracia representativa de base partidária, as eleições servem para medir a representatividade dos partidos, que são os únicos dramatis personae de uma demoracia parlamentar. O facto de alegadamente os dois partidos terem feito um acordo para governarem em comum só os vincula a eles e só tem efeitos se o PSD for chamado a formar governo, para o que só é elegível à partida se for o maior partido parlamentar.
Não há golpe de secretaria que supere o eventual défice de representatividade parlamentar do PSD.

Adenda
Afinal, a peregrina ideia do grupo parlamentar conjunto viola explicitamente o próprio acordo de coligação eleitoral entre o PSD e o CDS. Lá se vai a precipitada manigância!

Manipulação (quase) absoluta


A campanha militante e descarada dos média a favor da coligação de direita - que é um dos traços marcantes destas eleições - atinge em alguns casos foros da mais ostensiva manipulação informativa, como nesta manchete do Sol de hoje.
Primeiro, o semanário atribui uma média de 41% à coligação nas sondagens; ora, as sondagens referidas pelo próprio semanário não dão essa média e as três sondagens ontem publicadas (muito próximas entre si) dão uma média inferior a 38%. Mesmo com esse bónus superior a 3%, a coligação de direita não atinge a maioria absoluta (a não ser que agregasse os três deputados imaginados para o PDR!...), pelo que a manchete a subentender o contrário é pura manipulação.
Segundo, no diagrama do hipotético parlamento resultante dessa previsão, é apresentada a soma dos deputados do PSD e do CDS, sem discriminação do número de cada um, como se a coligação se mantivesse depois das eleições, o que, como se sabe, não é verdade. Ora, mesmo com o generoso bónus que o semanário dá aos dois partidos em conjunto, o PSD tem somente mais seis deputados do que o PS, o que deixa entender que com os resultados bem inferiores das sondagens de ontem para a coligação de direita os socialistas poderiam ter o maior grupo parlamentar, o que poria em causa a legitimidade do PSD para formar governo.

É viável uma coligação de governo à esquerda?


Eis a introdução da minha coluna semanal de ontem no Diário Económico, ou por que é que não é viável uma coligação do PS com o PCP nem com o BE.

Adenda
António Costa já veio dizer que não está a pensar num governo de coligação mas sim num governo do PS com entendimentos de geometria variável com outros partidos. Parece-me, porém, que esse esclarecimento, que a meu ver é crucial, precisa de maior difusão.

O que está em causa

As três sondagens eleitorais ontem divulgadas -- com resultados muito próximos entre si -- permitem duas conclusões. Por um lado, embora continuem a colocar a coligação PSD+CDS à frente, com uma média de 37,7% , ela está em perda, longe dos 40% que chegou a atingir há dias (e com menos 13 pp do que em 2011!). Por outro lado, o PS, com uma média de 32,5%, fica acima de anteriores sondagens e encurta a distância para a coligação, agora de cerca de 5 pp.
A serem estes os resultados finais - o que pode não ser o caso se se confirmar a perda de força da Coligação -, a conclusão mais óbvia é que se esfumou definitivamente a miragem da maioria absoluta que perpassou pelas hostes da direita. Além disso, se se verificar uma redução da margem sobre o PS para baixo dos 5%, então é provável que o PSD nem sequer seja o partido com mais deputados, perdendo então qualquer legitimidade para formar governo.
E é isso que está em causa!

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Aventureirismo político

O Livre /TPA veio propor um pacto pré-eleitoral entre todas as forças de esquerda comprometendo-se antecipadamente a negociar entre eles uma solução governativa pós-eleitoral e a "chumbar" um eventual governo minoritário da direita.
Assim se revela a compulsiva tendência de algumas esquerdas para o aventureirismo suicidário. Um pacto desses seria uma benção para a coligação PSD-CDS, não somente porque traduziria uma confissão de derrota antecipada do PS mas principalmente porque arruinaria as suas hipóteses de disputar o eleitorado indeciso do centro, que não anseia propriamente por um governo de todas as esquerdas. Em segundo lugar - sob pena de repetir o disparate de 1997, em que o PS alinhou irresponsavelmente no derrube do Governo minoritário de Cavaco Silva sem ter uma alternativa, assim abrindo caminho à primeira maioria absoluta cavaquista -, o PS não pode nunca comprometer-se antecipadamente no derrube de um eventual governo minoritário da direita sem dispor concretamente de uma alternativa de governo maioritário credível e sólida.
O PS é um partido de esquerda mas é um partido responsável e de governo. O PS não pode portanto alinhar em aventuras destas. A prioridade do PS deve continuar a de lutar por eleger mais deputados e ter direito a formar governo e não a de especular sobre o que fazer se for a direita a ganhar as eleições.
Decididamente, com potenciais aliados como este, o PS não precisa de adversários!

"Plano B"

Portas desafia Costa a esclarecer como vai governar se o PS ganhar sem maioria absoluta. Mas é evidente que ele deveria começar por responder ele mesmo justamente a esse mesmo desafio: como vão o PSD e o CDS governar se forem eles a ganhar sem maioria absoluta?
Ora, como tem argumentado, com razão, António Costa, será mais fácil ao PS encontrar apoios à sua esquerda e à sua direita (conforme os temas), visto que se encontra no centro do espetro político e parlamentar, do que a uma eventual coligação PSD-CDS, que está acantonada à direita do leque político-parlamentar, não tendo ninguém com quem negociar desse lado.
Além disso, enquanto o PS tem uma larga experiência de governar sem maioria parlamentar (e até conseguiu cumprir uma legislatura inteira nessas condições -- o I Governo Guterres, 1995-1999), a direita só tem a longínqua experiência do efémero Governo Cavaco Silva I (1985-1987).
Portanto, no campeonato dos governos sem maioria absoluta, o PS ganha claramente, não é?

Formação do Governo

1. Um leitor pergunta-me se o Presidente da República pode estabelecer condições prévias à escolha do primeiro-ministro depois das eleições e se isso pode levar à nomeação de um primeiro-ministro que não seja o líder do partido com maior representação parlamentar (seja o PSD ou o PS).

2. No nosso sistema político-constitucional, a formação de um novo Governo depois das eleições parlamentares ocorre em duas fases.
Primeiro, há a indigitação do primeiro-ministro e a sua nomeação, que naturalmente deve recair no líder do partido com maior representação parlamentar, mesmo sem maioria absoluta; trata-se do único critério objetivo compatível com a Constituição (e assim sucedeu sempre). Depois, há a sujeição do Governo à apreciação parlamentar, só podendo ser rejeitado por uma maioria absoluta dos deputados. Este sistema permite a "investidura por inércia" de governos minoritários, que "passam" sem ser explicitamente  rejeitados, ou porque nem sequer houve proposta de rejeição ou porque ela não obteve a referida maioria.
Ao longo destas quatro décadas, nenhum dos vários governos minoritários saídos de eleições foi rejeitado na sua passagem pelo Parlamento. Mas nada garante que assim continue a ser.

3. Respondendo agora à questão concreta: pode o PR estabelecer condições prévias à nomeação do Primeiro-Ministro? A reposta é: pode, desde que sejam condições objetivas e não discriminatórias. Assim, se o maior partido não dispuser de maioria parlamentar absoluta, o PR pode exigir a garantia de apoio parlamentar maioritário, mediante coligação governativa ou acordo formal de sustentação parlamentar (tal como anunciado várias vezes por Cavaco Silva).
Desse modo, se o primeiro indigitado primeiro-ministro não conseguir satisfazer essa condição, poderá ser nomeado primeiro-ministro outro candidato que o consiga.

4. Note-se, no entanto, que entre nós o PR não tem meios de forçar os indigitados primeiros-ministros a formar governos com apoio parlamentar maioritário, pois não dispõe do poder de ameaçar com a convocação imediata de novas eleições (inconsequentemente a Constituição proíbe a dissolução da AR nos primeiros seis meses depois de uma eleição).
Ora, como o PR tem de nomear efetivamente um novo Governo (pois o Governo cessante perdeu legitimidade política e está em simples funções de gestão), o PR pode ter de abandonar a sua condição de governo maioritário numa segunda ronda e conformar-se com um governo minoritário do partido com maior representação parlamentar (eventualmente tornado menos minoritário mediante aliança com outro).
E se este for rejeitado na AR, o PR tem de voltar ao princípio, até haver um Governo em plenitude de funções.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Vodka com laranja


Esta revelação do Expresso explica a extraordinária agressividade da campanha eleitoral comunista contra o PS, muito mais virulenta do que contra a própria coligação de direita, como se fosse aquele e não esta que esteve no governo estes quatro anos.
É evidente o interesse objetivo da direita em que o PCP não perca votos para o PS. O que já surpreende é que essa aliança objetiva se transforme numa cumplicidade subjetiva...

A inventona do "risco de uma vitória do PS"


A coligação da direita passou a sua campanha a agitar com êxito o espantalho do "risco de uma vitória do PS" para as contas públicas e para a economia (a que infelizmente o PS não soube opor-se eficazmente).
Este conhecido gestor, que se situa no centro-direita e que não é dado a hipocrisias, coloca as coisas no seu devido pé. Uma voz de sensatez.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Rigor orçamental


Eu também quero crer que o rigor orçamental (o que não é bem a mesma coisa que austeridade orçamental) veio para ficar, quem quer que ganhe as eleições. Mas é indesmentível que há pessoas que receiam que uma vitória do PS posso trazer de novo o descontrolo das contas públicas, pondo em causa a estabilidade financeira do País. Por isso, penso que o PS deveria afastar decididamente esse receio, sob pena de alienar ingloriamente o apoio desses eleitores.

Assimetria


O Jornal de Notícias revela uma coisa óbvia, a saber que as coligações eleitorais favorecem os partidos coligados, os quais, pela junção dos respetivos votos, elegem mais deputados em conjunto do que elegeriam separadamente.
De resto, os dois partidos da direita só fizeram a coligação justamente para esconder ou atenuar a sua previsível derrota (pelo menos na altura da sua constituição) e para maximizar o número de deputados eleitos. Teoricamente o PSD e o CDS podem eleger mais deputados do que o PS mesmo que tenham menos votos.
Enquanto a direita se entende e concentra forças, à esquerda prevalece a fragmentação (ainda maior do que usualmente). O resultado é o desperdício de muitos votos à esquerda e o menor custo eleitoral dos deputados da direita...

Treinador de bancada

Sempre sob dois fogos cruzados - atacado pela direita por uma suposta "guinada à esquerda" e pela esquerda radical por alegadas "políticas de direita" -, o PS hesita entre competir com a coligação de direita pelo voto do centro ou competir com o PCP e o Bloco pelo voto de esquerda, tentando não desguarnecer nenhum dos flancos.
Há quem defenda que, sendo profundo o descontentamento popular com o Governo, o PS deve privilegiar a atração do voto à esquerda. Não estou convencido. Não recordo nenhuma vitória eleitoral (do PS ou do PSD) sem cativar a maioria do eleitorado flutuante do centro (que, por definição, não é adepto de mudanças radicais nem do risco político). É aí que se decidem sempre as eleições.

Secessão


Embora sem maioria absoluta de votos, os partidos independentistas catalães obtiveram uma maioria absoluta de deputados no parlamento regional (fonte da imagem: El País), o que consubstancia mais um passo no sentido de secessão catalã. A intransigência negocial do PP espanhol e a incapacidade de ter avançado a tempo com uma solução federal - única via para salvar a unidade de Estados plurinacionais - arrisca tornar o processo separatista irreversível.
Quanto à relação de forças entre os partidos nacionais, o Cidadãos (25 deputados) supera de longe o PP (11) mas o Podemos (11) não conseguiu ultrapassar os socialistas (mesmo assim reduzidos a 16 deputados). Resta saber se estes resultados dizem alguma coisa quanto às eleições parlamentares nacionais, a realizar em novembro próximo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Esperança


Lentamente, as touradas - essa barbárie ibérica que nos envergonha no mundo - vão recuando em Espanha, como mostra este mapa publicado pelo El País, incluindo a proibição pura e simples (Canárias, Catalunha, Palma de Maiorca, etc.) e o fim das subvenções municipais. Referendos sobre a proibição estão marcados em várias cidades. Apesar do poderoso lóbi tauromáquico, a história da decência humana avança.
Em Portugal, dada a existência de "aficionados" da tortura animal em todos os partidos, não é provável que algum tome uma iniciativa contra as touradas. Por isso, para quando um referendo sobre o assunto?