sábado, 12 de agosto de 2006

Rio Congo: à pesca...



Rápidos à saída de Kinshasa, 3.8.06, 15 horas

Bemba ou Kabila:venha o diabo e escolha...



O espaço de paredes esburacadas era uma sala de aula, em Dima, Kinshasa I.
O cansaço era imenso e dificultava a concentração. A luz do único candeeiro a petróleo mal dava para ver. Os boletins de voto eram desmesurados, difíceis de manusear. A fome e sede apertavam. Um rato escapuliu-se, à tangente pelos meus pés. Mas por volta da meia-noite, eles conseguiram afixar à porta os resultados apurados. O número de votos nulos ou inválidos foi extraordinariamente reduzido - 7 em 170 - mostrando que os votantes sabiam votar, como assinalar as suas escolhas. Nas presidenciais, Bemba saca 107, a grande distância de Kabila, só com 21, logo seguido de Kashala com 18.
É só uma mesa de voto. Em Kinshasa, outrora "Kin-la Belle", hoje referida pelos seus habitantes como "Kin-la Poubelle".
Mas uma mesa de voto que, confirmei depois, reflectiria a escolha da capital congolesa. E, tudo indicava, a das provincias do norte, centrais e do oeste.
Uma escolha diferente, antecipava-se, das zonas a leste e sul, incluindo o Katanga - onde a população deste país (do tamanho de toda a Europa Ocidental) é mais numerosa. Onde se previa que Kabila vencesse em proporção semelhante à de Bemba em Kinshasa. E onde as fraudes também seriam mais fáceis...
Kabila e Bemba - coitados dos congoleses! Como disse a espantosa Eve Bazaiza, candidata nº256 por Kinshasa ao parlamento: "Que venha o diabo e escolha: ambos são chefes de guerra, ambos mantêm milícias armadas. Nenhum vai tolerar não ganhar. Nenhum vai tolerar sequer não passar à primeira volta. O risco de qualquer um provocar a violência é real".
O povo votou ordeiramente, com seriedade. Não é aceitável que tudo seja deitado a perder, por quem quer que seja. Está lá a MONUC. Está lá a EUFOR. Que não lhes doa a mão, se for preciso intervir contra quem queira perturbar o processo. Para não falhar aos congoleses que, ao votarem assim, mostraram não apenas precisar, mas realmente querer, paz e governação democrática.

Eleições na RD Congo


Kishasa I, Dima, às 20.00 horas, dia 30 de Julho de 2006

Kinshasa I, Dima, às 22.30, dia 30 de Julho de 2006

Eles não comiam nem bebiam há quase 24 horas, para não largar a mesa de voto em Kinshasa onde eram agentes da administração eleitoral, observadores não governamentais ou representantes dos partidos políticos ou candidatos. Disseram-me: "não faz mal, nós estamos habituados a comer pouco, ou até a jejuar...!"
Eles achavam - disseram-mo com uma seriedade comovente - que do seu empenhamento,rigor e vigilância na execução das tarefas eleitorais dependeria a autenticidade da escolha do povo. E dela dependeria o futuro do seu Congo, tão escandalosamente rico pela geologia e sempre tão miseravelmente espoliado. Dela dependeria, enfim, a esperança de alguma boa governação. E o fim do sofrimento do seu tão martirizado povo. Dela dependeria crucialmente o resto da vida de cada um.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Correio dos leitores: Pirataria do Abrupto

«Sobre o seu post mencionando o ataque ao blog de Pacheco Pereira, devo referir que publiquei há dias um post sobre o assunto contendo algumas conclusões, resultantes de investigação persistente, que poderão esclarecer algumas dúvidas (...).
Alguns visitantes fizeram-me notar que aquele texto está redigido de forma um pouco hermética, dado o seu carácter exclusivamente técnico, pelo que transcrevo seguidamente uma tentativa - usada como resposta a uma dessas objecções - de dizer o mesmo em linguagem absolutamente corrente:
O que se passou foi isto: um tipo que vive de publicidade em páginas na Internet escolheu o Abrupto (provavelmente, entre outros blogs com altos níveis de visitantes) e injectou na conta Blogger deste um pequeno programa (javascript) que lhe permitiu (permite) substituir os conteúdos do blog original com os seus próprios. Pronto. Quando quer (quiser), abre a conta de JPP (com uma ferramenta chamada AJAX) e, em vez de "user name", introduz um "script" que substitui o conteúdo (o "bug" da plataforma Blogger consiste em permitir isto); depois, repõe a situação inicial (user ID e password), o "post" pirata passa a arquivo histórico, e assim por diante. Entretanto, a sua conta publicitária (AdBrite) contabiliza de cada vez mais uns milhares de "page-views" e, com sorte, uns quantos "cliks" em anúncios; é assim que o "hacker" é pago, além de se tornar conhecido no meio "hacker" por ter chateado mais um "colunável".»

João Pedro G.

Correio dos leitores: O PSD e AJJ

«O PS, quando faz campanha, ou no seu dia a dia, costuma associar o PSD e o seu lider nacional aos despautérios do Alberto João?... Se calhar, devia começar a fazê-lo. O PSD não se demarca porque nada o obriga (politicamente) a fazê-lo.»
Henrique J.

Correio dos leitores: Lista de devedores ao fisco

«Também sou da sua opinião [sobre a publicação da residência dos devedores ao fisco]; com a residência, a lista era mais identificadora.
Mas, pondo de lado a justeza ou injusteza da publicitação, ao não ser a lista de âmbito nacional, não existe aqui uma ilegalidade? Ou será que há dois Estados? Mesmo que a administração fiscal da Madeira esteja na dependência do Governo Regional, os madeirenses não são devedores como os do Continente? Será que os direitos e deveres de cidadania são diferentes entre os continentais e os insulares? E se os madeirenses "são outro género de devedores", faz sentido contribuirmos para o orçamento madeirense?
Perante esta situação, será que os nomeados (e os não nomeados) podem continuar a pensar que o Estado é pessoa de bem?
E estou curioso por ver a lista que o Tribunal de Contas pretende publicitar dos credores do Estado; seria muito interessante se ocorresse o caso de algum particular ser simultaneamente devedor e credor perante o Estado.»

Agostinho P.

Mais do mesmo

A CGTP revelou o seu plano para o financiamento da segurança social, que consiste, como era de esperar, em criar um novo imposto sobre as empresas (com base no valor acrescentado), a acrescentar à actual taxa social.
Devo dizer que até concordo na criação de um novo factor de financiamento da segurança social com base no valor acrescentado das empresas, desde que, porém, isso sirva para diminuir a actual taxa social única que impende somente sobre o volume dos salários (e por isso sobrecarrega as empresas de mão-de-obra intensiva) e é demasiado elevada, onerando excessivamente essas empresas e sendo um dos factores que favorecem a redução do pessoal e a fuga para o regime do "recibo verde".
De resto, não compreeendo por que é que o Governo e o PS se recusam a considerar essa hipótese. Tudo o que sirva para diminuir os custos do trabalho contribui para reduzir o desemprego e para melhorar a competividade das empresas. E a responsabilidade pelo financiamento da segurança social -- que deve ser auto-sustentável -- deve incumbir sobre toda a economia e não somente sobre o volume dos salários.

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Correio dos leitores: Ainda o caso de Setúbal

«(...) Na minha opinião, não devemos quer para as autarquias o que não queremos para a Assembleia da República e para o Governo, em cujos cargos não é bem vista a "desobediência" partidária dos deputados e dos ministros, respectivamente. Lembram-se do caso do antigo deputado do PSD Carlos Macedo, que entrou em ruptura com o primeiro Governo de maioria de Cavaco Silva? Por outro lado, os eleitores não votam na figura do Primeiro-Ministro nem na do presidente da Assembleia da República...
O facto de a figura do presidente da Câmara ter que ser, obrigatoriamente, o cabeça da lista do partido mais votado, ao invés do que acontece para as Assembleias Municipais, já é uma "via presidencialista" dos Executivos municipais. Aliás, os autarcas que não se revejam nos partidos que os elegeram têm a possibilidade de concorrem em listas independentes, como aconteceu, recentemente, em Felgueiras, Gondomar, Oeiras e em Amarante.»

José Carlos Pereira (Felgueiras)

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Duas sugestões...

... para a necessária separação entre a política e o futebol: (i) acabar com a possibilidade, que consta da actual lei, de as entidades públicas (incluindo nomeadamente as autarquias) serem sócias das SAD; (ii) tornar incompatível o exercício simultâneo de cargos em clubes e organismos desportivos e de cargos políticos.

Lista

A lista dos principais devedores ao Fisco inclui somente o número fiscal e o nome das pessoas/empresas. Se a ideia é denunciar publicamente os faltosos perante a comunidade, como censura pública, não seria útil acrescentar o local de residência?

Escolha

O PSD recusa-se, mais uma vez, a demarcar-se das disparatadas declarações de A. J. Jardim no estival comício partidário madeirense do Chão da Lagoa. No entanto, tratando-se de um dirigente nacional do Partido e de um governante regional, a ausência de distanciamento do PSD nacional só pode ser lida como conivência, na pior das hipóteses, ou pusilanimidade política, na melhor.
Contudo, face à crescente gravidade e recorrência dos despautérios jardinescos, parece, porém, evidente que já chegou a hora em a direcção nacional do PSD tem de escolher entre defender a sua própria credibilidade política nacional ou coonestar a incontinência reaccionária, idiota e malcriada do líder regional da Madeira.

Reciprocidade

«Tribunal de Contas vai elaborar lista de dívidas [do Estado]». Muito bem. Se o Estado publica o nome dos seus devedores, também temos o direito de conhecer os dos seus credores (sobretudo quando se trata das mesmas pessoas). O Estado caloteiro é tanto ou mais censurável do que os contribuintes caloteiros.

Nome errado

A Associação Nacional dos Contribuintes acha "lamentável" a publicação dos nomes dos grandes devedores ao Fisco. O que é lamentável é o protesto da ANC, que deveria mudar de nome, para Associação Nacional dos Não Contribuintes.

domingo, 30 de julho de 2006

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Quem é que tinha ilusões a tal respeito?

«A maré da opinião pública árabe vira em apoio do Hezbollah».

Cachorrinho ou pato?

Talvez por finalmente perceber que o terrorimo internacional é quem capitaliza com o que se está a passar no Médio Oriente (e porque o sofrimento obsceno dos civis no Líbano, em Gaza e também em Israel, visivelmente não o comove, nem impele a agir), e sob forte pressão de muitos dos seus mais fiéis seguidores, Blair precipita-se para Washington...
Já viram como as peças das televisões internacionais CNNs e BBCs, etc.. estão cheias de referências ao «poodle», ao «Yo Blair», ao «lame duck»?
Já viram como alguns dos mais fiéis colaboradores de Blair estão a sair a terreiro criticando-o pelo reflexo canino de obedecer a Washington? Até Stephen Wall, que foi seu conselheiro diplomático, embaixador em Lisboa e junto da UE, em Bruxelas...
Se não fosse tão trágico para o mundo, até dava vontade de rir.

Médio Oriente: A Al Qaeda esfrega as mãos...

Está na ABA DA CAUSA um artigo que escrevi para a edição de hoje do COURRIER INTERNACIONAL: «Médio Oriente: novo, talvez. Mas melhor?». E que foi escrito na segunda feira passada, quando a Sra. Rice começava o périplo pelo Médio Oriente e havia alguma esperança que a conferência de Roma acelerasse o cessar fogo e portanto também o retorno a negociações políticas.
De então para cá verificou-se que Israel subestimou as capacidades militares do Hezbollah. E a demora na desarticulção militar do Hezbollah já é uma alarmante derrota política para Israel.
Por outro lado, por todo o mundo islâmico, e no Médio Oriente em particular, cresce o apoio popular ao Hezbollah. E a Al Qaeda não podia deixar de vir a terreiro - o terrorismo internacional soma e segue, como eu noto no meu artigo:
«Enfim, do sofrimento obsceno dos inocentes nesta guerra talvez venha a brotar, a prazo, algum bom senso. Mas, o afluxo de jovens em todo o mundo islâmico (incluindo na Indonésia, de onde escrevo) a engrossar as fileiras da «jihad» por causa das imagens de Gaza e do Líbano, demonstra ominosamente que quem, para já, esfrega as mãos de contentamento é a Al Qaeda».
Os fanáticos da Al Qaeda serão sunitas e rivais furiosos do xiita Hezbollah. Mas por isso mesmo, não se podem ficar atrás, deixando que o rival apareça a liderar o combate contra Israel e o Ocidente. Esperemos pelo que a Al Qaeda vai tratar de nos arranjar, algures no mundo...

Maniqueísmo (2)

Outro dos fáceis argumentos pró-israelitas consiste em defender que, sendo Israel uma democracia, com pluralismo político e liberdade de expressão (embora sendo um Estado étnico e confessional), então não pode haver escolha numa guerra com Estados e movimentos islâmicos de tipo autoritário e fundamentalista.
Também aqui o argumento não passa de uma mistificação maniqueísta. As opções e a conduta bélica de Israel, se censuráveis em si mesmas, não deixam de o ser só pelo facto da natureza democrática do Estado judaico, nem esta cancela a condenação das mesmas. Criticar Israel não significa necessarimente alinhar com os seus adversários.
Por um lado, as democracias não estão ao abrigo de se envolverem em guerras injustas, mesmo com aplauso geral dos seus cidadãos. Basta lembrar a guerra de França contra ao movimento de independência argelina ou a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, que chegou a contar com o apoio maciço dos norte-americanos. Aliás, se bastasse o apoio popular para legitimar as guerras, o mundo teria padecido de um número ainda maior de guerras do que as que ocorreram.
Por outro lado, no caso das democracias, as guerras injustas e os crimes de guerra e crimes contra a humanidade são ainda mais intoleráveis do que no caso dos regimes autoritários, justamente porque põem em causa a dignidade e a legitimidade da própria democracia. É por isso que Guantánamo é mais inadmissível do que as prisões políticas castristas; é por isso que os métodos repressivos de Israel nos territórios ocupados e a destruição punitiva do Líbano são mais censuráveis do que a violência dos movimentos extremistas islâmicos.
Em definitivo, mesmo na guerra (ou sobretudo nela) as democracias devem manter alguma superioridade moral; quando usam os mesmos métodos que os utilizados pelas forças que qualificam como terroristas, então descem ao nível destes.

quinta-feira, 27 de julho de 2006

Maniqueísmo

O mais torto "argumento" dos apoiantes de Israel na guerra do Líbano, contra os seus críticos, é o de que quem não está com Telavive está com o Hezbollah. "Se não estás connosco, estás com o outro lado" --, uma versão ainda mais maniqueísta do que a de Bush, quando, na véspera da invasão do Iraque, clamava que quem não estava com Washington, estava com "eles", querendo dizer Saddam Hussein!
O argumento, em si mesmo, não passa de uma óbvia mistificação retórica, destinada apenas a legitimar, sem censura, os erros e excessos belicosos de Israel nesta guerra. Por mim, se existe algo que abomino, desde sempre, são os regimes e os movimentos políticos fundamentalistas de base religiosa, como o regime iraniano e o Hezbollah. Não é seguramente por amor aos seus inimigos que critico Israel nesta ocorrência.
Aliás, a razão por que Israel não convence muita gente só tem a ver com o Hezbollah na medida em que a sua resposta à provocação deste, com o massacre indiscriminado de infra-estruturas e de civis inocentes no Líbano, só veio aumentar as razões de queixa e de ódio antijudaico entre as massas árabes, inclusive no Líbano, sentimentos que ampliam os apoios do Hezbollah e dos movimentos radicais islâmicos. Lá para trás, foi a prolongada ocupação israelita do Líbano que criou o Hezbollah; agora, com o novo ataque destrutivo ao Líbano, Israel está a entregar ao Hezzbollah o protagonismo de todos os agravos árabes contra o Estado judaico, incluindo na questão palestinina.
O que é uma tragédia, tando para os palestinianos como para Israel.

"Enganos"

«Israel ataca comboio humanitário». Mais um "engano"? Já são "enganos" de mais, não é?

quarta-feira, 26 de julho de 2006

Em defesa do Abrupto

José Pacheco Pereira deve ter a solidariedade de todos os blogues na sua luta contra a miserável pirataria que visou o Abrupto. Devemos desejar e esperar que ele leve a melhor contra a canalhice cobarde, para bem deste espaço de autonomia pessoal e de liberdade crítica, que são os blogs. Confiemos também que o Blogger esteja a tomar medidas para impedir patifarias destas, como é sua obrigação.

Mais um "anti-semita"

Com a sua lúcida e equilibrada análise de hoje no Público sobre a guerra no Líbano (link só para assinantes), o General Loureiro dos Santos revela seguramente estar contaminado pela peste do "anti-semitismo", que os papagaios do extremismo bélico de Israel logo detectam nos que não seguem a cartilha integrista de Telavive.

"Infra-estruturas do Hezbollah"

«OS MÍSSEIS NÃO POUPAM A CRUZ VERMELHA: Uma sensação de invulnerabilidade prevaleceu durante os primeiros dias entre os voluntários da Cruz Vermelha da cidade de Tiro. Depois, no domingo passado, tudo mudou: duas ambulâncias foram atingidas por dois mísseis israelitas. Ficou a sensação de se terem transformado em alvos directos (Público de hoje; link só para assinantes).
Obviamente mais um "engano" da sofisticada aviação islaelita, com um óbvio propósito de expulsar observadores incómodos. Decididamente, Israel está disposto a sacrificar tudo aos seus objectivos militares. Mas isto tem um nome: crimes de guerra.

"Infra-estruturas do Hezbollah"

Um posto de observadores da ONU também entra na categoria das "infra-estruturas do Hezbollah"? Já não há limites a sanha punitiva de Israel. A alegação de "engano" não tem a mínima credibilidade, dadas as advertências prévias da ONU e a "precisão cirúrgica" de que se gaba o exército israelita. É evidente que Israel não quer observadores nenhuns no terreno, para melhor poder prosseguir e tentar esconder as atrocidades que vai cometendo no sul do Líbano.

Antologia do dislate

Para certas luminárias da direita, todos os críticos do belicismo de Israel padecem de "anti-semitismo", mesmo se inconsciente (concedem eles...) tal como todos os críticos das aventuras guerreiras de Bush sofrem de "anti-americanismo primário", mesmo se não assumido (acusam eles...).
No seu sectarismo insano, porém, não se dão conta de que entre os tais putativos "anti-semitas" estão muitos judeus, fora e dentro de Israel, que condenam a política agressiva israelita, tal como entre os possessos do alegado "anti-americanismo" estão inúmeros norte-americanos anti-Bush (nesta altura mais de metade dos cidadãos estadunidenses...). Mas que lhes importa isso? Se os factos contrariam o argumento, que se lixem os factos...

Não pode valer tudo (2)

Quem fica particularmente mal nesse episódio do ataque a Manuel Alegre é Marques Mendes, que, não podendo desconhecer as coisas, preferiu alinhar na baixa campanha populista contra Alegre.
Não é desta massa, porém, que se faz a seriedade dos dirigentes políticos com pretensões a serem governantes.

Não pode valer tudo

A campanha orquestrada contra Manuel Alegre, por causa da atribuição de uma pensão da CGA, é mesquinha e malévola.
Os factos: (i) Manuel Alegre era funcionário da RDP quando foi eleito pela primeira vez deputado; (ii) a lei dispõe que os deputados não podem ser prejudicados na sua colocação, pelo que não perdem o seu lugar, mesmo sem exercerem a sua actividade (mas neste caso não recebem a remuneração, obviamente); (iii) Manuel Alegre manteve os descontos para a CGA pela sua actividade suspensa, calculados pela remuneração de deputado, como é de lei; (iv) chegado aos 70 anos, foi compulsivamente e automaticamente aposentado pelo emprego que nunca deixou, com a pensão correspondente à remuneração que serviu de base aos seus descontos para a CGA; (v) porém, continuando a ser deputado no activo, ele não poderá acumular por inteiro a pensão e o vencimento de deputado, tendo de optar por um deles e 1/3 do outro (isto, segundo a nova lei aprovada já neste Governo, pois antes poderia acumular os dois montantes).
Acresce que, se ele tivesse querido, ele poderia ter requerido a reforma logo que perfez as condições para isso, podendo portanto ter acumulado essa reforma e a remuneração de deputado durante vários anos. Em vez de ser louvado por não se ter prevalecido desse privilégio (como muita gente fez...), Manuel Alegre é injustamente acusado de uma imoralidade, sem nenhum fundamento.

terça-feira, 25 de julho de 2006

Vítimas israelitas


Vejo na televisão o primeiro-ministro israelita a condenar veementemente, como "intoleráveis", as vítimas civis dos mísseis lançados pelo Hezbollah sobre Haifa. Tem toda a razão. Mas as vítimas civis libanesas dos ataques israelitas (aliás, em escala muito, muito maior), essas já são "toleráveis", ou os libaneses não contam?

"Destruindo a infra-estrutura do Hezbollah"

Fonte: Jornal Guardian (Fotografia: Sean Smith). Legenda original: «Tears of a son. July 23: Ali Sha'ita, 12, is distraught as he tries to comfort his mother, who was injured in an Israeli missile strike on their vehicle, killing three and injuring 16.»

Da mesma estirpe

«Chávez felicita a Lukashenko por sofocar las protestas de la oposición».

13 em 15

«Pelo menos sete civis e oito militantes xiitas, entre os quais dois combatentes do Hezbollah, morreram hoje no Líbano depois dos bombardeamentos israelitas sobre o país, avançam fontes policiais e de grupos xiitas» - anunciam as agências noticiosas. Ou seja, dos 15 mortos 13 foram "vítimas colaterais", na indecente linguagem dos comunicados militares. Se aplicarmos a mesma proporção aos quase 400 mortos já registados, ficamos com uma contabilidade macabra da "legítima defesa israelita". E ainda dizem que se não trata de matança a esmo!

Correio dos leitores: Israel e Estados Unidos

«Está sempre, sistematicamente, contra Israel e os Estados Unidos. Não lhe parece que já é fundamentalismo anti-americano e anti-israelita? No caso do Líbano, não é verdade que Israel foi atacado pelo Hezbollah, tendo portanto o direito de contra-atacar?»
Frederico T. F.

Comentário
O leitor parte de um pressuposto errado. Estive do lado de Israel e dos Estados Unidos em vários conflitos. Com o primeiro, quando ele foi atacado pelos seus vizinhos em 1967 e de novo na primeira guerra do Golfo, quando foi atacado por mísseis iraquianos, sendo alheio a essa guerra; com os segundos, na referida primeira guerra contra o Iraque (que tinha invadido e ocupado o Koweit) e no ataque ao Afeganistão (que acolhia e dava protecção à Al-Qaeda). As minhas posições dependem do caso concreto e regem-se exclusivamente pelas regras do direito internacional e de justiça entre os países. Os seguidores incondicionais daqueles dois países é que não costumam falhar nunca no seu apoio a tudo o que eles façam...
No caso concreto, é evidente que Israel tem direito a defender-se dos ataques de que é alvo (como escrevi aqui). Mas uma coisa é atacar o Hezbollah (que é um movimento armado libanês, criado aliás na sequência da ocupação israelita do Líbano...) e outra coisa é destruir o Líbano como país, matando centenas de civis inocentes e causando a deslocação de centenas de milhares de outros. A legítima defesa só justifica o ataque aos agressores ( e não a terceiros) e está sujeita à regra da resposta proporcionada à agressão.
Por outro lado, enquanto não houver uma solução justa para a questão palestiniana, com a retirada israelita dos territórios ocupados, as forças militares israelitas são sempre alvos legítimos das forças de resistência palestiniana e dos que apoiam a sua luta.

Conveniências

Israel reclama a criação de uma zona tampão no sul do Líbano, a ser guarnecida por forças militares internacionais, como meio para impedir os ataques do Hezbollah provindos dessa região. É uma boa solução. Aliás, seria uma solução igualmente boa no caso da fronteira entre Israel e a Síria (permitindo devolver os Montes Golã e pôr fim ao conflito entre os dois países) e entre Israel e os territórios palestinianos (permitindo a Israel libertar os territórios ocupados, como é sua obrigação, e não sofrer ataques oriundos de lá).
Só se não entende por que é que Israel nem sequer quer ouvir falar numa solução dessas. Afinal, o que é bom para uma coisa não é boa para outras idênticas, de acordo com as conveniências...

Por que é que...

... no seu apoio (incondicional) a Israel a direita não consegue deixar de acusar os críticos de "anti-semitismo"? Será para exorcizar o seu próprio anti-semitismo tradicional, esse bem real?
E os muitos judeus que em Israel e por esse mundo fora criticam a guerra (como o autor citado no post anterior), também são anti-semitas?

Gostaria de ter escrito isto

«The fact that George Bush and Tony Blair are cheering Israel might be consolation for Ehud Olmert and the media in Israel, but it is not enough to persuade millions of TV viewers who see the destruction and devastation, most of which are not shown in Israel. The world sees entire neighbourhoods destroyed, thousands of refugees fleeing in panic, and hundreds of civilians dead and wounded, including many children. A lethal summer will exact a much greater price. Slowly, the cracks will open and Israel's citizens will begin to ask why we are dying and what we are killing for.»
(Gideon Levy, "The cracks are opening", Guardian de hoje)

segunda-feira, 24 de julho de 2006

Os falsos liberais

Por que é que as negociações para a liberalização do comércio mundial -- que poderia beneficiar todos os países -- terminam geralmente em fracasso por causa da resistência, ora da UE ora dos Estados Unidos, para eliminarem os maciços subsídios à agricultura, prejudicando assim a exportação de produtos agrícolas dos Estados do sul? A UE e os Estados Unidos clamam muito pela liberalização do comércio --, mas somente naquilo que lhes convém, ou seja, para obterem o abatimento dos direitos de importação dos seus produtos. Quando se trata do inverso, os liberais "viram" protecccionistas.
Os subsídios agrícolas não prejudicam somente os agricultores de outros países, mas também os contribuintes dos países subsidiadores (que pagam os subsídios) e os consumidores (que pagam produtos mais caros). Quem lucra, em geral, é somente o normalmente poderoso e influente lóbi dos agricultores, que beneficiam dos subsídios e mantêm os mercados internos protegidos da concorrência estrangeira.

"Destruindo as infra-estruturas do Hezbollah"


...ou mais uma "treta" para comprometer Israel? Desconfia-se mesmo da genuinidade da foto...

"Tretas" (2)

«"O bombardeamento extensivo da infra-estrutura civil libanesa, das pontes, do aeroporto, o bloqueio imposto ao Líbano, por mar e terra, e a destruição das pontes, o que torna muito difícil a movimentação das pessoas e acabará por tornar muito difícil a chegada de comida, medicamentos e outros, é um castigo ao povo libanês como um todo", disse o secretário-geral das Nações Unidas». (Público de ontem).
Obviamente, tretas de outro inimigo de Israel.

"Tretas"

«Responsável da ONU chega a Beirute e acusa Israel de estar a violar direitos humanos.» Obviamente, tretas dos inimigos de Israel...

domingo, 23 de julho de 2006

Indigno

O que se passou na primeira sessão do julgamento de José Miguel Júdice na Ordem dos Advogados é indigno de qualquer instituição pública, como é o caso. É tempo de atalhar a deriva iniciada com a precipitada acusação ao ex-bastonário.

Gostaria de ter escrito isto

«Israel is likely to kill enough Lebanese to outrage the world, increase anti-Israeli and anti-American attitudes, nurture a new generation of anti-Israeli guerrillas, and help hard-liners throughout the region and beyond. (Sudan?s cynical rulers, for example, will manipulate Arab outrage to gain cover to continue their genocide in Darfur.) But Israel is unlikely to kill more terrorists than it creates.»
(Nicholas D. Kristoff, "Spanish Lessons fo Israel", New York Times de hoje)

sábado, 22 de julho de 2006

"Entre ruínas, ninguém leva a melhor"

Como sempre, está disponível na Aba da Causa o meu artigo desta semana no Público, com o título em epígrafe, sobre a guerra de Israel no Líbano.

"Civilização"

Uma potência guerreira ataca o país vizinho, onde está sedeado um grupo armado responsável por uma incursão no seu território. Durante dias e dias de puro massacre bélico, destrói infra-estruturas de toda a espécie em todo o país (estradas, aeroportos, pontes, centrais eléctricas, fábricas e hospitais), arrasa cidades e bairros urbanos, mata centenas de pessoas inocentes, provoca o êxodo de mais de meio milhão de pessoas. Entre os seus adeptos há quem chame a isto a luta pela "civilização".
Em tempo de barbárie, as palavras trocam de sentido. (Na imagem, Beirute sob as bombas).

Touradas na TV

Eu também sou contra a trasmissão de touradas na televisão em canais de sinal aberto, designadamente na RTP. Quem gostar da barbárie contra os animais, que aprecie "in situ", nos locais a isso destinados, ou em canais de TV por assinatura.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

E o Governo português...

... não tem opinião própria (ou não...) sobre o ataque israelita ao Líbano?

"A infra-estrutura do Hezbollah"

Mais um testemunho (foto Lusa) da virtuosa operação de Israel na destruição das "infra-estruturas do Hezbollah" em Beirute!...

"Uma guerra sem sentido"

«A pointless war that no one may have wanted and no one can win. It should stop now. (...) This is madness, and it should end. It is madness because the likelihood of Israel achieving the war aims it has set for itself is negligible. However much punishment Mr Olmert inflicts on Hizbullah, he cannot force it to submit in a way that its leaders and followers will perceive as a humiliation. Israel's first invasion of Lebanon turned into its Vietnam. It is plainly unwilling to occupy the place again. But airpower alone will never destroy every last rocket and prevent Hizbullah's fighters from continuing to send them off. No other outside force looks capable of doing the job on Israel's behalf. At present, the only way to disarm Hizbullah is therefore in the context of an agreement Hizbullah itself can be made to accept.»
(Editorial do
The Economist de hoje).
Decididamente, até o velho e conservador Economist se virou contra mais esta aventura bélica do Estado judaico. O que dirão os ventríloquos dos falcões de Telavive, sempre prontos a denunciar as cavilosas motivações dos "inimigos" de Israel?

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Os guerrófilos

Os que apoiaram o ataque dos EUA ao Iraque aplaudem agora também o ataque de Israel ao Líbano. Há um clube de fãs de todas as guerras. Não conseguem passar muito tempo sem uma guerra a sério, sobretudo as lançadas pelos fortes contra os fracos...