sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Cessar de asnear

Dedico a transcrição da entrevista do ex-agente da CIA Michael Scheuer (ver post acima "Um olhar da CIA sobre o legado de Bush") ao meu colega no Parlamento Europeu, do PSD, Vasco Graça Moura. Pelo seu artigo "Cessar o quê?", publicado dia 23 no DIARIO DE NOTICIAS.
O deputado do PSD acha que "a ONU não presta para nada", explica que "a UE não existe militarmente" (atlanticistas ferrenhos como ele fazem muito por isso), sustenta que só os EUA e a Grã-Bretanha «parecem ter compreendido todas as implicações civilizacionais e geoestratégicas» da sobrevivência de Israel face ao mundo islâmico e às redes terroristas» e defende que «os israelitas não terão outro remédio senão neutralizar o potencial do Irão».
Se "a ONU não presta para nada", porque será que os EUA se esmifraram por obter a resolução 1701 na ONU? Quem é que foi determinante para a abortolice que a resolução 1701 é (implicitamente capítulo VI, já que o capítulo VII não é mencionado) a refrear o mandato da UNIFIL e sem explicar como e quem desarmará o Hezbollah? Não, não foi Kofi Annan, nem mais de 180 membros da ONU que a pariram: bastaram 5 membros permanentes, liderados pelos EUA e pela França que negociaram praticamente entre si a resolução (Blair achou mais importante ir a banhos nas Caraíbas...). A ONU só não presta quando alguns dos seus mais decisivos membros também não prestam e/ou não a sabem fazer prestar.
E se a Europa é tão inexistente militarmente, porque será que americanos e israelitas estão a suplicar aos europeus, franceses incluídos, que se apressem a reforçar a UNIFIL no Líbano, apesar da abortolice da 1701? E porque será que os prescientes EUA e RU não estão preparados para contribuir para a força internacional no Líbano, em lugar dessa Europa «que não existe militarmente»?
E, ainda, porque é que os clarividentes governos americano e britânico deixaram que o Irão ficasse com tanta faca e queijo na mão ao longo dos últimos anos na região?
E porque é que Israel, se não tem outro remédio senão atacar o Irão para lhe neutralizar o potencial nuclear, ainda não atacou, ou não atacou mais cedo?
E, finalmente, será que Israel vai ser tão bem sucedido no ataque ao Irão como foi no Líbano?
Talvez um ex-agente da CIA - criatura teoricamente não classificável de "alma ingénua" ou "de esquerda pós soviética" - auxilie Vasco Graça Moura a encontrar as respostas.

Albano Nogueira

Por razões de vizinhança familiar e de íntima amizade com familiares seus, acompanhei os últimos anos da vida do embaixador Albano Nogueira, há dias falecido na sua residência de Coimbra. Mas o meu conhecimento acerca dele vinha de há muitos anos, quando os meus interesses literários me levaram a conhecer o movimento da "Presença", ao qual ele pertenceu (na imagem, o "grupo de Coimbra" dos anos 30, em que ele aparece entre José Régio e J. Gaspar Simões, no primeiro plano, e F. Lopes Graça e A. Casais Monteiro, no segundo plano) -- haveria ainda de fundar, juntamente com Miguel Torga, a revista Manifesto (1936) --, bem como a acompanhar a sua continuada actividade de crítico literário (sobretudo na Colóquio Letras, da Fundação Gulbenkian), que mantinha a par da sua actividade de representante diplomático no exterior.
Aqui fica a minha sentida homenagem.

Um olhar da CIA sobre o legado de Bush

A CIA não tem só agentes sem escrúpulos e sem cérebro que executam raptos e entregam a tortura e prisões de outros, pessoas que consideram suspeitas de terrorismo. Tem alguns que pensam - e pensam bem, mesmo que americano-centricamente. Aliás, boa parte dos agentes da CIA são pagos para pensar, analisar, decifrar, explicar. Alguns desses até têm escrúpulos e, indignados com o comportamento e a ineficácia da Administração Bush, estão a ser preciosas fontes de informação de todas as investigações em curso sobre as várias desastrosas vertentes da "guerra contra o terrorismo" (por isso, que se cuidem governos e funcionários que julgam poder manter os chamados "voos da CIA" debaixo da carpete...).
Um destes é Michael Scheuer, que foi agente da CIA durante 22 anos antes de se demitir em 2004, quando era chefe no Centro de Contra-terrorismo e especializado em ...bin Laden. Vale a pena ler a entrevista que dá à revista "Harper's Magazine", em 23 de Agosto, intitulada "Six Questions for Michael Scheuer on National Security"
Transcrevo extractos:
1.We're coming up on the five-year anniversary of the 9/11 attacks. Is the country safer or more vulnerable to terrorism?
On balance, more vulnerable. (...) But for the most part our victories have been tactical and not strategic. (...) In the long run, we're not safer because we're still operating on the assumption that we're hated because of our freedoms, when in fact we're hated because of our actions in the Islamic world. There's our military presence in Islamic countries, the perception that we control the Muslim world's oil production, our support for Israel and for countries that oppress Muslims such as China, Russia, and India, and our own support for Arab tyrannies. The deal we made with Qadaffi in Libya looks like hypocrisy: we'll make peace with a brutal dictator if it gets us oil. President Bush is right when he says all people aspire to freedom but he doesn't recognize that people have different definitions of democracy. Publicly promoting democracy while supporting tyranny may be the most damaging thing we do. From the standpoint of democracy, Saudi Arabia looks much worse than Iran. We use the term "Islamofascism" - but we're supporting it in Saudi Arabia, with Mubarak in Egypt, and even Jordan is a police state. We don't have a strategy because we don't have a clue about what motivates our enemies.
(...)
4. Has the war in Iraq helped or hurt in the fight against terrorism?
It broke the back of our counterterrorism program. Iraq was the perfect execution of a war that demanded jihad to oppose it. You had an infidel power invading and occupying a Muslim country and it was perceived to be unprovoked. Many senior Western officials said that bin Laden was not a scholar and couldn't declare a jihad but other Muslim clerics did. So that religious question was erased.
Secondly, Iraq is in the Arab heartland and, far more than Afghanistan, is a magnet for mujahideen. You can see this in the large number of people crossing the border to fight us. It wasn't a lot at the start, but there's been a steady growth as the war continues. The war has validated everything bin Laden said: that the United States will destroy any strong government in the Arab world, that it will seek to destroy Israel's enemies, that it will occupy Muslim holy places, that it will seize Arab oil, and that it will replace God's law with man's law. (...) Now they have a safe haven in Iraq, which is so big and is going to be so unsettled for so long. For the first time, it gives Al Qaeda contiguous access to the Arabian Peninsula, to Turkey, and to the Levant. We may have written the death warrant for Jordan. If we pull out of Iraq, we have a problem in that we may have to leave a large contingent of troops in Jordan. All of this is a tremendous advantage for Al Qaeda. We've moved the center of jihad a thousand miles west from Afghanistan to the Middle East.
(...)
6. Has the war in Lebanon also been a plus for the jihadists?
Yes. The Israel-Hezbollah battle validates bin Laden. It showed that the Arab regimes are useless, that they can't protect their own nationals, and that they are apostate regimes that are creatures of the infidels. It also showed that the Americans will let Israel do whatever it wants. It was clear from the way the West reacted that it would let Israel take its best shot before it tried diplomacy. (...)The most salient point it showed for Islamists is that Muslim blood is cheap. Israel said it went to war to get back its captured soldiers. The price was the gutting of Lebanon. Olmert said that Israel would fight until it got its soldiers back and until Hezbollah was disarmed. Neither happened. No matter how you spin it, this will be viewed as a victory for Hezbollah. Israel withdrew from southern Lebanon six years ago. Since then there have been the two intifadas, and now this. The idea of Israel being militarily omnipotent is fading.
7. And finally, an extra question - what needs to be done? (..) the truth is the best place to start. We need to acknowledge that we are at war, not because of who we are, but because of what we do. We are confronting a jihad that is inspired by the tangible and visible impact of our policies. People are willing to die for that, and we're not going to win by killing them off one by one. (...)
At the core of the debate is oil. As long as we and our allies are dependent on Gulf oil, we can't do anything about the perception that we support Arab tyranny - the Saudis, the Kuwaitis, and other regimes in the region. Without the problem of oil, who cares who rules Saudi Arabia? If we solved the oil problem, we could back away from the contradiction of being democracy promoters and tyranny protectors. We should have started on this back in 1973, at the time of the first Arab oil embargo, but we've never moved away from our dependence. As it stands, we are going to have to fight wars if anything endangers the oil supply in the Middle East.
What you want with foreign policy is options. Right now we don't have options because our economy and our allies' economies are dependent on Middle East oil. What benefit do we get by letting China commit genocide-by-inundation by moving thousands and thousands of Han Chinese to overcome the dominance of Muslim Uighurs? What do we get out of supporting Putin in Chechnya? He may need to do it to maintain his country, but we don't need to support what looks like a rape, pillage, and kill campaign against Muslims. The other area is Israel and Palestine. We're not going to abandon the Israelis but we need to reestablish the relationship so it looks like we're the great power and they're our ally, and not the other way around. We need to create a situation where moderate Muslims can express support for the United States without being laughed off the block.

Perdendo o Afeganistão e não só

"Losing Afghanistan", é o título de um editorial do The New York Times de ontem, que vale a pena ler. Sublinha um ponto que eu venho martelando desde 2003 : que ao desviar a acção para o Iraque, sem deixar que se apanhasse Bin Laden e se investisse a sério na governação democrática e na reconstrução do Afeganistão, a Administração Bush estava condenada (e condenava o mundo) a dar argumentos, terreno e recrutas ao terrorismo internacional.
Transcrevo dois parágrafos:
"Nearly five years after American military forces help topple a Taliban government that provided sanctuary and training camps to Osama bin Laden, there is no victory in the war for Afghanistan, due in significant measure to the Bush administration's reckless haste to move on to Iraq and shortsighted stinting on economic reconstruction."
(...)
"Americans are coming to see the war in Iraq as something apart from the war against 9/11-style terrorism - and a distraction from it. The war in Afghanistan has always been an essential part of that larger struggle. That makes it a war that America simply cannot afford to lose".

Responsabilidade política

Não acompanho o generalizado criticismo da saída do presidente da câmara municipal de Setúbal, a "pedido" (melhor se diria por imposição) do partido por que foi eleito, o PCP. Num sistema de democracia de partidos, como o nosso, em que os cargos electivos são providos por via partidária (mesmo no caso das autarquais locais, onde os partidos não gozam do monopólio de candidatura, as hipótesses de eleição à margem dos partidos são muito reduzidas), não só é natural, como até é desejável, que os partidos mantenham um escrutínio sobre o exercício do mandato dos seus eleitos e possam mesmo retirar-lhes o apoio e instá-los à demissão, caso vejam motivo para isso, desde as que razões sejam transparentes (o que não foi o caso) e desde que se mantenha, em última instância, a liberdade individual do titular do mandato (o que se verifica no caso, mesmo se os autarcas do PCP acatam sem protesto as decisões do partido).
Num sistema democrático em que os protagonistas são os partidos, a responsabilidade política dos titulares de cargos políticos providos por candidatura partidária começa por ser uma responsabilidade individual perante os próprios partidos -- e ainda bem, ressalvados os princípios da trasparência e da dignidade dos visados.
Afinal, o mau desempenho do cargo reflecte-se também, e sobretudo, sobre o respectivo partido e sobre as hipóteses de manutenção das posições políticas conquistadas. No caso concreto, por exemplo, o PCP pode ter dados que o levassem a temer que o inquérito aos caso das aposentações compulsivas fictícias na CMS pudesse levar à perda de mandato do presidente, com os inerentes custos políticos para o partido (foi pena, porém, que não tenha deixado transparecer essas razões).
É claro que se pode defender que, dada a dimensão cada vez mais personalizada que assumem as eleições para as câmaras municipais, em que a figura dos candidatos tem um papel decisivo na escolha dos eleitores, não deveria ser possível ter um novo presidente sem novas eleições. Mas isso é outra questão.

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Privilégios (6)

Tenho de destacar que o primeiro problema constitucional da ADSE, para além questão da sua incongruência com o SNS como sistema universal, é a sua obrigatoriedade. Na verdade, se os funcionários públicos, como quaiquer cidadãos, têm acesso ao SNS, tendencialmente gratuito, como é que podem ser obrigados a contribuir para outro sistema alternativo, de natureza contributiva, incluindo para pagar os cuidados no SNS a que deveriam ter direito gratuitamente?
Nem se diga que se trata de um "bom negócio", porque o que se recebe em troca vale bem a pequena contribuição. A verdade é que os funcionários públicos podem preferir não ter essa regalia, ou só a ter a título voluntário.

Privilégios (5)

Entre nós, os regimes de segurança social e de saúde de base profissional são um resquício do corporativismo, porque foi com base nos sindicatos corporativos e no âmbito das relações de trabalho que foram criadas as incipientes prestações no domínio da seguraça social e da assistência na saúde (através das "caixas de previdência"), limitadas aos assalariados e alguns profissionais independentes (caso das caixas de previsência de algumas ordens). No sector público, como os sindicatos estavam proibidos na função pública, o "patrão" Estado criou unilateralmente regimes de protecção para os seus servidores (nomeadamente a CGA e a ADSE).
Tais esquemas "profissionais" são portanto anómalos num sistema de serviços universais de segurança social e de saúde, cuja criação após a Constituição de 1976 levou à integração/extinção de quase todas aquelas instituições, com algumas excepções no sector privado (bancários, advogados, jornalistas e algumas mais), que se mantêm ao arrepio dos princípios constitucionais da unidade e universalidade dos serviços públicos de saúde de e de segurança social. A maior inércia manifestou-se na Administração pública, onde os sistemas de segurança social e de protecção na saúde tinham sido mais desenvolvidos, e onde a resistência dos interessados e a falta de vontade política mais pesaram na manutenção do status quo pré-constitucional, até ao presente.
Por isso, mesmo que a ADSE não implicasse consideráveis custos adicionais para o Estado (por suposta equivalência entre o que a ADSE custa e aquilo que o SNS recebe dela ou teria de gastar com os beneficiários dela, se a mesma não existisse), sempre restaria a questão de fundo: porquê a manutenção de um regime privativo para a função pública, se existe constitucionalmente um sistema público de saúde para todos (incluindo os funcionários)?

Adenda: Além do mais, a ADSE obnubila os custos reais da saúde para o orçamento do Estado, que se não resumem ao SNS nem ao orçamento do Ministério da Saúde. No entanto, deve reparar-se que uma das minhas alternativas ao actual SNS é fazer do dele "uma imensa ADSE", genralizando a toda a gente o modelo daquela (com a devida revisão das contribuições individuais para o sistema e das comparticipações dos mesmos nos cuidados de saúde)...

Correio dos leitores: ADSE

« [Na sua análise dos custos da ADSE], parte do pressuposto de que ela duplica a utilização: usa o público e, simultaneamente, o privado... Ora, ou usa um ou outro (...). Se os beneficiários da ADSE estivessem hoje só no SNS custariam algo mais do que os 900 milhões daquele subsistema. É que, o sistema (...) paga os serviços aos prestadores (centros de saúde, hospitais, convencionados ou livres...) e paga mais caro ao público.»
Manuel Piteira

Comentário
Mesmo admitindo que os beneficiários da ADSE fariam o mesmo consumo de cuidados de saúde no SNS (hipótese optimista), se aquela não existisse, e que os custos dos cuidados no SNS e no sector privado (pagos pela ADSE) fossem alternativos e mais ou menos equivalentes (há sempre as vantagens de escala do SNS e os seus recursos inaproveitados), a ADSE sempre proporciona e paga uma coisa adicional : a prontidão dos cuidados e a possibilidade de escolha (para além dos cuidados praticamente indisponíveis no SNS, como a estomatologia). É por essa mais valia que os beneficiários não querem prescindir dela, mesmo tendo de descontar 1% do seu vencimento, significando que ela vale mais do que isso. De resto, há que contabilizar os custos administrativos da ADSE (pessoal, instalações e equipamentos), que não são despiciendos e que obviamente são um encargo suplementar em relação ao SNS.
No entanto, mesmo que a ADSE não implicasse custos adicionais para o Estado (por suposta equivalência entre o que a ADSE custa e aquilo que ela e poupa e paga ao SNS), sempre restaria a questão de fundo: porquê um regime específico para a função pública, se existe constitucionalmente um sistema público de saúde para todos (incluindo os funcionários)?
Vital M

Privilégios (4)

Nos posts precedentes esqueci-me de sublinhar (embora isso esteja implícito)que a ADSE não beneficia todos os trabalhadores da Administração pública, mesmo dentro do "sector público administrativo" (visto que sempre excluiu o sector público empresarial), mas somente os que gozam do regime de função pública, não contemplando os contratados ao abrigo da lei do contrato de trabalho da Administração pública, de 2003 (e outras leis avulsas anteriores). Isso quer dizer que a ADSE se vai tornando um privilégio dentro da própria Administração pública (e até dentro de cada serviço público), pois o pessoal em regime de contrato de trabalho, embora seja ainda uma pequena minoria (não existem números oficiais disponíveis), virá seguramente a crescer no futuro, à medida que aquele regime se for generalizando.
(Isto leva-me a admitir uma forma expedita de extinção indirecta da ADSE, ou seja, mediante uma rápida extinção do regime da função pública! O problema está em que isso é improvável, salvo para o futuro, tendo os actuais funcionários públicos direito a manter esse estatuto. Direitos adquiridos "obligent".)

Privilégios (3)

duas soluções para a ADSE (para além da manutenção do status quo): (i) extinguir o serviço, deixando de cobrar a respectiva contribuição; (ii) tornar o serviço facultativo e elevar as contribuições, de modo a equilibrar as finanças do serviço, que deveria passar a ter autonomia financeira e ser financeiramente auto-sustentável.
Sistemicamente, a primeira solução é a mais coerente com a natureza universal do SNS e com a igualdade entre os cidadãos (e isto independentemente dos seus custos); de resto, se ao fim de tantos anos os funcionários públicos deixaram de ter um regime privativo de segurança social, passando os novos funcionários, desde o início do corrente ano, a integrar o regime geral de segurança social, por que é que não há-de fazer-se o mesmo no caso da saúde? A segunda solução é um "second best", tornando a ADSE num sub-sistema de saúde complementar facultativo, essencialmente contributivo, uma espécie de seguro de saúde gerido pelo Estado.

Declaração de interesses:
sou beneficiário da ADSE (embora pouco praticante, quer por desnecessidade, quer por desleixo no pedido dos reembolsos...), pelo que, mais uma vez, defendo soluções contra o meu interesse pessoal.

Privilégios (2)

Pelo que decorre do post precedente, os protestos dos sindicatos da função pública contra o aumento da contribuição dos beneficiários em alguns dos actos financiados (ou comparticipados) pela ADSE, que em alguns casos importa em menos de de 1-euro-1, são verdadeiramente indecentes.

Privilégios

As notícias sobre alguns aumentos das contribuições dos beneficiários nos cuidados de saúde financiados pela ADSE vêm chamar, uma vez mais, a atenção para esse "subsistema de saúde" dos funcionários públicos. Criado ainda nos anos 60 do século passado, manteve-se após a criação do SNS, apesar de isso contrariar a natureza supostamente universal e geral deste (assim o define a Constituição).
Os funcionários preferiram obviamente manter o seu sistema privativo, que lhes custa uma "ninharia" de 1% das suas remunerações (de que estão isentos os funcionários aposentados, vá-se lá saber porquê...) e lhes dá acesso a forte comparticipação nos cuidados em regime de medicina convencionada e de livre escolha, para além do SNS. O Estado encontrou um meio de minorar os encargos, fazendo pagar à ADSE os cuidados prestados pelo SNS aos seus beneficiários (o que, aliás, não tem muita lógica, visto que eles são constitucionalmente beneficiários deste ao mesmo título que os demais cidadãos).
As contas da ADSE encontram-se disponíveis no seu site. O relatório relativo a 2005 revela duas coisas evidentes: o grande crescimento das despesas, muito para além do orçamentado, e a grande dependência do orçamento do Estado. A primeira reflecte, de forma agravada, o crescimento geral das despesas de saúde. A segundo mostra que as contribuições dos beneficiários -- que aliás entram nas contas do Estado e não da ADSE (que não dispõe de autonomia financeira) -- cobrem uma reduzida percentagem dos encargos: 100 milhões de euros de receita contra 871 milhões de despesas correntes, sem contar as elevadas despesas de PIDDAC! Mesmo que se adicionem os reembolsos à ADSE de outras entidades públicas, além do Estado (uns 50 ou 100 milhões), o diferencial entre receitas geradas e despesas realizadas é enorme, e só diminui o seu significado, se descontarmos os pagamemtos da ADSE ao SNS e se entrarmos em linha de conta com os gastos que o SNS poupa por não ter de prestar os cuidados que os beneficiários da ADSE buscam no sector privado. O défice é naturalmente financiado pelos impostos, sendo evidente que os funcionários públicos beneficiam de uma considerável regalia em matéria de saúde (a somar a outras...), em comparação com os demais cidadãos, beneficiários gerais do SNS.
Quando se impõe uma redução do défice público, não se compreende a manutenção desta situação. De resto, independentemente da questão dos custos, em termos sistémicos nada justifica a existência de um sistema de saúde específico para os funcionários públicos. O Governo "atacou" no ano passado a maior parte dos regimes de saúde especiais do sector público, mas manteve intocado o principal regime especial, que é o da ADSE. De duas uma: ou o ADSE deve ser extinto, ou então o seu regime deve ser ampliado a todos os cidadãos, com as necessárias correcções quanto ao financiamento.
Na verdade, se na criação do SNS se tivesse adoptado a filosofia de base da ADSE (sistema de base essencialmente contributiva, com moderado co-pagamento dos cuidados de saúde pelos beneficiários, desde que com isenção em relação aos que não têm meios), o problema do financiamento do SNS não existiria como hoje o conhecemos e a pressão sobre os impostos seria menor (dado que não teriam de sustentar em geral o SNS). Provavelmente a essa questão teremos de reverter, décadas depois...
(Revisto.)

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Mais uma organização reconhecidamente anti-americana e anti-semita

«Amnistia Internacional acusa Israel de destruição deliberada de infra-estruturas civis libanesas».

Opções de guerra

Os adeptos da guerra do Líbano insistem em protestar que não foi Israel que a começou. Na verdade, ela teve como pretexto a captura de dois soldados israelitas pelo Hezbollah num raid sobre a fronteira com o Líbano. Mas importa registar que o objectivo declarado do Hezbollah era bem definido e limitado. O secrétário-geral da movimento chiita, Nasrallah, anunciou na altura da operação que o objectivo era um troca de prisioneiros com Israel, por intermédio de "negociações indirectas". O que estave em causa, portanto, era obter "moeda de troca" para conseguir a libertação de muitos militantes do Hezzbollah em poder de Israel há anos, capturados durante a ocupação israelita do sul do Líbano, a quem sempre se recusou a libertar.E o líder chiita acrescentou explicitamente: «Não queremos uma escalada militar no Sul nem desejamos arrastar a região para uma guerra».
Sem dar margem para nenhuma tentativa de negociação, Israel preferiu desencadear, acto contínuo, uma guerra punitiva contr o Hezbollah e contra o Líbano -- guerra, aliás, que já estava preparada, como se viu pela sua prontidão --, para «partir a espinha» do Hezbollah. Não conseguiu esse objectivo, nem recuperar os dois soldados. Agora, porém, vai ter de fazer o que no início não quis: a troca de prisioneiros, mediante as tais conversações indirectas que antes enjeitou. Só é de lamentar que pelo meio tenha ficado a destruição de meio Libano e a morte de mais de um milhar de pessoas, entre os quais mais de 150 israelitas.
Opções de guerra...

terça-feira, 22 de agosto de 2006

"Censura!"

O gabinete do Primeiro-Ministro não reagiu à brutal acusação do crítico de televisão Eduardo Cintra Torres, na sua coluna habitual do Público, há dias, segundo a qual dispõe de «informações [que] indicam que o gabinete do primeiro-ministro deu instruções directas à RTP para se fazer censura à cobertura dos incêndios, [sendo] ordens directas do gabinete de Sócrates.»
É certo que a acusação, baseada em fontes não identificadas (e portanto insusceptível de ser comprovada) não é muito verosímil, pois, mesmo que tal lhes passasse pela cabeça, não se vê o gabinete de Sócrates a "cair" na tolice de contactar a RTP -- nem a administração nem a direcção de informação são conhecidos como "gente do Governo" -- para "proibir" a cobertura televisiva dos fogos florestais, nem se imagina os visados a acatar a "censura". Todavia, dada a gravidade da acusação, e não sendo o autor da acusação propriamente um inimputável, pode a mesma, se não desmentida, ganhar uma credibilidade que à primeira vista não merece.
É este um ónus da responsabilidade política num Estado democrático: quando um governante é acusado de alguma patifaria, mesmo infundada -- salvo se obviamente imaginária ou malévola --, não é o acusador que tem de provar a dita, mas os acusados que têm de provar (ou pelo menos de protestar) que ela não tem fundamento. Como diria o Engº Guterres, é a vida!

Mais rigor, precisa-se

Lê-se no Público de hoje (link só para assinantes):
«Na prática, o fim da publicação da celebração e renovação de contratos individuais de trabalho significa que a grande maioria das entradas para a administração pública - nomeadamente para cargos de assessores do Governo e outros postos normalmente associados a contratações políticas - deixaria de ser escrutinada pelos cidadãos.»
Não é assim. Por um lado, no sector público administrativo, ressalvados os institutos públicos, a maior parte do pessoal da Administração pública continua a ter o regime de funcionário público - cuja nomeação continua a ser publicada -- e não o do contrato de trabalho; por outro lado, na generalidade dos casos o pessoal dos gabinetes e demais pessoal de nomeação "política" (nomeadamente dirigentes da Administração) também não é contratado, não estando portanto as suas nomeações isentas de publicação oficial. A conclusão do texto citado é, portanto, infundada.
Já exprimi neste blogue a minha posição sobre esta matéria, criticando a dispensa de publicação do recrutamento de pessoal em regime de contrato de trabalho (que, aliás, está sujeito a um procedimento público de selecção, pelo que não poderia ser "escondida"). Mas um pouco de rigor jornalístico na análise das coisas não faz mal a ninguém, sendo aliás um dever profissional.

"A nossa família perdeu a guerra"

Tocante, e de grande dignidade, sem ira nem ressentimento, o texto do escritor israelita David Grossman, hoje publicado no El País, sobre a morte de um seu filho, sargento do exército, na Guerra do Líbano.

Insólito país, este

Em França, a direita hesita numa pequena isenção do imposto de sucessões em favor do cônjuge sobrevivo, mas nem isso provavelmente avançará, porque, como observou um dirigente da maioria de direita, o Governo não pode dar uma mensagem de "tudo em favor dos ricos", a um ano das eleições presidenciais.
Em Portugal, porém, o imposto sobre sucessões e doações foi furtivamente revogado em 2003, pelo Governo Durão Barroso, depois de ter sido desconstitucionalizado na revisão constitucional de 1997, com o acordo do PS. Assim desapareceu, desamparadamente, um dos mais justos impostos, em termos sociais. Em Portugal, os ricos nada têm a temer, em matéria fiscal.
Insólito país, este.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Opção certa

«O secretário de Estado [da Administração Pública] disse, no entanto, que até ao final do ano o Governo vai aproveitar a reforma do sistema de vínculos, carreiras e remunerações para propor que todas as contratações [de trabalhadores da Administração Pública] sejam publicadas.»

Voos da CIA ... também já "suicidam"?

As fontes ditas "governamentais", que o "DN" e outros jornais têm citado, apostadas em impedir que esclarecimentos de responsáveis nacionais sobre os alegados voos da CIA sejam prestados - à AR ou ao PE, ou seja, na verdade aos portugueses e demais europeus - terão também outros propósitos: um deles será intimidar-me. Como se fosse possível levar a sério acusações anónimas de "deslealdade", vindas de meios complacentes com assessorias em Bagdad, acumulações de direcção de empresas estrangeiras com funções parlamentares, candidaturas presidenciais concorrentes, etc, etc, etc...
Mas, deixando de lado jogadas baixas, o tema dos voos da CIA é, de facto, muito sério. E a investigação do PE também. E lá que assusta, assusta. Gente "má", como diria o Presidente Bush. E por isso começam a aparecer uns "suicidados".

Ora tomem atenção ao artigo «Two Strange Deaths in European Wiretapping Scandal», de Paolo Pontoniere e Jeffrey Klein, publicado no "New America Media", anteontem, 19 de Agosto. Transcrevo passagens:

«Just after noon on Friday, July 21, Adamo Bove - head of security at Telecom Italia, the country's largest telecommunications firm - told his wife he had some errands to run as he left their Naples apartment. Hours later, police found his car parked atop a freeway overpass. Bove's body lay on the pavement some 100 feet below.
Bove was a master at detecting hidden phone networks. Recently, at the direction of Milan prosecutors, he'd used mobile phone records to trace how a "Special Removal Unit" composed of CIA and SISMI (the Italian CIA) agents abducted Abu Omar, an Egyptian cleric, and flew him to Cairo where he was tortured. The Omar kidnapping and the alleged involvement of 26 CIA agents, whom prosecutors seek to arrest and extradite, electrified Italian media. U.S. media noted the story, then dropped it.
The first Italian press reports after Bove's death said the 42-year-old had committed suicide. Bove, according to unnamed sources, was depressed about his imminent indictment by Milan prosecutors. But prosecutors immediately, and uncharacteristically, set the record straight: Bove was not a target; in fact, he was prosecutors' chief source. Bove, prosecutors said, was helping them investigate his own bosses, who were orchestrating an illegal wiretapping bureau and the destruction of incriminating digital evidence. (...)
About 16 months earlier, in March of 2005, Costas Tsalikidis, a 38-year-old software engineer for Vodaphone in Greece had just discovered a highly sophisticated bug embedded in the company's mobile network. The spyware eavesdropped on the prime minister's and other top officials' cell phone calls; it even monitored the car phone of Greece's secret service chief. Others bugged included civil rights activists, the head of Greece's "Stop the War" coalition, journalists and Arab businessmen based in Athens. All the wiretapping began about two months before the Olympics were hosted by Greece in August 2004, according to a subsequent investigation by the Greek authorities. (...)»


Tsalikidis, também apareceu «suicidado» a 9 de Março de 2005.
O artigo continua:

(...)«Investigations into the alleged suicides of both Adamo Bove and Costas Tsalikidis raise questions about more than the suspicious circumstances of their deaths. They point to politicized, illegal intelligence structures that rely upon cooperative business executives. European prosecutors and journalists probing these spying networks have revealed that:
The Vodaphone eavesdropping was transmitted in real time via four antennae located near the U.S. embassy in Athens, according to an 11-month Greek government investigation. Some of these transmissions were sent to a phone in Laurel, Md., near America's National Security Agency.
According to Ta Nea, a Greek newspaper, Vodaphone's CEO privately told the Greek government that the bugging culprits were "U.S. agents." Because Greece's prime minister feared domestic protests and a diplomatic war with the United States, he ordered the Vodafone CEO to withhold this conclusion from his own authorities investigating the case.
(...)
Germany's Federal Intelligence Service, BND, recently snooped on investigative journalists. According to parliamentary investigations, the spying may have been carried out using the United States's secretive Bad Aibling base in the Bavarian Alps, which houses the American global eavesdropping program dubbed Echelon.
Were the two alleged suicides more than an eerie coincidence? A few media in Italy - La Stampa, Dagospia and Feltrinelli, among others - have noted the unsettling parallels. But so far no journalists have been able to overcome the investigative hurdles posed by two entirely different criminal inquiry systems united only by two prime ministers not eager to provoke the White House's wrath.»


Não transcrevo a conclusão. Mas não a desvalorizo.

Voos da CIA não rimam com...soberania

Enternecedor o arco de eurocépticos soberanistas, do CDS ao PCP, passando pelos incontornáveis Drs. Pacheco Peeira e Vasco Graça Moura!
Valho-me das edições do «PÚBLICO» e «DN» de dias 18 e 19 do corrente, para notar como fazem coro com as fontes anónimas, ditas «governamentais», que tentam vender aquela de que seria crime de lesa-soberania pátria se responsáveis portugueses respondessem a solicitação do Parlamento Europeu (já que pedidos na AR, até aqui, foram "chumbados"...) sobre as alegações dos voos da CIA envolvidos no transporte de pessoas sequestradas e/ou destinadas a tortura e prisão por tempo indeterminado em Guantanamo ou noutras cadeias por esse mundo fora.
Mas a violação flagrante, constante e continuada da soberania nacional nas Lajes, por exemplo, desde há muito, não incomoda o sono de tão ínsignes soberanistas! Atente-se, a propósito, no último «EXPRESSO» no interessante artigo "Os 'equívocos' das Lajes", de Estevão Gago da Câmara, expondo o que é de todos bem sabido: a ligeireza com que as autoridades portuguesas - civis e militares - desde há muito vêm fazendo aplicar (ou melhor, não aplicar) o articulado do Acordo de Cooperação e Defesa entre Portugal e os EUA, que faculta aos EUA uso da Base das Lajes. Teoricamente sob comando e controle português.

Opção errada

O Governo resolveu pôr em prática um diploma de Durão Barroso que dispensa a publicação no Diário da República das nomeações da Administração pública em regime de contrato de trabalho (e não, como informaram as televisões, dos funcionários públicos e de titulares de cargos públicos). Todavia, em vez de a pôr em vigor, era preferrível ter revogado essa medida, visto que o recrutamento de pessoal para a Administração pública, mesmo em regime de contrato de trabalho, não deve estar imune ao princípio da publicidde e do escrutínio público, até para saber se foram cumpridas as regras procedimentais impostas por lei que garantem a igualdade e imparcialidade da selecção.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Timor Leste: nossos aliados, mas mais aliados ...da Austrália

No relatório que refiro no post acima sobre os debates em curso no Conselho de Segurança da ONU para a constituição de nova Missão ONU para Timor Leste, em substituição ou reforço da actual, alude-se ao "amargo desarcordo" entre membros do chamado Core Group (de que Portugal e Brasil fazem parte), que se reflecte também nas divisões entre membros (e entre membros permanentes) do CS.
Divisões que respeitam a 1) autorizar a nova missão, com uma componente militar, sob o Capítulo VII da Carta da ONU (China, Russia e França em particular opõem-se) e 2) determinar se a missão militar é integrada por «capacetes azuis», logo sob comando e controle da ONU, ou fica sob comando ...da Austrália.
Assinale-se que o Secretário Geral da ONU propôs a primeira opção (a par de 1600 polícias, 35O «capacetes azuis» para quem as forças internacionais actualmente presentes em Timor Leste transfeririam gradualmente competências). Assinale-se também que o Governo de Timor Leste, sob liderança de Ramos Horta, pediu expressamente que o comando da componente militar pertença à ONU.
Portugal, o Brasil, os países da região, obviamente opõem-se às pretensões autralianas - evidentemente em apoio do pedido de Timor Leste e das recomendações de Kofi Annan.
Quem discorda?
Quem apoia as pretensões australianas contra Dili e o SG da ONU?
Quem se borrifa para o que Portugal pensa ou defende relativamente a Timor Leste?

Ora, quem havia de ser? os nossos queridos aliados e parceiros Reino Unido e Estados Unidos da América.
A provar que, por mais desvelado e acrítico que seja o alinhamento de sucessivos governos portugueses, os EUA e o RU são hoje mais parceiros e mais aliados do país dos cangurus.
Alguém nos explica como vale a pena continuar a escancarar-lhes os nossos aeroportos (e o que mais?) à passagem de carregamentos suspeitos para questionáveis destinos?

Timor Leste no Conselho de Segurança

Para quem se interesse pelo que se está a passar sobre Timor Leste no Conselho de Segurança da ONU, reproduzi na ABA DA CAUSA o relatório, datado de ontem, da publicação das ONGs congregadas de Nova Iorque "SECURITY COUNCIL REPORT" (que, de alguma maneira, nos meus anos de Conselho de Segurança, em 97/98, me orgulho de ter estimulado a criar).
Trata-se de um relatório que vou mandar a todos os membros do PE, e em especial aos membros britânicos, pedindo-lhes atenção crítica para as posições sustentadas pelo governo de Tony Blair contra a recomendação do Secretário-Geral da ONU e o pedido expresso do Governo de Timor Leste. No sentido de que a componente militar da nova missão da ONU em Timor Leste fique sob comando e controlo da ONU e não da Austrália.

Horas extraordinárias

As medidas agora tomadas para reduzir as horas extraordinárias na função pública e para acabar com um regime de remuneração extraordinário das mesmas no caso dos serviços de urgência de saúde vão no bom sentido de racionalização dos serviços públicos e de travagem do crescimento da factura com o pessoal do sector público. Por um lado, havendo em geral excesso de pessoal no sector público, não se compreende tanto recurso a horas extraordinárias; por outro lado, elas são um factor de considerável agravamento dos custos de pessoal, em alguns casos duplicando a remuneração (como sucede nos serviços de saúde).

Não se engana todo o mundo, o tempo inteiro...

Ontem, 17 de Agosto, o Tribunal Federal de Distrito em Detroit declarou que o uso pela Administração Bush da NSA - National Security Agency - para espiar cidadãos americanos é inconstitucional e que o Presidente Bush não tem poderes para o decretar.
E o Congressista John Conyers Jr. (Democrata do Michigan) tornou público um relatório de 350 páginas intitulado "A Constituição em crise; as minutas de Downing Street e o embuste, a manipulação, a tortura, o revanchismo e o encobrimento na guerra do Iraque e na vigilância interna".
Numa entrevista a William River Pitt (ver "The Conyers Report: An Interview", pelo cronistta do New York Times William Rivers Pitt em t r u t h o u t | Interview) o Congressista resume assim o relatório:
"Concluimos que há provas substanciais de que o Presidente, o Vice-Presidente e outros altos membros da Administração Bush enganaram o Congresso e o povo americano relativamente à decisão de ir para a guerra no Iraque; fizeram declarações falsas e manipularam a informação dos serviços secretos relativamente à justificação para tal guerra; aprovaram tortura e tratamentos desumanos, crueis e degradantes no Iraque; permitiram a retaliação indevida contra os críticos da Administração; e aprovaram espionagem interna, que é tanto ilegal como inconstitucional. Também concluimos que não tem havido um inquérito independente às circunstâncias rodeando os escândalos de espionagem interna da Admnistração Bush".

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Marcelo Caetano

Começou na extrema-direita ultranacionalista. Foi um dos ideólogos, construtores e protagonistas do corporativismo e da ditadura. Sucessor de Salazar à frente do regime, presidiu ao declínio do Estado Novo e falhou a sua modernização. Deposto, sem honra nem glória, no 25 de Abril, acabou no exílio e no ressentimento.
Politicamente, não avultará na história do séc. XX. Fica a sua obra de universitário, de administrativista e de historidor das instituições. O que não é pouco.

A "guerra ao terror" de Bush faz o jogo dos terroristas

Vale a pena ler o artigo «A Self-Defeating War», da autoria de George Soros (mais um americano anti-americano, «por supuesto»...) publicado no insuspeito «The Wall Street Journal», no passado dia 15 de Agosto.
Começa assim:
"The war on terror is a false metaphor that has led to counterproductive and self-defeating policies. Five years after 9/11, a misleading figure of speech applied literally has unleashed a real war fought on several fronts - Iraq, Gaza, Lebanon, Afghanistan, Somalia - a war that has killed thousands of innocent civilians and enraged millions around the world. Yet al Qaeda has not been subdued; a plot that could have claimed more victims than 9/11 has just been foiled by the vigilance of British intelligence".

Iraque: 3.438 civis mortos em Julho

Segundo o New York Times, Julho passado foi o mês mais mortífero da guerra para os civis iraquianos. Uma média de 110 iraquianos foram mortos por dia nesse mês. O número total de 3.438, segundo estatísticas do Ministério da Saúde, corresponde a um aumento de 9% em relação a Junho e cerca do dobro do número de mortos em Janeiro. Mais de metade dessas mortes ocorreu em Bagdad.

Compromissos com o nazismo

Os que sempre tentaram justificar e "branquear" o compromisso de grandes intelectuais alemães com nazismo (desde Heidegger a Carl Schmitt), procuram, agora, ver uma equiparação com o caso de Günther Grass. Como se houvesse real semelhança entre a pertença de um anónimo jovem de 17 anos às Waffen SS, no final da guerra, como tantos milhares de outros (por mais censurável que isso seja, e ainda mais o silêncio até agora), e o duradouro e empenhado compromisso activo daqueles consagrados intelectuais com a construção filosófica e doutrinária e com a legitimação política do nazismo (os quais, aliás, na maior parte dos casos, e ao contrário do autor de O Tambor, não deram nenhuma prova de arrependimento posterior)! Seria o mesmo que comparar os "autores" com os seus "seguidores"...

Insucesso israelita

Na guerra que lançou contra o Líbano, Israel aplicou a mesma política que desde há anos prossegue contra os palestinianos: flagelar as populações e destruir infra-estruturas para forçar as autoridades políticas (num caso a Autoridade Palestiniana, noutro caso o governo Libanês) a isolar e lutar contra os movimentos radicais.
Como mostrou ontem um jornalista israelita, Charles Enderlin, num artigo do Le Monde, o resultado não foi propriamente brilhante, antes contraproducente. Na Palestina, levou à radicalização popular e à vitória eleitoral do Hamas; no Líbano, a inesperada resistência do movimento radical chiita durante mais de um mês de ofensiva israelita só fez aumentar a sua popularidade e a solidariedade com ele, tanto no País como no mundo árabe. Em vez de isolar e aniquilar o adversário, como pretendia (calcula-se que a força militar do Hezbollah se mantém muito forte), o ataque israelita só lhe conferiu maior legimidade e autoridade política.
Para tornar as coisas ainda mais comprometedoras para Israel, o acordo de cessar fogo nem sequer passa pela libertação dos soldados israelitas capturados pelo Hezbollah -- que foram o pretexto da guerra--, que Israel terá de negociar com o inimigo, seguramente a troco da libertação de membros do movimento chiita detidos por Israel.

Sucesso israelita

É claro que Israel conseguiu um dos seus objectivos estratégicos, ou seja, a interposição de uma força internacional no Sul do Líbano, que, em princípio, servirá de tampão contra as incursões e ataques do Hezbollah. Mas isso não vai sem um reverso: a internacionalização da defesa das fronteiras de Israel trará consigo um aumento da pressão internacional para a solução justa da questão palestiniana. Provavelmente, Israel vai ter de mudar de agulha: trocar a arroganta postura unilateralista e de recusa de negociações com a Autoridade Palestiniana por uma solução política de compromisso, na base de dois Estados e de "troca de territórios pela paz".

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Mau passo

O aumento do número de deputados da assembleia regional dos Açores, de 52 para 57, não é de aplaudir, indo contra o sentimento da opinião pública nesta matéria. De resto, depois deste aumento nos Açores, como é que o PS poderá justificar qualquer diminuição no número de deputados da AR?

Como era evidente

«Israel planeou guerra no Líbano antes do rapto dos seus soldados». Só os distraídos poderiam pensar que uma ofensiva da envergadura que revestiu o ataque ao Líbano se organizava em dois dias! Com o "rapto" dos soldados israelitas (quantos dirigentes do Hezbollah não "raptou" Israel antes?), o Hezbollah forneceu o conveniente pretexto. Para contento dos "senhores da guerra" de ambos os lados.

Guerras

É bom quando uma guerra acaba. Mas é mau quando ambos os contendores têm maior ou menor razão para reclamar vitória. Estão prontos para outra. Em princípio, salvo nas guerras de defesa, só deveria haver vencidos.

Líbano: ensaio para o Irão

Vale a pena ler o artigo «Watching Lebanon» de Seymour M. Hersh, na última edição da revista «THE NEW YORKER» (datada de 21 de Agosto). Procurarei resumi-lo:
O autor recorda a passividade da Administração Bush nos primeiros dias depois do rapto de dois soldados israelitas pelo Hezbollaah a 12 de Julho, que ofereceu a Israel ensejo para a brutal guerra de retaliação sobre o Líbano, sublinhando que, de facto, os EUA estavam desde há meses envolvidos no planeamento de um ataque de Israel contra o Líbano, considerado por Telavive como inevitável face aos sucessivos ataques provocatórios que o Hezbollah vinha lançando contra Israel. Não apenas porque, na perpectiva de Washington, arrasar o Hezbollah seria bom para a segurança de Israel e para reforçar o governo do Líbano, mas porque o Presidente Bush e o Vice-Presidente Dick Cheney estavam convencidos de que uma campanha de bombardeamento aéreo contra o complexo subterrâneo do Hezbollah serviria como ensaio para um ataque «pre-emptivo» americano contra as instalações nucleares iranianas, em boa parte também subterrâneas.
Já desde a primavera, segundo o articulista, que as Forças Aéreas americana e israelita começaram a desenvolver planos para um ataque demolidor contra as instalações nucleares iranianas. (Um ataque que muitos especialistas políticos e militares consideram uma loucura pelo elevado número de civis que vitimaria e pelas imprevisíveis e incontroláveis consequências - e foi justamente por designar tal cenário como de «nuts» que Jack Straw foi despedido por Tony Blair, por pressões da Administração Bush, revelou a imprensa britânica recentemente).
O plano israelita para o Líbano seria idêntico ao que os EUA planeiam para o Irão: intenso bombardeamento a partir do ar de instalações nucleares, incluindo infraestruturas civis. O Vice-Presidente Cheney e Elliott Abrams, Conselheiro-Adjunto da Segurança Nacional, seriam entusiastas desta dupla operação. E os EUA teriam dado a entender a Israel «se têm de atacar, estaremos convosco. Mas façam-no mais cedo: quando mais esperarem, menos tempo teremos nós para avaliar e planear para o Irão, antes de Bush sair da presidência».
Hersh cita Richard Armitage, que foi Secretário de Estado Adjunto no primeiro mandato de Bush, considerando que a campanha de Israel no Líbano, dadas as inesperadas dificuldades e criticismo geral que enfrentou, pode, no fim de contas, servir como aviso à Casa Branca sobre o Irão: «Se as mais poderosas forças militares na região - as israelitas - não conseguem pacificar um país como o Líbano, com uma população de 4 milhões, terá de se pensar cuidadosamente antes de aplicar a mesma receita ao Irão, que tem muito mais profundidade estratégica e uma população de 70 milhões». Sobre o Líbano, Armitage observou que «A única coisa que o bombardeamento alcançou até agora foi unir a população contra os israelitas».
Hersh cita um europeu : «Os israelitas foram apanhados numa armadilha. Há anos que acham que podem resolver os problemas sendo implacáveis. Mas agora, com o martírio islâmico, as coisas mudaram e eles precisam de respostas diferentes. Como amedrontar gente que anseia pelo martírio?». E cita também um perito irano-americano: «Se os EUA atacarem as instalações iranianas podem acabar por transformar Ahmadinejad noutro Nasrallah - em estrela rock da rua árabe».
Mas, sublinha Hersh, segundo fontes no Pentágono, a informação sobre o Hezbollah e o Irão está a ser manipulada pela Casa Branca como em 2002 e 2003, vendendo a mentira de que o Iraque tinha armas de destruição maciça. «A grande queixa agora na comunidade dos serviços de informação é que todo o material importante é enviado directamente para o topo, por insistência da Casa Branca, e sem ser analisado ou mal o sendo». «Isto é horrível e viola regras de segurança; mas se te queixas, estás despedido...»revela uma fonte. «Cheney é quem controla isto».
A resistência do Hezbollah e a sua capacidade de continuar a lançar «rockets» contra o norte de Israel apesar de estar sob bombardeamento constante, deveria ser considerada um sério revés para quem queira usar a força contra o Irão. E contra quem sustente que o bombardeamento do Irão criará dissensão interna e revolta. Mas fontes de Hersh próximas das chefias militares previram que a Administração faria uma avaliação muito mais positiva do que deveria da campanha israelita no Líbano: «Nem pensar que Rumsfeld e Cheney venham a tirar a conclusão certa do que se passou no Líbano». «Quando o fumo desaparecer, eles virão dizer que foi um sucesso, e vão retirar daí reforço para o plano de atacar o Irão».
Ontem, contra toda a evidência e a polémica instalada até em Israel, o próprio Presidente Bush, apesar dos esgares de desconforto, já veio proclamar a «derrota» do Hezbollah.

domingo, 13 de agosto de 2006

Porque falham os generais em Israel?

Vale a pena ler no www.antiwar.com o artigo de 12/8/06 do israelita URI AVNER
"The Buck Stops Where?"
Não resisto a reproduzir extractos:

«Today the war entered its fifth week. Hard to believe: our mighty army has now been fighting for 29 days against a "gang" and "terrorist organization," as the military commanders like to describe them, and the battle has still not been decided.
(...)
Now everybody already admits that something basic has gone wrong in this war. The proof: the War of the Generals, which previously started only after the conclusion of a war, has now become public while the war is still going on.
The chief of staff, Dan Halutz, has found the culprit: Udi Adam, the chief of the Northern Command. He has practically dismissed him in the middle of the battle. That is the old ploy of the thief shouting, "Stop thief!" After all, it is obvious that the person mainly to blame for the failures of the war is Halutz himself, with his foolish belief that Hezbollah could be defeated by aerial bombardment alone.
But it is not only at the top of the army that mutual accusations are flying around. The army command accuses the government, which is retaliating in kind.»
(...)
But this is a sterile debate, because it ignores the main fact, which is becoming clearer from day to day: it is altogether impossible to win this war. That's why nothing is working as planned.
(...)
It is quite clear that the army command's wonderful plan did not include the defense of the rear within rocket range. There was no plan for the solution of the hundred and one problems emanating from the attack on Hezbollah: from the protection of the civilian population from thousands of missiles to the necessary economic arrangements when a third of the country's population is living under bombardment and is paralyzed. Now the public is crying out, and soon the ministers and generals will have to try to find somebody to blame for that, too.
For this war is being fought on the backs of the weak, who cannot afford to "evacuate themselves" from the rockets' area. The rich and well-to-do got out long ago ? in Israel as well as in Lebanon.
(...)
"Now the end of the killing depends on the UN. David Ben-Gurion called it contemptuously "UNO-SHMUNO" (UM-SHMUM in Hebrew). In the 1948 war, he violated its cease-fire resolutions whenever it suited him (as a soldier, I took part in some of these actions). He and all his successors over the years have violated almost all the UN decisions concerning us, arguing (not without justification) that the organization was dominated by an automatic anti-Israeli majority, consisting of the Soviet bloc and Third World countries.
Since then, the situation has changed. The Soviet bloc has collapsed and the UN has become an arm of the U.S. State Department. Kofi Annan has become a janitor, and the real boss is the U.S. delegate, John Bolton, a raving neocon and therefore a great friend of Israel. He wants the war to go on.
(...)
The new proposals of the Beirut government have lit red lights in Jerusalem. The Lebanese government proposes to deploy 15,000 Lebanese troops along the border, declare a cease-fire and get the Israeli troops out of Lebanon. That is exactly what the Israeli government demanded at the start of the war. But now it looks like a danger. It could stop the war without an Israeli victory.
Thus a paradoxical situation has arisen: the Israeli government is rejecting a proposal that reflects its original war aims, and instead demands the deployment of an international force, which it objected to strenuously at the start of the war. That's what happens when you start a war without clear and achievable aims. Everything gets mixed up.
(...)
The civilians who pose as war leaders are no better then the generals. A veteran general might even have learned something from his experience.
I am going now to say something I did not think I would ever utter: It is quite possible that we would not have slid into this foolish war if Ariel Sharon were in charge. Fact: he did not attack Hezbollah after the withdrawal in 2000. One attempt was enough for him. Which proves again that there is nothing so bad that something worse cannot be found.
The lust for war also explains the talking choir of the hundreds of ex-generals, who think and talk in unison in favor of the war. A cynic would say, what's the big deal, after all it's the army that gave them their standing in society. They are important only as long as the conflict between Israel and the Arab world continues. The conflict guarantees their status. They have no interest whatsoever in its resolution.
But the phenomenon is more profound. The army is the crucible for senior officers. It shapes their world outlook, their attitude and style. Apart from the settlers, the senior officers' corps ? in and out of uniform ? is today the only ideological party in Israel and therefore has a huge influence. It can easily gobble up a thousand little functionaries like Amir Peretz before breakfast.
This is why there is no real self-criticism. At the beginning of the fifth week, the slogans are again, Forwards! To the Litani! Further! Stronger! Deeper!»

...para levar a guerra até ao Irão

Ainda do artigo "The New Middle East" out of control", de Jim Lobe, baseado na análise do Coronel Lawrence Wilkerson, o ex-chefe de gabinete do ex Secretário de Estado Colin Powell:

(...)"That Rice may now find herself in a similar position, having to contend with a resurgent Cheney-led coalition of hawks who are not so much complacent about the course of current events in the Middle East as convinced that their strategy of regional "transformation" by military means will be vindicated, is what is perhaps particularly alarming about the present moment.
"This whole business is nuts - unless, of course, you believe what the rumor-mongers are beginning to pass around," wrote Wilkerson in reference to the Lebanon war in an email exchange with IPS. "(T)hat this entire affair was ginned up by Bush/Cheney and certain political leaders in Tel Aviv to give cover for the eventual attack by the U.S. on Iran. At first, I refused to believe what seemed to be such insanity. But I am not so certain any longer."
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...e os mais neo-cons atiram-se a Condi Rice...

Ainda do artigo "New Middle East" Out of Control",de Jim Lobe:

(...) The one, at least partial, exception has been Secretary of State Condoleezza Rice whose State Department, a bastion of realism, has been under almost constant attack since the outset of the Lebanon crisis by the same coalition of neo-conservatives, assertive nationalists, and Christian rightists led by Vice President Dick Cheney that led the drive to war in Iraq.
In the early stages of the latest war, Rice, who is also the only senior administration official who has been in constant communication with European and Arab leaders, was most outspoken about the importance of Israel exercising restraint and not attacking civilian infrastructure in Lebanon. She was reportedly infuriated when Israeli Prime Minister Ehud Olmert failed to follow through on a pledge to suspend aerial attacks for two days late last month. Rice, a Scowcroft protégée, has supported talks with Syria on the crisis, and, according to an account published this week in Insight magazine, a publication of the right-wing Washington Times, has also argued in favour of engaging Iran. Before the Lebanon crisis, Rice appeared to be successfully moving U.S. policy gradually, if fitfully, towards a more realist position, particularly with respect to Iran. But she has now run into a brick wall in Bush himself, according to Insight.
"For the last 18 months, Condi was given nearly carte blanche in setting foreign policy guidelines," it quoted one "senior government source" as saying. "All of a sudden, the president has a different opinion and he wants the last word."
Her problems, however, may not be confined to Bush, according to another report in Thursday's New York Times, which suggested that Cheney - and his mainly neo-conservative advisers - has become increasingly assertive in the latest crisis in support of Israel's efforts to crush Hezbollah. (In fact, some of his unofficial advisers, such as Weekly Standard editor William Kristol and former Defence Policy Board chairman Richard Perle, have called for expanding the war to Syria and even Iran.) In that respect, the current situation recalls the humiliation of then-Secretary of State Colin Powell's who in early 2002 sought to persuade Israeli Prime Minister Ariel Sharon to halt Israel's military offensive in the Palestinian territories - only to be undercut back home by Cheney and, ironically, by then-national security adviser Rice herself.
"She had as much to do with cutting his legs out from under him vis-à-vis the Middle East as anyone else - either through outright agreement with Cheney, or, at the minimum, complicity with his views so as to draw even closer to Bush," according to ret. Col Lawrence Wilkerson, Powell's former chief of staff at the State Department. (...)

O "novo" Médio Oriente desatina...

Leia-se o artigo "New Middle East" Out of Control, de Jim Lobe (Editor-chefe do Bureau de Washington do Inter Press Service), in TomPaine.com, de 11.8.06
"Alarms are definitely on the rise here.
And it's not just because the British police arrested 21 people who were allegedly plotting to bomb up to 10 jetliners (...).
It's more the sense that the growing number of crises in the "new Middle East," proudly midwifed by the administration of President George W. Bush, is rapidly spinning out of control with potentially catastrophic consequences for the entire region and beyond.
(...) "Two full-blown crises, in Lebanon and Iraq, are merging into a single emergency," noted Washington's former U.N. Ambassador, Richard Holbrooke, in an uncharacteristically alarming column in Thursday's Washington Post.
"A chain reaction could spread quickly almost anywhere between Cairo and Bombay," Holbrooke warned. "...The combination of combustible elements poses the greatest threat to global stability since the 1962 Cuban missile crisis, history's only nuclear superpower confrontation."
Among other things, noted Holbrooke, (...) Turkey is threatening to invade northern Iraq; the world's largest anti-Israel demonstrations are taking place in downtown Baghdad; Syria may yet be pulled into the Lebanon war; Afghanistan is under growing threat from a resurgent Taliban; and India is threatening about punitive action against Pakistan for its alleged involvement in the recent train bombings in Bombay.
Particularly alarming to Holbrooke, as to a steadily growing number of Republican realists and other members of the traditional U.S. foreign policy elite, is the apparent complacency of the Bush administration in the face of these events.
Indeed, since the outbreak of the Lebanon crisis four weeks ago, a succession of former top Republican policy-makers-including Brent Scowcroft, the national security adviser to former presidents Gerald Ford and George H.W. Bush; the younger Bush's former deputy secretary of state, Richard Armitage; and Council on Foreign Relations President Richard Haass-has called publicly for a major reassessment of U.S. Middle East policy and its conduct of the "global war on terror."
Their common message is the necessity of pressing Israel for a quick ceasefire in Lebanon, engaging directly with Syria and Iran on both Lebanon and Iraq, and restarting a serious peace process between Israel and the Palestinians. It has been echoed by leading Democrats, including former President Jimmy Carter ; his national security adviser, Zbigniew Brzezinski; and former secretaries of state Warren Christopher and Madeleine Albright, as well as by Holbrooke himself.
To these appeals, however-as well as to the worsening of the twin crises themselves-the administration has appeared largely deaf. "There is little public sign that the president and his top advisers recognise how close we are to a chain reaction, or that they have any larger strategy beyond tactical actions," Holbrooke noted. (...)

E os muçulmanos britânicos criticam Blair...

Do Guardian, 12.8.96
"Muslim Leaders Say Foreign Policy Makes UK Target
Leading UK Muslims have united to tell Tony Blair that his foreign policy in Iraq and on Israel offers "ammunition to extremists" and puts British lives "at increased risk".
(...)"As British Muslims we urge you to do more to fight against all those who target civilians with violence, whenever and wherever that happens. It is our view that current British government policy risks putting civilians at increased risk both in the UK and abroad.
"To combat terror the government has focused extensively on domestic legislation. While some of this will have an impact, the government must not ignore the role of its foreign policy.
"The debacle of Iraq and the failure to do more to secure an immediate end to the attacks on civilians in the Middle East not only increases the risk to ordinary people in that region, it is also ammunition to extremists who threaten us all.
"Attacking civilians is never justified. This message is a global one. We urge the prime minister to redouble his efforts to tackle terror and extremism and change our foreign policy to show the world that we value the lives of civilians wherever they live and whatever their religion. Such a move would make us all safer."
The signatories insisted they condemned those who planned the alleged attacks. Mr Khan told the Guardian that Mr Blair's reluctance to criticise Israel over the Lebanon attacks meant the pool of people from which terrorists found their recruits was increasing."

Muçulmanos americanos criticam Bush...

Vale a pena ler o «take» da Reuters de 11.8.06:
«US Muslims Bristle at Bush Remarks
US Muslim groups have criticised US President George W Bush for calling a foiled plot to blow up airplanes part of a "war with Islamic fascists," saying the term could inflame anti-Muslim tensions.
(...)"We believe this is an ill-advised term and we believe that it is counter productive to associate Islam or Muslims with fascism," said Nihad Awad, executive director of the Council on American-Islamic Relations advocacy group.
"We ought to take advantage of these incidents to make sure that we do not start a religious war against Islam and Muslims," he said in Washington.
(...)"The problem with the phrase is it attaches the religion of Islam to tyranny and fascism, rather than isolating the threat to a specific group of individuals,"
(...) "We've got Osama bin Laden hijacking the religion in order to define it one way ... We feel the president and anyone who's using these kinds of terminologies is hijacking it too from a different side,"
(...) "The president's use of the language is going to ratchet up the hate meter"...

sábado, 12 de agosto de 2006

Nós, Judeus, contra os ataques de Israel

publicado no LIBÉRATION, 9/8/06

"Nous, Juifs contre les frappes d'Israël

Vingt-quatre ans après les massacres de Sabra et Chatila et l'appel de Pierre-Vidal Naquet, nous condamnons les attaques meurtrières de Tsahal et demandons un cessez-le-feu immédiat au Liban.
Voici vingt-quatre ans, Israël lançait au Liban l'opération «Paix en Galilée», qui allait, par les bombardements terrestres et aériens, faire des centaines de victimes civiles et qui devait aussi, du fait de l'appui apporté par Israël à ses supplétifs libanais, conduire aux massacres de Sabra et Chatila.
C'est alors que, grâce à l'initiative de Pierre Vidal-Naquet notamment, fut lancé un appel de cent intellectuels juifs qui se désolidarisaient des soutiens inconditionnels à l'opération menée par Sharon et la condamnaient. Après les massacres, un rassemblement devant l'ambassade d'Israël fut organisé par le Comité des Juifs contre la guerre au Liban pour exprimer sa colère. Vingt-quatre ans plus tard, les successeurs de Sharon ont pris la relève. Ils lancent sur le Liban des attaques meurtrières comme celle de Cana, où les victimes sont surtout des femmes et des enfants comme ce fut le cas dix ans plus tôt au même endroit.
En Cisjordanie et dans la bande de Gaza, après l'enlèvement d'un soldat israélien, et prenant prétexte du tir de roquettes artisanales, l'armée israélienne, après son coup de force contre le gouvernement palestinien démocratiquement élu, tire à l'arme lourde avec, là encore, des dizaines de victimes, dont la moitié sont des civils, femmes et enfants compris, cela après avoir détruit les infrastructures assurant un minimum vital aux populations.
Précisons-le: les soussignés ne sont des inconditionnels ni du Hezbollah, ni du Hamas. Et nous avons toujours condamné les attentats-suicides contre les populations civiles israéliennes, tout comme nous déplorons, aujourd'hui, que les Israéliens soient victimes des missiles qui frappent le nord de leur pays.
Mais quoi qu'on puisse penser du Hezbollah, l'attaque qu'il a menée contre des soldats israéliens, dont certains furent tués, et d'autres, enlevés, a servi de prétexte au gouvernement israélien pour mettre en application un plan qu'il avait déjà préparé longtemps à l'avance.
Et reviennent, comme toujours, les appels à l'union sacrée et au soutien inconditionnel à Israël lancés par les institutions qui prétendent représenter la totalité des voix juives en France. Cela non plus, nous ne pouvons l'accepter. Comme en 1982, comme à de nombreuses reprises depuis, les soussignés, Juives et Juifs, reprennent les termes du dernier appel signé par Pierre Vidal-Naquet quelques jours avant sa disparition : «Assez ! Trop, c'est trop !» Il faut un cessez-le-feu immédiat et total, aussi bien au Liban qu'en Israël, en Cisjordanie et à Gaza. Il faut l'ouverture de négociations dont les premiers objectifs seront un échange de prisonniers, le retour de la sécurité et de conditions humaines pour toutes les populations concernées.
Nous demandons au gouvernement français et aux instances européennes de défendre cette position qui avec la juste solution du problème palestinien est la seule capable d'éviter une extension catastrophique du conflit.
Nous tenons, par ailleurs, à saluer nos amis israéliens qui manifestent dans des conditions très difficiles contre la politique de leur propre Etat."


Premiers signataires:
Raymond Aubrac (ancien résistant),
Rony Brauman (médecin, essayiste),
Rachel Choukroun (présidente de femmes en Noir, Marseille),
Stéphane Hessel (ambassadeur de France),
Marcel-Francis Kahn (professeur de médecine),
Pascal Lederer (animateur d'Une autre voix juive),
Perrine Olff-Rastegar (porte-parole du Collectif judéo-arabe et citoyen pour la paix, Strasbourg),
Richard Wagman (président d'honneur de l'Union juive française pour la paix, UJFP)

Fascistas de todas as variedades

Na sua «guerra ao terror» que serve às mil maravilhas aos terroristas, entre outros aspectos por hostilizar as populações muçulmanas, o Presidente Bush chamou ontem de «islamistas-fascistas» aos criminosos da Al Qaeda e quejandos.
Será que Mussolini, Franco ou Salazar deveriam ser rotulados de «Cristãos-fascistas» ou «católicos-fascistas»?

Em "Fascists of All Varieties", o americano (anti-americano, «por supuesto») Marc Ash, in http://www.truthout.org/docs_2006/081106Z, elabora sobre quem realmente é fascista.

Guerra a leste... e Portugal a banhos.

Li e reli o artigo de Ana Sá Lopes no DN de 11.8.06, «A escapadela».
Inspirando-me no Vital, poderia dizer até que gostava de o ter escrito. Mas não digo: prefiro aguardar que o país volte da época balnear.
Esperarei pelo tempo em que os governantes deverão explicar na AR o que é «material bélico não ofensivo» e o que são os respectivos "componentes", de como temos serviços inteligentes diligentes, capazes de verificar a não ofensividade até à mais ínfima porca, e de como, sobretudo, assim se avantajam os "superiores interesses da Nação", para não dizer que assim se protegem os portugueses contra todo o tipo de maleitas, incluindo as pregadas pelos mais malvados «islamitas fascistas» no rol do Presidente W. Bush.

Entretanto, convém ir lendo a imprensa dos fornecedores e dos clientes do dito material bélico, não ofensivo e não só. Como o artigo ontem publicado no New York Times «Israel Asks US to Ship Rockets With Wide Blast», que começa assim:

«Israel has asked the Bush administration to speed delivery of short-range antipersonnel rockets armed with cluster munitions, which it could use to strike Hezbollah missile sites in Lebanon, two American officials said Thursday.
The request for M-26 artillery rockets, which are fired in barrages and carry hundreds of grenade-like bomblets that scatter and explode over a broad area, is likely to be approved shortly, along with other arms, a senior official said.
But some State Department officials have sought to delay the approval because of concerns over the likelihood of civilian casualties, and the diplomatic repercussions. The rockets, while they would be very effective against hidden missile launchers, officials say, are fired by the dozen and could be expected to cause civilian casualties if used against targets in populated areas.»

Sobre a guerra

Gostei especialmente de ler:
O artigo da Clara Ferreira Alves «Tempo de guerra» na Única do EXPRESSO de 5.8.06
O artigo do Alvaro de Vasconcelos "Uma força europeia para quê?" no PÚBLICO de 8.8.06

Rio Congo: à pesca...



Rápidos à saída de Kinshasa, 3.8.06, 15 horas

Bemba ou Kabila:venha o diabo e escolha...



O espaço de paredes esburacadas era uma sala de aula, em Dima, Kinshasa I.
O cansaço era imenso e dificultava a concentração. A luz do único candeeiro a petróleo mal dava para ver. Os boletins de voto eram desmesurados, difíceis de manusear. A fome e sede apertavam. Um rato escapuliu-se, à tangente pelos meus pés. Mas por volta da meia-noite, eles conseguiram afixar à porta os resultados apurados. O número de votos nulos ou inválidos foi extraordinariamente reduzido - 7 em 170 - mostrando que os votantes sabiam votar, como assinalar as suas escolhas. Nas presidenciais, Bemba saca 107, a grande distância de Kabila, só com 21, logo seguido de Kashala com 18.
É só uma mesa de voto. Em Kinshasa, outrora "Kin-la Belle", hoje referida pelos seus habitantes como "Kin-la Poubelle".
Mas uma mesa de voto que, confirmei depois, reflectiria a escolha da capital congolesa. E, tudo indicava, a das provincias do norte, centrais e do oeste.
Uma escolha diferente, antecipava-se, das zonas a leste e sul, incluindo o Katanga - onde a população deste país (do tamanho de toda a Europa Ocidental) é mais numerosa. Onde se previa que Kabila vencesse em proporção semelhante à de Bemba em Kinshasa. E onde as fraudes também seriam mais fáceis...
Kabila e Bemba - coitados dos congoleses! Como disse a espantosa Eve Bazaiza, candidata nº256 por Kinshasa ao parlamento: "Que venha o diabo e escolha: ambos são chefes de guerra, ambos mantêm milícias armadas. Nenhum vai tolerar não ganhar. Nenhum vai tolerar sequer não passar à primeira volta. O risco de qualquer um provocar a violência é real".
O povo votou ordeiramente, com seriedade. Não é aceitável que tudo seja deitado a perder, por quem quer que seja. Está lá a MONUC. Está lá a EUFOR. Que não lhes doa a mão, se for preciso intervir contra quem queira perturbar o processo. Para não falhar aos congoleses que, ao votarem assim, mostraram não apenas precisar, mas realmente querer, paz e governação democrática.

Eleições na RD Congo


Kishasa I, Dima, às 20.00 horas, dia 30 de Julho de 2006

Kinshasa I, Dima, às 22.30, dia 30 de Julho de 2006

Eles não comiam nem bebiam há quase 24 horas, para não largar a mesa de voto em Kinshasa onde eram agentes da administração eleitoral, observadores não governamentais ou representantes dos partidos políticos ou candidatos. Disseram-me: "não faz mal, nós estamos habituados a comer pouco, ou até a jejuar...!"
Eles achavam - disseram-mo com uma seriedade comovente - que do seu empenhamento,rigor e vigilância na execução das tarefas eleitorais dependeria a autenticidade da escolha do povo. E dela dependeria o futuro do seu Congo, tão escandalosamente rico pela geologia e sempre tão miseravelmente espoliado. Dela dependeria, enfim, a esperança de alguma boa governação. E o fim do sofrimento do seu tão martirizado povo. Dela dependeria crucialmente o resto da vida de cada um.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Correio dos leitores: Pirataria do Abrupto

«Sobre o seu post mencionando o ataque ao blog de Pacheco Pereira, devo referir que publiquei há dias um post sobre o assunto contendo algumas conclusões, resultantes de investigação persistente, que poderão esclarecer algumas dúvidas (...).
Alguns visitantes fizeram-me notar que aquele texto está redigido de forma um pouco hermética, dado o seu carácter exclusivamente técnico, pelo que transcrevo seguidamente uma tentativa - usada como resposta a uma dessas objecções - de dizer o mesmo em linguagem absolutamente corrente:
O que se passou foi isto: um tipo que vive de publicidade em páginas na Internet escolheu o Abrupto (provavelmente, entre outros blogs com altos níveis de visitantes) e injectou na conta Blogger deste um pequeno programa (javascript) que lhe permitiu (permite) substituir os conteúdos do blog original com os seus próprios. Pronto. Quando quer (quiser), abre a conta de JPP (com uma ferramenta chamada AJAX) e, em vez de "user name", introduz um "script" que substitui o conteúdo (o "bug" da plataforma Blogger consiste em permitir isto); depois, repõe a situação inicial (user ID e password), o "post" pirata passa a arquivo histórico, e assim por diante. Entretanto, a sua conta publicitária (AdBrite) contabiliza de cada vez mais uns milhares de "page-views" e, com sorte, uns quantos "cliks" em anúncios; é assim que o "hacker" é pago, além de se tornar conhecido no meio "hacker" por ter chateado mais um "colunável".»

João Pedro G.

Correio dos leitores: O PSD e AJJ

«O PS, quando faz campanha, ou no seu dia a dia, costuma associar o PSD e o seu lider nacional aos despautérios do Alberto João?... Se calhar, devia começar a fazê-lo. O PSD não se demarca porque nada o obriga (politicamente) a fazê-lo.»
Henrique J.

Correio dos leitores: Lista de devedores ao fisco

«Também sou da sua opinião [sobre a publicação da residência dos devedores ao fisco]; com a residência, a lista era mais identificadora.
Mas, pondo de lado a justeza ou injusteza da publicitação, ao não ser a lista de âmbito nacional, não existe aqui uma ilegalidade? Ou será que há dois Estados? Mesmo que a administração fiscal da Madeira esteja na dependência do Governo Regional, os madeirenses não são devedores como os do Continente? Será que os direitos e deveres de cidadania são diferentes entre os continentais e os insulares? E se os madeirenses "são outro género de devedores", faz sentido contribuirmos para o orçamento madeirense?
Perante esta situação, será que os nomeados (e os não nomeados) podem continuar a pensar que o Estado é pessoa de bem?
E estou curioso por ver a lista que o Tribunal de Contas pretende publicitar dos credores do Estado; seria muito interessante se ocorresse o caso de algum particular ser simultaneamente devedor e credor perante o Estado.»

Agostinho P.

Mais do mesmo

A CGTP revelou o seu plano para o financiamento da segurança social, que consiste, como era de esperar, em criar um novo imposto sobre as empresas (com base no valor acrescentado), a acrescentar à actual taxa social.
Devo dizer que até concordo na criação de um novo factor de financiamento da segurança social com base no valor acrescentado das empresas, desde que, porém, isso sirva para diminuir a actual taxa social única que impende somente sobre o volume dos salários (e por isso sobrecarrega as empresas de mão-de-obra intensiva) e é demasiado elevada, onerando excessivamente essas empresas e sendo um dos factores que favorecem a redução do pessoal e a fuga para o regime do "recibo verde".
De resto, não compreeendo por que é que o Governo e o PS se recusam a considerar essa hipótese. Tudo o que sirva para diminuir os custos do trabalho contribui para reduzir o desemprego e para melhorar a competividade das empresas. E a responsabilidade pelo financiamento da segurança social -- que deve ser auto-sustentável -- deve incumbir sobre toda a economia e não somente sobre o volume dos salários.

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Correio dos leitores: Ainda o caso de Setúbal

«(...) Na minha opinião, não devemos quer para as autarquias o que não queremos para a Assembleia da República e para o Governo, em cujos cargos não é bem vista a "desobediência" partidária dos deputados e dos ministros, respectivamente. Lembram-se do caso do antigo deputado do PSD Carlos Macedo, que entrou em ruptura com o primeiro Governo de maioria de Cavaco Silva? Por outro lado, os eleitores não votam na figura do Primeiro-Ministro nem na do presidente da Assembleia da República...
O facto de a figura do presidente da Câmara ter que ser, obrigatoriamente, o cabeça da lista do partido mais votado, ao invés do que acontece para as Assembleias Municipais, já é uma "via presidencialista" dos Executivos municipais. Aliás, os autarcas que não se revejam nos partidos que os elegeram têm a possibilidade de concorrem em listas independentes, como aconteceu, recentemente, em Felgueiras, Gondomar, Oeiras e em Amarante.»

José Carlos Pereira (Felgueiras)

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Duas sugestões...

... para a necessária separação entre a política e o futebol: (i) acabar com a possibilidade, que consta da actual lei, de as entidades públicas (incluindo nomeadamente as autarquias) serem sócias das SAD; (ii) tornar incompatível o exercício simultâneo de cargos em clubes e organismos desportivos e de cargos políticos.

Lista

A lista dos principais devedores ao Fisco inclui somente o número fiscal e o nome das pessoas/empresas. Se a ideia é denunciar publicamente os faltosos perante a comunidade, como censura pública, não seria útil acrescentar o local de residência?

Escolha

O PSD recusa-se, mais uma vez, a demarcar-se das disparatadas declarações de A. J. Jardim no estival comício partidário madeirense do Chão da Lagoa. No entanto, tratando-se de um dirigente nacional do Partido e de um governante regional, a ausência de distanciamento do PSD nacional só pode ser lida como conivência, na pior das hipóteses, ou pusilanimidade política, na melhor.
Contudo, face à crescente gravidade e recorrência dos despautérios jardinescos, parece, porém, evidente que já chegou a hora em a direcção nacional do PSD tem de escolher entre defender a sua própria credibilidade política nacional ou coonestar a incontinência reaccionária, idiota e malcriada do líder regional da Madeira.

Reciprocidade

«Tribunal de Contas vai elaborar lista de dívidas [do Estado]». Muito bem. Se o Estado publica o nome dos seus devedores, também temos o direito de conhecer os dos seus credores (sobretudo quando se trata das mesmas pessoas). O Estado caloteiro é tanto ou mais censurável do que os contribuintes caloteiros.

Nome errado

A Associação Nacional dos Contribuintes acha "lamentável" a publicação dos nomes dos grandes devedores ao Fisco. O que é lamentável é o protesto da ANC, que deveria mudar de nome, para Associação Nacional dos Não Contribuintes.

domingo, 30 de julho de 2006

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Quem é que tinha ilusões a tal respeito?

«A maré da opinião pública árabe vira em apoio do Hezbollah».

Cachorrinho ou pato?

Talvez por finalmente perceber que o terrorimo internacional é quem capitaliza com o que se está a passar no Médio Oriente (e porque o sofrimento obsceno dos civis no Líbano, em Gaza e também em Israel, visivelmente não o comove, nem impele a agir), e sob forte pressão de muitos dos seus mais fiéis seguidores, Blair precipita-se para Washington...
Já viram como as peças das televisões internacionais CNNs e BBCs, etc.. estão cheias de referências ao «poodle», ao «Yo Blair», ao «lame duck»?
Já viram como alguns dos mais fiéis colaboradores de Blair estão a sair a terreiro criticando-o pelo reflexo canino de obedecer a Washington? Até Stephen Wall, que foi seu conselheiro diplomático, embaixador em Lisboa e junto da UE, em Bruxelas...
Se não fosse tão trágico para o mundo, até dava vontade de rir.

Médio Oriente: A Al Qaeda esfrega as mãos...

Está na ABA DA CAUSA um artigo que escrevi para a edição de hoje do COURRIER INTERNACIONAL: «Médio Oriente: novo, talvez. Mas melhor?». E que foi escrito na segunda feira passada, quando a Sra. Rice começava o périplo pelo Médio Oriente e havia alguma esperança que a conferência de Roma acelerasse o cessar fogo e portanto também o retorno a negociações políticas.
De então para cá verificou-se que Israel subestimou as capacidades militares do Hezbollah. E a demora na desarticulção militar do Hezbollah já é uma alarmante derrota política para Israel.
Por outro lado, por todo o mundo islâmico, e no Médio Oriente em particular, cresce o apoio popular ao Hezbollah. E a Al Qaeda não podia deixar de vir a terreiro - o terrorismo internacional soma e segue, como eu noto no meu artigo:
«Enfim, do sofrimento obsceno dos inocentes nesta guerra talvez venha a brotar, a prazo, algum bom senso. Mas, o afluxo de jovens em todo o mundo islâmico (incluindo na Indonésia, de onde escrevo) a engrossar as fileiras da «jihad» por causa das imagens de Gaza e do Líbano, demonstra ominosamente que quem, para já, esfrega as mãos de contentamento é a Al Qaeda».
Os fanáticos da Al Qaeda serão sunitas e rivais furiosos do xiita Hezbollah. Mas por isso mesmo, não se podem ficar atrás, deixando que o rival apareça a liderar o combate contra Israel e o Ocidente. Esperemos pelo que a Al Qaeda vai tratar de nos arranjar, algures no mundo...

Maniqueísmo (2)

Outro dos fáceis argumentos pró-israelitas consiste em defender que, sendo Israel uma democracia, com pluralismo político e liberdade de expressão (embora sendo um Estado étnico e confessional), então não pode haver escolha numa guerra com Estados e movimentos islâmicos de tipo autoritário e fundamentalista.
Também aqui o argumento não passa de uma mistificação maniqueísta. As opções e a conduta bélica de Israel, se censuráveis em si mesmas, não deixam de o ser só pelo facto da natureza democrática do Estado judaico, nem esta cancela a condenação das mesmas. Criticar Israel não significa necessarimente alinhar com os seus adversários.
Por um lado, as democracias não estão ao abrigo de se envolverem em guerras injustas, mesmo com aplauso geral dos seus cidadãos. Basta lembrar a guerra de França contra ao movimento de independência argelina ou a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, que chegou a contar com o apoio maciço dos norte-americanos. Aliás, se bastasse o apoio popular para legitimar as guerras, o mundo teria padecido de um número ainda maior de guerras do que as que ocorreram.
Por outro lado, no caso das democracias, as guerras injustas e os crimes de guerra e crimes contra a humanidade são ainda mais intoleráveis do que no caso dos regimes autoritários, justamente porque põem em causa a dignidade e a legitimidade da própria democracia. É por isso que Guantánamo é mais inadmissível do que as prisões políticas castristas; é por isso que os métodos repressivos de Israel nos territórios ocupados e a destruição punitiva do Líbano são mais censuráveis do que a violência dos movimentos extremistas islâmicos.
Em definitivo, mesmo na guerra (ou sobretudo nela) as democracias devem manter alguma superioridade moral; quando usam os mesmos métodos que os utilizados pelas forças que qualificam como terroristas, então descem ao nível destes.

quinta-feira, 27 de julho de 2006

Maniqueísmo

O mais torto "argumento" dos apoiantes de Israel na guerra do Líbano, contra os seus críticos, é o de que quem não está com Telavive está com o Hezbollah. "Se não estás connosco, estás com o outro lado" --, uma versão ainda mais maniqueísta do que a de Bush, quando, na véspera da invasão do Iraque, clamava que quem não estava com Washington, estava com "eles", querendo dizer Saddam Hussein!
O argumento, em si mesmo, não passa de uma óbvia mistificação retórica, destinada apenas a legitimar, sem censura, os erros e excessos belicosos de Israel nesta guerra. Por mim, se existe algo que abomino, desde sempre, são os regimes e os movimentos políticos fundamentalistas de base religiosa, como o regime iraniano e o Hezbollah. Não é seguramente por amor aos seus inimigos que critico Israel nesta ocorrência.
Aliás, a razão por que Israel não convence muita gente só tem a ver com o Hezbollah na medida em que a sua resposta à provocação deste, com o massacre indiscriminado de infra-estruturas e de civis inocentes no Líbano, só veio aumentar as razões de queixa e de ódio antijudaico entre as massas árabes, inclusive no Líbano, sentimentos que ampliam os apoios do Hezbollah e dos movimentos radicais islâmicos. Lá para trás, foi a prolongada ocupação israelita do Líbano que criou o Hezbollah; agora, com o novo ataque destrutivo ao Líbano, Israel está a entregar ao Hezzbollah o protagonismo de todos os agravos árabes contra o Estado judaico, incluindo na questão palestinina.
O que é uma tragédia, tando para os palestinianos como para Israel.

"Enganos"

«Israel ataca comboio humanitário». Mais um "engano"? Já são "enganos" de mais, não é?

quarta-feira, 26 de julho de 2006

Em defesa do Abrupto

José Pacheco Pereira deve ter a solidariedade de todos os blogues na sua luta contra a miserável pirataria que visou o Abrupto. Devemos desejar e esperar que ele leve a melhor contra a canalhice cobarde, para bem deste espaço de autonomia pessoal e de liberdade crítica, que são os blogs. Confiemos também que o Blogger esteja a tomar medidas para impedir patifarias destas, como é sua obrigação.

Mais um "anti-semita"

Com a sua lúcida e equilibrada análise de hoje no Público sobre a guerra no Líbano (link só para assinantes), o General Loureiro dos Santos revela seguramente estar contaminado pela peste do "anti-semitismo", que os papagaios do extremismo bélico de Israel logo detectam nos que não seguem a cartilha integrista de Telavive.

"Infra-estruturas do Hezbollah"

«OS MÍSSEIS NÃO POUPAM A CRUZ VERMELHA: Uma sensação de invulnerabilidade prevaleceu durante os primeiros dias entre os voluntários da Cruz Vermelha da cidade de Tiro. Depois, no domingo passado, tudo mudou: duas ambulâncias foram atingidas por dois mísseis israelitas. Ficou a sensação de se terem transformado em alvos directos (Público de hoje; link só para assinantes).
Obviamente mais um "engano" da sofisticada aviação islaelita, com um óbvio propósito de expulsar observadores incómodos. Decididamente, Israel está disposto a sacrificar tudo aos seus objectivos militares. Mas isto tem um nome: crimes de guerra.

"Infra-estruturas do Hezbollah"

Um posto de observadores da ONU também entra na categoria das "infra-estruturas do Hezbollah"? Já não há limites a sanha punitiva de Israel. A alegação de "engano" não tem a mínima credibilidade, dadas as advertências prévias da ONU e a "precisão cirúrgica" de que se gaba o exército israelita. É evidente que Israel não quer observadores nenhuns no terreno, para melhor poder prosseguir e tentar esconder as atrocidades que vai cometendo no sul do Líbano.

Antologia do dislate

Para certas luminárias da direita, todos os críticos do belicismo de Israel padecem de "anti-semitismo", mesmo se inconsciente (concedem eles...) tal como todos os críticos das aventuras guerreiras de Bush sofrem de "anti-americanismo primário", mesmo se não assumido (acusam eles...).
No seu sectarismo insano, porém, não se dão conta de que entre os tais putativos "anti-semitas" estão muitos judeus, fora e dentro de Israel, que condenam a política agressiva israelita, tal como entre os possessos do alegado "anti-americanismo" estão inúmeros norte-americanos anti-Bush (nesta altura mais de metade dos cidadãos estadunidenses...). Mas que lhes importa isso? Se os factos contrariam o argumento, que se lixem os factos...

Não pode valer tudo (2)

Quem fica particularmente mal nesse episódio do ataque a Manuel Alegre é Marques Mendes, que, não podendo desconhecer as coisas, preferiu alinhar na baixa campanha populista contra Alegre.
Não é desta massa, porém, que se faz a seriedade dos dirigentes políticos com pretensões a serem governantes.