domingo, 25 de janeiro de 2026

Eleições presidenciais 2026 (42): Lamentável demora

1. Quando todos os demais candidatos vencidos na 1ª volta (e respetivos mandatários nacionais) já anunciaram o seu voto em Seguro contra Ventura (salvo Cotrim de Figueiredo, que anunciou que não vota no segundo, mas sem dizer se vota no primeiro) e quando as recentes sondagens, embora dando uma grande vitória a Seguro, apontam para um inquietante resultado do líder do Chega, com 30%, é incompreensível o continuado silêncio de Gouveia e Melo e do seu mandatário nacional, Rui Rio, sobre o seu sentido de voto.

Acresce que a mesma sondagem revela que, embora 2/3 dos eleitores do Almirante se proponham votar em Seguro, há, porém, cerca de 14% que optam por Ventura (mais do que os eleitores de Marques Mendes), pelo que importa contribuir para que os indecisos remanescentes acabem por decidir no sentido certo, travando um ulterior crescimento do líder da extrema-direita, para o que a posição de Gouveia e Melo pode ser importante.

Repetindo o que já escrevi anteriormente sobre o mesmo tema (AQUI), é uma obrigação política e uma responsabilidade republicana satisfazer o direito dos eleitores a saberem em quem vai votar aquele em quem confiaram o seu voto na 1ª volta.

2. Quando foi perguntado, na noite eleitoral de 18 de janeiro, sobre a sua indicação de voto para a 2ª volta, Gouveia e Melo apenas disse que era «precoce» fazê-lo, mas deixando entender claramente que haveria de a tornar pública mais tarde -, o que, passada uma semana, não aconteceu. Começa a ser muito tarde.

Não é obviamente de suspeitar de qualquer "neutralidade" de Gouveia e Melo (nem de Rui Rio) na óbvia dicotomia em causa nestas eleições: democracia liberal contra "democracia iliberal", um Presidente-garante-da-Constituição contra um Presidente-líder-político-do-País, um Presidente acima dos partidos contra um Presidente líder de partido. Mas a sua prolongada abstenção em dizê-lo pode levar mais eleitores seus a considerarem politicamente admissível o voto no candidato da extrema-direita populista. 

Não vejo como é que a grande maioria dos seus eleitores, para quem a democracia constitucional está em causa nesta eleição, podem deixar de se sentir defraudados com a aparente "fuga" do seu candidato a tomar uma clara e atempada posição nessa luta.

Adenda
Comenta um leitor, que foi apoiante ativo do candidato: «Toda esta demora é não só lamentável como incompreensível». Sim, apesar de eu ter tentado perceber, não dá para entender...

Adenda 2
Outro leitor comenta que foi a 1ª vez em décadas que não votou num candidato presidencial da área socialista, mas que, «depois desta deceção com o Almirante, também foi a última vez». Somos dois!

Adenda 3
Um leitor objeta que «o voto é secreto e que ninguém tem obrigação de o revelar». Obrigação jurídica, não há para ninguém, mas um candidato presidencial que foi eliminado na 1ª volta incorre numa obrigação política e moral de informar os seus eleitores sobre o seu voto na 2ª volta, quando está em causa a própria democracia constitucional, como é o caso.

Adenda 4
Uma leitora conjetura que «o elevado egocentrismo do candidato levou ao ressentimento pelo desaire eleitoral e a pôr-se fora das eleições». Pois, tem de haver alguma explicação "fora da caixa"; mas, e Rui Rio?!

Adenda 5
Comentário de outro leitor: «[Ele] disse que seria prematuro, o que pressupunha uma tomada de posição à posteriori. Como ainda não o fez, o seu silêncio está a tornar-se endurecedor e os eleitores que votaram na sua candidatura só podem ficar surpreendidos pela não indicação do seu voto». Não posso deixar de concordar: silêncio ensurdecedor!