
Pede-me um leitor para publicar mais fotografias de Borobudur (ver post de há dias). A Internet está carregada delas. Basta porcurar pelo nome no Google. Eu fiz muitas dezenas. Aqui vai uma.
Blogue fundado em 22 de Novembro de 2003 por Ana Gomes, Jorge Wemans, Luís Filipe Borges, Luís Nazaré, Luís Osório, Maria Manuel Leitão Marques, Vicente Jorge Silva e Vital Moreira
| Sei que há quem pense que tenho um preconceito contra o Expresso. E tenho. Não lhe perdoo o facilitismo, a tentação pela intriga cortesã, a perda de qualidade, os links pagos e os três euros que me obriga a gastar todos os sábados (ossos do ofício...). O fair play obriga-me porém a saudar o último artigo de Nicolau Santos no suplemento Economia, intitulado "9 compromissos até 2010". Recomendo vivamente a sua leitura a toda a classe política.
Luís Nazaré |
Quando, há três meses atrás, atribuímos o prémio Causa Nossa "5ª dimensão" ao director do semanário de referência, julgávamos que o Arquitecto tinha finalmente atingido o seu Nirvana e que os novos afazeres celestiais o impediriam de nos deliciar com novas epístolas. Puro engano. É que o Arquitecto arranjou uma maneira astuciosa de continuar a transmitir-nos as suas revelações ao sábado - através dos seus alter-egos. Esta semana, foi Óscar Niemeyer.
Com os casos de sucesso de Islamabade e Brasília como bandeiras, o Arquitecto desenvolve uma sublime argumentação em favor de uma nova capital. Com a visão celestial de que dispõe, já tratou até de escolher o melhor sítio - algures num triângulo cujos vértices são Castelo Branco, Portalegre e Abrantes. Seria "uma cidade construída de novo, (?) moderna, projectada por arquitectos contemporâneos, voltada para o futuro, capaz de ficar como um marco do nosso tempo".
Na reunião dominical do Clube de Reflexão Expresso, alguns dos meus amigos mais simplistas não alcançaram a elevação intelectual do Arquitecto, ridicularizando-lhe os propósitos e as justificações. Mas quando alguém tentou equipará-lo ao célebre Mr. Chance, aí insurgi-me. Com que direito punham em causa a omnisciência do Arquitecto? Ou será que não tinham pura e simplesmente percebido a fina subtileza das suas razões, confundindo-as com um rol de tontices infantis? Esperem para ver.
Por mim, não duvido por um instante da visão do Arquitecto. Como ele humildemente relembra na sua mensagem de ontem, quantas ideias originais e grandiosas não foram já anunciadas em epístolas anteriores, para bem do país? Vou mais longe: o projecto da nova capital deveria ser entregue ao único espírito capaz de apreender o seu alcance, o próprio Arquitecto. Para começar, trataria de convencer os críticos com um projecto-piloto. Através de outro dos seus alter-egos, o de director do semanário de referência, é só mudar a sede do Expresso - talvez mesmo da Impresa - para Alcains. Vão ver como todos ficarão rendidos à Ideia.
Luís Nazaré
David Gray é um inglês criado em Gales que a Irlanda adora. Tem um daqueles rostos raros, de idade indefinida, mas andará algures entre os 29 e os 41 (prefiro manter o mistério em vez de me dar ao trabalho de pesquisar). Descobri o álbum "White Ladder" depois de ver uma pequena reportagem sobre o singer/songwriter no "Music Room" da CNN, num daqueles felizes acasos do zapping. Agora, um amigo atento descobriu o DVD com a actuação de David em 2000, no The Point, em Dublin. Um concerto memorável de um homem que "just sings his heart out". Como diz um amigo de Gray no documentário que acompanha o concerto, David "parece um hooligan". E parece mesmo. No documentário, aparenta ser um homem rude, com pouco a dizer. Depois, ao vivo, surge a poesia e a voz terna que pareceram religiosamente guardadas para aquele momento. E David Gray escreve assim:
SHINE
I can see it in your eyes
what I know in my heart is true
that our love it has faded
like the summer run through
so we'll walk down the shoreline
one last time together
feel the wind blow our wanderin' hearts
like a feather
but who knows what's waiting
in the wings of time
dry your eyes
we gotta go where we can shine
Don't be hiding in sorrow
or clinging to the past
with your beauty so precious
and the season so fast
no matter how cold the horizon appear
or how far the first night
when I held you near
you gotta rise from these ashes
like a bird of flame
step out of the shadow
we've gotta go where we can shine
For all that we struggle
for all we pretend
it don't come down to nothing
except love in the end
and ours is a road
that is strewn with goodbyes
but as it unfolds
as it all unwinds
remember your soul is the one thing
you can't compromise
take my hand
we're gonna go where we can shine
we're gonna go where we can shine
we're gonna go where we can shine
(and look, and look)
Through the windows of midnight
moonfoam and silver.
De resto, o homem veste todo de ganga, com uma camisa de turista pé-descalço dois números acima do devido, e toca um violão esfarrapado e com nódoas de cerveja. É um cruzamento entre Bob Dylan e Bryan Ferry com uns pózinhos de Zeca Afonso. Tão difícil de catalogar como isto, e absolutamente fora de moda - nas suas baladas épicas e charme de emigrante que retorna à vila. E isso, nos tempos espectaculares que correm, é bom, muito bom.
Quando há vinte e cinco anos atrás me filiei no PS, fi-lo em nome de uma matriz de valores e de um ideal de sociedade. Revia-me no exemplo de figuras grandes da democracia e da liberdade, como Mário Soares, Manuel Alegre ou Salgado Zenha. Acreditava num mundo melhor, mais justo e mais igual nas oportunidades, onde a humanidade se pudesse exprimir de modo livre, solidário e empenhado na procura da paz e do bem-estar geral. Nada mudou nos meus ideais - como nada de essencial muda nos dos crentes -, mas seria tolo se não percebesse que a vida na Terra se transformou por completo neste último quarto de século. Ou a esquerda o entende e arquiva alguns dos seus mitos na secção dos registos simbólicos, como sempre souberam fazer os crentes não-fundamentalistas, ou arrisca-se a integrar o capítulo das ideologias perdidas na história do século XXI. É sobretudo este o combate que hoje se trava no PS entre os três candidatos à liderança, embora muitos creiam que tudo se resume a uma questão entre a "pureza de princípios" e o "artificialismo mediático". Não o é, ou pelo menos, não é essa a causa principal. No próximo congresso do PS, é o futuro do seu projecto político que está em jogo, não os seus valores. Para mim, José Sócrates é quem melhor poderá dar resposta aos desafios que se apresentam aos socialistas e aos portugueses em geral. Ao contrário do que dizem, não consigo distinguir nos restantes candidatos melhores conteúdos nem melhores estratégias. As únicas "ideias" que vi desenvolvidas foram a suspeita de chapelada eleitoral e o ataque à "falta de ideias" do seu antagonista. Pois bem, só tenho visto e lido ideias desenvolvidas por um candidato - José Sócrates. O seu artigo de ontem, no Diário de Notícias, enuncia com clareza a estratégia que pretende para o PS. As prioridades políticas que avançou, numa via de modernidade e progresso, não foram, que se saiba, objecto de qualquer comentário ou oposição por parte dos seus antagonistas. Será um problema de dotes mediáticos? Compreendo que, nos tempos santanistas que correm, grasse um forte sentimento de rejeição da superficialidade. Mas em nome de que princípio se poderá criticar quem melhor sabe transmitir as suas ideias? Sócrates é telegénico, bem-parecido e bem vestido? Ainda bem. Lembram-se das críticas ao ar sorumbático e intrincado de Ferro Rodrigues? Em que ficamos? PS - Manuel Alegre também não deixa os seus dotes de marketing por mãos alheias. Nenhum underwriter famoso desdenharia de contar no seu portfolio com uma frase tão exuberantemente publicitária quanto a tirada "Não sou um animal feroz, mas sou bom atirador". Temos show.
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