Blogue fundado em 22 de Novembro de 2003 por Ana Gomes, Jorge Wemans, Luís Filipe Borges, Luís Nazaré, Luís Osório, Maria Manuel Leitão Marques, Vicente Jorge Silva e Vital Moreira
sexta-feira, 13 de agosto de 2004
Gravações oficialmente divulgadas, já!
Mas a demora e o despedimento sumário de Adelino Salvado levam a concluir que o que está nelas deve ser realmente explosivo, a ponto de, desta vez, ninguém ter coragem de o divulgar. E que lestos (porventura encorajados por fontes policiais, judiciais ou governamentais) foram antes os media a publicitar transcrições de conversas de Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso, apesar de estarem em causa não apenas conversas telefónicas de um jornalista com as suas fontes, mas peças de um processo em segredo de justiça.
A FOCUS ia publicar extractos das gravações, mas foi impedida por uma providência cautelar sustentada em horas, pasme-se, em tempo de férias judiciais, por um tribunal cível, incompetente para se pronunciar sobre a ilicitude das gravações, mas hiper-zeloso do «bom nome» dos escutados - alguns dos quais, nada tendo a temer, logo autorizaram a divulgação. Providência cautelar pedida, pasme-se, pelo jornalista que cometeu o crime de gravar à revelia dos interlocutores (se ele tem atenuante ou isenção da culpa, isso apura-se judicialmente em momento posterior). Jornalista que, na pretensão de impedir a divulgação das gravações, é apoiado, pasme-se, pelo respectivo Sindicato (se um jornalista matar alguém para escrever sobre a experiência de assassinar, o Sindicato impedirá a divulgação das provas do crime, para lhe preservar o material de trabalho?)
Perante o descalabro a que assistimos, o mínimo é exigir a divulgação integral do conteúdo das muitas horas de gravações. E, de preferência, em primeira mão, não por nenhum jornal, canal de rádio, TV ou blog, mas em site oficial, por exemplo o da PGR, que superintende a investigação do caso Casa Pia, ou do Ministério da Justiça que tutela a PJ cujo director foi demitido pelo Governo depois de ter ouvido as gravações.
Ana Gomes
quinta-feira, 12 de agosto de 2004
Que organização é esta?
Luís Nazaré
quarta-feira, 11 de agosto de 2004
Causa Nossa e o estranho caso das gravações roubadas
Luís Nazaré
segunda-feira, 9 de agosto de 2004
Novos compromissos
| Sei que há quem pense que tenho um preconceito contra o Expresso. E tenho. Não lhe perdoo o facilitismo, a tentação pela intriga cortesã, a perda de qualidade, os links pagos e os três euros que me obriga a gastar todos os sábados (ossos do ofício...). O fair play obriga-me porém a saudar o último artigo de Nicolau Santos no suplemento Economia, intitulado "9 compromissos até 2010". Recomendo vivamente a sua leitura a toda a classe política.
Luís Nazaré |
domingo, 8 de agosto de 2004
A Ideia
Quando, há três meses atrás, atribuímos o prémio Causa Nossa "5ª dimensão" ao director do semanário de referência, julgávamos que o Arquitecto tinha finalmente atingido o seu Nirvana e que os novos afazeres celestiais o impediriam de nos deliciar com novas epístolas. Puro engano. É que o Arquitecto arranjou uma maneira astuciosa de continuar a transmitir-nos as suas revelações ao sábado - através dos seus alter-egos. Esta semana, foi Óscar Niemeyer.
Com os casos de sucesso de Islamabade e Brasília como bandeiras, o Arquitecto desenvolve uma sublime argumentação em favor de uma nova capital. Com a visão celestial de que dispõe, já tratou até de escolher o melhor sítio - algures num triângulo cujos vértices são Castelo Branco, Portalegre e Abrantes. Seria "uma cidade construída de novo, (?) moderna, projectada por arquitectos contemporâneos, voltada para o futuro, capaz de ficar como um marco do nosso tempo".
Na reunião dominical do Clube de Reflexão Expresso, alguns dos meus amigos mais simplistas não alcançaram a elevação intelectual do Arquitecto, ridicularizando-lhe os propósitos e as justificações. Mas quando alguém tentou equipará-lo ao célebre Mr. Chance, aí insurgi-me. Com que direito punham em causa a omnisciência do Arquitecto? Ou será que não tinham pura e simplesmente percebido a fina subtileza das suas razões, confundindo-as com um rol de tontices infantis? Esperem para ver.
Por mim, não duvido por um instante da visão do Arquitecto. Como ele humildemente relembra na sua mensagem de ontem, quantas ideias originais e grandiosas não foram já anunciadas em epístolas anteriores, para bem do país? Vou mais longe: o projecto da nova capital deveria ser entregue ao único espírito capaz de apreender o seu alcance, o próprio Arquitecto. Para começar, trataria de convencer os críticos com um projecto-piloto. Através de outro dos seus alter-egos, o de director do semanário de referência, é só mudar a sede do Expresso - talvez mesmo da Impresa - para Alcains. Vão ver como todos ficarão rendidos à Ideia.
Luís Nazaré
sábado, 7 de agosto de 2004
Casa ImPia
Confesso aguardar com expectativa que a SIC, tal como fez com as gravações que envolviam Ferro Rodrigues, comece a pôr no ar as transcrições desses registos, para ver o que era confidenciado ao jornalista e se o Director da PJ e sua rapaziada só usam linguagem elevada. Se não, não é SIC não é nada! É que o segredo de justiça há muito que é uma balela - e a SIC e o CM foram dos orgãos de comunicaão social que mais ajudaram a demonstrá-lo.
Já agora a SIC também podia entrevistar a jornalista Felícia Cabrita, para ela explicar de viva voz o que diz na entrevista à CARAS desta semana:
«Há uma coisa curiosa: inicialmente todos os nomes que me apareceram eram pessoas de direita, políticos de direita, que ainda não vieram a lume. Provavelmente serão crimes prescritos, sabemos que há investigações em curso, portanto ainda é cedo. E há uma coisa fundamental: este é o processo da Casa Pia, mas muitos outros miúdos foram ouvidos no meio disto. Havia ligações, nomeadamente 'amigos' do Parque Eduardo VII que falaram seguramente de outras pessoas. Não tenho dúvida de que o Parque está a ser investigado.
QUE NOMES ERAM ESSES? Eram pessoas até do governo da época, de 1982, que continuam a ter peso. (...) neste teste à democracia vimos como o PS reagiu, que foi muito mal. (...) Mas estou ansiosa, gostava de saber como reagiria o PSD ou o PP se isto lhes batesse à porta.»
Eu também. E porque é que não bate? Quem estava no governo em 1982? Porque é que nada se sabe da investigação do Parque?
Em Novembro de 2003 incomodei muita gente ao berrar que tudo estava a ser feito para descredibilizar o processo, em detrimento das crianças abusadas, tudo para proteger e encobrir criminosos, desviando atenções de alguns deles através de pistas falsas, calúnias e urdiduras ignóbeis como as lançadas sobre Paulo Pedroso e Ferro Rodrigues. Pois não retirei, nem retiro, uma palavra do que então disse.
Ana Gomes
A ressaca
Já agora, aproveito a boleia para fazer outras considerações avulsas sobre o correio que tenho recebido nestes meses de Causa. Volta e meia, coisa que também me espanta pela positiva, aparece uma alma saudosa do Desejo Casar, rogando-me que escreva sobre amores e devaneios ilhéus. Tenho imensa saudade desse tempo mas, por uma série de motivos, não me apetece voltar a escrever sobre as mesmas coisas. Havia um contexto próprio no DC que agora já não sinto, além de que - como muito bem tinha o Pedro Lomba na sua epígrafe do FLOR DE OBSESSÃO - "growing up in public" (Lou Reed) não é fácil. Se me voltar a dar para isso, e de vez em quando tenho aqui uns tímidos fogachos, de certeza que o notarão.
Por outro lado, fico sensibilizado com a impaciência dos revoltados que não apreciam os socialistas. Também eles perdem um tempo precioso a escrever mails. Mas, e tenham santa paciência, deixei de responder a insultos - sobretudo quando me insultam por ser socialista. É que dá-se a pequena particularidade de o não ser. Não sou socialista, não sou militante de nenhum partido, não tomo café com o Ferro nem vou ao ténis com o Sócrates, não tenho livros do Alegre nas estantes da minha casa, desamparem-me a loja.
Última consideração, de teor mais prático: por favor, não percam tempo a enviar-me mails demonstrando preocupação com a política de pescas em Portugal ou com dúvidas sobre as revisões constitucionais. Não sou a pessoa indicada. Estou tão à vontade na hard-politik como o Luís Filipe Vieira está na Literatura Comparada. Ok?
O hooligan que compunha baladas
David Gray é um inglês criado em Gales que a Irlanda adora. Tem um daqueles rostos raros, de idade indefinida, mas andará algures entre os 29 e os 41 (prefiro manter o mistério em vez de me dar ao trabalho de pesquisar). Descobri o álbum "White Ladder" depois de ver uma pequena reportagem sobre o singer/songwriter no "Music Room" da CNN, num daqueles felizes acasos do zapping. Agora, um amigo atento descobriu o DVD com a actuação de David em 2000, no The Point, em Dublin. Um concerto memorável de um homem que "just sings his heart out". Como diz um amigo de Gray no documentário que acompanha o concerto, David "parece um hooligan". E parece mesmo. No documentário, aparenta ser um homem rude, com pouco a dizer. Depois, ao vivo, surge a poesia e a voz terna que pareceram religiosamente guardadas para aquele momento. E David Gray escreve assim:
SHINE
I can see it in your eyes
what I know in my heart is true
that our love it has faded
like the summer run through
so we'll walk down the shoreline
one last time together
feel the wind blow our wanderin' hearts
like a feather
but who knows what's waiting
in the wings of time
dry your eyes
we gotta go where we can shine
Don't be hiding in sorrow
or clinging to the past
with your beauty so precious
and the season so fast
no matter how cold the horizon appear
or how far the first night
when I held you near
you gotta rise from these ashes
like a bird of flame
step out of the shadow
we've gotta go where we can shine
For all that we struggle
for all we pretend
it don't come down to nothing
except love in the end
and ours is a road
that is strewn with goodbyes
but as it unfolds
as it all unwinds
remember your soul is the one thing
you can't compromise
take my hand
we're gonna go where we can shine
we're gonna go where we can shine
we're gonna go where we can shine
(and look, and look)
Through the windows of midnight
moonfoam and silver.
De resto, o homem veste todo de ganga, com uma camisa de turista pé-descalço dois números acima do devido, e toca um violão esfarrapado e com nódoas de cerveja. É um cruzamento entre Bob Dylan e Bryan Ferry com uns pózinhos de Zeca Afonso. Tão difícil de catalogar como isto, e absolutamente fora de moda - nas suas baladas épicas e charme de emigrante que retorna à vila. E isso, nos tempos espectaculares que correm, é bom, muito bom.
sexta-feira, 6 de agosto de 2004
uma prenda de uma leitora
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas ? doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos, 15-10-1929
quinta-feira, 5 de agosto de 2004
José Sócrates
Quando há vinte e cinco anos atrás me filiei no PS, fi-lo em nome de uma matriz de valores e de um ideal de sociedade. Revia-me no exemplo de figuras grandes da democracia e da liberdade, como Mário Soares, Manuel Alegre ou Salgado Zenha. Acreditava num mundo melhor, mais justo e mais igual nas oportunidades, onde a humanidade se pudesse exprimir de modo livre, solidário e empenhado na procura da paz e do bem-estar geral. Nada mudou nos meus ideais - como nada de essencial muda nos dos crentes -, mas seria tolo se não percebesse que a vida na Terra se transformou por completo neste último quarto de século. Ou a esquerda o entende e arquiva alguns dos seus mitos na secção dos registos simbólicos, como sempre souberam fazer os crentes não-fundamentalistas, ou arrisca-se a integrar o capítulo das ideologias perdidas na história do século XXI. É sobretudo este o combate que hoje se trava no PS entre os três candidatos à liderança, embora muitos creiam que tudo se resume a uma questão entre a "pureza de princípios" e o "artificialismo mediático". Não o é, ou pelo menos, não é essa a causa principal. No próximo congresso do PS, é o futuro do seu projecto político que está em jogo, não os seus valores. Para mim, José Sócrates é quem melhor poderá dar resposta aos desafios que se apresentam aos socialistas e aos portugueses em geral. Ao contrário do que dizem, não consigo distinguir nos restantes candidatos melhores conteúdos nem melhores estratégias. As únicas "ideias" que vi desenvolvidas foram a suspeita de chapelada eleitoral e o ataque à "falta de ideias" do seu antagonista. Pois bem, só tenho visto e lido ideias desenvolvidas por um candidato - José Sócrates. O seu artigo de ontem, no Diário de Notícias, enuncia com clareza a estratégia que pretende para o PS. As prioridades políticas que avançou, numa via de modernidade e progresso, não foram, que se saiba, objecto de qualquer comentário ou oposição por parte dos seus antagonistas. Será um problema de dotes mediáticos? Compreendo que, nos tempos santanistas que correm, grasse um forte sentimento de rejeição da superficialidade. Mas em nome de que princípio se poderá criticar quem melhor sabe transmitir as suas ideias? Sócrates é telegénico, bem-parecido e bem vestido? Ainda bem. Lembram-se das críticas ao ar sorumbático e intrincado de Ferro Rodrigues? Em que ficamos? PS - Manuel Alegre também não deixa os seus dotes de marketing por mãos alheias. Nenhum underwriter famoso desdenharia de contar no seu portfolio com uma frase tão exuberantemente publicitária quanto a tirada "Não sou um animal feroz, mas sou bom atirador". Temos show.
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Regresso às lides
Após dezassete dias de viagem e de black-out cibernético, é bom regressar à Causa. Já sei que perdi todos os episódios da pré-silly season, da constituição do governo ao espectáculo da tomada de posse, das discursatas do primeiro-ministro às novas tergiversações intelectuais do arquitecto Saraiva. Vou procurar actualizar-me rapidamente, embora nada possa substituir a emoção do directo. Fica a satisfação de os meus colegas de blog terem feito uma cobertura completa dos acontecimentos, numa manifestação clara de que o team spirit e a técnica da dobra fazem milagres, até mesmo compensar a ausência veranil de Vital Moreira. Luís Nazaré |
Dedicado à Rosa
quarta-feira, 4 de agosto de 2004
Boston IV - Outras linhas demarcadoras
No primeiro, os Democratas anunciam ir parar com os programas e orçamentos astronómicos de construção de mais e mais sofisticadas armas nucleares, lançados por Bush e as indústrias que o sustentam (e que ele sustenta). Kerry, pelo contrário compromete-se a canalizar os recursos para um esforço de desarmamento, aplicando-se no controle nos EUA e em todos os países (ou grupos) produtores ou detentores. Uma das maiores preocupações da equipa de política externa de Kerry é o controlo e destruição do arsenal nuclear, incluindo matéria físsil, antes na posse da URSS e países satélites e hoje sabe-se lá em que mãos (como era de esperar, não ouvi nunca aludir a Israel...).
Madeleine Albright (mais uma vez só ela) frizou também o objectivo de controlo do tráfico das «small arms» - as que as potências ocidentais mais vendem e que mais matam por esse mundo fora.
2. Quanto ao ambiente, Kerry promete não apenas ratificar o Protocolo de Kyoto, mas reestruturar as políticas de abastecimento e consumo de energia, para reduzir drasticamente a dependência dos EUA do petróleo. Para isso advoga apostar no desenvolvimento das tecnologias assentes em energias limpas e renováveis. E aqui sente-se que há a marca empenhada, convicta, do candidato a Presidente e da mulher, Teresa, cuja Fundação Heinz tem financiado prioritariamente projectos ambientais.
3. Kerry quer também fazer uma viragem no orçamento e na política fiscal em particular. Os democratas não se cansam de lembrar que quando Clinton saiu da Presidência, os EUA tinham um considerável superavit, como há muito não acontecia; e agora sob Bush, o défice dos EUA não pára de se aprofundar. O campo Kerry está contra os cortes nos impostos que Bush está a aplicar, afirmando que ele beneficia apenas os mais ricos dos ricos (Clinton enfatizou-o), à custa da classe média e sobretudo dos mais pobres e mais desprotegidos socialmente. Kerry diz que vai sobretudo investir no sistema de saúde e na educação.
4. O último grande tema de demarcação é reconduzível aos chamados «valores» - e neste cesto cabe muito do que pode distinguir um liberal, um progressista, de um conservador ou de um reaccionário, em geometria variável, consoante os grupos de interesse, os Estados, os activistas, as igrejas, etc. Aborto e saúde reprodutiva incluem-se. Mas também a questão da igualdade, o casamento gay e adopção por gays. E o tema por que milita agora Nancy Reagan e até levou o filho à Convenção Democrática - a investigação sobre células estaminais, decisiva para a cura de doenças como Alzheimer ou Parkinson.
Aqui também arrumo a questão da Constituição - e a raiva é profunda nos Democratas, que acusam Bush e seus acólitos de a violar, com Guantanamo e medidas coarctantes dos direitos humanos e liberdades públicas, à pala do combate ao terrorismo. O Secretário da Justiça, John Ashcroft, é particularmente responsabilizado e odiado.
Em todas estas áreas, foi para mim estimulante sentir como vai alta a vaga reformadora e progressista nos Democratas. E, ao mesmo tempo, fiquei com um travo amargo, por sentir que cá no burgo (PS incluído) não tem havido suficiente sentido crítico e auto-crítico e iconoclastia para darmos o salto nas verdadeiras questões da modernidade que a nossa sociedade enfrenta. E muitas são as mesmas. É por estas e por outras que a América lidera, concorde-se ou não, goste-se ou não.
Ana Gomes
Boston IIIa - Ainda o Iraque
Mas quanto à análise do que há a fazer no presente e para futuro, não divergem no fundamental: 1) combater a Al Qaeda - de forma mais inteligente e isso passa por mais empenho americano no Médio Oriente pela paz entre Israel e Palestina (mas só ouvi Madeleine Albright frizá-lo); e 2) estabilizar, reconstruir e conseguir a democratização do Iraque; e isso passa por falar verdade ao povo americano e admitir que a tarefa vai levar muito mais tempo, mais tropas e vai sobretudo custar muito mais dinheiro.
Tudo feito ao «estilo democrático», envolvente da ONU, respeitador e consultante dos aliados e países relevantes - até para mais eficácia em convencê-los a partilhar encargos e a fazer diferença qualitativamente no Iraque. O Senador Joe Biden foi nisto particularmente «blunt», num seminário dia 25 para os convidados estrangeiros, na magnifica JFKennedy Library - «Não pensem que uma Administração Democrática vos vai pedir menos. Vai pedir mais. De tudo. Sobretudo responsabilidades».
Preparando-nos para o que der e vier, que tal em vez dos 128 GNRs entaipados no quartel dos italianos e agora sob o espectro do urânio empobrecido, oferecermos os mais «committed», os políticos e comentaristas que tão galhardamente, no parlamento e nos media, defenderam a invasão do Iraque ? Para irem ensinar democracia aos iraquianos, evidentemente. Decerto que não se furtarão a sacrificar-se pela Pátria, pelo Iraque e pela democracia, sobretudo depois do exemplo pioneiro do Dr. José Lamego. E «pró-americanos» incondicionais como são, está-lhes na massa do sangue deitarem-se ao poço que Washington mandar, seja a Administração Bush ou Kerry!
A lógica de Biden é, de resto, imbatível: concorde-se ou não com a invasão, deixando o passado para trás, forçoso é reconhecer que a cimeira da guerra nos Açores, acolhida pelo PM que já não temos e sancionada pelo PR que ainda temos, implica para Portugal especiais responsabilidades. E eu não contesto que Portugal e a Europa têm também interesse na estabilização e democratização do Iraque.
Ana Gomes
Um blog à frente do seu tempo
O avô Jorge Luís Borges
- Ah!, cá está o livro do meu avô...
Sei que está tudo acabado quando ela responde, interessada:
- A sério?!
terça-feira, 3 de agosto de 2004
O bebé que vai mudar a minha vida
É isso mesmo. Perder o medo de morrer. Abandonar os receios humanos de não ser amado. Conquistar a imortalidade. Quero ser pai por estes tão egoístas motivos. E, agora, no final do mês, vai nascer um Leão como eu que vai mudar quase tudo na minha vida. Um bebé. Caramba. Um be-bé. Como falarei com ele? Como será a sua cara? Será daqueles felizes anafados ou uma ratazana choramingas que não deixa dormir toda a freguesia?
Não sei. Aguardo serenamente. É que o bebé não é meu mas de um dos meus melhores amigos. E é isso que me lixa. O nascimento deste bebé, a paternidade do meu amigo, só me virão transmitir uma bem clara e definitiva mensagem: tenho andado a fazer qualquer coisa de muito errado com a puta da minha vida.
segunda-feira, 2 de agosto de 2004
Boston III - além do factor ABB, o primeiro demarcador é a guerra
Inclui, mas ultrapassa, a condenação da guerra no Iraque - que o establishment da política externa democrata, Clinton, Madeleine Albright, Joe Biden, Richard Holbrooke entre outros (dos dois ultimos sairá o State Secretary de Kerry, disseram-me amigos do NDI-National Democratic Institute) vituperam por ser uma «guerra de escolha, não de necessidade», por se ter baseado em informação falseada, por ter alienado os aliados em vez de os congregar, por falhar estrondosamente a preparação do pós-guerra, por a estabilização e reconstrução custar muito mais tempo, dinheiro e homens do que a Administração Bush admite diante da opinião pública e por desviar recursos da guerra contra o terrorismo, a ponto de negligenciar o combate à Al Qaeda no Afeganistão (Biden explicou como Karzai não passava de mayor de Kabul, e mesmo assim porque o Congresso lhe tinha arranjado dinheiro in extremis, face a clamorosa negligência da administração Bush).
Esta ultima vertente é indissociável da aventura no Iraque. Impressionou-me como os democratas estão conscientes do efeito devastador que o desastre no Iraque teve e está a ter na imagem da América no mundo, no abalar da sua credibilidade moral e política e nos riscos de segurança dramaticamente acrescidos que correm no seu território e todos os cidadãos americanos que trabalham e viajam por esse planeta fora. E a ruína da autoridade moral da América ainda dói mais quando há consciência de que no dia 12 de Setembro de 2001 ela atingira apogeu nunca visto, «com o Le Monde a berrar - somos todos americanos» (cito Joe Biden).
Kerry e seus apoiantes não querem apenas demonstrar que ele, o veterano do Vietname, pode ser um «commander in chief» mais sério e determinado do que o cobardolas George W. Bush que arranjou estratagemas para se furtar à guerra do Vietname. Querem também que os americanos percebam, face ao descalabro em que está enredada a administração Bush no Iraque, no Afeganistão e perante as ameaças de ataque que continuam iminentes sobre o território americano, que Kerry será um líder politicamente muito mais esclarecido, avisado e competente para fazer as escolhas correctas na luta contra o terrorismo. «Strenght and wisdom are not opposing values» sentenciou Clinton, desencadeando aplausos vibrantes na Convenção.
E essa sabedoria passa por congregar aliados, usar os mecanismos multilaterais e os instrumentos do direito internacional. Isso é que é «American», por oposição à «Unamerican» política de Bush. «The world does not need an America that leads by fear, but by commanding respect» declinaram em diferentes versões Kerry e as principais estrelas na Convenção, sem deixar de ecoar a visão mitificadora dos EUA, potência do bem contra o mal, que é indispensável ingrediente de feel good para qualquer americano.
Importante para todos e para a Europa em particular - e até para tirar da enfermaria de reanimação a NATO - o relevo que assumiu nos discursos democratas o imperativo de reconquistar os aliados, o compromisso de os consultar e envolver o mais possível para resolver os problemas que a América e a comunidade internacional defrontam, de voltar a uma política externa que ajude Washington a fazer amigos por esse mundo fora.
Será em relação ao Iraque, por exemplo, apenas uma mudança de estilo. Mas em política externa, o estilo é substância. Pode fazer a diferença. Entre a guerra e a paz.
A seguir, mal tenha tempo para escrever:
Boston IV - Outras linhas demarcadoras: defesa, ambiente, impostos, saúde, educação e «valores»
Boston V - Teresa, the loose cannon, acerta na mouche
Boston VI - The rising stars: John Edwards e Barack Obama
Boston VII - Revolutionary Women: «Give 'em Hill»
Boston VIII - Segurança- valha-lhes a Virgem do outro...
Ana Gomes
domingo, 1 de agosto de 2004
Boston II - Kerry ultrapassa o factor ABB
Nos primeiros dias da Convenção percebia-se que, mais do que o apoio a Kerry, o factor ABB - Anything But Bush - era o grande aglutinador de todo aquele activismo organizado, determinado, frenético! Impressionou-me sobretudo o rol de profissionais dos media e das artes e espectáculos envolvidos na campanha de Kerry e o nível de empenhamento que estão a assumir (e com custos profissionais, que o digam Whoopi Goldberg e Linda Ronstadt).
Todos estavam suspensos do impacte do discurso de Kerry, no último dia, de ele ser ou não capaz de desmentir a imagem aloof que mesmo os mais indulgentes lhe colavam.
David Gergen (editor at large do US News & World Report, que foi conselheiro de Clinton e Reagan e colaborador das administrações Nixon e Ford), num seminário a que assisti, lembrou que nas Convenções Democráticas em que foram indigitados, Carter e Clinton eram ainda menos conhecidos e estavam muito pior em termos de adesão emocional dos militantes. E outros calejados analistas sublinham que nunca foi um discurso na Convenção que convenceu os swing voters - eles decidem à boca das urnas, tudo depende do que se passar até lá. E, sobretudo, quase tudo depende dos debates televisivos entre os candidatos.
O teste da televisão é também o fundamental num evento orquestrado como a Convenção. E Kerry soube combinar o tom presidencial e o apelo emocional. Correspondeu à aposta da campanha durante toda a semana, no sublinhar do carácter do homem, do líder, do futuro commander-in-chief, do veterano do Vietname tão decidido a salvar a vida a subordinados (um deles, o negro Reverendo Alston, fez na Convenção um vibrante elogio da fibra do Kerry reporting for duty), como depois a contestar a estupidez daquela guerra.
Se o sentimento anti-guerra Iraque é o mais poderoso componente do activismo determinado pelo factor ABB, Kerry aí não surpreendeu nem empolgou, mas também não decepcionou.
A prestação de Kerry acabou por ultrapassar as expectativas, tanto dos militantes reunidos no Fleet Center, como dos comentaristas televisivos não arregimentados pelo campo Bush.
Ana Gomes
Boston I - great to be back and feel USA is back !
Mais do que em qualquer outro dos países estrangeiros onde vivi, é na América daqui da frente do Cabo da Roca, urbana ou rural, mas cosmopolita, pluralista, liberal, east-coaster, de New York a Boston, de Sag Harbour a Provincetown, que me sinto «at home». E por isso me divertem as acusações de «anti-americanismo» que me lançam parolos e avençados da direita (incluindo alguns PS), pelo lesa-majestade de me atrever a criticar a hiperpotência que rege o mundo e a desastrosa política externa da Administração Bush em particular. Lá, isso é tão natural como o ar que se respira.
Se essa gente cheirasse os ares de Boston, na semana passada, ficaria escandalizada pela violência do ódio a Bush e ao bushismo que destilam os democratas. E pela veemência contra as políticas de Bush (do Iraque à pesquisa das células estaminais) por parte de uma crescente parcela da sociedade americana não afecta aos democratas. Por muito que pese a Luís Delgado, que no DN de 30.7 critica o filme «Fahrenheit 9/11» confessando inefavelmente não o ter visto, cada vez mais americanos - dos 15 a 20% de swing voters que as campanhas rivais cortejam - estão a ir vê-lo e a sair de lá a vomitar Bush e seus capangas.
Se os anos lá vividos, os conhecimentos e os muitos amigos americanos me valem alguma coisa, voltei dos EUA com a forte sensação de que Kerry tem todas as condições para ganhar em Novembro. E uma América com Kerry será, sem dúvida, mais «home, sweet home» para pró-americanos saudavelmente críticos como eu.
Ana Gomes
LCA has entered the building
Desse tempo para cá o Luís tornou-se redactor de "O Inimigo Público", colaborador das Produções Fictícias e autor de capas de livros. Agora, finalmente, decidiu que estava na hora de voltar à blogolândia. Graças a isso, colocou a Irmã Lúcia on-line. É verdade, um dos mais divertidos e correspondidos autores da nossa comunidade virtual está de volta, na difícil e corajosa tarefa de manter um blog individual. Vamos dar-lhe todo o nosso apoio.
Welcome back, mate!
Miguel Nogueira
Um abraço, Mike!
sábado, 31 de julho de 2004
Medeiros Ferreira
back on duty
sexta-feira, 30 de julho de 2004
Alegre e Sócrates
Prefiro mil vezes o romantismo «démodé» mas genuíno de Alegre ao novo-riquismo «modernista» e empertigado de Sócrates. Mesmo quando nos irrita com os seus ares de aristocrata «blasé» e eterno diletante da política, Alegre tem uma espessura como personagem que o distingue da inconsistência robotizada de Sócrates (a sua recente entrevista à revista do «Expresso» é, a esse respeito, exemplar).
Evidentemente, Sócrates programou-se (ou foi programado) para ganhar, enquanto Alegre parece assumir (mesmo quando pretende o inverso) a pose romântica do lutador destinado a perder, mas com honra, uma batalha simbólica. Além disso, Alegre representa, «malgré-lui», um PS arcaico e saudosista que, apesar das proclamações em contrário, tem notória dificuldade em ultrapassar o mero terreno ideológico ou a condição mítica de representante das classes oprimidas ou marginalizadas pelo neo-liberalismo.
A síntese entre rigor económico e defesa dos direitos sociais implica uma reavaliação do papel do Estado e, em particular, do Estado-Providência, de modo a garantir a sustentabilidade das áreas fundamentais do serviço público. E, para isso, não basta apenas uma atitude defensiva de protesto ou inconformidade face aos abusos neo-liberais. É indispensável uma atitude ofensiva que mobilize as energias dos sectores mais dinâmicos da sociedade e não só a revolta ou o ressentimento dos que se sentem excluídos. Se a esquerda democrática não conseguir responder a este desafio, só lhe resta ser absorvida pela lógica neo-liberal (como aconteceu com Blair) ou fixar-se num estéril saudosismo doutrinário divorciado do real.
Vicente Jorge Silva
quinta-feira, 29 de julho de 2004
quarta-feira, 28 de julho de 2004
O Maria da Fonte
Tem sido sempre assim, desde tempos quase imemoriais. Chegada a hora de botar discurso, Jardim articula umas trogloditices para animar o povão, trogloditices essas que só são superadas pelas javardices simiescas do inevitável cromo Jaime Ramos. Se ainda houvesse dúvidas sobre a regressão mental madeirense, desde o momento, já longínquo, em que Jardim se tornou senhorio e festeiro da Madeira Nova, o repetitivo «show» do Chão da Lagoa seria suficiente para esclarecer-nos em definitivo.
O avisado Santana Lopes (que se fez convidar segundo Jaime Ramos e que foi convidado por Jardim segundo este) acabou por não comparecer. Jardim sentiu-se, por isso, mais livre para disparatar à vontade como é seu timbre, mas sem conseguir esconder a frustração por não ter sido proposto para um cargo ministerial (como intimamente desejava) no Governo de Santana.
De resto, o posto a que Jardim secretamente se propunha (o de ministro da Defesa) continuou ocupado pelo seu recentíssimo inimigo de estimação, Paulo Portas. Não terá sido, aliás, por acaso, que o Paulinho das feiras decidiu dar um rebuçado de consolação ao líder regional do CDS, José Manuel Rodrigues, vaticinando o fim próximo do ciclo político jardinista na Madeira. Jardim foi um motivo suplementar para marcar as distâncias entre os parceiros da coligação.
O problema é que Jardim (tal como os seus sequazes) perdeu completamente a imaginação. À falta de novas causas mobilizadoras, resta-lhe representar agora o papel de Maria da Fonte, mobilizando os distritos do Portugal profundo contra a horrorosa Lisboa.
Depois de sacar à grande e à francesa todos os fundos e subsídios possíveis e disfarçar os patamares mais inverosímeis do endividamento regional para garantir a subsistência das suas clientelas políticas e empresariais (que, aliás, se confundem, como atesta o caso de Jaime Ramos e confrades), o tiranete madeirense ainda tem o descaramento de lançar uma guerrilha regional contra a mão que o alimenta. Só que isso não representa sequer novidade nenhuma ? e, ainda por cima, Jardim já nem ameaça com as velhas teses separatistas. Ninguém o ouve, afinal.
Jardim limita-se a fazer o seu habitual número de circo para disfarçar a fragilidade e o isolamento a que foi votado por um Governo com o qual era suposto ter as mais íntimas afinidades políticas. Os Açores ganharam um ministro na equipa de Santana Lopes e a Madeira não teve direito a nenhum. A Madeira tornou-se, definitivamente, um fenómeno extra-terrestre na contabilidade política nacional. É por isso que resta apenas a Jardim converter-se em Maria da Fonte. Pobre e ridículo destino!
Vicente Jorge Silva
(Uma outra versão deste texto é publicada hoje no «Garajau», «quinzenário sério e cruel» editado na Madeira)
O leque
Atribuir tanta importância a um simples leque só pode significar que este simpático objecto se tornou um símbolo inesperado do novo ciclo político. Abanamo-nos para afastar o calor mas também, por via simbólica, para sacudir a atmosfera de insustentável ligeireza que envolve o actual Governo. Quem precisaria de um leque ou mesmo de uma ventoinha (um deputado do PSD trouxe uma de casa, mas não teve direito aos meus quinze segundos de glória lequística) é o primeiro-ministro Santana Lopes, para abanar a displicência que lhe suscitam os maçadoríssimos assuntos do Estado.
Santana só acordava da modorra parlamentar e dava sinais de vida quando abandonava as formalidades da «política séria» em que se movimenta tão pouco à-vontade (porque será que ele dá sempre a impressão de estar a ler discursos feitos por outros?), deixando-se transportar pela vertigem supérflua e frívola do verbo (em que continua a ser verdadeiramente imbatível). É manifesto que ele adora ouvir-se a si mesmo quando é acometido por um desses tiques de tribuno fala-barato que fizeram a sua fama, imaginando-se toureiro em plena faena. Então é vê-lo (e ouvi-lo) divagar em voo errático sobre o ninho de cucos dos tais assuntos do Estado que o aborrecem de morte e refugiar-se no gozo infantil desse brinquedo caro que a comédia do poder lhe proporciona.
O mais curioso (e isso viu-se de novo agora, embora poucos pareçam ter-se dado conta) é que o nóvel primeiro-ministro acaba, quase insensivelmente, por contaminar ou neutralizar os adversários com a frivolidade da sua pose. Raramente assisti a um debate parlamentar tão morno, tão vazio, tão pouco convicto, tão aéreo, como aquele que decorreu ontem e hoje em São Bento. Mesmo os melhores talentos parlamentares pareciam entorpecidos, deslocados e em clara baixa de forma (com a provável excepção de Jaime Gama, num registo de humor venenoso mas, no fundo, amável). E viu-se como o tom do discurso de Louçã se mostrou ostensivamente desajustado, numa exibição de agressividade gratuita que Santana, aliás, demoliu com apropriada sagacidade.
Será que a política «light» de Santana é mais contagiosa do que se desejaria admitir? Ou que tudo não passou apenas de um acidente estival, favorecido pelo calor e pela eterna crise do ar condicionado em S. Bento (não funciona ou funciona mal desde que aí entrei como deputado há já mais de dois anos e meio)? Abanemo-nos, pois. Sigam o meu exemplo. O tempo é de leques, caros bloguistas.
Vicente Jorge Silva
terça-feira, 27 de julho de 2004
este homem é um senhor!
Um dos jornalistas do "60 Minutes", tão competentes e incisivos como canastrões e arrogantes, perguntou a Michael Moore a questão cirúrgica. O dedo na ferida:
- Uma das maiores críticas aos seus filmes tem a ver com a forma como se filma. Dizem que se filma tanto a si próprio, que se expõe tanto na própria película, que o filme deixa de ser sobre isto ou aquilo para passar a ser sobre "o que Michael Moore pensa sobre isto ou aquilo". O que pensa disto?
- Pense bem. Se você se parecesse comigo, gostaria de se filmar?
segunda-feira, 26 de julho de 2004
Quem tem medo de Jorge Coelho?
Alegre, além dos seus conhecidos talentos literários, é uma excelente pessoa que se deixa trair, com frequência, por uma incorrigível ingenuidade política. Em tempos, depois de ser um dos críticos mais acerbos do guterrismo, acabou por render-se ao discurso «de esquerda» que Guterres concedeu fazer, durante um congresso, para domesticar as veleidades do romântico histórico socialista. Agora, o escritor parece ter ficado receoso das consequências nefastas que as críticas a Coelho poderiam provocar na sua candidatura e na sacrossanta «unidade» do partido.
Coelho é, de facto, um homem poderoso, demasiado poderoso e influente na máquina partidária socialista, um fazedor de reis. Aparentemente, toda a gente tem medo dele (veja-se a deferência que todos os notáveis do PS lhe manifestam, como João Soares, por exemplo). Ora, precisamente, um dos sinais clarificadores dentro do PS seria criar uma distância crítica relativamente a Coelho e a tudo o que ele representa como expoente do mais típico clientelismo e aparelhismo socialista.
Alegre começou por pôr o dedo na ferida e esse gesto significava a ousadia estimulante que poderia constituir a sua candidatura. Ao recuar, acabou por retirar-lhe essa diferença e colocou-se numa posição vulnerável e frágil, do ponto de vista político e ético, face à intocabilidade de Coelho. Será que este está acima da isenção e imparcialidade que se exigem a quem desempenha um papel tão relevante como o dele na máquina partidária? Ou será que, por ser quem é, Jorge Coelho pode reunir com os autarcas do PS numa manifestação de apoio a Sócrates e assegurar, ao mesmo tempo, uma conduta irrepreensível na chefia do sector autárquico do partido?
Vicente Jorge Silva
Animais
Foi a declaração mais substancial e significativa que o principal semanário do país escolheu para título de primeira página, embora Sócrates, na entrevista que concedeu ao jornal de José António Saraiva, não se coíba de citar alguns dos seus «mâitres-à-penser», numa salada russa digna dos violinos de Chopin caros a Santana Lopes: Voltaire, Popper e até o romancista alemão Erich Maria Remarque... (Só se esqueceu, pelos vistos, de Sérgio Sousa Pinto, autor prometido da sua moção ao congresso do PS). Chegados a este ponto, só nos falta estremecer de terror pelo futuro reservado ao Partido Socialista.
Ainda há pouco tempo, o ex-líder parlamentar do PS, António Costa, agora deputado europeu, já nos advertira que a política é uma coisa desumana. Talvez por isso tenha agora aparecido como apoiante fervoroso de Sócrates. Os dentes caninos dos políticos é mesmo o que está a dar. Deduz-se que seja uma compensação para a crise das ideologias. Quanto mais mordo, mais faço valer as minhas ideias (ou o que tomou o lugar delas).
Se houvesse dúvidas, bastaria ouvir o latido (feroz, como o de Sócrates?) que Alberto João Jardim voltou a emitir na festa do Chão da Lagoa contra os políticos do continente. Aliás, Jardim já ostentara a condição de «animal ferido» para justificar as suas reacções caninas contra as injustíssimas críticas de que é alvo nos meios de comunicação social continentais.
Tendo em conta as explosivas misturas etílicas que o líder madeirense costuma ingerir por esta altura do ano na companhia do seu amigo (e ladrador compulsivo) Jaime Ramos, percebe-se que a política portuguesa (insular e continental) esteja mesmo contaminada pelo vírus animal e canino. Será que Sócrates queria roubar, por antecipação, o protagonismo a Jardim, dando razão ao seu apoiante Costa sobre a desumanidade da política?
Houve um tempo saudoso em que se falava de «animais políticos» para definir algumas características dos líderes partidários (ou candidatos a tal). Mas a partir do momento em que um José Sócrates se declara «animal feroz», sem necessidade de sublinhar que é, apenas, um animal político dotado de ferocidade, podemos considerar-nos definitivamente esclarecidos sobre a condição puramente animalesca da política. Cuidemo-nos, pois!
Vicente Jorge Silva
domingo, 25 de julho de 2004
sábado, 24 de julho de 2004
aforismos de directa - 09:31 a.m.
sexta-feira, 23 de julho de 2004
Para onde vai a esquerda do PS?
O registo de propriedade da «alma da esquerda» como argumento de combate político contra Sócrates só serve para este apresentar-se como arauto da modernidade contra o arcaísmo partidário. Não é batendo no peito, erguendo o punho e gritando slogans do género «a verdadeira esquerda sou eu» (slogans destituídos de conteúdo e vazios de reflexão sobre os caminhos de uma esquerda actuante e moderna) ou exibindo galões de resistência anti-fascista que se apresentará uma alternativa ao guterrismo-blairismo recauchutado e plastificado de Sócrates. (A propósito, que faz Sérgio Sousa Pinto nesta galera? Como explica ele a sua aliança com o que o PS tem de mais bafiento e clientelista? Move-o apenas o apetite insaciável do poder?).
Será a esquerda socialista capaz de gerar um projecto de futuro ou está condenada a viver das saudades do passado e das glórias do antifascismo, num combate de retaguarda? Como articular o património de convicções e valores da esquerda democrática com uma resposta ousada e consistente aos desafios da modernidade? Esta é uma questão decisiva.
Todos se lembram do que aconteceu quando João Soares, em desespero de causa, quis transformar a sua campanha autárquica lisboeta contra Santana Lopes numa cruzada anti-fascista. O feitiço voltou-se contra o feiticeiro. Mas, pelos vistos, há feiticeiros incorrigíveis.
Vicente Jorge Silva
Governo de «Teguis»
Confirma-se o que muitos haviam previsto: este Governo está infectado, desde a origem, por um vírus escorpiónico que ameaça fazê-lo implodir a qualquer momento. Junte-se a traquicine congénita de Santana e Portas, a sua irresistível necessidade de afirmação pessoal, e temos duelo aprazado mais cedo do que seria de esperar. Jorge Sampaio aproveitará então para lavar as mãos do desastre (e da sua decisão anterior) e convocar eleições antecipadas. Assim vai a estabilidade política num país que se confunde cada vez mais com uma república das bananas ou um ninho de cucos.
Perante a insistência dos jornalistas após a sua tomada de posse, Teresa Caeiro repetiu por várias vezes que não tinha explicações a dar. Coitada! Pelos vistos não consegue sequer dá-las a si própria, olhando-se ao espelho, sem corar de vergonha pelas cenas a que se prestou. Como é que alguém com um mínimo de respeito por si mesmo se sujeita a ser joguete nas mãos de dois traquinas compulsivos? Isso é que não deveria ter explicação. Mas tem. Na Defesa ou na Cultura, tanto faz, «Tegui» busca apenas um palco onde possa representar um qualquer e irrelevantíssimo papel na comédia do poder. Ela tornou-se um verdadeiro símbolo deste Governo de «Teguis».
Vicente Jorge Silva
quinta-feira, 22 de julho de 2004
Barroso, o Presidente da Comissão Europeia
Como foi indicado por António Costa, os deputados socialistas portugueses organizaram-se para não inviabilizar a sua eleição. "Não inviabilizar" não é o mesmo que "viabilizar", sublinho.
Como deputada ao PE, votei em consciência e em coerência com o que penso e publicamente tenho dito e escrito sobre José Manuel Durão Barroso, o homem e a sua política como Primeiro-Ministro.
Depois de anunciados os resultados da votação, fui cumprimentar o novo Presidente da Comissão Europeia e disse-lhe: "Espero que sejas melhor para a Europa do que foste para Portugal".
Ana Gomes
Novo MNE e Iraque
Mesmo sem ser instigado por Santana Lopes, o novo MNE deve estar já a congeminar como se livra da batata quente do contigente da GNR no Iraque em Novembro. Seria bom que clarificasse com urgência se Portugal manterá o mesmo tipo de participação ou se, pelo contrário, optará por apoiar as instituições democráticas, através da formação de quadros no âmbito da iniciativa que o Banco Mundial se prepara para lançar no Outono na Jordânia.
Do ponto de vista do interesse nacional e da nossa imagem no mundo, o pior que poderia acontecer ao Governo - e a Portugal - era ser confrontado com um cenário "limite" e ter de decidir sob pressão (à la filipina...). Ajudar à reconstrução do Iraque optando em tempo pelo apoio ao "institution building" seria decerto solução mais consensual e inteligente. É também a que corresponde ao código genético do diplomata nato que é o nosso novo MNE, António Monteiro (pese embora que em tão melindroso dossier a posição que há-de prevalecer é a do Governo no seu conjunto e, principalmente, a do Primeiro Ministro).
Sei do que falo. Passamos juntos dois anos intensamente imersos no Iraque, em 1997-98, no Conselho de Segurança da ONU, onde ele exercia a presidência do Comité de Sanções e me entregou a coordenação de todo o dossier Iraque. Incluindo o programa "oil for food", cuja aplicação se iniciou connosco e durante dois anos obrigou António Monteiro à chatice (dele, mas também dos seus colaboradores que antes tinham de passar tudo a pente fino...) de assinar, diariamente, centenas de contratos de todo o tipo de aquisições que Saddam comprava, legalmente, a todo o mundo (excepto às empresas portuguesas que olimpicamente ignoraram aquele Programa).
Interrogo-me, de resto, porque será que os "bushistas" que lançaram um encarniçado ataque-inquérito contra a ONU a pretexto deste Programa, não dão sinal de interesse em nos ouvir? É que a gente até tem muito que contar! Ou é exactamente por isso?
Ana Gomes
Za
Os colegas chamam-lhe ZZ Top ou Zerovic, porque já não corre. Mas Zlatko Zahovic não se importa. Foi campeão nacional de xadrez quando tinha 16 anos e é o melhor jogador esloveno de sempre. Capitão da sua selecção aos 33 anos, Za gosta de levar livros para os estágios do Benfica e fica a ler no bar, onde pede para desligarem a televisão. É um 10 e a um 10, já se sabe, perdoa-se quase tudo. Joga quando lhe apetece e perde a cabeça, em média, duas a três vezes por ano. Sempre em grande estilo como se exige aos Cantonas e aos Maradonas. Agora, ouviu dizer que o Rui Costa vem aí e resolveu "abrir o livro" - para utilizar o melhor dos chavões da gíria desportiva. Este homem é um senhor.
A avózinha do hip-hop
quarta-feira, 21 de julho de 2004
200.000
Entusiasmos empresariais
Que basta Bagão Félix ter transitado para as Finanças e Álvaro Barreto garantir o poder da sua recheada carteira de representação dos interesses económicos para se assistir a tal deslumbramento e euforia?
Afinal eram tão escassas as expectativas empresariais, depois de se ter falado em tantos nomes rutilantes para o prometido «dream team» de Santana?
Ou será que os nossos tão reivindicativos empresários e a jovem nata do «Compromisso Portugal» se contentam em ter simbolicamente António Mexia no Governo?
Não apetece concordar por uma vez com Vasco Pulido Valente e subscrever o seu diagnóstico sobre a estupidez atávica dos patrões portugueses?
VJS
terça-feira, 20 de julho de 2004
Navegações à vista, que só vistas...
O sobressalto de Portas deu umas tantas gargalhadas à Pátria estável, por assim ficar evidenciada a trapalhada da formação do presente Governo. A estabilidade venerada por muitos tem peripécias assim. E veremos o mais que se seguirá na continuidade deste episódio, que só não é digno de antologia porque Eça de Queiroz o omitiu no manuscrito de " O Conde de Abranhos".
Ficamos, pois, com o mar na banheira do Ministério da Defesa; com as pescas continuando a cavalo na Agricultura; a administracao portuária, sabe-se lá onde...; a investigação científica dos recursos marinhos algures, se existir; a protecção ambiental das nossas costas entregue à Virgem do "Prestige"; a defesa internacional dos nossos direitos marítimos diafanamente ancorada nas Necessidades; a marinha mercante afundada; e a nossa ZEE a saque, entregue à velocidade dos submersíveis que o Ministro Portas encomendou...
Esta fragmentação santano-portista da coisa marítima, de resto, contradiz o que o Governo de Durão Barroso defendeu e disse querer pôr em prática, com a criação da Comissão Estratégica dos Oceanos - a reflexão transversal e a gestão integrada e coordenada de todas as vertentes de actividade ligadas ao mar (zelos fiscalizadores da continuidade barrosista podiam já aqui ser accionados...).
Apesar do pouco que veio a público sobre os trabalhos daquela Comissão, percebeu-se que ela se inscrevia na linha preconizada pelo Relatório da Comissão Mundial Independente dos Oceanos, que foi presidida por Mário Soares e advogou a governação integrada, a nível nacional e internacional, de todos os sectores e recursos envolvendo o mar. Nada mais retrógrado e incoerente com a evolução do conhecimento e estruturação internacional do que Portugal apresentar-se agora na ONU com o Ministro da Defesa a tutelar o mar! Nada mais contrário aos interesses estratégicos de Portugal, que dependem de nos sabermos organizar para controlar e aproveitar a nossa fabulosa ZEE, que nos torna, neste domínio, o maior país da UE! Nada mais adverso ao imperativo nacional de rentabilizar os nossos recursos atlânticos - que tantos auto-proclamados "atlantistas" ignoram e desbaratam!
Mas voltemos à súbita vocação marítima do ministério do Restelo: um conhecido meu, que verseja nas horas vagas, ficou tão impressionado que decidiu cometer uma epopeia sobre o caminho submarino para as ilhas Caimão. Entre as discotecas de Alcântara e o Restelo, no dia da posse na Ajuda, sentiu-se subitamente tocado pela inspiração das Tágides... Confia agora que, com a deslocalização de ministérios prometida pelo PM, e um tudo-nadinha de sorte, o subsídio para o empreendimento será rapidamente aprovado pelo XVI Governo Constitucional, reunido por teleconferência. A promulgação será feita a caminho, no Funchal, está bem de ver.
Ana Gomes
Mistérios da «silly season»
A verdade é que os acontecimentos se sucedem a um ritmo vertiginoso, sem que a imprensa de referência se interrogue sobre as razões de tantos mistérios. Aliás, os jornais perderam a atenção e a saudável curiosidade de saber o que se esconde por detrás dos factos e parecem achar tudo burocraticamente normal. Estará a imprensa «silly»?
Porque é que Paulo Portas só soube na hora, em directo do palácio da Ajuda, frente às câmaras de televisão, que iria ser também ministro dos Assuntos do Mar? Porque é que Santana Lopes terá «andado aos papéis» durante o discurso da sua tomada de posse? Como se compreende tanta atrapalhação?
Mas os mistérios não se resumem ao Governo. Quem explica a extraordinária aliança entre o «fracturante» Sérgio Sousa Pinto e o «blairiano» José Sócrates, já consagrado secretário-geral do PS? E quem diria que Sérgio (co-autor recente de um livro de diálogos com Mário Soares) seria o «maître-à-penser» do candidato favorito de José Lello e tantas figuras relevantes do PS profundo? O meu espanto não tem fim. Só o dos jornais é que parece ter-se esgotado. Sinais dos tempos (ou da «silly season»)?
Vicente Jorge Silva
Chicotada psicológica
Os resultados da cobrança fiscal são cada vez piores. Que fazer? A resposta é futebolística: chicotada psicológica! Muda-se o treinador [leia-se director-geral] e pr'á frente que a bola é redonda! Tal como no futebol, as chicotadas psicológicas sucedem-se, mas os resultados, esses, não melhoram. Pelo contrário, sobem a evasão e a fuga ao fisco!
Herdado dos governos socialistas - acusados de ter posto o país de tanga, mas que conseguiram aumentar a receita fiscal - Nunes dos Reis pede a demissão por ter visto a ministra em início de mandato criticar o facto de ele ter em tempos recebido como caução da dívida SLB acções do dito (cá está de novo o futebol). Embora tal caução não fosse a caução, mas sim e apenas o primeiro valor a accionar, a ministra finge que o despede em pleno debate parlamentar. Na verdade, o homem já tinha apresentado a sua demissão. Pormenores!
Vai-se buscar, com pompa e circunstância, Armindo Sousa Ribeiro. Mas, em menos de nada, o homem perde a confiança do seu superior hierárquico [que título daríamos a este: administrador da SAD?] e pronto: nova chicotada psicológica! A contratação é de peso: Paulo Moita Macedo, o salário mais alto de toda a Função Pública, é o novo treinador, perdão, o novo director-geral de Contribuições e Impostos.
Bagão Félix, certamente recordando o seu longo trajecto de membro de vários corpos sociais do SLB, não hesita, ainda nem tinha aquecido a cadeira das Finanças. Nova chicotada psicológica: fora com o actual treinador, venha outro.
Concluindo: em pouco mais de dois anos, quatro directores-gerais.
Resultado: Evasão 7 - Cobranças 0.
A maior tareia fiscal de que há memória!
Jorge Wemans
segunda-feira, 19 de julho de 2004
O «croupier» de Perelada
Evidentemente, quem vimos em Perelada não foi Telmo Correia, mas um seu duplo quase perfeito. Só que nessa altura nem nós, nem o próprio Telmo sabíamos que lhe estaria reservada a pasta em que se exercitava através do seu sósia num casino catalão. A coincidência é digna de um episódio dos Ficheiros Secretos. Aliás, a última revista do Público dedicava o tema de capa aos fanáticos portugueses das aparições extra-terrestres, na mesma edição em que publicava uma biografia de Santana Lopes. Não acham coincidências a mais?
Não viremos um dia a saber que este Governo foi formado por insondáveis influências telepáticas e mediúnicas? Imaginemos, por exemplo, que no mesmo dia em que Telmo Correia, através do seu duplo «croupier», ensaiava os seus dotes turísticos em Perelada, um duplo de Nobre Guedes, militante da «Greenpeace», manifestava-se em Houston contra o efeito de estufa e a insensibilidade ecológica da Administração Bush. Imaginemos ainda que Paulo Portas e Santana Lopes tiveram, nesse dia, a visão extraordinária que os conduziu até às escolhas mais surpreendentes deste Governo. Mas imaginemos finalmente que, tal como num episódio dos Ficheiros Secretos, quem hoje ocupa os lugares de ministros do Turismo e do Ambiente não são os verdadeiros Telmo Correia e Nobre Guedes mas os seus duplos ou clones: ou seja, o «croupier» de Perelada e o militante da «Greenpeace». Inverosímil? Talvez não tanto como o próprio Governo que agora temos.
(Asseguro que a história de Perelada é verídica e pode ser testemunhada por fontes absolutamente credíveis).
Vicente Jorge Silva.
Latitudes
Luis Nazare
Quase Famosos
domingo, 18 de julho de 2004
Na ausência do Vital, o nosso post diário sobre a situação política
Enchidos ao domingo
sábado, 17 de julho de 2004
Finalmente, a prova.
sexta-feira, 16 de julho de 2004
Santana, o imparável
Em contrapartida, a nomeação anunciada de Nobre Guedes para o Ambiente (falara-se dele para a Justiça, mas, pelos vistos, as duas pastas são claramente intermutáveis) é uma demonstração de génio imaginativo na relação de forças dentro da coligação. Já agora, porque não recuperar Celeste Cardona para a Cultura ou até Figueiredo Lopes para a Inovação, em vez de remetê-los para o desemprego político?
O único problema é que a sugestão já não vai a tempo (embora Santana tenha demonstrado uma humildade assinalável na aceitação de todas as sugestões, nomeadamente as da comunicação social, conforme declarou). Lançado no seu afã de voluntarismo político e de primeiro-ministro mais veloz do que a própria sombra, Santana já terá antecipado a tomada de posse do Governo para este fim-de-semana, precedendo assim o glorioso 19 de Julho de todos os aniversários que se propunha comemorar. Será que, afinal, não quis ser confrontado com o fantasma de Sá Carneiro e decidiu surpreendê-lo pela antecipação?
Vicente Jorge Silva
Milagre socrático
Durante o discurso, essas passagens foram sublinhadas por aplausos muito vivos de uma plateia que a câmara (imóvel) da SIC não mostrava. Só no fim se quebrou o suspense e nos foram revelados rostos entusiastas da renovação prometida. Estava lá a fina flor do aparelho do PS, nomeadamente das federações distritais que tão bem conhecemos e cuja paixão pelas propostas renovadoras se tornou célebre. E pairava no ar aquele clima unanimista e inconfundível da velha corte pressurosa em prestar vassalagem ao novo príncipe.
Espero para ver como Sócrates irá ultrapassar a quadratura do círculo. Sobretudo depois dos meses a fio que ele levou a recrutar apoios para a sua candidatura entre o que o PS tem de mais velho, mais gasto, mais clientelista e menos renovável. Construir o novo com o velho releva do milagre. Mas Sócrates chama-se Sócrates. Quem sabe se esta coincidência auspiciosa não nos reserva um prodigioso milagre?
Vicente Jorge Silva
Rui Cardoso Martins
Com o nascimento das Produções Fictícias, que começaram por aproveitar a oportunidade de Herman José, o universo do humor tornou-se mais interessante. Mas, ao mesmo tempo, inquietante. Há gente que, manifestamente, começou a sobrevalorizar-se doentiamente. Formataram-se na construção de piadas e, julgando poder deixar uma qualquer marca na história, estão condenados ao esquecimento.
Voltarei ao assunto. Mas não posso deixar em claro o texto publicado no excelente Inimigo Público por Rui Cardoso Martins. É que agora posso dizer que já fui motivo de cinco minutos da atenção daquele que é, na minha opinião claro, o mais talentoso e brilhante escritor de humor em Portugal. Aquele que é responsável, creio, pelo melhor programa dos últimos anos na RTP e por uma extraordinária crónica semanal no Público.
Por um lado, faz o seu caminho e continua a dar lições aos mais jovens. Mas, por outro, tenho um pouco a ideia que está a perder tempo numa estrutura que privilegia o anonimato e lhe trava as ambições. Mas isto sou eu a pensar. E pode ser que nada disto faça sentido para o Rui, que nem sequer conheço pessoalmente.
Luís Osório
O Estadão dos Assuntos Económicos
Álvaro Barreto é um velho senhor educadíssimo e simpatiquíssimo (digo-o sem qualquer sombra de ironia, ele é mesmo assim) que passou por inúmeros conselhos de administração e foi assessor de outros tantos. A sua carteira como agente de representações do poder económico é tão volumosa que chega a intimidar. Além disso, Barreto é uma bela figura, com um perfil de patrício romano, no esplendor dos seus quase setenta anos de idade.
Ministro da Economia, «tout court», era um papel escasso para tal personagem. A Economia foi assim promovida, assaz justamente, a Assuntos Económicos (pois é deles que se trata, não de mera e abstracta Economia). Só acho que ministro de Estado é um título que sabe a pouco, tendo em conta o volume e infinita diversidade dos ditos Assuntos de que Álvaro Barreto é familiar. Estadão seria mais adequado e soaria melhor. De facto, os Assuntos Económicos não são apenas matéria de Estado, mas de Estadão.
Vicente Jorge Silva
Entro de baixa...
Receita para o êxtase
Obrigado Ademar!
Comércio electrónico & confiança
Mantidas em "low profile" durante os primeiros anos, as compras "on line" disparam agora a ritmos relativamente acelerados. Mais de um terço dos internautas franceses (8,3 milhões), de todas as idades, compram em linha com regularidade. À frente continuam os discos e os livros, mas o mercado das viagens e do turismo é o que mais progride. Roupa, produtos de fotografia e informáticos, jogos de vídeo, bilhetes de espectáculos, perfumes e flores (mesmo a sério e não apenas virtuais como as que recebi no dia da festa do Causa Nossa) ocupam os lugares seguintes. Os produtos alimentares são os que mais resistem, provavelmente devido à densidade do comércio de proximidade neste sector.
Tal como entre nós, em estudos feitos há alguns anos, o principal obstáculo continua, no entanto, a ser a segurança das formas de pagamento em linha. Em boa verdade, talvez não seja tanto um problema de insegurança informática propriamente dita, mas muito mais um problema de falta de confiança no sistema aquilo que afasta tantos consumidores de escrever o número do seu cartão de crédito num écran de computador.
«O mundo é imperfeito»
Continuo a defender, à semelhança do que escrevi várias vezes em http://taf.net/opiniao/ , que devemos adoptar uma posição mais institucional. Parece-me mal que decisões destas sejam tomadas em função da pessoa concreta que irá estar nas funções de Primeiro-Ministro. O que está em causa não pode depender de fulano A ou de fulano B. É de Portugal que estamos a falar, não é de PSL ou PP.
Mais: quer se queira quer não, PSL foi _eleito_, mesmo que indirectamente. Pode-se argumentar (provavelmente bem) que não era isso que o povo queria, mas as regras que nos regulam são essas e chegou-se aqui sem violar objectivamente a Lei.
O mundo é imperfeito, aceitemo-lo assim e façamos o melhor que sabemos nestas condições. Isso não é quebrar princípios nem amolecer com inércia. A única razão válida para uma "demissão" nestas circunstâncias seria considerar que o simbolismo desse acto tem o valor de um exemplo de alerta. Respeito-o por isso.»
(Tiago Azevedo Fernandes)
quinta-feira, 15 de julho de 2004
Pacheco Pereira renuncia...
A dignidade pessoal e a coerência nos princípios não têm preço. Ainda bem!
Seguindo o rasto
Aplauso para Luís Osório
Ver também as declarações do próprio LO ao Diário de Notícias.
Vale a pena transcrever uma passagem do seu editorial sobre o assunto no jornal que dirige:
«O meu lugarExemplar, sem dúvida.
(...) Um director de jornal deve saber assumir e honrar compromissos, em primeiro lugar consigo próprio e com a sua equipa e, obviamente, selar um acordo de confiança com os seus leitores. Não vejo outra forma, apesar de no nosso país esta verdade ser muitas vezes uma realidade meramente teórica.
No auge da chamada crise política, dois dias antes da decisão de Jorge Sampaio,
A Capital, sob minha responsabilidade, noticiou em manchete que o Presidente já se decidira por eleições. Considerei as fontes insuspeitas. Achei que devia avançar porque, na passada quarta-feira à noite, tive a certeza de que as eleições antecipadas eram absolutamente certas. Nunca direi as fontes que tinha, mas a verdade é que não me questionei da veracidade da informação. Só que, dois dias depois, Jorge Sampaio não dissolveu o Parlamento. E, até ao fim, apesar de muita gente me garantir que, afinal, a decisão era contrária ao esperado, acreditei nas minhas fontes de informação.
No dia a seguir, num editorial assinado por mim e por Rogério Rodrigues, pedimos desculpa e garantimos que as consequências desse erro grosseiro seriam avaliadas internamente. É nesse processo que estamos. Coloquei o meu lugar à disposição da administração e da redacção.
Pelo compromisso que assumi consigo quando aceitei a direcção do jornal, quero partilhar tudo o que for verdadeiramente importante na vida de A Capital. E esta é uma altura fundamental na história deste jornal. É crucial assumir riscos, mas, nesse percurso tantas vezes sinuoso, não podemos perder pelo caminho o essencial do que julgamos ser por dentro. Não podemos perder o respeito pelo leitor, esse é o limite de tudo e o princípio de tudo o que deve nortear um órgão de comunicação. E não devemos perder o respeito por nós próprios. (...)».
Outros muros
Não confundamos o que não tem comparação!
"Abnóxio"
Eis a sua carta de anúncio:
Amigos, Confidentes, Cúmplices e CompanhiaCom efeito, era inevitável. E não acreditem no nome do blogue. Ao contrário do que ele insinua, nas mãos do Ademar tudo, até um simples blogue, se torna perigoso.
Pois, era inevitável!!!!
Desempregado de governo e divorciado de presidente, resolvi associar-me ao movimento bloguista, fundando o ABNOXIO (sem acento, por estúpidas embirrações tecnológicas que jamais entenderei). Quando quiserdes espreitar-me (sem que eu vos veja), sabereis agora como fazê-lo.
Não prometo muito: só poesia (própria e alheia) e algumas intimidades (a propósito ou despropósito). Ah! o endereço da fechadura é o seguinte: www.abnoxio.blogs.sapo.pt.
Não aceito sócios, nem colaboradores: quero masturbar-me sozinho.
Saudações calorosas do
Ademar
Felicidades, Ademar!
(*) "Blogue não oficial" da Escola da Ponte aqui.
«A quota de Belém»
«Nos primeiros nomes do governo da nova coligação alargada, Bagão Félix, nas Finanças, pertence naturalmente à quota do CDS-PP, reforçada. E o embaixador António Monteiro, na pasta dos Negócios Estrangeiros, pertencerá porventura à quota de Belém?».
"Honni soit..."
quarta-feira, 14 de julho de 2004
Antes fossem mentiras...
Há quem fale em mentiras, não em enganos. Mas acreditemos na boa fé de Bush: fiquemos pelos enganos. Não serão erros demais para o Presidente da única superpotência? Seria, até, menos inquietante se fossem deliberadas mentiras.»
(Francisco Sarsfield Cabral, Diário de Notícias, 14 de Julho)
Quem diria, hein!?
O que vão pensar e dizer desta oportunista manifestação de "antiamericanismo primário" -- quem diria, hein?! -- os costumeiros epígonos lusitanos do Pentágono e de Bush? Um "renegado" em perpectiva?
«Hipocrisia»
Corrosivo e fundamentado. Leia o resto do post.
Madre televisão
«Se vier a confirmar-se [a candidatura de José Socrates à liderança do PS], e a ganhar contra outras hipóteses, o destino tem algumas ironias: Sócrates e Santana fizeram uma dupla de sucesso na RTP, como comentadores, e agora poderão ver-se, não no mundo da Comunicação, mas na realidade, como os dois opositores políticos directos: um como líder da oposição, e o outro como primeiro-ministro.»Abençoada televisão, prodigiosa parideira de líderes políticos de sucesso! Doravante um tirocínio televisivo deveria ser requisito obrigatório de candidatura a cargos políticos de maior responsabilidade.
Passaculpas
E assim se desculpa uma guerra ilegal e ilegítima, que humilhou as Nações Unidas, dividiu a comunidade internacional, retirou autoridade e meios à luta antiterrorista, deu pasto à hostilidade das massas árabes contra o Ocidente, custou muitos milhares de vidas (sobretudo de inocentes civis iraquianos) e destruiu um País.
"Accountability democrática", dizem eles!?
Parecer
Na verdade não emiti nem me foi pedida nenhuma opinião jurídica sobre esse caso. Trata-se de errada referência a um estudo que fiz há mais de uma ano para a Associação Nacional dos Municípios sobre a questão, em geral, da suspensão do mandato executivo municipal por efeito do desempenho de funções governativas. A minha conclusão é a de que tal suspensão, que decorre directamente da lei, não tem limite de tempo e que ela não se confunde com as suspensões voluntárias por outros motivos, só estas tendo um limite máximo cumulativo de 365 dias durante o mandato de 4 anos, sob pena de o perda do cargo.
Embora sem ter em conta nenhuma situação concreta, é evidente que essas conclusões valem para o caso de Carmona Rodrigues, o qual pode assim ir ocupar o cargo de Presidente do CM de Lisboa, em substituição de Santana Lopes. Tal é, juridicamente, o meu parecer (salvo melhor evidentemente...).