quinta-feira, 18 de agosto de 2005

Patifaria anónima

Com regularidade volta à tona a questão do anonimato na blogosfera. Creio que o problema não está no anonimato em si mesmo: pode haver motivos estimáveis para ele. O problema consiste em utilizar o anonimato, como alguns fazem (sobretudo nas caixas de comentários), para o insulto e a injúria, a denúncia falsa, o achincalhamento pessoal, o ataque racista e "hate speech" em geral. Ou seja, o que revolta é a patifaria anónima, patifaria mais grave justamente porque acobardada sob o anonimato.

O problema

Eu conheço pelo menos uma dúzia de pessoas que dariam excelentes presidentes da República. O problema é que, para o serem, precisam de ser eleitos...

quarta-feira, 17 de agosto de 2005

O insólito (1)


Quando a esperança não é a última a morrer!
Nampula, no norte de Moçambique.

Lugares de encanto

Guadiana acima, subitamente Mértola, na curva do rio (Agosto 2005).

Lugares de desencanto

Praia da ilha da Culatra, Algarve, Agosto 2005.

Investimentos públicos (4)

«Dizem-me que terei de desembolsar 1500 euros para suportar o TGV Lisboa-Madrid e Lisboa-Porto, para além do novo Aeroporto da Ota. Mas, até hoje, ainda não vi quem quer que fosse afirmar o quanto cada cidadão português deveria pagar em 2015, caso qualquer destes projectos não se materializasse. É, indubitavelmente, o objecto do "grande estudo" que terá ainda de ser realizado.» (Manuel Margarido Tião, "Ota e TGV, o Estudo que Falta Fazer", Público de ontem).
Subscrevo.

Investimentos públicos (3)

Os mais coerentes opositores dos investimentos públicos em infra-estruturas não são os neoliberais, que são assaz selectivos nos investimentos a que se opõem, mas sim os tradicionalistas mais radicais, para quem o Marquês de Pombal, Fontes Pereira de Melo e outros quejandos figuram entre os principais responsáveis pela destruição do Portugal de antanho. Pela sua lógica, Portugal continuaria a viajar de carroça, por essas veredas fora...

Investimentos públicos (2)

Na generalidade dos países, sem excluir os mais liberais em matéria económica, a história do desenvolvimento económico é em grande parte a história das iniciativas e do investimento público, sobretudo em infra-estruturas. Mas, a crer na heteróclita fronda que entre nós se criou contra os anunciados projectos de grandes investimentos públicos em transportes (novo aeroporto e rede ferroviária), a história tem de ser revista. Afinal para que são precisos novos aeroportos, caminhos de ferro e auto-estradas, se nos vamos arranjando com os que existem?!

Investimentos públicos (1)

Na variegada composição da LCGIPI-OTGV (Liga contra os Grandes Investimentos Públicos em Infra-estruturas, vulgo Ota e TGV) entram muitos dos que se rebelaram contra as medidas de redução das despesas públicas correntes (suspensão das subidas automáticas de remunerações e dos regimes especiais, revisão da idade e regime de aposentação, etc.). "Se não há dinheiro para mim, não pode haver para mais nada"!
Até agora julgava-se que o cancro das finanças públicas estava no excesso de despesas correntes, à custa das despesas de investimento. Pelos vistos, a teoria tem de ser revista...

Primeiro passo?

Culminando um longo processo de elaboração e consulta, depois do anúncio da medida logo no início do Governo, foi ontem finalmente publicado no jornal oficial o diploma legal que permite a venda fora das farmácias dos medicamentos que não precisam de receita médica e que, mais importante do que isso, liberaliza os seus preços (salvo os medicamentos comparticipados).
Os consumidores poderão assim beneficiar de mais locais de distribuição e de preços mais baixos no que respeita a esses medicamentos. Fica, porém, a faltar o principal --, a liberalização da criação de farmácias!

terça-feira, 16 de agosto de 2005

Nunca lá estive

Ivan, o divertido, no país dos antigos sovietes. Também lá hei-de ir, um dia.

Vertigem concentracionista

Parece que há uma proposta para integrar o Centro de Estudos e Formação Autárquica (CEFA), sedeado em Coimbra desde a origem, no Instituto Nacional de Administração (INA), sedeado em Oeiras. É uma ideia típica da mentalidade concentracionista tradicional da Administração Pública, que não tolera organismos públicos nacionais fora da capital ou da sua área. Qualquer dia ainda veremos uma proposta para integrar o Instituto dos Vinhos do Porto e do Douro (Régua/Porto) no Instituto da Vinha e do Vinho!
Não é verdade que uma das ideias básicas deste Governo em matéria de organização administrativa era a desconcentração? Em vez de concentrar o CEFA no INA, não seria antes de desconcentrar territorialmente as actividades de formação do INA, permitindo que elas beneficiem toda a Administração pública estadual em geral e não essencialmente a da administração central, como hoje sucede?

Aceh - ponte para o mar, barcos em terra...




Só a mesquita resiste.
Sete meses depois do tsunami e milhares de tremores de terra.

Contrapeso

Ao anunciar para o próximo ano parlamentar o projecto de reforma da lei eleitoral para criar os círculos eleitorais de um só deputado -- que são rejeitados pela oposição de esquerda e apoiados em princípio pelo PSD -- o PS pretenderá "contrabalançar" a coligação natural à esquerda, que se vai manifestar nas eleições presidenciais e no referendo da despenalização do aborto?

Adenda
Como é sabido sou pessoalmente favorável à criação de círculos uninominais, nos moldes do projecto de sistema eleitoral misto submetido à discussão pública no primeiro Governo de António Guterres.

O Aceh verde e azul - devastação






Sete meses depois do tsunami...

Imaginação

Mais bizarra do que tese de que Sócrates deveria preferir Cavaco Silva em Belém, em vez de Mário Soares -- houve quem a defendesse sem se rir... --, só a tese de que «uma certa direita grunge que por aí anda, (...) deseja activa e ardentemente uma vitória da esquerda e de Mário Soares nas próximas presidenciais». Fértil imaginação é coisa que não falta pelas bandas da Grande Loja...

Défice de vergonha

A oposição do PSD e do CDS ao projecto do TGV -- que é simultaneamente o projecto de adopção da bitola europeia na nosssa rede ferroviária -- constitui uma escandalosa contradição. Pois não foi o seu Governo que assinou com a Espanha uma convenção internacional comprometendo o País num projecto de construção de 4-ligações-4 ao país vizinho (Porto-Vigo, Aveiro-Vilar Formoso, Lisboa-Madrid e Faro-Huelva)? E não é verdade que o actual Governo reduziu prudentemente esse projecto megalómano, avançando para já somente com as ligações Porto-Lisboa e Lisboa-Madrid? O que ontem mereceu aplauso suscita agora um coro de protestos, porquê?

Desafinação

Há, de vez em quando, umas vozes que desafinam no meio do coro variegado que brada contra o fim do aeroporto da Portela (onde estava esta gente toda quando a decisão de construir novo aeroporto foi tomada em 1999 e depois retomada, embora não implementada, pelos governos PSD/CDS?). O facto de os seus argumentos fazerem todo o sentido não deve bastar, porém, para serem ouvidas. Momentos há de unanimismo altissonante, em que a dissidência fica clandestina...

segunda-feira, 15 de agosto de 2005

O Aceh verde e azul


Demagogia (2)

Que os autarcas peçam a declaração do "estado de calamidade pública" por cada incêndio florestal no seu concelho, sem estarem preenchidos os correspondentes requisitos legais, compreende-se mal, mesmo em época pré-eleitoral. Que comentadores políticos responsáveis, devendo conhecer tais requisitos, secundem tal exigência, isso é concorrência desleal. A demagogia deveria ser exclusiva dos políticos...

Demagogia

O cúmulo da demagogia dos últimos dias é a ideia de que o primeiro-ministro deveria interromper as férias por causa dos incêndios florestais. Traria, porventura, com ele a chuva?

Aceh - a paz é possível

De 22 a 26 de Julho passado voltei ao Aceh, integrada numa missão do Parlamento Europeu.
No «Courrier Internacional», edição de 5 de Agosto, na coluna «Todo-o-Terreno», publiquei um relato do que vi, senti e percebi - «Pela Paz no Aceh». Na «Aba da Causa» poderá ser lida a versão integral.
Não contei tudo. Não contei, por exemplo, que em cinco dias e quatro noites, sentimos 6 tremores de terra, um de grau 5.6 na escala de Richter. Vi o pânico nos olhos dos acehneses que me rodeavam. Compreensivelmente - o tsunami seguiu-se a um terramoto devastador, meia-hora antes. A reconstrução não é só dolorosa: é angustiante. Mais uma razão por que sem ao menos paz, não é possível reconstruir no Aceh.
Confirmou-se a assinatura hoje, em Helsinquia, de um Acordo de Paz entre o Governo de Jacarta e o movimento separatista GAM. Os acehneses aplaudem-no, esperançosos, embora com prudente cepticismo - já viram outros semelhantes falhar na aplicação.
Muito vai depender dos monitores internacionais, que não devem esperar cumprimento escrupuloso dos compromissos de ambas as partes - elas e os monitores serão inevitavelmente armadilhados pelos sectores, de ambos os lados, que não querem a paz porque beneficiam com o conflito.
Os monitores serão da UE e da ASEAN. Portugal não deve deixar de contribuir para a missão europeia. 5 monitores (homens ou mulheres) já será contribuição decente.

Epílogo

Mário Pinto volta a atacar hoje no Público a questão da escola pública, confundindo mais uma vez a liberdade de criar escolas privadas e de as frequentar (liberdade constitucionalmente garantida, que ninguém contesta, muito menos eu) e o direito ao ensino, cuja satisfação constitui uma obrigação constitucional do Estado através da escola pública, não tendo este nenhum dever de financiar a frequência de escolas privadas, como pretende MP (que era a questão que desde o início estava em causa).
As deliberadas confusões que ele amontoa na sua pseudo-resposta ao meu artigo da semana passada não precisam de réplica (ele não responde a nenhum dos meus argumentos) e os ataques pessoais que me dirige (em que é useiro e vezeiro) não me levam a incorrer na mesma via. Já lhe dei mais troco do que merece.
Queira ele ou não, existe uma diferença essencial entre o interesse público e os interesses particulares. Não defendemos coisas equivalentes.

Adenda
É evidente que eu não imputei a MP nenhuma malfeitoria, ao contrário do que ele se queixa, torcendo a leitura de uma passagem do meu texto, que não consente tal interpretação. Primeiro, não está nos meus hábitos atacar pessoalmente os meus opositores; segundo, para mim a honorabilidade de MP não está, nem nunca esteve, em causa; terceiro, é sabido que os fiéis de organizações transcendentais, quando pedem ou reclamam benesses, é para elas e não para si mesmos.

"Baixar as expectativas no Iraque"

Nas vésperas da aprovação do projecto de constituição iraquiana -- que em vários aspectos ficará bem longe dos padrões de uma democracia ocidental -- os Estados Unidos baixam subtancialmente as suas expectativas em relação à ocupação do País. Um longo artigo do Washington Post de ontem dá conta do pessimismo reinante. Entre outras coisas, já foi abandonada a ideia de derrotar a insurreição contra a ocupação, que não dá mostras de abrandar. A partida das tropas norte-americanas sem a missão cumprida é claramente assumida. «"We've said we won't leave a day before it's necessary. But necessary is the key word -- necessary for them or for us? When we finally depart, it will probably be for us," a U.S. official said.»

Ligeira, mas...

... mesmo assim merecedora de uma menção a análise da blogosfera nacional, ontem no Diário de Notícias.

Adenda
Ver também a nota crítica de Paulo Gorjão.

domingo, 14 de agosto de 2005

Lugares de desencanto

Detrito doméstico numa praia algarvia, Ilha da Culatra, parque natural(?!) da Ria Formosa, Agosto 2005.

Estado fraco

Quem ontem viajou na auto-estrada do Norte, muito congestionada, deveria saber por que é que o Estado não obriga a Brisa a construir a terceira faixa de rodagem nos troços que já ultrapassaram há muito os limites de tráfego previstos no contrato de concessão. Num Estado fraco os concessionários privados podem dar-se ao luxo de incumprimento sem riscos de sanção...

Pergunta

Por que razão é que a nova ligação rodoviária entre a A1 e a A13 junto a Santarém -- permitindo pela primeira vez uma ligação rápida entre o Norte e o Sul sem se ter de passar por Lisboa -- não é feita em perfil contínuo de auto-estrada, em vez de obrigar a dois controles de portagem e a passar pelo estrangulamento da variante externa daquela cidade?

sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Lugares de encanto

Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores, 2005.

Surrealismo

«PS local impugna listas do próprio PS em Felgueiras». Definitivamente o PS não se dá bem com Felgueiras...

Correio dos leitores: Colégio Militar

1. «"O Colégio Militar é um Estabelecimento de educação e ensino destinado a filhos de militares e também de civis, em regime de internato, preparando-os para frequência ulterior das Academias Militares. Ministra aos alunos sólida educação moral, intelectual, física e militar. O ensino está legalmente equiparado ao dos Estabelecimentos de ensino dependentes do Ministério da Educação" (in site do M.Defesa Nacional).
Posso assegurar-lhe que é a excelência da Escola que a mantém em funcionamento com larga percentagem de miúdos filhos de civis não havendo qualquer espírito de casta a manter artificialmente a Escola (creia que o espírito de casta foi chão que já deu uvas..., infelizmente).
No que respeita aos Institutos Superiores há muito deviam ter sido reunidos num único pois não só há capacidade física para tal como se recupera a possibilidade de colocar em contacto estreito oficiais dos três ramos.»

Morais Silva

2. «O que justifica a permanência do Colégio Militar é, evidentemente, a procura do qual é alvo. Se um Colégio tem procura da parte dos pais, por quê ir extingui-lo?
A educação no Colégio Militar paga-se, e paga-se bem. Trata-se para todos os efeitos, tanto quanto julgo, de um Colégio de índole privada, embora pertencente ao Estado. E não vejo nada de errado nisso.»

Luís Lavoura

Comentário
Não vejo onde é que se enquadra constitucional e legalmente a possibilidade de o Estado manter colégios "privados"...

Privilégios

Portugal é um dos países onde os trabalhadores gozam de maior período de férias, diz um relatório comparativo internacional. Também é provavelmente um dos que tem maior número de dias feriados e de "pontes". Portanto, é um dos países onde menos se trabalha. Depois admiramo-nos de vivermos acima das nossas possibilidades...

quinta-feira, 11 de agosto de 2005

Lugares de encanto

Fortaleza de Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores, 2005.

Escolas militares

Após anos e anos de estudos, projectos e resistências, foi finalmente concretizada a reunião dos três institutos de estudos superiores das forças armadas num só. Como é difícil fazer reformas que afectam interesses e feudos instalados!
A propósito de escolas militares, o que é que justifica hoje a existência de escolas do ensino básico e secundário, como o Colégio Militar, se não um deslocado espírito de casta (aliás, reservado a rapazes)?

O novo aeroporto

O Ministro das Obras Públicas publica hoje um artigo no Diário Económico -- infelizmente indisponível online -- a defender o aeroporto na Ota. Invoca especialmente o estudo de impacto ambiental de 1999. Todavia, trata-se somente da vertente ambiental, que valida a escolha do local em comparação com outros. Falta obviamente o estudo de impacto financeiro e económico da construção do novo aeroporto.

O que se suspeitava

A Anacom, a entidade reguladora das comunicações, veio confirmar o que se supeitava quanto à falta de efectiva concorrência na telefonia móvel e à "coordenação" de práticas tarifárias entre os três operadores, o que insinua claramente uma acusação de práticas restritivas da concorrência.
Para além da atenção da Autoridade da Concorrência, o que estas conclusões suscitam é a necessidade de aumento do número de operadores no mercado. Se existem países com numerosos operadores, por que é que em Portugal existe um mercado reservado para somente três operadores?

Segredo de polichinelo

Ridicularizando pertinentemente os que à direita tentaram demonstrar que para Sócrates era melhor ter Cavaco em Belém do que Soares, Rui Ramos vem dizer o que verdadeiramente vai na alma da direita quanto às presidenciais e quanto ao seu candidato: o que ela quer e espera é obviamente a demissão do Governo.
Eis, portanto, uma questão à qual Cavaco Silva não vai poder fugir: esclarecer devidamente a sua posição em relação à estabilidade política em geral e à estabilidade givernativa em especial.

Escola pública

«Em desespero de causa, os adversários da escola pública defendem que o Estado não deve encarregar-se do ensino, nem de outros direitos sociais ou culturais, devendo limitar-se às "tarefas soberanas". É obviamente livre a opinião sobre as tarefas do Estado. Mas quem as define é a Constituição e o voto dos eleitores e não os "opinion makers", sobretudo quando são parte interessada. A Constituição diz o que diz e não o que o "lobby" do ensino privado queria que ela dissesse.»
Este é um excerto do meu artigo desta semana no Público, já disponível, como habitualmente, na Aba da Causa.

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Lugares de encanto


Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores, 2005.

A cruzada

Prossegue, apaixonada, a cruzada paroquial de Lisboa contra a mudança do aeroporto da Portela. Vale tudo. O Governo dá uma prestimosa ajuda, ao adiar para Outubro (vá-se lá saber porquê...) a divulgação dos estudos que sustentam a construção do novo aeroporto.

Por que será?

Portugal é o País da UE onde há relativamente mais incêndios florestais. Porquê? Provavelmente, porque nenhum outro tem uma floresta tão vulnerável aos fogos como a nossa.

Correio dos leitores: A extinção do Ballet da Gulbenkian

«(...) A FCG tem uma identidade própria, associada ao título de "Ministério da Cultura português" até muito recentemente. Tal perfil só foi possível por conciliar duas filosofias de intervenção: uma directa, com serviços próprios, outra indirecta, com subsídios e apoios vários. Foram e/ou ainda são serviços directos alguns dos organismos mais emblemáticos da FCG: as bibliotecas itinerantes e fixas, o Ballet Gulbenkian, a Orquestra Gulbenkian, o ACARTE, etc. Há argumentos que revelam uma estratégia deliberada dos administradores ideologicamente mais liberais no sentido de acabar com os serviços directos (...).
Aqui surge um problema: se numa visão liberal faz sentido exigir uma menor presença do Estado na sociedade civil, já um menor peso da sociedade civil nela mesma é um contra-senso. Porém, é nisso que se traduz o esvaziamento do papel da FCG na oferta e na concorrência culturais, ambas cruciais para o desenvolvimento da sociedade portuguesa. (...)
A extinção do Ballet Gulbenkian foi nefasta, dada a sua intempestividade (a renovação artística fora almejada e a programação de 2005/6 já fora aprovada), o momento escolhido (celebração dos seus 40 anos), o valor do grupo de bailado (prestigiado internacionalmente, à custa de muito investimento e árduo labor) e, como vimos, por comprometer definitivamente a própria filosofia mista de intervenção sócio-cultural da FCG ao longo da sua existência.
(...) Cabe à opinião pública debater estas questões, pois a FCG é uma das instituições mais importantes da nossa sociedade civil, e por isso deve ser alvo de escrutínio público. Uma petição com 20 mil assinaturas vai nesse sentido (vd. http://www.petitiononline.com/bg05ext/petition.html). Para o bem do interesse comum, da nossa democracia.»

Daniel Melo, historiador

Correio dos leitores: «O fogo e nós»

«Agora que me envolvi directamente, durante dois dias, lutando até à exaustão, no meio de um inferno de chamas e fumo ardente, procurando defender a humilde casa de meus pais - lugar de memória da minha infância e recanto de paz nos encontros domingueiros de são convívio entre três gerações ? melhor entendo o valor da enorme solidariedade e abnegação do nosso povo. (...)
Mas é triste, de uma tristeza infinita, observar o nosso vasto e rico património florestal e ambiental desaparecer num ápice, perante a nossa impotência, com consequências tão nefastas que provavelmente ainda nem nos demos conta, tal é o estado de pasmo e incredulidade com que olhamos agora, atónitos, estas manchas intermináveis de paisagem negra, bélica, ainda ontem tão fresca e paradisíaca.
É este sentimento de raiva interior, que ora se abafa, ora parece explodir, por verificar que os mais pobres continuam os mais sofredores, as suas casas as que ardem, o seu desespero o mais ignorado. Entregues a si próprios e ao seu destino, apenas podem contar consigo e a solidariedade possível. E ficar mais pobres. (...)
Razão tem o meu pai, nos seus lúcidos 75 anos, confessando a um órgão de informação (os novos paparazzi da desgraça!) face ao cenário de tragédia jamais visto na sua aldeia: "Tivesse eu agora 20 ou 30 anos, voltaria a emigrar para bem longe e tão cedo não regressaria a este triste e pobre país."
E nós, valerá a pena ficar? Até quando?»

(M.Oliveira, Leiria)

terça-feira, 9 de agosto de 2005

Abrupto ou abutre?

"A Capital é hoje um jornal que vale a pena ler, até porque a sua agenda é muito diferente da dos outros jornais diários. (...) É um jornal maison, íntimo, e por isso é um jornal urbano interessante, que publica trabalhos jornalísticos com informação nova e temas pouco tratados".

(Pacheco Pereira sobre A Capital, no Abrupto, em Agosto de 2004)

"A Capital vai-me fazer falta, mas sempre que eu via um número revoltava-me a incúria com que era feita. Eu sei que é duro dizer isto, mas não era segredo para ninguém, a começar pelos seus leitores, que o desastre era inevitável".

(Pacheco Pereira sobre o fim da Capital; na Sábado de 5 a 11 de Agosto de 2005)

Correio dos leitores: Lisboetês

«Não sei se será lisboetês ou não. Português é que não é de certeza. Repetidamente o pivôt da RTP 1 José Rodrigues dos Santos comenta que tal matéria "não tem a haver" com qualquer coisa. Então não há um(a) colega que lhe faça o reparo? Ninguém lhe dirá que "não tem a haver" não tem mesmo nada a ver com "não tem a ver"?»
Fernando Barros

Correio dos leitores: CGD

«Então e na CGD ?
Esta instituição é uma autêntica agência de emprego do bloco central (PS/PSD).Quem entrar para a CGD sem cartão daqueles partidos se chegar a chefe de secção já é muito bom. Hoje a Caixa está enxameada de Directores oriundos das mais variadas origens e cujos currículos são uma vergonha, enquanto dantes os quadros superiores eram recrutados na instituição.
O [Armando] Vara então é de bradar aos céus, como é que um 1.º ministro se enterra desta maneira. O tesoureiro da agência de Vinhais foi promovido a administrador. Querem maior afrontra para que lá trabalha honradamente?»

M. Malaca

«Quanto aos meninos-familia [na PT]:
1- e os que estudam lá fora à custa dos metecos nacionais?
2- e como é nas repartições onde trabalha a família toda mais a prole (experimente fazer as contas sobre o valor do legado que é um emprego no estado para um vencimento de 1.500 euros/mês)?
3- e na CGD pode constatar que está lá a famelga toda.
5- e nas Câmaras? A avaliar pelo municipio local, se nos outros a coisa tiver um nível de degradação igual a 50% ao "deste" poder local, a coisa só é sustentável porque o povo é pouco letrado... ou não tem nem voz nem direitos substantivos.
6- e nos Intitutos, fundações e quejandos onde o Estado mete o bedelho?
Mas a questão é: como moralizar esta sociedade, esta classe política tão... tão seráfica? Eu sei que os empresários não são melhores, os operários também são o que são e os amanuenses em geral já não se convencem com uma "gasosa"...
Soluções?
(...) Como salvar o regime sem a transmissão gratuita da soberania para a Espanha (país que eu aliás muito aprecio), sendo certo que os portugueses de um modo geral, não apreciam os espanhóis?
Aqui em casa estamos a lutar por uma solução nada sui generis: emigrar. Emigrar para sempre, o que quer dizer, mandar às malvas o Futebol Clube do Porto, a Académica (...), deixar de ficar agarrado à TV com medo que o pinhal da família também arda, passar as férias no Montenegro, falar alemão e francês lá em casa, e ter vergonha de usar o passaporte que se exibe!
(...) Sopra no ar um vento pútrido de dissolução que põe em causa um bem cujo valor não há dinheiro que pague. A vida em liberdade. Mas liberdade com roubo acintoso, costuma dar em tragédia.»

A. A. Oliveira

Correio dos leitores: Floresta

Sobre a floresta baseada no pinheiro bravo e no eucalipto, e apoiada pelos interesses de produtores florestais e madeireiros, a coisa não é assim tão simples.
A economia florestal em Portugal não é, em geral, rentável. Em boa parte, por falta de mão-de-obra, e pelo baixo preço pago pela madeira. Os proprietários não têm como cuidar da sua floresta. (...) É por isso que proprietários inteligentes optam por plantar eucalipto - porque lhes dá um trabalho menor a manter as suas terras.
Se [se] quiser substituir os pinheiros bravos e eucaliptos por carvalhos, terá que [se] subsidiar os proprietários para que eles os plantem e tratem deles durante a juventude - mondando as ervas e árvores nascidiças à sua volta. E terá que arranjar mão-de-obra para fazer isso - coisa que hoje em dia é praticamente impossível de arranjar por esse Portugal fora. Sem um mercado de mão-de-obra, de máquinas, e de compradores de madeira abundante, facilmente disponível, e em efetiva concorrência económica, nada feito.»

Luís Lavoura

«À sua lista dos possíveis interessados nos incêndios eu acrescentaria ainda as empresas que detêm os meios aéreos de combate aos incêndios, as que fornecem diverso material necessário ao combate dos mesmos (...).
De qualquer modo, vendo que actualmente arde qualquer coisa, mesmo que não seja uma mata bem provida de árvores, estou em crer que os incêndios acontecem por maldade pura, fruto da ausência de consciência cívica, e, quiçá, por afronta ao poder.
Penso que os meios aéreos de combate aos fogos deveriam pertencer ao Estado. Mas se isso acontecer, quando acontecer, provavelmente, no início, não diminuirão os incêndios...
O Estado também não é exemplo no cuidado que presta às áreas florestais do seu domínio. Dantes organizavam-se as matas de grandes extensões de forma a obviar os danos de possíveis incêndios; agora, as matas públicas estão desorganizadas, mal limpas... e exige-se aos particulares um cuidado que o Estado não tem.»

Agostinho Pereira

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

E se fosse nos Restauradores?

Obviamente que um aeroporto, como qualquer outra infra-estrutura, deve ficar tão perto quanto possível do lugar de destino ou origem da maioria dos que o utilizam. Em Portugal, esse lugar é Lisboa. Sem discussão.
Daí que a única questão que se torna relevante discutir é se é preciso ou não um novo aeroporto. Posto isso, se os estudos técnicos, com os riscos inerentes, concluírem que sim, ninguém imagina que um novo aeroporto possa ficar no Terreiro do Paço ou nos Restauradores como a pista em direcção ao Marquês! E pouca gente achará, quando aterra numa qualquer capital do mundo, seja Hong-Kong, Paris ou Kuala-Lumpur, que passar meia hora num comboio rápido para chegar ao centro seja qualquer coisa de impensável. Ou será que sim?

A preto e branco

A discussão a propósito do novo aeroporto (fique na Ota ou em qualquer outro lugar) fez-me lembrar a que ocorreu em alguns círculos conservadores há umas décadas, quando se anunciou a televisão a cores. De muito boa gente ouvi perguntar para quê. Não precisávamos. Estávamos tão bem a preto e branco!

Binóculo de um óculo só !

«(...) Era um homem com um binóculo de um óculo só»! Eis uma das inacreditáveis frases de colecção escritas em livro publicado pelo actual vereador da cultura da Câmara municipal de Coimbra.
Mais inacreditável é ainda que ele apareça de novo na coligação liderada pelo PSD, representando o PPM. Uma segunda vez é demais!

Robin Cook: I do miss him

No início dos anos 90, quando trabalhei na Embaixada em Londres, ele era o «gnomo» para a imprensa britânica. À conta da sua parecença física com aqueles bonecos «kitsch» que polvilham os jardins das casas da classe média na Grã-Bretanha. Mas também porque se destacava, como um dos principais porta-vozes do Partido Trabalhista, na marcação ao desastroso governo de John Major, explorando em particular as revelações do «Scott Inquiry» sobre a indecência, o comportamento doloso dos governos conservadores da Sra. Thacher, que durante os anos 80 foram vendendo secretamente armas ao Iraque. Do ditador Saddam Hussein, claro.
Quando se tornou Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Tony Blair em Maio de 1997, Robin Cook afirmou uma política externa baseada em considerações éticas, em especial na necessidade de coerência na defesa dos direitos humanos. Era preciso coragem e determinação - não bastava a convicção, porque ia ser preciso afrontar persistentemente poderosos interesses comerciais e outros: os detrás das vendas de armas a Saddam ou a Suharto (720 milhões de dolares em contratos de venda de armas à Indonésia só no último ano do governo Tory, baixaram para um milhão em 1998). E em Setembro de 1999 Robin Cook declarou a suspensão das vendas de Hawks e outro material bélico a Jacarta para, assumidamente, fazer ver ao governo e ao Exército indonésios que a violência em Timor-Leste suscitava internacionalmente «horror and disgust».
Antes disso Robin Cook já fizera uma grande diferença em relação a Timor-Leste: a presidência britânica da UE liderara uma missão da Troika a Timor-Leste, em Junho de 1998 (Suharto acabara de cair), que produziu um marcante relatório onde, pela primeira vez, não se escamoteavam os sentimentos dos timorenses contra a ocupação indonésia. E durante o ano de 1999, em Jacarta, nunca eu poderia ter contado com o valioso apoio do meu velho amigo Robin Christopher, embaixador britânico ali, se ele não se sentisse inteiramente respaldado pela direcção política do Foreign Office. E a rapidez com que veio a luz verde para Xanana Gusmão, libertado da prisão, ficar alojado na Embaixada britânica até poder sair da Indonésia, em 6 de Setembro de 1999, escassas horas depois de eu e a Paula Pinto termos ido pedi-lo ao Robin Cristopher, atesta como Robin, o Ministro, entendia bem e depressa o que estava em causa.
Vim a lidar pessoalmente com ele só mais tarde, com o Iraque em pano de fundo. No âmbito do PSE, Partido Socialista Europeu, onde ele exercia a Presidência e onde eu passei a representar o PS desde que assumi funções de Secretária Internacional em 10 de Fevereiro de 2003. Admirei-lhe primeiro a autoridade cosmopolita, a perícia a dirigir reuniões e a habilidade negocial. Apesar dos resultados serem nulos - em Março era impossível chegar um acordo entre os partidos socialistas europeus, tão grande era a fractura criada pela iminente invasão do Iraque. A mais encarniçada oposição ao consenso que Robin tentava vinha do seu compatriota que ali representava o Labour e o governo britânico - Dennis Mc Shane (entretanto Secretário de Estado para a Europa no Foreign Office), com um comportamento confrontacional arrogante, em tudo oposto ao de Robin.
Dias depois Robin demitia-se de líder do Labour nos Comuns, em protesto contra a posição governamental de invadir o Iraque, a reboque da Administração Bush e sob falso pretextos. Com a intervenção fundamentada conhecida e a persistente intervenção posterior denunciando as desastrosas consequências a invasão. Que ele tinha razão, é hoje indesmentível.
Dos contactos que regularmente tivemos no ano seguinte, enquanto ainda liderou o PSE (ele decidiu não se recandidatar nas eleições de Abril de 2004), confirmei todas as primeiras impressões, mais a extrema afabilidade pessoal. Quis trazê-lo à Convenção Europeia do PS em 28 de Fevereiro de 2004 - a agenda não lho permitiu.
Robin Cook fez diferença neste mundo. Ele teve a lucidez de articular e procurar pôr em prática uma política externa com coerência e fundamentação ética. Nem sempre conseguiu resultados. Mas tentou. E sempre que não concordou, no mais essencial, não transigiu. No mundo em geral e nos partidos socialistas, de ontem como de hoje, integridade pessoal e política fazem diferença.

Ao contrário

«Segundo dados divulgados recentemente pela petrolífera BP, relativos ao ano de 2004 , o país ocupa o terceiro pior lugar no ranking da UE em termos de eficiência energética. Portugal utiliza cerca de 0,88 barris de crude para produzir mil euros de riqueza, enquanto a vizinha Espanha precisa de pouco mais de 0,75 barris. E a Alemanha e a França só necessitam de 0,44 barris.» (Diário de Notícias).
Sucede que um dos sectores onde existe maior desperdício é o dos transportes. Ora, em vez de penalizar esse sector pela ineficência energética, o Governo resolveu apoiá-lo com medidas de desagravamento fiscal dos combustíveis!

Subscrevo

«[Alberto Costa] é o primeiro ministro em 30 anos de democracia que não hesita perante o poder letal das corporações da justiça. Mesmo que perca, o País ficará a dever-lhe actos de coragem e de distinto serviço público.»
Luís Miguel Viana (Diário de Notícias, 07-08-05)

sábado, 6 de agosto de 2005

Lisboetês (4)

Locutora da RTP 1 relatando ontem os incêndios no distrito de Aveiro: ela pronuncia "Avâiro", tal como pronunciará "fâira" (em vez de feira), "Avâiras" (em vez de Aveiras), "desfâita" (em vez de desfeita), etc. Outro desvio da norma fonética típico do "lisboetês" dominante nos media nacionais.

Serviço público de emprego de 1ª classe

«Dezenas de filhos de governantes nos quadros da PT».

Hiroshima

Mesmo em tempo de guerra, os massacres maciços de populações civis não são formas de terrorismo?

Correio dos leitores: CGD

«(...) Na questão da CGD devo acreditar que o actual Ministro das Finanças tinha as suas razões e que elas seriam fortes para tomar a decisão que tomou. Parece-me que a questão das indemnizações será (ou já foi) modificada por este Governo, pois, como diz, se razões políticas podem entrar em linha de conta, então as indemnizações não fazem sentido. Penso também que esses cargos não são necessariamente políticos, mas razões de confiança política podem levar à sua exoneração. Na RTP não houve exoneração porque a administração é credível e tem uma política definida para a estação. Mas não está a salvo de exoneração por razões de ordem política. Penso que será uma especificidade legítima do exercício de admnistração de uma empresa pública. Quanto ao caso Celeste Cardona, também manifesto a mesma perplexidade (...).»
J.F.

Equívoco democrático

O presidente da câmara municipal do Porto e candidato à reeleição, Rui Rio, propôs um compromisso político, de acordo com o qual quem ganhasse as eleições municipais teria direito a implementar a sua solução para a questão do túnel de Ceuta, parado desde há meses por causa do embargo do IPPAR. É uma solução inaceitável. Por um lado, numa democracia representativa, as eleições não podem ser transformadas em plebiscito temático; segundo, não pode haver referendos locais sobre matérias que não são da competência municipal, mas sim do Estado, como é o caso. Para perversão das regras democráticas, já bastam as que existem.

Cegueira

Continuamos a não querer ver que sem alterar o perfil da floresta nacional -- baseada no pinheiro bravo e no eucalipto -- o Páis continuará a ser um braseiro todos os anos pelo Verão. Até quando é que os interesses dos produtores florestais, dos madeireiros e da celulose prevalecerão sobre os interesses gerais do País? Entretanto, o nosso "petróleo verde" -- como alguém designou, com rara propriedade e humor negro, a nossa floresta industrial -- continuará a cumprir a sua missão, que é ... servir de combustível!

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

Lugares de encanto

Ilha Graciosa, Açores.

Correio dos leitores: Ota

«É difícil assistir de longe a esta discussão miserável, em que o PS (no qual votei) troca os pés todos os dias com uma falta de argumentos que provoca dó. Quem lê as entrevistas vácuas dos ministros e as esquivas declarações do blog "Causa Nossa" (...), só pode acrescentar que depois do CCB, da Expo, do Alqueva e do Euro, esse "desígnio nacional", os eleitores portugueses já mereciam que quem os governa tivesse um pingo de vergonha. Mas bem podemos ficar à espera.»
Luís Jorge

Comentário
O Causa Nossa não é porta-voz do PS e no que me diz respeito não existe nenhuma "declaração esquiva": desde há muito considero necessária a construção de um novo aeroporto (que, aliás, já esteve na agenda de um governo PSD-CDS...). De resto, se o leitor votou no PS, como afirma, deveria ter-se dado conta de que a construção do novo aeroporto constava do seu programa eleitoral...
(corrigido)

Correio dos leitores: Diferenciação fiscal dos camionistas

«Em relação ao comentário-resposta ao Luís Lavoura sobre a diferenciação fiscal para os camionistas, embora concordando com a sua afirmação sobre a origem/pressuposto da taxa mais moderada de ISP sobre o gasóleo, a situação actual é exactamente a que o Luís descreve: a taxação reduzida de ISP era justificada sempre como um incentivo à actividade económica. Como esse incentivo não bastava e o gasóleo não era suficientemente barato para acomodar os gastos da nossa agricultura, decidiu-se aplicar uma taxa especial ao gasóleo para utilização agrícola. A fraude e o abuso nos primeiros meses dessa utilização foi tal, que a administração viu-se compelida a "marcar" o gasóleo. Mesmo assim, é extremamente duvidoso que não haja (alguma) evasão fiscal por essa via. O incentivo de que o Luís fala é ainda mais pernicioso: ao contrário do que afirma, a taxa reduzida do gasóleo, associada a uma taxação mais baixa em IA para os automóveis de uso agrícola, no qual se integravam até há bem pouco tempo quase todos os automóveis "jeep" SUV, estilo Pajero ou Suzuki Vitara (utensílios de lavoura tão deslocados como uma carroça de bois como transporte público), levou à proliferação desse tipo de automóveis, com consumos de combustível absolutamente excessivos. Em paralelo, o gasóleo mais barato levou a que, mesmo para os outros automóveis menos passíveis de serem classificados como instrumentos de lavoura, como sejam os Mercedes ou BMW, os modelos Diesel sejam historicamente muito mais vendidos em Portugal do que o justifica. Por último, os recentes dados sobre a poluição em Lisboa (suspeita-se que outras cidades do país tenham situações idênticas) justificariam outros cuidados com a subsidiação da frota a diesel. Por todas estas razões, adicionar mais esta isenção/redução/benefício aos camionistas é, na minha modesta opinião, estúpido e irresponsável.(...)»
Pedro Martins Barata

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

A questão presidencial

Já pode ser visto na Aba da Causa o meu artigo desta semana no Público sobre a questão presidencial (com correcção das gralhas da versão impressa). A questão é: a candidatura de Cavaco Silva traz consigo um projecto de presidencialização do regime?

Um passo em falso

Sobre a remodelação da administração da CGD tenho a dizer o seguinte:
1. Defendo desde há muito que as empresas públicas devem ser administradas por gestores profissionais, sujeitos, de acordo com a lei das empresas públicas, a orientações governamentais.
2. Por isso, entendo que as empresas públicas devem ficar fora do regime de "spoil system", não contando para os "despojos" do partido de governo.
3. As "convenções" políticas que devem ser observadas; ora, desde há muito que se considera que o Banco de Portugal e a CGD devem ficar fora do regime de confiança política de cada governo.
4. Se a justificação para a substituição da administração da CGD tem a ver com a confiança política, então o que é que justifica a permanência de Celeste Cardona, cuja nomeação o PS tanto críticou?
5. É de aplaudir a diminiuição do número de administradores (de 11 para 9). Mas não serão ainda demais?
6. Se se trata de lugares de confiança política, o que é que justifica as indemnizações pela exoneração?

Correio dos leitores: Escolas privadas

«Parece-me que Você centra demasiado as escolas privadas em escolas católicas. Ora, isso não é assim. Só aqui nas redondezas do Instituto Superior Técnico conheço três escolas privadas que fornecem educação pré-primária e primária. Todas elas são pertença de indivíduos singulares, e não são confessionais.
Ou seja, há no nosso país, aparentemente, muito ensino privado que nada tem a ver com o catolicismo. E esse ensino tem bastante sucesso - todas as escolas que referi têm uma ampla lista de espera à entrada.»

Luís Lavoura

Correio dos leitores: Energia nuclear

«(...)A energia nuclear causa um problema insolúvel, os resíduos. Ninguém sabe o que lhes fazer. O seu tempo de vida, i.e. o perigo que são para todos os seres vivos, alonga-se por milhares de anos... Vamos criar um problema às geracões futuras para o qual não temos solucão á vista? E o princípio da precaucão?
E se os terroristas atacam uma central nuclear? O combustível para as centrais nucleares está a acabar, o urânio é finito. A energia nuclear é a mais cara, se considerarmos as externalidades. Os países europeus mais avançados - Alemanha, Bélgica, Suécia estão a abandonar o nuclear.
Portugal tem as condicões óptimas para aproveitar a energia solar. Em Espanha constroem-se centrais solares, na Alemanha e na Áustria cobrem-se centenas de milhares de telhados com painéis fotovoltaicos.
Em Portugal desperdiça-se imensa energia. Cerca de 1/3 é puro desperdício. Quantos ares condicionados não funcionam com a porta aberta? - não funcionam, desperdiçam - é para isto que queremos uma central nuclear, para alimentar o desperdício?
Em termos de desperdício ninguém bate a EDP.
O futuro pertence ao sol. A descentralização do fornecimento da energia, a autonomia que permite - política também - e o seu carácter infinito tornam-na ideal.»

Joao Miguel Vaz, Eng. Mecânico

quarta-feira, 3 de agosto de 2005

O jornal fantasma

Tenho duas más notícias: a primeira é que A Capital teve a sua última edição no sábado passado; a segunda é que, precisamente em consequência disso, estou de volta à Causa.
Abaixo deste, estão publicados os meus dois últimos textos para o diário lisboeta. Inéditos. Escrevi-os de avanço, na esperança de que a péssima notícia, afinal, não se concretizasse. Um seria o meu texto de humor na segunda-feira, o outro a página de domingo. Deixo-os aqui.

Finalmente, escrevo este post da minha secretária no jornal. À minha volta, ninguém. As televisões desligadas, as mesas abandonadas e com os jornais de há vários dias atrás. Notam-se agora, muito melhor, as imperfeições todas: a humidade nas paredes, o vidro partido, as ventoinhas avariadas. Algumas secretárias foram esvaziadas das toneladas de papel, livros e lembretes pessoais dos seus ocupantes. Lá em baixo, na redacção, duas ou três pessoas limpam os discos dos seus computadores, disquete atrás de disquete.
Somos quase ninguém e os poucos que somos não têm vontade de conversar. De que se fala quando já não há um prazo diário a cumprir? De que se conversa num jornal quando já só existe o edifício?

ps: peço desculpa pela má edição dos textos abaixo mas o blogger diz-me que eles estão perfeitos na caixa de "Edit". Não sei que se passa - mas não é a primeira vez nem será a última.

ps2: o "Sit-Dowm Comedy", crónica de humor sobre a actualidade, que assinei diariamente durante mais de um ano n'A Capital, continuará no CN após uns dias de descanso.

10 mandamentos para as vésperas dos aniversários

1) acabarás de ler o Oscar Wilde todo. Aprenderás que todos viemos da sarjeta mas que alguns de nós olham para as estrelas. À noite, nas últimas horas do último dia antes do teu novo ano, procurarás estrelas cadentes no céu. Com os aforismos do senhor Wilde na cabeça, formularás desejos ? desejarás o básico, no género Miss Universo: a felicidade, a paz no mundo, o fim da fome em África. Depois, se houver estrelas suficientes a cair, pedirás o que realmente desejas, como bom humano egoísta que és: um aumento no trabalho, o reconhecimento público, as boas graças da secretária da tua empresa;

2) farás uma maratona cinematográfica por muitos dos clássicos do cinema que ainda não viste: Touro Enraivecido, do Scorcese, A Sombra do Caçador, do Charles Laughton, O Caçador, do Michael Cimino, Os Inadaptados, do John Huston, Nascido para Matar, do Kubrick. Terminada a prova, serás um homem mais culto e mais bem preparado para as vicissitudes da vida. Ok, pronto, serás um homem mais culto;

3) viajarás durante horas pela tua terra natal. Ao volante do carro, sozinho e com os teus cd?s preferidos no rádio. Não atenderás o telefone, não levarás ninguém nem oferecerás boleia. Se a tua terra for pequenina demais para uma viagem de horas, procurarás caminhos alternativos, de terra, estradas privadas, farás viagens circulares. Só estás autorizado a parar o carro em duas situações: nos sítios onde foste feliz ou nos locais que - incrivelmente - ainda não conhecias;

4) escreverás cartas. Sim, mesmo que odeies escrever cartas. Não são e-mails nem tampouco sms. Cartas mesmo ? o que implica uma ida matinal à papelaria para comprar papel de carta como deve ser. Voltarás então para casa ou passarás pela tua esplanada preferida e escreverás cartas, mesmo que não sejas obrigado a enviá-las. Já. Escolhe bem os destinatários. Aconselho pais, melhores amigos, amigos distantes, o amor da tua vida. Escreverás aquilo que nunca tiveste coragem de dizer. Relerás as cartas na véspera do teu próximo aniversário e farás emendas. E lembrar-te-ás que deves absolutamente enviá-las aos respectivos destinatários, enquanto é tempo;

5) Não comprarás nada para ti. Esperarás pelas surpresas dos teus amigos ? mesmo que não seja surpresa nenhuma e tu já saibas exactamente o que te vão oferecer. Visitarás os parentes chatos que suportas com dificuldade e que (felizmente) não podem ir à tua festa de anos. Receberás, com o mais notável dos sorrisos amarelos, os seus presentes horrorosos: as camisas de envergonhar um cantor pimba; as indispensáveis peúgas; os cheques mixurucas; e os conselhos patéticos. No fim de tudo isto, respirarás fundo;

6) Escreverás num bloco os teus projectos para o novo ano da tua vida: as viagens que planeias fazer; os trabalhos nos quais pretendes participar; os objectivos profissionais; um ou dois sonhos pessoais para realizar absolutamente antes de morrer; as pessoas distantes que tens mesmo de visitar; as pazes que deves fazer; as guerras que deves preparar; as idas ao ginásio; as compras para a casa; os discos que te faltam. Deves encher um bom número ímpar de páginas e sublinhar os itens mais importantes. Finalmente, deves dar-te por satisfeito se realizares 20% deles;

7) Manterás, na véspera do teu aniversário, uma conversa com Deus. Perguntarás o que é feito, por onde tem andado, contarás as novidades, dirás de tua justiça: em que pé está a tua fé, o que mudou neste último ano, o que deves agradecer e do que te arrependes. Se falar com Deus te fizer impressão, conduz então uma entrevista a ti próprio. Escolhe um local resguardado, onde não te possam ver e tomar por louco, e segue os parâmetros da conversa divina acima descrita. No fundo, faz um exame de penitência a ti próprio: onde falhaste, o que conquistaste, o que te falta (e por que te falta) para seres a pessoa que desejaste ser;

8) Terás pelo menos uma refeição na companhia dos teus pais. Deves-lhes tudo e sabes bem que nem tu nem eles estão a ficar mais novos. Tentarás não te irritar com as coisas que te irritavam na adolescência e que deixaram marcas tal como eles procurarão, de certeza, não se chatear demasiado com as tuas imperfeições. No final, pedirás a receita à tua mãe e um conselho ao teu pai. Partilharás a receita e cozinharás demais o conselho. É a vida;

9) Cantarás as canções da tua vida, um pouco por todo o lado, na véspera do teu aniversário. Mesmo que não te lembres bem da letra ? inventas. Cantarás sozinho e para as pessoas, no trânsito, na rua, em casa. Cantarás baixinho e muito alto, canções tristes ou alegres, consoante o estado de espírito. Escreverás um poema expressamente destinado a seduzir as mulheres da tua vida que ainda não se atravessaram no teu caminho. Não lhe colocarás data, naturalmente, embora seja véspera do teu aniversário e te sintas moralmente condenável pelo fim a que se destinam aqueles versos;

10) Passarás a noite acordado. Sentirás a intuição do tempo de que falavam os beatniks. Julgarás estar envelhecido e que não há mais tempo a perder. Não quererás desperdiçar um minuto sequer. Dançarás a noite toda, conhecerás pessoas novas, abraçarás as pessoas velhas, cometerás loucuras, violarás sinais de trânsito, beberás mais do que a tua conta, beijarás uma nova paixão que morrerá com o nascer do sol. Passarás o dia do teu aniversário com a maior ressaca da tua vida e jurarás para nunca mais. Guardarás estes mandamentos até para o ano.

Sit-Down Comedy 363 - Avulsas

1 ? Carrilho quis fazer campanha a bordo de um camião do lixo mas um responsável da Câmara não o autorizou. Parece que Carrilho estava tão perfumado que o lixo não aguentava. Além disso, o responsável em questão é assessor de Santana ? logo, de lixos percebe ele. 2 ? Foi oficializado o Clube do Stress, que conta entre os seus membros com o Presidente da República, Lazlo Boloni, Sócrates, Carmona ou Luís Filipe Vieira. Bem escolhidos, sim senhor. Estamos claramente na presença de experts. Espera-se agora a inauguração do Clube do Relax, com Tomás Taveira, Alexandre Frota, Zezé Camarinha, enfim... 3 ? Co Adriaanse não convocou o eterno capitão portista, Jorge Costa, para um torneio prestigiado na Holanda. Jorge Costa é conhecido como o ?Bicho?; Adriaanse arrisca-se a entrar para a história como o ?Mata-Bicho?. E é bom que o holandês não se esqueça da velha máxima da filosofia brasileira: ?Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come?. 4 ? Pinto da Costa, entretanto, veio dizer que há muito tempo não via tanta disciplina no seio do plantel. Ao mesmo tempo, Jorge Costa fica em terra, jogadores acabados de comprar são dispensados e Léo Lima diz cobras e lagartos do novo técnico. Das duas uma, ou Pinto precisa de ir ao oftalmologista ou estava a referir-se ao plantel do hóquei em patins. 5 ? Paul McCartney anunciou ao mundo que compôs uma canção com a ajuda do falecido amigo George Harrison. Aproveito a boleia para dizer que estou a terminar um romance com a ajuda do meu falecido bisavô Jorge Luís Borges.

Correio dos leitores: Liberalização das farmácias

«Tem toda a razão [sobre a liberalização das farmácias]. Sob este ponto de vista, a pretensa liberalização do
mercado de alguns (muito poucos!) medicamentos nada adianta. É pena que Você tenha gastado tanta verve a defender essa "medida" do atual governo, quando ela passa perfeitamente ao lado da verdadeira necessidade de liberalização.
É mudar alguma coisa para que fique tudo na mesma.»

Luís Lavoura

Comentário
Ainda os nossos neófitos neoliberais não tinham nascido e já eu defendia a liberalização do estabelecimento de farmácias. A venda de medicamentos sem receita médica fora das farmácias não é uma alternativa à liberalização.

Correio dos leitores: Lisboetês

«(...) Vivi 5 anos em Lisboa, durante a universidade. Se, tendo até aí vivido no Porto, posso acusar muito portuense de não passar do discurso de paróquia, fortemente alicerçado no futebol (nós só queremos Lisboa a arder...), posso dizer que fiquei surpreendido pela atitude de desinteresse displicente que associo a muitos (como em tudo, não se pode generalizar) lisboetas: o resto do país nada tem para lhes oferecer, nada lhes interessa, com ele nada têm a aprender, um pouco como a China imperial do século XIV. A metrópole em si se encerra e basta, a modernidade e o chique estão "lá fora", e o Algarve, bom, o Algarve está bem para se passar uns fins-de-semana escarrapachados ao Sol, uma espécie de país do Norte de África aqui ao pé, que sempre sai mais em conta e até já há auto-estrada.
Por isso não surpreende que a televisão, epicentro da difusão de massas, sediada em Lisboa, emitida de Lisboa, e sobretudo para Lisboa (excepto uns incêndios e umas desgraças lá na terra para entreter a malta na silly season), seja o veículo por excelência da pronúncia entre o posh e o kitsch com que seremos, slowly but surely, colonizados.
Imagine o escândalo que seria ter um pivot a abrir o telejornal (da TVI...?) com a autêntica pronúncia Portuense. Já imaginou a onde de indignação?»

(Vasco P.)

Correio dos leitores: Fronteira


«Envio-lhe duas fotografias que recebi há bem pouco tempo e que ilustram bem a razão pela qual, e não independentemente do lugar onde, da forma e do conteúdo, há decisões de estado que esta geração tem que tomar com coragem e determinação, e falo óbviamente do Novo Aeroporto e do TGV, para que aqueles que nos seguirem não voltarem a tirar fotografias iguais a estas e por maioria de razão a insultarem-nos a memória que então já seremos.»
CB

Candidato anti-regime

«Cavaco e Soares são "candidatos do regime -- diz [A. J.] Jardim». Por que é que ele não se candidata? Seria uma excelente ocasião para testar o seu apoio...

Lugares de encanto

Ilha Graciosa, Açores, 2005

Dois pesos, duas medidas

É louvável a preocupação com os custos do metro do Porto, financiado essencialmente pelo orçamento do Estado. Mas por que é que não existe idêntico zelo em relação ao metro de Lisboa, cujo défice de exploração e endividamento atingem números preocupantes?

terça-feira, 2 de agosto de 2005

Por que se espera para liberalizar o estabelecimento de farmácias?

«Farmácias à venda por milhões de euros». (Via Blasfémias).

Lugares de encanto

Ilha Graciosa, Açores, 2005.

Contar

Nas últimas semanas, os meus artigos no Público suscitaram réplicas mais ou menos pertinentes de José Manuel Fernandes (sobre a autodisciplina jornalística), de Miguel Sousa Tavares (sobre os privilégios de Lisboa) e de Mário Pinto (sobre a escola pública). Nada melhor para um colunista do que a controvérsia que as suas opiniões suscitam. É sinal de que elas contam.

Resposta a Mário Pinto

O artigo de Mário Pinto, ontem no Público -- o segundo artigo que me dedica a propósito do meu artigo sobre a escola pública há umas semanas (não sei sobre que escreveria Mário Pinto se não fosse para entrar em polémica comigo!...) -- suscita algumas breves notas:
1. Para desqualificar a discussão, ele começa por me acusar de "parti pris" contra a Igreja Católica. Parafraseando-o, debalde o faz (ele escreve "de balde"...). Por mais que a Igreja Católica justifique preconceitos, eu não tenho nenhum. Limito-me a combater as tentativas da Igreja e dos seus representantes, como MP, para parasitar o Estado ou manter ou conquistar privilégios públicos ilegítimos.
2. Eu sei bem que MP é jurista. Mas nestas questões ele é acima de tudo um interessado, que quando muito é advogado em causa própria.
3. Não existe nenhum "monopólio da escola pública", como MP insiste em proclamar, contra toda a evidência. A prova são as muitas escolas católicas, incluindo a Universidade Católica.
4. Em matéria de ensino o Estado não concorre com as entidades privadas. O ensino não é uma actividade comercial sujeita ao mercado. O Estado limita-se a cumprir obrigações constitucionais. Falar em "concorrência desleal" é pelo menos despropositado.
5. A Constituição diz o que diz e não o que MP queria que ela dissesse.

domingo, 31 de julho de 2005

Lugares de encanto

Bali, Indonésia, 2004.

Correio dos leitores: Infra-estruturas de transportes

«Duas ou três notas, para ponderar:
- Se, em vez de remendos numa linha do Norte sobrecarregada, tivesse sido feito o TGV no início da década de 90, entre Lisboa e Porto, já havia, há muito, alta velocidade ao preço dos remendos que só terminarão no dia de São Nunca, como os técnicos mais informados bem sabiam. Não sou eu o técnico mas o que se tem passado com a «renovação» da linha do Norte era dado como certo por pessoas que já o garantiam, pelo menos, em 1992; ? 400 Milhões depois ainda há quem discuta?
- Nenhum político acredita numa Linha Aveiro-Salamanca e, muito menos, Lisboa ? Algarve ? Sevilha. É música para tolos, que se enganam com bolos e TGV a parar em todos os apeadeiros... (...)
- Ota, não, mas Rio Frio, sim. Se nada se fizer, só quero saber quem vou acusar de homicídio voluntário quando ocorrer um grave acidente em Lisboa. É claro que a Ota não serve, porque não tem capacidade de expansão e porque é estupidamente cara. Como são estupidamente caras as obras de adaptação da Portela, as que vão ser feitas e as que têm sido feitas desde que foi declarada a utilidade pública das expropriações em Rio Frio na década de 70 (já havia aeroporto há muito, por menos do que custaram as obras na Portela). De remendo em remendo gasta-se o dinheiro e qualquer dia não há aeroporto nenhum, porque a Portela fecha por razões de segurança e ambientais...
Pondere e peça para ver os números das obras na Portela, pelo menos desde o início da década de 80, e na linha do Norte, desde o início da de 90 (e também, quanto custavam nessa altura as obras do TGV Lisboa-Porto e do aeroporto em Rio Frio...).»

Manuel Piteira

Sociedade de informação

Apoiar a "democratização" dos computadores é positivo. Resta o preço proibitivo da Internet de banda larga, muito acima da generalidade dos países europeus. Por que é que havemos de continuar a engordar os lucros da PT e demais operadores?

Correio dos leitores: Lisboetês

«(...) Para além dos desvios fonéticos (em relação ao Português padrão, claro) que mencionou, eu lembraria mais dois, que não sendo tão frequentes, caracterizam também o falar de Lisboa.
- A troca de "u" por "ó", em casos como, por exemplo, horrível (que dizem
hórrivel), ou mesmo universidade, que já tenho ouvido óniversidade.
- Este fenómeno é mais popular, por isso tem menos visibilidade na
Comunicação Social, mas fica referido: emudecer das vogais ou ditongos antes dos sufixos "inho", que também nem sempre são formados de acordo com as normas. Ex: sulinho, em vez de solzinho ou mesmo numa versão mais popular solinho, ou pexinho em vez de peixinho.
Reparei que não mencionou outros tiques do falar, que não fonéticos, mas também muito de Lisboa. "Pograma" em vez de programa é um clássico que teima em não passar de moda.
Queria, no entanto fazer um breve reparo em relação à admissão ou não de pronúncias de "puârto" ou "bijeu" em estações de rádio ou televisão. Se olharmos para os apresentadores de notícias quer na RTP1 quer na SIC temos uma forte presença do Porto (Rodrigo Guedes de Carvalho, Judite de Sousa, José Alberto Carvalho, Júlio Magalhães). Claro que nunca tiveram pronúncias do "Porto profundo", mais típicas do Bolhão ou da lota de Matosinhos, mas um ouvido minimamente atento nota claramente os sinais de "pertença" que, claro, eram ainda mais evidentes há anos quando chegaram a Lisboa. Já Fátima Campos Ferreira parece ter mais renitência em abandonar essa pertença, e creio que não há ouvido que não note o seu local de origem. Também tenho notado jovens actores com sotaque do norte a fazerem papéis em telenovelas e séries (nomeadamente as infantis) de lisboetas e, muitas vezes da "linha".»
JCD

sábado, 30 de julho de 2005

Lugares de encanto

Ilha de Bali, Indonésia.

Energia nuclear

Num longo artigo, o Financial Times analisa o renascimento do interesse pela energia nuclear, devido à subida dos combustíveis, à necessidade de limitar a emissão de gases com efeitos de estufa, e ao desenvolvimento de reactores mais seguros e eficientes.
Em Portugal, a recente proposta de um conhecido empresário foi recebida com frieza e por uma espécie de conspiração de silêncio. Num País tão dependente de energia como Portugal, a questão do nuclear não deveria ser um tabu. Como aqui já se defendeu há meses, talvez seja tempo de começar a discutir o assunto.

Correio dos leitores: Diferenciação positiva dos camionistas

«A "diferenciação positiva fiscal para camionistas" existe desde há uma vintena de anos, ou mais, em todos os países da Europa (e não só), sob a forma de uma carga fiscal sobre o gasóleo menor do que sobre a gasolina.
Essa diferenciação, entretanto, deixou de o constituir, já que a modernização dos motores diesel, incitada por essa mesma diferenciação, levou a que hoje em dia boa parte do parque automóvel particular funcione a gasóleo. (...) É portanto de facto necessário re-instaurar a diferenciação. Isso pode E DEVE ser feito à custa do aumento do imposto sobre o gasóleo que alimenta carros particulares. É injustificável que Portugal continue a subsidiar fiscalmente alguns condutores de automóveis particulares, em detrimento de outros.
E isto seria cumprir as recomendações nesse sentido da Comissão Europeia. (...)»

Luís Lavoura

Comentário
As coisas não são bem assim.
Primeiro, o alívio fiscal do gasóleo não visava especificamente os camionistas mas sim toda as actividades económicas que consomem tal combustível. Segundo, no caso dos automóveis de turismo a diesel, o benefício fiscal do gasóleo é compensado por um imposto automóvel (IA) mais levado na compra dos veículos. Terceiro, a proposta da UE de acabar com os benfícios fiscais ao gasóleo é acompanhada pela extinção do IA.

Pedigree

A defesa lisboeta da manutenção do "seu" aeroporto na Portela faz-me lembrar irresistivelmente a defesa pelo Porto, há uma vintena de anos, das tarifas de electricidade a preços inferiores a metade do restante território nacional ou, nos dias de hoje, a defesa dos privilégios financeiros da Madeira por Alberto João Jardim. Quem tem privilégios chama-lhes seus e não admite perdê-los.

Lisboetês (3)

Infelizmente, caro Walter Rodrigues, as idiossincrasias fonéticas do "lisboetês" não consistem somente na abundância de "chês" ou "jês". Embora esse seja o mais notório, há pelo menos mais três desvios importantes da norma fonética:
a) Pronúncia como "i" breve do "i" longo, em palavras como rio, tio, pavio, etc.
b) Universalização da metamorfose de "e" em "â", como em velho (pronunciado como vâlho), joelho (pronunciado comojoâlho), coelho (pronunciado como coâlho), etc.
c) Redução do ditongo "ai" em palavras como baixo (pronunciado como "bacho"), faixa (dito como "facha"), etc.
Desnecessário se torna dizer -- mas é conveniente fazê-lo para os distraídos ou mal intencionados -- que não está em causa o modo particular como os lisboetas falam. São livres para falarem como quiserem (embora me surpreenda o desmazelo linguístico de pessoas com formação superior). O que me parece censurável é que os profissionais dos meios de comunicação social não sigam a norma fonética nacional e usem uma pronúncia local em estações de rádio e de televisão nacionais, influenciando desse modo todo o país (dado o poder da televisão). É evidente que ninguém admitiria nessas estações um locutor com uma pronúncia à moda do "puârto" ou de "vijeu". Então, por que aceitar que eles falem à moda do "Caichedré" ou da "Linha"?

sexta-feira, 29 de julho de 2005

Peço desculpa pelo equívoco

"O interesse do país é que os contribuintes não sejam chamados a pagar um novo aeroporto para Lisboa, que Lisboa não quer e de que não precisa" (Miguel Sousa Tavares, PÚBLICO, 29-07-05). Julguei que o aeroporto internacional é para todo o país (10 milhões) e não para Lisboa (1 milhão). Pelos vistos, equivoquei-me...

Mas quem é que confia nelas?

«PSD adora sondagens na Internet».

Impunidade

Os polícias que na Assembleia da República participaram na vozearia e nos insultos soezes contra deputados e ministros não podem ficar impunes. O estatuto disciplinar, que prevê a suspensão imediata de funções em caso de infracção disciplinar grave, não é para ficar na gaveta. Esses senhores estão a mais na polícia. É uma questão de decência democrática e de elementar autoridade do Estado. Nada mais deletério numa democracia do que a impunidade dos agentes da ordem pública.

Os "direitos adquiridos" de Lisboa

A irritada resposta de Miguel Sousa Tavares, hoje no Público, ao meu artigo de terça-feira no mesmo jornal, pode bem figurar numa antologia das melhores defesas sindicais de "direitos adquiridos" a que temos assistido nos últimos tempos. A questão essencial, porém, está em que, enquanto MST defende o aeroporto de Lisboa, mesmo quando ele já deixou de servir as necessidades do País, eu defendo um novo aeroporto internacional para o País, naturalmente o mais próximo possível de Lisboa, só que infelizmente não pode ser dentro de Lisboa (no meu artigo eu nem sequer falava na Ota).
No meu artigo lamentava ver "pessoas normalmente lúcidas" a defender a desnecessidade de um novo aeroporto. Vejo que errei no adjectivo. A defesa de privilégios não salvaguarda a lucidez de ninguém. Quem tem privilégios chama-lhes seus e não admite perdê-los.

PS 1 - Reparo que MST não se referiu aos demais privilégios de Lisboa, por mim citados, o mais escandaloso dos quais é a responsabilidade do orçamento do Estado pelos transportes locais da capital. Também são "direitos adquiridos"?

PS 2
- Ao contrário de MST, eu não defendo nenhum aeroporto à porta de casa. Em matéria de transportes públicos relativamente a Coimbra só queria uma estação ferroviária digna desse nome (em vez do miserável apeadeiro actual). Bastava o custo de uma estação de metro de Lisboa...

Dili, remodelação, 2005

Ontem assisti em Dili à tomada de posse dos novos membros do Governo timorense. Três anos e um mês depois da Independência, ocorre a primeira remodelação governamental.
Que diferença!
Desde logo, a cerimónia tem lugar na antiga casa do Governador colonial em Lahane, agora residência oficial da Presidência da República. Bem recuperada (faltam alguns acabamentos e a decoração interior), com apoio da Câmara Municipal de Lisboa e da UCLA. A vista é magnífica sobre Dili, luz coada ao fim da tarde, Ataúro atrás do mar azul espelhado. Em 2002 a casa estava esventrada, sem telhado, queimada. Em Março de 1999, depois de visitar Timor-Leste pela primeira vez, disse a Xanana na prisão de Salemba que, se aquela casa não viesse um dia a ser utilizada pelo Estado timorense, teria de ser a residência da embaixada de Portugal.
A cerimónia é concorrida e formal, embora sem excessos. Discursos do PM e do PR curtos, medidos, lidos. Nada das arengas do passado. Profissional, embora distendida pelas provocados pelas bocas sorridentes que o PR vai mandando em surdina aos empossados.
Todos os homens membros do Governo estão de fato e gravata, Presidente da República incluido - em 2002, nas cerimónias da independência, ele recusara o apêndice. As mulheres mostram mais diversidade na fatiota, apesar da sobriedade geral. O corpo diplomático comenta quem é quem.
Há mais uma mulher Ministra - uma jovem engenheira na sensibilíssima pasta das Obras Públicas (passarão por ali boa parte dos milhões do petróleo nos próximos anos, as tentações não faltarão).
A remodelação tem a ver com a crise política recente, disparatadamente desencadeada e conduzida por certos tenores da Igreja. Que não se conformam por ter perdido protagonismo político (uns que há uns anos eu ouvi dizer, pouco cristamente, referindo-se aos indonésios em geral, «a gente perdoa-lhes, mas só depois de todos mortos...»). E que o ressaibiamento hoje cega, ao ponto de não se importarem de serem instrumentalizados por outros interesses para explorar a natural insatisfação de muito povo que ainda não viu as expectativas minimamente satisfeitas.
A remodelação é um bom princípio e vai no bom sentido. Mas parece-me ficar aquém das necessidades. E as necessidades passam muito pela capacidade de comunicação dos governantes com o povo. Esse que fora de Dili, nos distritos, só conhece o que vai na governação do país sobretudo através das homilias nas igrejas. Porque, todos concordam, a crise política ainda não está completamente encerrada. A procissão pode ainda ir no adro.

Foco errado

Penso que os apoiantes de Cavaco Silva que, de forma claramente concertada, insistem em valorizar as competências económicas e financeiras do antigo primeiro-ministro como vantagem para o cargo presidencial estão a prestar-lhe um mau serviço. Primeiro, não são as competências técnicas mas sim as qualidades políticas e humanas que são relevantes e decisivas para o cargo (para as questões técnicas há os assessores...); segundo, o que as pessoas esperam é que a política económica e financeira seja definida e executada pelo Governo, que por ela é responsável perante o Parlamento e o país, de acordo com o seu programa político, e não pelo Presidente da República, que não é eleito para isso; terceiro, a suspeita de ver em Belém uma espécie de ministro-sombra da oposição na pasta da economia e das finanças é tudo menos coerente com a alegada vocação de Cavaco Silva para a estabilidade política e a não ingerência na esfera governamental. Não é tudo isto evidente?

Então por que não saem?

Em mais uma das suas tiradas demagógicas, Berlusconi acusou o euro de ser responsável pelas dificuldades económicas e financeiras italianas, que a sua própria política incompetente e errática gerou. Pretende desse modo atacar Prodi, que era primeiro-ministro na altura da adesão da Itália à moeda única e que será o seu rival nas eleições gerais italianas do ano que vem.
É de perguntar: então por que não volta a Itália à lira? A resposta é simples: porque, com o imediato afundamento da dita e a subida drástica das taxas de juro que se seguiria, o país entraria em espiral de inflação e em provável bancarrota. Mas com chefes de governo destes, prontos a tomar as instituições comunitárias como bodes expiatórios da sua própria incapacidade, como há-de a UE estar de boa saúde?

Tocqueville

Passa hoje o bicentenário do nascimento de Alexis de Tocqueville, um dos mais importantes pensadores políticos dos últimos dois séculos, que ficou a dever a sua fama sobretudo a duas das suas obras, respectivamente, Democracia na América (1º volume em 1835) e O Antigo Regime e a Revolução (1856). Sendo um dos grandes teorizadores da democracia liberal e do liberalismo em geral, escreveu também páginas bem menos dignas de aplauso, como a justificação da sangrenta ocupação colonial francesa da Argélia.
As suas posições liberais e a sua preocupação contra a centralização do poder nas democracias fizeram dele uma das bandeiras das correntes neoliberais e, sobretudo, neoconservadoras contemporâneas. Mas, apesar dessa apropriação ideológica, ele permanece como uma das referências do património comum do pensamento liberal-democrático em geral.