quarta-feira, 14 de julho de 2004

Palmas comprometedoras

José António Saraiva bate palmas a Sampaio. Se fosse ele, preocupava-me!

Inesperado

António Vitorino "borregou", recusando a liderança do PS. A sua justificação (fora as «razões pessoais«, que são insindicáveis) é pouco convincente. Como entender que Vitorino, um típico "animal político", tenha enjeitado a forte possibilidade de vir a ser primeiro-ministro em 2006 (se não fosse antes)? Não cessam as surpresas na política!

terça-feira, 13 de julho de 2004

Santana sob tutela de Sampaio?

Tal é o tema do meu artigo de hoje no Público, também arquivado aqui na Aba da Causa.

Notas da crise

1. Jorge Sampaio
Confesso que a decisão de Sampaio não me surpreendeu. Também não me senti defraudado nem traído. Tive ocasião de escrever aqui e no Diário Económico da última sexta-feira que qualquer que fosse a solução escolhida seria sempre uma má-solução, porque a forma como o Presidente geriu a crise só serviu para agudizá-la. Sampaio não começou por confrontar Durão Barroso com as suas responsabilidades políticas e deixou arrastar a situação até perder o controlo sobre os respectivos efeitos perversos. Favoreceu objectivamente o clima de rumores, não falou ao país quando devia (ou seja, logo que a crise se desencadeou), criou falsas expectativas, mostrou-se errático e sem uma ideia clara, desde o início, sobre as implicações da demissão de Barroso. Alienou assim o seu campo político, independentemente do que possamos pensar sobre a maior ou menor justeza da decisão. Se se faz o caminho caminhando, o problema de Sampaio foi não ter sabido para onde e como caminhar.

2. Ferro Rodrigues
Compreendo que se tenha sentido defraudado e traído. Só que deu sempre a entender que respeitaria a decisão do Presidente, fosse ela qual fosse, o que torna a sua reacção incoerente, emocional e precipitada. No fundo, Ferro acabou prisioneiro do isolamento que criou à sua volta no PS (e que levou quase toda a gente a sentir-se marginalizada da vida do partido e frustrada com a sua direcção, incluindo muitos que se identificavam com ele e nele haviam depositado grandes esperanças quanto à renovação partidária). Apenas isso explica a situação inverosímil que se seguiu às eleições europeias: a de o líder que conduziu o PS à maior vitória eleitoral de sempre acabasse tão vulnerabilizado e dependente da realização de eleições antecipadas para sobreviver politicamente. A minha simpatia e estima pessoal por Ferro nunca estiveram em causa. A sua capacidade de resistência à campanha miserável que contra ele foi desencadeada a pretexto do processo Casa Pia mereceu sempre a minha solidariedade e admiração. Mas Ferro fechou-se dentro do seu casulo e ficou refém do autismo e da desconfiança que o paralisaram. A consequência previsível é que, a partir de agora, o PS poderá vir a ter a direcção mais à direita desde o 25 de Abril. E que à deslocação para a direita da maioria governamental corresponderá uma simétrica deslocação para a direita do PS (uma espécie de «blairização» retardada e quando já ninguém acredita na estrela de Blair).

3. Maria de Lourdes Pintasilgo
Conhecia-a, admirei-a, votei nela na primeira volta das presidenciais ganhas por Soares (em quem votei na segunda volta). Era uma força da natureza e de uma generosidade de convicções como raramente se terá encontrado nas personagens políticas que emergiram desde o 25 de Abril. Mas há muito que o seu missionarismo me parecia deslocado no terreno que torna a prática política e cívica verdadeiramente frutífera e eficaz. E é certo que nunca conseguiu traduzir o conteúdo da sua «democracia participativa» em vivência concreta, tal como não fundamentou a articulação desse conceito com as formas de democracia representativa (de que, de resto, visivelmente desconfiava). Havia uma nebulosa ideológica no seu pensamento que a conduzia a uma região etérea, quase celeste, própria, aliás, da sua formação religiosa. Era, assim, apesar do seu aparente e inesgotável optimismo, uma personagem trágica. E isso emprestava-lhe uma dimensão suplementar (mas menos evidente) da grandeza que a caracterizava como ser absolutamente único na nossa história contemporânea. Ela fez-nos sonhar. Não soube e não pôde, porém, dar forma continuada a esse sonho sobre a terra.

Vicente Jorge Silva

Longe, na Catalunha

Entre a última sexta-feira e domingo, passei dois dias fechado num hotel, 140 kms a norte de Barcelona, participando num colóquio sobre as relações ibéricas. Alguns dos meus companheiros de retiro eram jornalistas, intelectuais e políticos portugueses. Foi nesse ambiente um tanto irreal que fomos recebendo notícias do país: a comunicação do Presidente da República, a demissão de Ferro Rodrigues, a morte de Maria de Lourdes Pintasilgo.

Escusado será dizer que, apesar do interesse dos temas em debate no colóquio, passámos (nós, os portugueses) a maior parte do tempo a discutir as novidades do outro lado da península. Fiquei com a sensação de que a distância a que nos encontrávamos dos acontecimentos se tornara subitamente muito maior do que aquela que efectivamente nos separava do palco onde eles ocorriam. Uma sensação de estranheza, como se fôssemos estrangeiros observando, muito de longe, fenómenos surpreendentes. E sabendo, ao mesmo tempo, que eles tinham a ver directamente connosco.

Senti a impotência dos espectadores perante os acontecimentos, reforçada pelo décor bizarro de um hotel a meio de um campo de golfe à beira dos Pirinéus. Poderia ser o ponto de partida para uma «short-story», uma peça de teatro, talvez um filme. Entretanto, regressado a Lisboa, mergulhando no «vivo» da situação, lendo o nosso blog, que me resta dizer? Seguem acima algumas notas.

Vicente Jorge Silva

Governo para Coimbra, já!

Passei a noite acordada. Já o que o presidente da Câmara de Coimbra está dormir, alguém tem de pensar por ele nos interesses da cidade. Que ministérios devem vir para Coimbra no novo formato do "Governo descentralizado"?
O do Ensino Superior, nem se discute. Então não temos a mais antiga universidade do país?
O da Saúde, evidentemente também. Somos conhecidos pela qualidade dos nosso serviços hospitalares, que nos valeram a designação honrosa de "capital da saúde".
Também o Ministério da Justiça não seria mal recebido. Afinal estamos no centro do País. Ficava mais perto para os operadores do norte. Temos uma excelente Faculdade de Direito. E se quiserem trazer também os tribunais superiores, por uma questão de eficiência e proximidade ao Ministério, cá nos arranjaremos para os receber.
Ainda poderíamos pensar também no Ministério do Trabalho, mas creio que não. Esse deve ir para o Porto. É comum ouvir dizer que eles é que trabalham para o resto do país.
Fico-me por aqui. Sempre nos acusaram de sermos pouco ambiciosos e não é agora que vamos mudar...

«Decisão sensata e racional»

«O Presidente da República fez algo raro no panorama político Português: com prejuízo próprio(*), tomou uma decisão sensata e racional. Por muito que não gostemos deste Governo (e eu não gosto), é forçoso admitir que os motivos para dissolver a Assembleia eram muito mais débeis que os motivos para a manter. Ora, mantendo esta Assembleia, cabe naturalmente ao PSD designar um novo PM e respectivo Governo.
Quanto ao facto de o PSD escolher Santana Lopes... estão no seu direito, é a sua escolha, demonstram assim que não consideram a governação de Portugal um assunto a ser levado muito a sério. O preço dessa escolha irá ser pago nas próximas Eleições para a Assembleia.

(*) Os seus "camaradas" do PS dificilmente lhe irão perdoar... Sampaio irá passar uns anitos difíceis.»

(JML)

As políticas que Sampaio quer ver continuar...

...são oportunamente mencionadas aqui no Puxapalavra.

segunda-feira, 12 de julho de 2004

Chorar sobre leite derramado

Melhor do que chorar sobre leite derramado, é deitar mãos ao trabalho. O PS, em particular, tem a casa para arrumar e muito mais para fazer. Renovar a agenda e virá-la para a efectividade dos direitos das pessoas (dos consumidores, das mulheres, das crianças), para o direito ao ambiente, à qualidade de vida, à saúde, à formação profissional contínua, ao acesso aos serviços de interesse geral (incluindo a Internet em banda larga), todos lidos num novo registo próprio do século XXI. Mostrar como a Europa é hoje condição do nosso futuro coeso e solidário e torná-la parte activa do futuro da humanidade. Aproveitar, já agora, para dar uma refrescadela no modo de fazer política. Mãos à obra, portanto, acabemos com as lamentações, as queixas e o desencanto. Estamos vivos, não estamos? E a democracia não acabou ontem.

"Complexo de esquerda"

«Claro como a água do Mondego na nascente da Serra da Estrela, o seu comentário às perguntas de CG ("Cor política"). Estou inteiramente de acordo com ele, como, aliás, com a generalidade do que tem escrito sobre o assunto no Causa Nossa, de que sou assíduo frequentador.
Em ambas as eleições, para o primeiro e segundo mandatos, votei convictamente Sampaio, quer pelos valores que sempre o vi defender como pessoa, quer pelas suas posições políticas, e confesso que nesta decisão me decepcionou, não pela decisão em si mesma, mas pelo facto de, como Presidente, não ter sido capaz de dominar um complexo de esquerda, pois deve ser disto que se trata; recuso-me a acreditar que Jorge Sampaio possa ter considerado a solução por que optou como o menor dos dois males.»

(LVP)

Ana Gomes...

..segundo a GLQL.

A demagogia populista ...

... já começou, com a proposta de espalhar ministérios a esmo por esse país fora, sem qualquer reflexão ou estudo sobre as suas implicações administrativas e financeiras. Populismo é isto: pegar numa ideia que até pode responder a um problema real, e avançar para a sua execução de forma leviana e irresponsável, só porque é "popular".

Os "Senhores de Matosinhos"

A notícia do Expresso sobre os "Senhores de Matosinhos" (referente ao inquérito aberto a Narciso Miranda e a Manuel Seabra) tinha algo de arrepiante. Não propriamente o conteúdo do que foi apurado, que o jornal não revela e se limita a classificar de muito grave. Mas os pêlos começam a levantar-se quando se escreve que há quem no PS defenda uma punição mais leve apenas para salvar a Câmara nas próximas eleições. (Felgueiras foi assim há tanto tempo?). E não mais voltam ao lugar quando se aventa que o PSD estaria a sondar Seabra para concorrer na sua lista. No caso de vir a concretizar-se esta hipótese macabra, sugiro mesmo que ele leve a Ana Manso para a Assembleia Municipal. Que me perdoem os meus amigos de Matosinhos, mas a dupla era a preceito! Mal por mal, antes com ela...

Bem-vindo!

José Saramago foi ontem homenageado com o doutoramento "honoris causa" pela Universidade de Coimbra, por iniciativa da Faculdade de Letras. Infelizmente não pude estar presente na cerimónia. Mas apraz-me tê-lo doravante como membro da mesma comunidade universitária. Parabéns, José!

"Cor política"

«Gostaria de perceber por que razão um Presidende da República ou um PM deve decidir em função da sua cor política? Ou devo entender que pelo facto da esquerda ter eleito o Jorge Sampaio, este está em dívida para com a esquerda? Se sim, o que pode resultar daqui? (...)
Sabe, eu votei no Cavaco nas primeiras eleições e no Sampaio nas segundas! Como devo considerar o meu comportamento? Tenho direito a alguma benesse?»

(CG)

Comentário - Evidentemente que um primeiro-ministro deve decidir em função da sua "cor política". É para isso que ele lá está. Quanto ao PR, a sua função de árbitro não exige que ele decida contra a sua "cor política", quando outra seria a melhor decisão, só por medo de ser acusado pelos outros de "arbitragem caseira".

Vou ser um velho tarado, rai's parta


Nunca foste à Sibéria? Que giro, Luís! Eu também nunca fui à Terceira.

companheiros de blog, estou quase a fazer anos...


Que giro, Luís! Chamo-me Maria, como a tua mãe.

Y love Portugal

Um Fiat propriedade de um fã do tuning estava hoje à tarde no Saldanha. O carro preto, além das luzes azuis e dos ailerons e do diabo a quatro característico deste tipo de automóveis, continha ainda uma orgulhosa homenagem à prestação de Portugal no último Europeu. Num dos lados, obra de tinta-spray, dois riscos paralelos, um verde o outro vermelho. Não contente com isso, o proprietário resolveu afirmar ao mundo - em inglês - que ama o seu país. Ficou assim: "Y LOVE PORTUGAL". Um dos mais irónicos erros ortográficos possíveis. Lendo como está, foneticamente, o "Y" fica "Uái" - tal como em inglês se pronunciaria a palavra "Why". E, vistas bem as coisas, dado o estado actual do país, não podemos levar a mal que um cidadão saia à rua perguntando: "Why love Portugal?", pois não?

saudades da mamã

A minha mãe está em minha casa. Há muitos anos que se recusava a sair da sua "casinha" nos Açores. Veio mitigar um sentimento que me toca todos os anos, por esta altura, nas imediações das férias, e que - muito amaricadamente, que se lixe! - designarei pela forma mais simples (porque verdadeira): o sentimento da saudade. Saudades da minha mãe.
É a primeira vez, em quase 27 anos de vida, que faço o papel de anfitrião. Durmo na sala para ela ficar confortável no meu quarto, e mostro-lhe com orgulho a varanda ampla que dá para uma zona verde, a janela do escritório sobre telhados de Lisboa e com o Cristo-Rei ao fundo, o privilégio de parar o carro à porta. Tudo isto com evidente exagero. Ela percebe logo, à primeira análise, que os puff's da sala não são propriamente o "móvel" mais confortável para a sua geração, que me falta uma cómoda no quarto, que tenho roupa que deveria ter sido lavada algures em 97, que o esquentador não devia estar aceso o dia todo e que, se continuar a ouvir música no mesmo nível de som, corro o risco de ensurdecer metade da população do Rato.
De súbito, vejo-me a comer - pela primeira vez desde que estou em Lisboa - refeições da mamã, sou visitado no escritório por extraordinárias chávenas de café que prolongam o prazer da escrita, ouço infindáveis sermões sobre os malefícios do tabaco e conselhos categóricos sobre a mulher ideal para casar. E tudo isto é música para os meus ouvidos. Com a minha mãe a passar cá uns dias, sinto que veio a ilha toda com ela. O sol tórrido da capital aparenta cobrir-se com o lençol branco das nuvens açorianas e o heavy-metal dos vizinhos de baixo soa a chilrear de passarinhos. E nunca apreciei passarinhos. Nem em hamburguer.
Mas o melhor de toda esta ternurenta placidez (perdoem-me o súbito ataque de Lídia Jorge) é voltar a ser chamado por Filipe e o meu irmão Alexandre por Paulo. Melhor ainda: é ver os nossos nomes constantemente trocados. Filipe quando devia ser Paulo e vice-versa. E perceber, enfim, que não tinha qualquer motivo para me irritar com o assunto - tal como acontecia, amiúde, na adolescência.
O facto dos nomes sairem invariavelmente baralhados, sempre às avessas, estejamos os dois presentes ou não, é a melhor prova de que para uma mãe todos os filhos são iguais. E que trocar de personalidade com um irmão, mesmo que só por breves segundos, é o melhor que podia acontecer para entendermos, momentaneamente fora de nós, quanto amor por alguém pode uma pessoa guardar nesta vida. E constantemente dividir, generosamente, sem percentagens, como se o mundo não acabasse nunca e um dia feliz pudesse durar para sempre.

recebido por mail

Tal como eu devem "estar fartos" de ver pela ruas de Lisboa mulheres
e/ou homens a pedirem dinheiro nos semáforos, utilizando como "instrumento de persuasão" crianças pequenas que carregam ao colo ou levam pela mão.
Estas crianças passam o dia à torreira do sol, muitos parecem estar sempre a dormir (independentemente da hora do dia e da sua idade) e os seus corpos pendem de tal maneira dos braços dos adultos que me faz pensar que estejam alcoolizados, ou algo do género. Mais, no ano passado verificou-se que muitas destas crianças não eram filhas dos adultos que as acompanhavam e que estes não tinham sequer provas de identificação das mesmas.
Trata-se, provavelmente, de crianças "alugadas" pelos pais ou mesmo crianças utilizadas por redes de tráfico infantil.
Esta é uma "forma de exploração do trabalho infantil" que ocorre à luz do dia e nas "nossas barbas". Creio que todos reconhecem que é uma situação terrível e não a podemos consentir.

Desafio-vos a contribuírem para dar visibilidade a este problema, de
forma a que as autoridades competentes o reconheçam e se organizem para lhe dar uma resposta adequada. E sabem que fazer isso só custa uma chamada local?


Sempre que se confrontarem com uma destas situações, por favor, liguem para o IAC (Instituto de Apoio à Criança) e identifiquem o local onde estas pessoas estão a pedir. O IAC entra em contacto com a PSP que se dirige ao local para proceder à identificação dos adultos e das crianças, sendo que os primeiros, por vezes, são levados à presença de um juiz.

Esta intervenção tem, por si só, um efeito disuasor e permite uma
recolha de dados sobre as crianças que são vitimas desta forma de exploração, bem como ficar com um registo dos adultos que as utilizam, no entanto, não dá ainda uma resposta de fundo ao problema. Por isso se torna importante que todos alertemos o IAC, enquanto entidade com competência nesta situação, de forma que também eles possam, com o apoio de muitos de nós, dar visibilidade a este problema e ganhar força para exigir uma resposta das Autoridades Públicas.

O número do IAC (SOS CRIANÇA) é o 21 7931617. Por favor, passem-no para o telemóvel, para agenda, para onde queiram, mas liguem e liguem a logo. Liguem sempre que se encontrem com esta situação.
Estas crianças estão desprotegidas e não têm sequer uma voz por elas. Essa voz pode ser a nossa. Por eles, liguem.

Obrigada.

«Oportunidade à esquerda » II

«Eu penso, efectivamente, que o PSD cometeu o pior erro dos últimos tempos, ao aceitar sem grandes protestos a hégira de Durão Barroso, e que o PS vai ter muito para dizer sobre isso (assim o diga, efectivamente), mas não creio que Sampaio possa ter o papel de "líder da oposição", como sugere este texto [post abaixo]. Sampaio fez o que fez, podendo fazer o contrário, e disse que ia vigiar, para tentar moderar um pouco as reacções imoderáveis. Mário Soares desempenharia esse papel com a maior das facilidades (como chegou a desempenhar com Cavaco Silva), mas Sampaio não. Por que razão faria uma coisa dessas? Se tinha o objectivo de "fritar" o governo PSD, porque não o demitiu quando teve uma oportunidade soberana?...»

(HJ)

domingo, 11 de julho de 2004

«E se fosse o Alberto João Jardim?»

«Estou chocado com esta decisão do Presidente da Republica. (...) Podem usar os argumentos formais que quiserem. A verdade é que nem eu, nem ninguém, alguma vez teve a possibilidade de dizer que não queria o Santana Lopes como primeiro-ministro. Estou profundamente arrependido de, há 10 anos, quando tive de optar entre o Sampaio e o Cavaco ter feito a escolha errada. Nunca, como agora, estive tão próximo de tomar a decisão de não voltar para Portugal. Estou verdadeiramente sem palavras.
É engraçado notar que as poucas pessoas que concordam com Sampaio são exactamente as que nele não votaram. A vida política portuguesa é um logro. Votámos no Durão Barroso, para que este se fosse embora ao fim de 2 anos, votámos no Santana em Lisboa para que este se fosse embora ao fim de 2 anos, votámos no Sampaio para que este (...) traia todos os que nele votaram. (...) Depois quando tem uma oportunidade de escutar o país toma esta decisão baseada num pensamento redondo e burocrático. A única justificação para não convocar eleições foi porque o PSD e o PP lhe garantiram que estavam disponíveis para assegurar o governo. Olha que realmente era necessário consultar dezenas de pessoas para tirar esta linda conclusão.
Já agora, alguém me explica o que aconteceria se o Alberto João Jardim fosse o vice-presidente do PSD?»

(LAC, Cornell)

«Oportunidade à esquerda»

«(...)Penso, contudo, que Jorge Sampaio está a dar uma oportunidade à Democracia, especialmente à esquerda. Estes serão tempos difíceis, penso que ninguém terá dúvidas disso, mas há aqui uma oportunidade excelente para exercer a Democracia em toda a sua extensão, a Democracia que não termina no eixo Presidência-Governo-Assembleia. A Democracia deve ser sempre exercida através da participação cívica, da vigilância popular. (...) Não porque [o Governo] seja ilegítimo, mas porque será mau para o país. Será, como foi dito, o Governo mais populista desde o 25 de Abril. Santana Lopes tem, contudo, muitos inimigos à esquerda ? a sua quase totalidade ? e à direita ? nomeadamente no seu próprio partido. Como tal, esta poderá ser uma hora para cerrar fileiras entre a esquerda, de uma forma real e unida, e associar a sociedade a este combate político. (...)
A oportunidade poderá ser de ouro e poderá não se repetir. Para a aproveitar a esquerda terá, porém, de se aperceber que o Presidente Sampaio se disponibilizou para líder da oposição [ao Governo]. Colocou o Governo num altar sacrificial da Presidência. Poderá não ter os instrumentos de Poder para fazer mais que uma contestação, mas deixou claro que a fará se assim o entender. Se o Presidente Sampaio souber ter a coragem para o fazer e se a esquerda tiver a lucidez para o apoiar nestas acções, poderemos ter uma mudança real dentro de 2 anos, não apenas de governo mas de toda uma mentalidade de fazer política. Será uma ideia algo utópica? Talvez, mas não é essa uma das características da esquerda?
Por 2 anos curtos e diferentes, não da parte do Governo, mas da oposição de esquerda.»

(JSA)

«A minha opinião»

«Queria deixar a minha opinião sobre todo este processo que foi a decisão do Presidente da República...
A principal crítica que eu tenho é o tempo que o PR demorou para tomar a decisão que tomou. A 1ª vez que ele soube da saída do Durão Barroso foi no dia 24 de Junho. Ou seja, ele demorou duas semanas a tomar a decisão. Durante este tempo, os partidos políticos extremaram as suas posições de um modo que eu inicialmente não esperava. Estas tomadas de posições foram particularmente fortes durante a última semana, mas também eram previsíveis, dada a importância da decisão e o tempo que demorou a ser conhecida a decisão presidencial. Sinceramente, acho que o PR deveria ter aproveitado o estado de graça em que estava o país devido ao sucesso do Euro 2004 e deveria ter anunciado a decisão no início da semana passada. Duvido que ele tenha modificado a sua posição durante esta semana, e teria suavizado a crise política entretando gerada.
Quanto à decisão propriamente dita, ela era bastante complexa e com bons argumentos para ambos os lados. Ou seja, era uma decisão pessoal do PR. E aqui reside a minha dúvida. Sabe-se que o PR foi eleito por eleitores maioritariamente de esquerda (mas também devido a um sentimento anti-Cavaco muito forte). Será que ele devia ser leal para com esses eleitores ou deveria olhar para a situação e pensar "o que é melhor para Portugal?". No fundo, será que ele devia tomar a decisão como socialista que sempre foi ou como português apartidário? A minha opinião é que ele deveria ser apartidário e olhar para a situação como independente. Isso não quer dizer que ele não pudesse (ou até devesse) convocar eleições antecipadas, mas que isso seria uma decisão a pensar no que seria o melhor para Portugal e não para o partido que o elegeu.
(...) Se ele tivesse tomado a decisão de dissolver o parlamento, a decisão teria sido sempre associada com uma decisão socialista e não para o bem nacional. É que eu não acredito que tenha sido fácil dar a liderança do governo ao Santana Lopes (PSL). Acredito que o PR tenha pesadelos à noite a pensar nisto, pois vai contra o que lutou durante anos. Foi sem dúvida a decisão mais difícil da vida dele. E é por tudo isto que acredito que a decisão tomada tenha sido a que ele pensa ser melhor para o país.
(...)»

(AF, Houston)

Maria de Lourdes Pintasilgo

Parou-lhe o coração. Durante a noite. Logo esta noite!
Há exactamente uma semana, em Coimbra, em casa da Maria Manuel e do Vital, falei da Maria de Lourdes, de como me alarmara no velório do Prof. Sousa Franco a fragilidade física que subitamente lhe descobrira e de como não me surpreenderia se, de um dia para outro, tivéssemos triste notícia. Malfadada premonição!
Tinha-a visto, dois dias antes, a sair da audiência com o Presidente da República, parecendo firme, embora angustiada com a possibilidade da governação populista que hoje Portugal tem pela frente. Foi ela quem primeiro disse que a democracia poderia estar em perigo. Perturbante comentário. Mas o que mais me «bateu» na imagem daquela senhora, que na televisão parecia muito menos debilitada do que eu a sabia, foi a noção de que ela era a única mulher do ror de personalidades que o Chefe de Estado entendera ouvir para decidir da crise aberta pela fuga de Durão Barroso. Segundo a TV, fora chamada por um critério «objectivo» - antiga Primeira-Ministra.
Eu estava a vê-la pela RTPi. Nessa tarde, na abertura do Congresso do PSOE, em Madrid, aplaudira o Zapatero a reafirmar, à cabeça do discurso, que a paridade era uma prioridade do seu Governo. «Bateu-me» a abissal diferença: em Espanha há hoje um governo com tantos homens como mulheres, porque um político corajoso e progressista resolveu passar das palavras aos actos. Cá, uma mulher só é ouvida - mesmo quando é personalidade admirável e extra-ordinária como Maria de Lourdes Pintasilgo - porque se pode invocar um critério «objectivo». Valha-nos que em 1979 houve um Presidente, Ramalho Eanes, que ousou, contra críticas ferozes de muitos, nomear uma mulher Primeiro-Ministro! Se não, no rol de personalidades recentemente chamadas a Belém, nem sequer uma mulher haveria para amostra do sexo que é maioritário em Portugal e cujo imparável sucesso universitário e profissional leva já alguns a defender quotas ... para homens.
Em Coimbra avancei que o primeiro «post» que ia escrever para o Causa Nossa, depois deste interregno de semanas, era justamente sobre a Maria de Lourdes. Para alertar para a injustiça escandalosa de que ela era objecto. Desgraçadamente, não o escrevi a tempo. A tempo de alguém lho dar a ler. A tempo de alguém corrigir a situação. Acabrunhada, aqui deixo nota, no dia do seu funeral:
Naquele dia na Estrela, fomos conversando enquanto eu a amparava no lento e penoso percurso, corredor fora, deixando a capela do velório. Sobre a morte do Professor Sousa Franco, que a abalara muito, sobre a campanha para as europeias, o PS, os anos de trabalho juntas em Belém, etc.. Já à saída da Basílica, perguntei de que lado estaria o motorista que a viera trazer. Atalhou «Meu motorista? Filha, não tenho dinheiro para tal. Este é um senhor muito amigo, muito gentil, que insiste em conduzir-me quando tenho de sair de casa. Sabe, é que eu vivo apenas de uma pequeníssima pensão dada pelo Baltazar Rebelo de Sousa...». Perante a minha incredulidade, Maria de Lourdes explicou que nos tempos do governo PS bem tentara que a situação fosse corrigida, falara até a alguns ministros... Mas, que havia de se fazer, só fora Primeira-Ministra cinco meses, só tinha direito a pensão pelos tempos de Procuradora à Câmara Corporativa!
A Democracia tem destas injustiças. Injustiça os seus melhores. E o mais duro é que eles nos estão a deixar.

Ana Gomes

O fim de uma era?

A renúncia de Ferro Rodrigues pode significar também o fim de um certo PS, fortemente influenciado pelo grupo de militantes oriundos do antigo Movimento de Esquerda Socialista (MES), que entraram no PS pela mão de Mário Soares há mais de duas décadas. Seja quem for o sucessor -- previsivelmente José Sócrates, se António Vitorino não quiser antecipar a sua saída de Bruxelas para vir disputar a liderança --, há razões par antecipar que será um PS menos à esquerda ideologicamente, politicamente mais "moderado" e mais pragmático, mais ortodoxo em matéria de política económica e financeira, mais aberto à reforma liberal dos serviços públicos, provavelmente mesmo mais contido em relação às "causas de sociedade" (despenalização do aborto, por exemplo), enfim menos próximo do PS francês e mais próximo do blairismo britânico.
A tentação para ocupar o espaço centrista proporcionado pela deslocação do PSD de Santana Lopes para a direita poderá tornar politicamente "pagante" esse reposicionamento político e ideológico do PS. Em contrapartida, à esquerda, tanto o PCP como o Bloco de Esquerda podem beneficiar desse distanciamento do PS da disputa pelo espaço tradicional da esquerda e das causas sociais e culturais mais radicais. Pode estar na forja uma recomposição do sistema partidário nacional.

E se...

1. E se este fosse o seu primeiro mandato, teria o Presidente da República decidido do mesmo modo?
Lá no fundo, bem no fundo, quero crer que sim. Um aval à coerência do Presidente, esta minha convicção. Gostaria de não me enganar.
2. E se assim fosse, ter-lhe-ia essa decisão custado um segundo mandato?
Se as eleições fossem disputadas como em 1996, admito bem que sim. Estes dias em que se arrastou a decisão criaram em muitos dos eleitores do Presidente a ideia que havia tão bons argumentos para um lado como para o outro; que era uma mera questão de escolha a favor de A ou favor de B; que a estabilidade tanto seria conseguida com esta, como com a outra decisão; que para a economia era irrelevante (como disseram diversas autoridades na matéria). Talvez as coisas nunca tenham sido bem assim, mas foi o que deixaram que parecessem. Agora, mesmo quando a razão tenta compreender a decisão, a ferida abre-se no coração de muitos, indelével, provavelmente.
3. E se invertêssemos o cenário? Teria um Presidente à direita decidido de outro modo, supondo a existência de uma coligação de esquerda maioritária na Assembleia e a direita em minoria, mas pronta para ganhar as eleições?
Creio que sim. A prova é outra vez impossível de fazer. Mas ao longo da vida já vi este filme várias vezes. Desde os professores de esquerda, na Faculdade, que eram mais exigentes para os alunos de esquerda com temor de serem acusados de os favorecer (sendo que o oposto nunca se passava), até aos Governos de esquerda que enchem de encomendas os consultores à direita, mesmo quando existem melhores ou iguais à esquerda, só para mostrar como são abertos e pluralistas. Chama-se a isto o "complexo de esquerda". A direita não tem complexos desses!

sábado, 10 de julho de 2004

Prémio de consolação

Um voto pio fica mal a quem o faz. Um prémio de consolação é com certeza dispensado pelos seus destinatários. Não sei de facto o que mais possa pensar-se das supostas ameaças de castigo para o novo governo, que ontem ouvi no discurso do Presidente. Que terá de portar-se bem sob pena de ser dissolvido. Como? Quando? Que deverá respeitar o seu programa e dar-lhe continuidade. Qual programa? Aquele em que prometeram baixar os impostos? O mais recente, que o próprio Presidente algumas vezes criticou?

O meu herói

Bartoon é o meu herói, o meu amigo, aquele a quem agradeço todos os dias por me tirar do sério. Hoje, foi um deles. Olhem só:


Bartoon, de Luís Afonso, Público de hoje


Maria de Lurdes Pintasilgo (1930-2004)

Foi a primeira mulher a chefiar um governo em Portugal (1979), foi a primeira também a disputar umas eleições presidenciais (1986), foi uma militante de esquerda católica, empenhada e visionária. Há pessoas em relação às quais a discordância de ideias e de propostas em nada afecta a estima e a admiração pessoal por elas. Maria de Lurdes Pintasilgo pertencia a esse grupo privilegiado.

Como explicar?

Da nossa leitora Luisa Rego: "(...) Como eleitora de esquerda e como cidadã, não sei sinceramente o que posso doravante pensar e muito menos como agir. Ferro Rodrigues (...) tomou uma decisão digna, mas triste. Não sou militante do PS... mas neste momento gostaria muito de o ser, para propor um voto de expulsão do militante Jorge Sampaio - ou pelo menos de desaprovação - e um voto claro de apoio a Ferro Rodrigues. Com a decisão do PR, em quem acreditei e votei, e que vigarizou os seus eleitores da maneira mais traiçoeira e tresloucada, foi o sistema eleitoral desprezado e o regime democrático desacreditado. Como explicar às novas gerações que a política se faz assim? O que digo aos meus filhos sobre exercício de cidadania? Vale a pena acreditar em valores e princípios? Vale a pena votar?"

Em que é que votamos...

De um email de hoje: «Em que é que votamos quando elegemos um Presidente da República?»

A manha dos árbitros

No futebol, os árbitros impuros e sem carácter têm uma manha típica, há muito conhecida dos adeptos - quando "erram" deliberadamente em favor de um dos contendores num lance decisivo, passam os dez minutos finais a interferir na partida, vigilantes que nem águias, inventando faltas menores a meio-campo contra a parte que despudoradamente beneficiaram. Julgam assim poder enganar os inocentes.

Luís Nazaré

De todos os portugueses?

Não. Sampaio foi o presidente da minoria de portugueses que não votou nele. Que belo gesto de desprendimento e isenção! Ficará certamente na história.

Luís Nazaré

Sampaísmo constitucional

A decisão presidencial de ontem e o discurso que a fundamentou -- link para o texto oficial -- ficarão seguramente como peças de eleição para a compreensão do actual presidente em relação aos seus poderes, em especial, e ao sistema de governo, em geral, dentro do quadro assaz aberto da Constituição nessa matéria.
Ao optar pela formação de um novo governo da coligação governamental existente, não atendendo aos argumentos que poderiam justificar a convocação de novas eleições (e não eram poucos), o PR reforçou, numa situação assaz controversa, o seu pensamento de que havendo maiorias parlamentares deve em princípio seguir-se esse caminho e que nessa situação a dissolução deve ser uma via realmente excepcional. Além disso, o PR aceitou sem contestação para primeiro-ministro o polémico (para não dizer mais...) novo líder do partido maioritário, prescindindo de exercer um poder de recusa, que no entanto ele detém. Parece ter triunfado aqui portanto um entendimento não intervencionista no que respeita à formação de governos e uma compreensão muitíssimo estrita e exigente quanto à dissolução parlamentar.
Há porém a outra face da moeda. O PR impôs ao novo governo um requisito de continuidade de políticas essenciais, condicionou fortemente a sua liberdade de formulação do programa de governo e colocou-o sob vigilância especial, ou seja, em rédea curta. Nesta perspectiva, inédita no nosso sistema democrático, o PR adopta uma inesperada atitude intervencionista. Ao referir-se explicitamente às "orientações políticas votadas nas eleições de 2002", o Presidente sugere que as eleições servem para escolher políticas e que portanto não são legítimas outras na vigência dessa legislatura. Ele torna-se um fiscal da fidelidade governamental ao programa político supostamente sufragado em eleições. Levada às suas últimas consequências, esta posição parece indicar que Sampaio não admite a formação de governos na mesma legislatura com sinal político divergente, situações que, no entanto, não são raras noutros sistema de governo de tipo parlamentar, como o nosso.
Esta leitura, que nada constitucionalmente impõe, parece ser uma contribuição originária do "sampaísmo constitucional".

Belém e São Bento

Ao optar por um novo governo da coligação PSD-PP, em vez de convocar eleições, o Presidente da República impôs-lhe continuidade nas políticas essenciais e anunciou uma vigilância presidencial apertada da acção governativa.
A imposição de continuidade de políticas é de certo modo contraditória com a doutrina de respeito pela maioria parlamentar, a qual deveria levar ao não envolvimento presidencial na definição das orientações governamentais. Além disso, é uma posição equívoca, pois tanto pode comprometer o Presidente na acção governamental, tornando-o corresponsável por ela, como dar ao Governo um capital de queixa, acusando o Presidente de ser "força de bloqueio" e de não o deixar levar a cabo as suas políticas. Ambos os factores são funestos.
A maior vigilância sobre o Governo também pode ser um exercício fruste e arriscado. Fruste, porque o Presidente não goza de grandes meios de controlo sobre um Governo que dispõe de maioria parlamentar absoluta; o principal instrumento de obstrução presidencial, o veto às leis, pode ser em geral superado por uma segundo votação parlamentar. Arriscado, porque pode dar lugar a um conflito institucional entre o Presidente e o Governo, não estando garantido quem o ganha. Seja como for, conflito institucional é coisa que não corresponde propriamente à "estabilidade política" que esteve na base da justificação presidencial para a formação de novo governo da coligação.

Efeitos colaterais

Com a renúncia de Ferro Rodrigues, a seguir à de Guterres há menos de três anos, o PS dá uma imagem de excessiva vulnerabilidade dos seus dirigentes à adversidade e à derrota. Mesmo se em nome de uma virtuosa assunção de responsabilidade pessoal pelos insucessos politicos, a repetição de demissões também pode ser lida como sintoma de um défice de resistência e de determinação política. Os gestos mais nobres podem ter efeitos colaterais negativos...

sexta-feira, 9 de julho de 2004

Ferro Rodrigues

A sua demissão é um singular momento dramático na história política portuguesa. Ao demitir-se da liderança do PS acto contínuo à comunicação presidencial, considerando-a como uma intolerável "derrota pessoal e política", Ferro Rodrigues agiu claramente sob o império da emoção e da indignação. Devemos respeitar a atitude e admirar o seu sacrifício, mesmo que não acompanhemos a radicalidade do gesto. Mas quem conhece a sua forte personalidade e percebeu a ordália que foi a sua luta contra a sórdida conspiração que o tentou liquidar no ano passado (com a infame tentativa de envolvimento no caso Casa Pia) dificilmente pode censurá-lo por ter deixado decidir o coração em vez da razão.
Com a sua demissão o PS não perde somente um líder que não recusou "pegar" no partido numa situação particularmente difícil, a seguir à saída de António Guterres, e que conseguiu em apenas dois anos, apesar de todas as contrariedades pessoais e políticas, recolocá-lo na senda das vitórias eleitorais, com fortes perspectivas de voltar ao poder na próxima oportunidade. Perde também uma certa maneira despojada e exigente de fazer política, fiel a princípios e a normas de ética pessoal. Não é preciso ser seu amigo nem concordar com ele em tudo para lastimar profundamente o seu abandono, sobretudo nas condições em que ocorre. Pessoas deste calibre fazem sempre falta à República e à esquerda.

Vital Moreira

Jorge Sampaio

O Presidente da República partiu do princípio, correcto, de que a questão não era a constitucionalidade nem a legitimidade das duas alternativas em causa, não havendo nenhum princípio que tornasse obrigatória a continuidade governamental (como queria a direita) ou a realização de eleições (como queria a esquerda e diversas personalidades a ela alheias). O que estava em causa era uma questão política, cuja resolução num sentido ou noutro cabia na liberdade de decisão pessoal do Presidente, a saber, se havia razões bastantes para rejeitar a formação de novo governo da actual coligação com outro primeiro-ministro e para justificar a dissolução parlamentar e convocar novas eleições.
Sampaio privilegiou claramente os argumentos a favor da continuidade governativa (apesar de ela ter sido efectivamente interrompida pelo abandono do primeiro-ministro), tornando a legislatura uma espécie de fetiche a que tudo se deve sacrificar, não tendo considerado decisivos (ou nem relevantes, porque não os mencionou sequer) os argumentos que poderiam fundamentar a opção pelas eleições, designadamente a saída do primeiro-ministro que encarnava a vitória eleitoral da direita nas eleições de 2002 e a coligação governamental, o inequívoco divórcio entre o eleitorado e a maioria parlamentar existente -- revelada nas recentes eleições europeias e noutros elementos relevantes --, a controversa personalidade e as inclinações populistas do apontado primeiro-ministro e ainda o perigo sério de este novo governo não passar de um "comité eleitoral" no ciclo de eleições que vão ocorrer neste dois anos, colocando o Estado ao serviço dos interesses políticos da coligação.
Objectivamente, portanto, numa questão em que ambas as alternativas em presença eram admissíveis (de outro modo não se compreenderia tanta hesitação), o Presidente acabou por optar a favor da coligação governamental, ao livrá-la de se confrontar com o eleitorado e responder, com uma previsível derrota, pelo governo que agora termina . Se esta decisão tivesse sido assumida sem tergiversação desde o início, seguramente que ela não teria suscitado tanta paixão. O pior é que, tendo demorado 15 dias a decidir e tendo dado campo para a criação de uma ampla convicção favorável à antecipação de eleições -- que se tornou ela mesma um elemento da equação a resolver pelo Presidente --, a sua decisão final aparece como um inesperado prémio à direita e uma imerecida derrota da esquerda.
Doravante nada será como dantes na relação do PR com o "povo de esquerda", que duas vezes o elegeu.

Justiça para a Palestina !

As agências noticiosas antecipam esta manhã o veredicto do Tribunal Internacional de Justiça, que vai ser oficialmente anunciado logo à tarde, sobre a ilegalidade do muro de separação que Israel está a construir na Palestina, salvo na parte em que ele coincide com a fronteira internacional de Israel. O Tribunal apela às Nações Unidas para assegurar a destruição do muro e declara também o direito dos Palestinianos lesados nos seus direitos a uma indemnização.
Mas quem é que duvidava que na questão palestiniana Israel é uma Estado fora dda lei?

A fotografia dos Açores

«Quando penso em Barroso, vejo-o sempre com Bush e Aznar, nos Açores», salientou Martin Schultz, o presidente do grupo socialista no Parlamento Europeu, exprimindo as suas objecções ao presidente designado da Comissão Europeia (segundo o Diário de Notícias de hoje).
A objecção é sem dúvida pertinente. Mas a citada observação suscita uma interrogação: Blair não estava também na fotografia dos Açores? Ou Schultz esqueceu-se convenientemente dele só por ele ser presidente de um partido que é membro do PSE e cujos deputados também integram o grupo parlamentar a que ele preside?

Distinções

Populismo tem tão pouco a ver com popular como demagogia com democracia, nacionalismo com patriotismo, PSD com social-democracia, etc.

ESPLANAR por aí

Já tinha saudades de dar boas notícias. Nasceu há duas horinhas o blog linkado no título - uma mesa de esplanada onde se sentam o Rui Branco, Filipe Nunes, Alexandre Borges e Nuno Costa Santos. Meus queridos amigos, sim, mas isso não vem ao caso. É bem mais interessante constatar que se trata do encontro feliz de dois membros do extinto Desejo Casar(um regresso que muito se saúda, de AB e NCS!) com dois dos melhores bloggers nacionais - o Cristiano Ronaldo e o Deco do País Relativo - FN e RB, respectivamente. Seguramente, um local para visitar todos os dias. Vai direitinho para a coluna de preferidos aqui do Causa, mal acabe de curar a ressaca.

LFB, feliz da vida, às 6 e meia da manhã

«PS pisca o olho a Manuel Monteiro»...

...diz o Diário de Notícias de hoje. Não deve ser verdade, mas se o fosse seria caso para dizer que o PS começa mal a corrida para as esperadas eleições antecipadas, com uma manifestação do mais rasteiro oportunismo político.

quinta-feira, 8 de julho de 2004

Marlon Marco Brando António

Tendo eu relembrado há dias o meu fascínio juvenil pelo papel de Marlon Brando no Marco António do "Júlio Cesar" de Mankiewics, de 1953, apraz-me ler no Economist esta passagem sobre o mesmo filme:
«Then he [Brando] played Mark Antony in "Julius Caesar" (1953) and the cynics were silenced. The scene in which he enters the senate after Caesar's murder, acknowledging none of the conspirators but gliding regally past as if they did not exist, points vividly to the play's denouement. For this, credit Marlon Brando, not Shakespeare. Ask if Rod Steiger, James Dean or Paul Newman, who all, like Brando, graduated from the Method school of acting, could have matched his Mark Antony, and the answer is a definite no.»

A angústia da democracia

Para descomprimir, eis o meu artigo de hoje no Jornal de Negócios, arquivado na Aba da Causa.

Luís Nazaré

E, nesse caso, que fazer?

Se houver eleições, «o PS vai bater-se por uma maioria absoluta» --, diz Ferro Rodrigues. Eis uma diferença de ousadia em relação a António Guterres, que, mesmo depois de andar a trabalhar para a tal maioria absoluta durante 4 anos, foi depois incapaz de a reclamar explicitamente nas eleições de 1999, tendo ficado manifestamente desapontado por os eleitores não terem "percebido" que era essencial tê-la (quem se não lembra da sua reacção na noite das eleições, como se tivesse sofrido uma derrota, apesar de ser o melhor resultado eleitoral de sempre do PS?). Mas não basta vontade e determinação para conseguir os 44,5% de votos necessários para ter mais de 50% de deputados. Por isso, a pergunta seguinte precisa de resposta tão depressa quanto possível: e se obtiver outra vez somente uma maioria relativa? Volta a optar por um governo minoritário ou equaciona agora a hipótese de coligação com outro(s) partido(s)?

Lembram-se da "moção de censura construtiva"?

Desde há muitos anos que o PS defende entre nós a moção de censura construtiva (MCC), existente na Alemanha e na Espanha, segundo a qual as moções de censura parlamentar aos governos -- com a sua consequente demissão -- têm de incluir um programa de governo e o nome de um primeiro-ministro alternativo. Essa proposta tem sido rejeitada nas sucessivas revisões constitucionais, por se entender -- com toda a razão, diga-se -- que ela dificulta a censura aos governos, obrigando as oposições a entenderem-se previamente sobre um governo alternativo, e corta a liberdade do Presidente da República para decidir as saídas da crise governamental decorrente de uma moção de censura, obrigando-o a nomear tal primeiro-ministro.
Para os que defendem agora que os primeiros-ministros são eleitos pelos cidadãos nas eleições parlamentares e que portanto não pode haver a sua substituição sem novas eleições, essa figura da MCC é obviamente uma heresia, tanto mais que ela pode levar à formação de governos contra o partido e o primeiro-ministro que ganharam as eleições (como poderia ter acontecido entre nós em 1987, após o derrube do primeiro governo Cavaco Silva). Mas parece evidente que quem defende a MCC não pode aderir àquele argumento.
Existem na actual situação razões políticas bastantes para convocar eleições antecipadas (embora também haja argumentos contra). Mas trata-se de uma faculdade e não de uma obrigação do PR, pois nada na Constituição nem na lógica do sistema político a impõe (nem tampouco proíbe). Para haver dissolução parlamentar e novas eleições não é preciso subverter a lógica constitucional e política do nosso sistema de governo. Basta usar os bons argumentos e não os maus.

O regime "governamentalista"?

Num artigo de hoje na revista Visão o Professor Freitas do Amaral volta a defender o recurso a eleições como saída necessária para a presente crise política, defendendo que a "escolha do primeiro-ministro pertence ao povo".
Por mim, embora entenda que o Presidente da República pode invocar razões mais do que suficientes para convocar eleições em vez de nomear um novo governo da actual maioria parlamentar, penso porém que isso se deve a uma livre opção presidencial e não a uma obrigação de entregar a escolha do novo chefe do Governo aos eleitores. Este entendimento não decorre da Constituição nem é uma imposição política do nosso sistema de governo. O líder do Governo não é eleito, sendo nomeado pelo Presidente no quadro da composição parlamentar existente. É dessa nomeação presidencial e desse apoio parlamentar que decorre a sua legitimidade democrática, não de eleições. Suponho que nunca nenhum primeiro-ministro se considerou eleito para o cargo.
Defender que a escolha do primeiro-ministro deve resultar necessariamente de eleições teria pelo menos as seguintes implicações: (i) as eleiçõs parlamentares seriam definitivamente desviadas da sua função constitucional, que é a de formar uma assembleia representativa das correntes e forças políticas do Pais; (ii) o Presidente da República deixaria de ter qualquer margem de decisão para escolher o Primeiro-ministro em cada situação concreta, poder que a Constituição inequivocamente lhe concede; (ii) sempre que o primeiro-ministro morre, fica impedido ou se demite, teria de haver novas eleições; (iii) deixaria de ser possível constituir um segundo governo na mesma legislatura, mesmo que na base da mesma maioria parlamentar; (iv) o primeiro-ministro passaria a ter a mesma legitimidade eleitoral do Presidente da República e da AR, tornando-se dificilmente justificável a possibilidade da sua demissão por qualquer deles, como prevê a Constituição.
Enfim o nosso sistema de governo deixaria de ser de tipo parlamentar ou semipresidencialista, como se tem entendido (conforme a perspectiva), para passar a ser um regime "governamentalista". A Constituição teria de ser reescrita.

quarta-feira, 7 de julho de 2004

Sem escrúpulos

No longo tempo de antena que a RTP 1 ontem deu ao CDS-PP à porta do palácio de Belém, depois da audiência presidencial, Paulo Portas invocou um livro do Presidente da República em que este teorizava sobre os possíveis fundamentos de dissolução parlamentar e convocação antecipada de eleições, entre as quais não cabia alegadamente a presente crise política. Por isso -- rematou Portas --, para ser fiel ao seu pensamento, o PR não poderia deixar de reconduzir a coligação no Governo.
Só que, verificado o livro em causa (vol. VI da série "Portugueses"), encontra-se esta passagem:
«A não ser nessas situações, ela [a dossolução parlamentar] só deve verificar-se em circunstâncias excepcionais e muito estritamente delimitadas. Será esse o caso em que a sua avaliação pessoal e maduramente ponderada, o PR conclua que o interesse nacional exige a relegitimação da representação parlamentar, quando se convença que a representação parlamentar deixou definitivamente de corresponder à vontade do eleitorado ou quando considere que ela não permite a formação de um Governo capaz de mobilizar adequadamente as energias nacionais para as tarefas que se colocam ao país.»
Esse texto, que confere plena justificação para uma eventual convocação de eleições antecipadas nas circunstâncias presentes, e que obviamente destrói a tentativa do CDS-PP para "encostar o PR à parede" e enganar a opinião pública, foi porém omitido pela arenga de Portas, como revela hoje o Público.
Uma pura vigarice, é evidente, para além do agravo institucional ao PR. Esta gente não tem escrúpulos. E o Governo só deveria ser composto por gente politicamente séria. Uma razão adicional para despedir este Governo!

Pergunta preventiva (II)

No caso de haver convocação de eleições e de o PS as ganhar sem maioria parlamentar absoluta, as fórmulas de governo possíveis são três (excluindo um entendimento com os partidos de direita): (i) um governo minoritário do PS sem garantia de apoio parlamentar maioritário; (ii) um governo minoritário com um acordo parlamentar de garantia de apoio à sua esquerda (PCP e/ou BE); (iii) um governo de coligação à esquerda, com um ou ambos dos referidos partidos.
Não é provável que o PS queira repetir a primeira fórmula, depois do seu insucesso nos governos Guterres. A pergunta que se coloca é a de saber se é possível um acordo de governo, sobretudo na fórmula de coligação, havendo divergências tão profundas num dossier fundamental como é o da UE, designadamente no que se refere à Constituição Europeia. Estando previsto um referendo para o início do próximo ano, será possível imaginá-lo com posições diametralmente opostas dos parceiros governamentais (o PS pelo "sim", o PCP e o BE pelo "não")?

Pergunta "preventiva"

Segundo o "Público" de hoje o Bloco de Esquerda teria garantido ao Presidente da República, na audiência de ontem, que em caso de eleições antecipadas e de maioria somente relativa do PS, o BE asseguraria a estabilidade governativa, mesmo não fazendo parte do Governo, comprometendo-se a votar os diplomas fundamentais, incluindo o orçamento de Estado.
A pergunta que exige uma resposta inequívoca é a seguinte: essa garantia do BE manter-se-ia mesmo que o PS decidisse continuar -- como a meu ver deve -- uma política de rigor e disciplina orçamental, com todas as implicações em matéria de contenção da despesa pública, remunerações da função pública, financiamento dos serviços públicos, etc.?

Actualização - Francisco Louça já veio desmentir que tivesse dado garantias de sustentação parlamentar de um governo minoritário do PS. Pois claro, não há apoios grátis!

Kerry & Edwards

Está completo o "ticket" democrático para as eleições presidencias nos Estados Unidos em Novembro próximo, com a escolha do candidato a vice-presidente, que recaiu no senador John Edwards, que já tinha disputado a nomeação democrática para a candidatura a presidente, tendo perdido para Kerry, que agora o foi "repescar". Ao progressista rico do nordeste junta-se um candidato mais jovem, sulista, de origem modesta, "self made man", politicamentre mais moderado, pessoalmente atraente e de discurso empolgante. Deu já as suas provas na campanha para a nomeação democrática. Eis uma equipa para vencer a parelha Bush & Cheney. Eu "voto" neles.

Incongruência

Parece que os deputados do PS no Parlamento Europeu (PE) vão apoiar a indigitação de Barroso para presidente da Comissão (assim o diz, pelo menos, o Correio da Manhã, que descobri via o Jumento).
Aparentemente haveria boas razões para o não fazerem. Ele foi designado no seguimento da imposição do Partido Popular Europeu (PPE), o mais representado no PE, de que o presidente da Comissão tinha de ser um dos seus, inviabilizando por isso a candidatura de António Vitorino. Como presidente da CE, Barroso vai naturalmente defender e implementar na UE orientações políticas muitos diferentes das do Partido Socialista Europeu (PSE). O PSE definiu uma orientação de voto contra. Foi em disputa e contra o ramo nacional do PPE, ou seja, o PSD, presidido por Barroso, que os socialistas ganharam as eleições europeias em Portugal. Não foi seguramente para votarem em Barroso que os eleitores portugueses do PS os elegeram. Barroso não precisa dos seus votos para ser confirmado no PE.
A posição favorável só pode significar que o "factor nacional" (como se o presidente da Comissão fosse representante de Portugal, o que seguramente não é) prevalece sobre todas as demais considerações, mesmo à custa da solidariedade política devida aos seus colegas do PSE, em cujo grupo parlamentar se integram. Porquê?

Desconfiança

Segunda-feira passada. Reunião em Bruxelas no novo edifício do Comité Económico e Social da UE (ao lado do Parlamento Europeu, sobranceiro ao Parque Leopoldo). Participantes oriundos de quase todos os Estados-membros. Procuram saber da minha decepção pela derrota da selecção nacional no Euro 2004, mas sobretudo há surpresa e curiosidade sobre o indigitado presidente da Comissão. Procuro explicar o mais objectivamente que posso (nem sequer tenho nenhuma antipatia pessoal por Barroso). Mas ou me engano muito ou ele vai ter de provar muito. Se fosse alemão, francês ou britânico, sucederia o mesmo?

Sofia e Marlon, o sol e a lua

Há tempos a esta parte (não sei exactamente dizer quando) evito escrever sobre mortes, sobre mortos, especialmente os que me são mais queridos. Por isso não escrevi sobre Marlon Brando e Sophia de Mello Breyner, mortos no mesmo dia, ele aos oitenta anos, ela aos oitenta e quatro. Mas li no Causa Nossa belos posts sobre eles, sobretudo o que o Jorge Wemans escreveu sobre Sophia. Bastaria isso para resgatar o meu silêncio que, todavia, me ficou atravessado como um remorso. Que espantoso casal, esse, desaparecido num mesmo dia. Ela que aspirava à luz, ao mar, ao sol, à manhã, trespassada pela sua vertigem helénica, mediterrânica. Ele mergulhado na sombra, na noite, na ambiguidade crepuscular das suas personagens sobre as quais pairava uma lua negra e densa de presságios. Talvez um fantasma os unisse a ambos, não saberei dizer porquê: o de Camus.
V.J.S.

terça-feira, 6 de julho de 2004

O outro lado da questão

A melhor argumentação contra a solução das eleições antecipadas é da autoria de Paulo C. Rangel, no seu artigo de hoje no Público. Pode não ser convincente nem sequer desinteressado, mas não pode passar despercebido para quem deseja conhecer os diversos lados da questão.

Parcerias improváveis

O Público anuncia que vai distribuir um destes dias, juntamente com o jornal, o mais recente número da revista Nova Cidadania, publicação que exprime as posições da direita religiosa em Portugal. Quem diria?

Descoesão territorial

Sabia que há municípios deste País que estão em risco de perderem as carreiras de transportes rodoviários de passageiros? Tal é o tema do meu artigo de hoje no Público (também arquivado aqui na Aba da Causa.

Bendita blogolândia

O Santanório acabou de ser criado, dizem-me. É um blog de acesso livre - coisa que nem sabia ser possível. E para quê? Para dizer o que pensamos de Santana Lopes. Uma boa alternativa para quem não tem pachorra para as manifs.

Tempus fugit

A blogosfera nacional está a ficar adulta. Parabéns a Alexandre Monteiro, a Ivan Nunes, a Paulo Gorjão e a Rui Branco, pelo primeiro aniversário dos seus blogues ocorrido por estes dias (todos entre os nossos preferidos).

Advogado do diabo

«Se o Presidente da República convocar eleições parlamentares antecipadas, essa decisão, qualquer que seja a sua justificação, será sempre vista como um acto de hostilidade contra o PSD e Santana Lopes. Ora admitindo por um momento que eles viessem a ganhar as eleições (a vitória da Grécia também era improvável, não era?...), é evidente que quem sairia fortemente desautorizado seria o Presidente. Não é assim?
E, depois, seria a vez de o PSD pedir eleições presidenciais antecipadas?»


(PL, Coimbra)

Comentário - O mafarrico, ele mesmo, não faria observação mais venenosa...

O "populismo" de PSL

«O "Causa Nossa" tem vindo, nos últimos tempos, a passar a imagem de que o PSD se está a tornar cada vez mais parecido com o PP, no sentido de que faz do populismo o seu estilo ou "imagem de marca", agora ainda mais vincada depois da eleição de Santana Lopes para líder do PSD.
Ora, interessa perceber o que é isto do populismo, tão criticado pelas hostes socialistas. Será que não é populismo fazer campanha eleitoral em lotas de peixe, numa tentativa de mostra nas televisões peixeiras aos gritos de apoio ao candidato visitante? Será que não é populismo participar em manifestações populares em frente à casa oficial do Presidente de República gritando contra um líder de um partido oposto e mostrando desconfiança e falta de respeito pelo Presidente da República? Será que não é populismo querer passar a imagem de que um partido está unido em torno do seu líder, quando dois dias antes várias personalidades desse mesmo partido afirmavam que o referido líder não tinha uma ideia para o País? Será que não é populismo termos um partido que critica uma coligação PSD/PP, mas que não coloca de parte fazer uma coligação com o Bloco de Esquerda ou o Partido Comunista?
Se bem sei populismo significa "simpatia pelo povo" e, não querendo questionar se Santana Lopes é ou não igual a Paulo Portas no estilo de fazer política, acho mais importante fazer valer as regras da democracia e respeitar a Constituição enquanto pilar da democracia, do que vir com especulações acerca do populismo do PSD.»


(Pedro Peixoto)

Comentário - Como categoria política, o populismo não é propriamente "simpatia pelo povo", mas sim a exploração demagógica de sentimentos populares, sobretudo dos menos esclarecidos, para fins políticos. Não existe somente populismo de direita. Mas não se pode misturar alhos com bugalhos.

Come on, George! (III)

Há boas notícias, mesmo após a nossa derrota ante os gregos - ainda resta um grande número de individualidades disponível para aconselhar Jorge Sampaio sobre a crise José Barroso. Dizem-me que as colectividades também não regatearão esforços na busca de uma solução patriótica e que estão prontas para organizar um novo encontro no Beato. Haja esperança!...

Luís Nazaré

Come on, George! (II)

Meia hora depois de o analista Marcelo se ter declarado disponível para o lugar de primeiro-ministro, o presidente Santana Lopes veio dizer ao povo e a Jorge Sampaio para tirarem o cavalinho da chuva - PM só haverá um, Santana e mais nenhum. Que alívio!...

Luís Nazaré

segunda-feira, 5 de julho de 2004

Come on, George! (I)

Em directo na TVI, o analista Marcelo Rebelo de Sousa não excluiu a hipótese de vir a ser o primeiro-ministro de Pedro Santana Lopes. Basta Jorge Sampaio querer...

Luís Nazaré

A impossível derrota

Não sei se é melhor perder-se bem contra um antagonista manifestamente superior, ou perder-se mal ante um adversário ao nosso alcance. Pouco importa. A verdade é que desbaratámos uma oportunidade irrepetível de nos sagrarmos campeões europeus.

O texto de VJS, Fatalidades mediterrânicas, mais abaixo, traduz fielmente o estado de espírito que acompanhou a Selecção até ao seu último combate e os previsíveis efeitos do desaire na psique nacional. Só discordo da análise "técnica" da partida - o nosso erro não foi a mistura fatal de auto-confiança e ansiedade mórbida. Pelo contrário, pecámos por falta de ambição, pelo medo de vencer, pela atitude fatalista nos momentos cruciais.

Eu, que estive na Luz, vi uma claque grega tão forte quanto o bloco defensivo da sua selecção. Em clara minoria, numa proporção de um para quatro, os cânticos helénicos calaram o mole público português, visivelmente apático e falho de dotes canoros. Aí começou a desgraça. À minha volta, estrangeiros de todas as nacionalidades perguntavam a cada instante se os adeptos portugueses estavam a poupar a voz para o prolongamento. Lá lhes dizíamos que não, cantarolando uns breves "olé, Portugal, olé", mas a coisa não era convincente. Ainda antes do início da partida, pressenti o pior.

Depois veio o medo. Traumatizada pela derrota na partida inaugural, a nossa Selecção refugiou-se na contenção táctica e acomodou-se ao jogo cínico dos gregos, numa atitude incompatível com a atmosfera de confiança e com a superioridade futebolística que vínhamos revelando. O nosso mal foi não termos caído em cima deles "que nem tarzões" desde o primeiro minuto, não lhes dando tempo para respirar nem espaço para evidenciar o seu pobre (mas honrado) futebol. A estratégia é isso mesmo - saber tirar partido das vantagens próprias. Pensar que se vence o adversário utilizando as mesmas armas do que ele é meio caminho andado para a desgraça. Como se viu.

Luís Nazaré

As "desgrécias" nacionais

1. Foi pena, mas o esforço não foi suficiente ou a ele não se juntou a sorte que também conta nestas coisas de jogos, como, aliás, em tantas outras. Mas raramente conta só. Organização, estratégia, trabalho e rigor tornam a sorte mais próxima. Auto-estima e apoio colectivo fazem-lhe muita falta. O que não faz de todo falta são as gravatas às riscas e outros amuletos equivalentes. Valem, afinal, aquilo que já sabíamos que valiam: nada. "Desgrécia" a de quem acreditou!
2. A chantagem que Alberto João Jardim faz sobre o Presidente é inqualificável. «Desgrécia» a nossa que temos de o ouvir. Resta a esperança que no meio do dito cujo contra-golpe se esqueça também de candidatar-se às próximas eleições regionais.

Sampaio prisioneiro na sua teia

Ignoro, como toda a gente, qual irá ser a decisão final de Jorge Sampaio: se aceita Santana Lopes como primeiro-ministro com, segundo consta, um ministro das Finanças credível (mas o que será, no fundo, inquestionavelmente, um ministro das Finanças credível?); ou se dissolve o Parlamento e convoca eleições antecipadas. Permito-me até duvidar se Sampaio saberá já qual a melhor decisão a tomar. Certo é que nenhuma será boa e satisfatória e qualquer delas o enredará numa teia de responsabilidades políticas directas na gestão da crise, com prejuízo do seu estatuto e da sua autoridade.

O que parece certo é que o dilema do Presidente foi, em grande parte, criado por ele e pela sua incapacidade de ver claro desde o momento em que se tornou evidente a apetência de Durão Barroso em fugir para Bruxelas. Ora, imagine-se que o Presidente, em vez de deixar-se aprisionar na sua habitual indecisão e ambiguidade, colocava desde o início Durão Barroso perante as suas responsabilidades e não lhe facilitava o abandono da chefia do Governo.

Imagine-se que Sampaio dizia a Barroso o seguinte: «Senhor primeiro-ministro, compreendo que o convite que lhe é feito constitui uma honra para si e para o país. Não ponho isso em causa nem a legitimidade da opção que entender tomar. Mas a sua saída do Governo numa altura tão crucial, a meio do seu mandato, interrompendo o objectivo que se propôs de recuperar a confiança nas finanças públicas e na economia nacional, abre uma grave crise política e institucional que provocará uma enorme instabilidade no país. Por outro lado, não há memória de que nenhum outro primeiro-ministro em funções na Europa (até em países que não atravessam uma situação tão difícil como a nossa) tenha aceite demitir-se das suas responsabilidades políticas internas para aceder a convite tão honroso. Peço-lhe que reflicta nisso e nas suas responsabilidades, sendo certo que não deixarei de tomar a decisão que melhor salvaguarde os interesses nacionais e de dar conhecimento imediato dela aos portugueses».

Não acredito que se Sampaio tivesse tido um comportamento tão claro com Barroso, este alimentaria as ilusões que se conhecem sobre a aceitação pacífica do Presidente de uma sucessão ao gosto pessoal do primeiro-ministro cessante (ou de uma alternativa Santana Lopes). Além disso, Sampaio e Barroso deviam desde logo ter concertado a necessidade de ambos explicarem imediatamente ao país o que estava em jogo, assumindo cada um deles as respectivas posições e responsabilidades. Como nenhum deles o fez, Sampaio ficou prisioneiro das notícias entretanto divulgadas pelos media e Barroso tratou de apressar a sua fuga para Bruxelas.

Finalmente, não se compreendem os critérios selectivos das personalidades convidadas por Sampaio a deslocar-se a Belém para consultas (porquê Rui Machete, João Salgueiro, Miguel Cadilhe ou Artur Santos Silva, por exemplo, e não outros com semelhante estatuto?) Porquê tanto tempo para ganhar tempo e arrastar uma (in)decisão que poderia ter sido evitada se o Presidente tivesse ideias claras e não mostrasse um comportamento tão errático desde o início da crise?

Agora, com o país político dividido a meio e o país económico entregue a estados de alma contraditórios, qualquer solução será sempre uma má solução. Tudo porque Sampaio não confrontou visivelmente Durão Barroso com as suas responsabilidades. A partir de agora, o Presidente ver-se-á enredado e fragilizado na opção que acabar por tomar. O que se traduzirá inevitavelmente num enfraquecimento da sua autoridade institucional, com reflexos preocupantes na grave situação em que o país se encontra e na parte final do seu mandato em Belém.

Vicente Jorge Silva

Fatalidades mediterrânicas

Como toda a gente, fiquei triste por não termos sido campeões da Europa, até porque confiava que aquele início desastrado contra a Grécia nos levaria a aprender a lição e tirar conclusões para a final. Havia mesmo um elemento de superstição complementar: quem perde no princípio ganha no fim. E não é suposto, apesar das provas em contrário, que a história se repita duas vezes.

Mas o fado (esse fado mediterrânico que deveria funcionar a nosso favor, numa inédita coincidência circular a nível futebolístico) foi linear, repetitivo. Os gregos resgataram-se da sua secular vocação da tragédia e os portugueses morderam, novamente, o velho pó da sua melancolia.

Depois da onda crescente de euforia que nos transportou até ao jogo decisivo, confiantes no engenho de Scolari e no talento dos nossos jogadores, acabámos outra vez traídos por essa mistura fatal de auto-confiança e ansiedade mórbida que o calculismo greco-germânico aproveitou em pleno. Mas, para consolação nossa, sempre poderemos dizer que há males que vêm por bem.

O Euro 2004 tornara-se uma nuvem de fumo que servira para ocultar a fuga de Durão Barroso para a Europa. A partir de ontem, voltámos a cair «na real» e acordámos da ilusão que o futebol tece. Apesar da gravata às riscas verde-rubras do primeiro-ministro cessante, tornou-se claro que ele queria mesmo escapar de um clássico destino trágico à grega (mas, de facto, à portuguesa). Agora, a evidência está à mostra. Fatalidades mediterrânicas...

Vicente Jorge Silva

estranha forma de vida

Na hora da glória, jogar mal, com ansiedade e morrer na praia. O futebol é literatura e ser português é isto.

domingo, 4 de julho de 2004

Sai agora teu funeral à rua

Sai agora teu funeral à rua. Uma pequena multidão te acompanha. Dentro em pouco descerás à terra. Não é justo.
Justo seria esperar pelo pôr-do-sol para então depor teu franzino corpo na orla branca da praia que amaste. Serena e lentamente, o mar te viria buscar, onda após onda, ao ritmo de quem respira quando ama. E te levaria para o lugar definitivo que só tu e ele sabem ser o teu.
Na claridade da manhã, uma inadvertida e espantada gaivota não saberia entender a gravidade daquele lugar. Nem que força, resistindo a qualquer bater de asas, a mantinha imóvel. Até que o grito de alegria da primeira criança na praia celebrasse o regresso da palavra... e a libertasse para o voo, livre de segredos e de sentidos de que nunca suspeitaria.

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas.


Jorge Wemans

Sei agora mais algumas coisas de ti

"A vida dos que partem
é sempre mais venturosa
que a dura e triste sina
dos que ficam
recortando nos lugares habituais
e nos momentos comuns
o espaço da ausência
daqueles que amam.
"

Sei agora mais algumas coisas de ti.
Percebo que escreveste logo tudo da primeira vez. De jacto, por uma vez e para sempre, estavas toda ali. Nos primeiros versos, a que incansável e sempre renovada, voltaste vezes sem conta, já inscreveras tudo o que eras e serias.
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


Percebo que andaste comigo pela mão desde muito cedo. Acompanhas-me desde aquele momento adolescente em que comecei a fazer-me diferente daquilo para que me tinham feito. Falei a tua cristalina palavra porque ela dizia o que obscuramente procurava.
(?)
A presença dos céus não é a Tua,
Embora o vento venha não sei donde.

Os oceanos não dizem que os criaste,
Nem deixas o Teu rasto nos caminhos.

Só o olhar daqueles que escolheste
Nos dá o Teu sinal entre fantasmas
.


Percebo por que nunca te resisti. Mesmo quando regressavas e eu pensava ter-te esquecido. Ou quando quis coisas que tu não querias. Quando disse acabado e velho o teu mundo. No tempo em que o sentimento atrapalhava a vida. Ou quando o mar foi só o sono do descanso. Mas nunca te resisti. Nunca te procurei. Chegaste sempre até mim pela mão de alguém.
(?)
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco


Jorge Wemans

Confissão para Sophia

Tu nunca soubeste, mas foste santo-e-senha, ponte e porta, abrindo para intimidades e cumplicidades. Os rostos ganhavam outra proximidade quando nos diziam que também frequentavam a tua poesia. Olhares que nunca retivéramos fixavam-se na nossa memória, só porque, inesperadamente, encontrávamos neles a recordação dos teus poemas. Mais do que qualquer outro, tu eras a graça da amabilidade do mundo. E tornavas amáveis todos os que de ti se reclamavam.
Como não amar a mulher que se diz, mostrando o traço a lápis com que se detivera aqui:

MÃOS
Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.


Como não me socorrer de ti, lendo:
PROMESSA
És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante.


[Sabes que não gaguejo quando recito poesia?]

Como evitar o desafio daquele que "no tempo da selva mais obscura, na noite densa dos chacais" te diz:
(...)
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E começo a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo


Que outra resposta senão:
Na clara paisagem essencial e pobre
Viverei segundo a lei da liberdade
Segundo a lei da exacta eternidade.


Combates, amores e amizades, tu os permitistes, tu os iluminastes.
Jorge Wemans

Conversa com Sophia

Sabes, o mundo estragou-se, estragou-se muito nestes últimos anos. No Uganda os homens tornaram-se abjectos lobos. Os horrores da limpeza étnica regressaram à Europa. Dos céus voltam a cair em território europeu bombas mortíferas que rebentam com cinco décadas de paz. Manhattan sucumbe debaixo de um ódio cego, traiçoeiro, velhaco e assassino. No Iraque instala-se a guerra. Um muro iníquo, vergonhoso e violento cresce impunemente todos os dias, dividindo, qual sinal de todas as derrotas, a Palestina. A Europa envelhece e os outros morrem de fome. O Planeta protesta exangue, mas ninguém o ouve. O mundo porta-se mal.
Sabes, por vezes toma conta de mim aquela melancolia adolescente dos finais de tarde de Setembro, quando a tranquilidade do cair da noite nos avisava do fim de um tempo. Quando se tornava claro que as férias iam terminar, que nunca mais voltaríamos a ser os mesmos - mesmo que aos mesmos locais regressássemos. "Nos derniers baisers". Voltaríamos, é verdade. Mas mais velhos, mais perros de sentimentos e mais presos a realidades que não eram dali e nos roubavam o sonho.
Ao olhar o mundo, sinto por vezes regressar essa melancolia: um certo modo de pensar, construir e viver a civilidade, a democracia, a justiça e a paz vai transformar-se num adolescente sonho de Verão? Num passado de cuja realidade passaremos a duvidar? Numa memória repudiada?
Preciso de te reler:

És tu que estás

És Tu que estás à transparências das cidades
Vê-se o Teu rosto para além dos bairros interditos.

O mal palpável próximo insistente
Parece tornar-Te evidente.

Sobe do destino uma sede de Ti.
Não somos só isto que se torce
Com as mãos cortadas aqui.


Jorge Wemans

M&M

Ouvi este comentário e não resisto a reproduzir: É uma pena que o PSD não tenha escolhido Marques Mendes para novo líder do partido. Seria um mal menor.

aforismos de directa (6:30 a.m.)

Uma mulher alcoolizada é uma bailarina expulsa da Companhia.

aforismos de directa (6:27 a.m.)

Um amigo diz-nos na cara o que alguns inimigos sussurram nas costas.

aforismos de directa (6:25 a.m.)

A diferença entre um otário que se leva a sério e um que não o faz é que o primeiro ainda não percebeu que o é.

É hoje!

Eu sei que vou chorar / de tristeza ou de alegria / eu vou chorar.

PSD ou PPD?

«O PSD dsapareceu e nasceu um outro PPD, tal como o CDS tinha desaparecido para nascer o PP.
O Populismo, paulatinamente, sem que se notasse muito conquistou um importante espaço no panorama partidário. E o que é pior, mas habitual noutras paragens, aliado aos piores interesses económicos, às redes da especulação imobiliária, das redes duvidosas do futebol e de tudo o que com elas está associado.
A Direita dos valores cedeu o seu espaço à direita dos interesses. O centro-direita deixou de estar representado em eleições. O Populismo vai apostar na demagogia, nas falsas promessas, na coligação de interesses mesquinhos em que o PSD se transformou e na clubite (que os dirigentes deste partido foram fomentando) para reter votos e enganar o antigo eleitorado do PSD e do CDS.
O sonho antigo de Santana de cindir o PSD e criar um grande partido político da direita populista foi conseguido, ultrapassando as antigas expectativas (nem sequer foi preciso cindir o PSD). Será que os sociais-democratas de direita não vão reagir e formar um novo partido, apesar das dificuldades derivadas de lhes terem roubado passo a passo o aparelho partidário?
Começa a haver muitos cidadãos cuja opinião não está representada no espectro partidário, o que é um sério risco para a democracia.
Se Santana e Portas representam um grande risco a curto prazo para Portugal e para a sua economia, bem como para a situação económica e social da população, sobretudo as camadas mais carenciadas e as classes médias, o facto atrás referido é verdadeiramente grave para o futuro de Portugal como país democrático.
Esperemos que a esquerda se saiba mostrar à altura deste desafio de verdadeira salvação nacional e que o eleitorado e as elites do centro e da direita dos valores saibam reagir e reorganizar-se.
Apesar de as suas posições não serem, quanto a mim, as que melhor defendem os portugueses, eles são necessários a uma democracia saudável que consiga combater a desilusão, o afastamento dos eleitores da política e esses grandes cancros da democracia que são a corrupção e o sectarismo e nepotismo. Tudo cancros que têm vindo a desenvolver-se nestes últimos dois anos.(...).»

(Carlos Braga)

sábado, 3 de julho de 2004

A pata de coelho

Num país que sofre de défice de cultura científica, em que passamos a vida a pregar a importância do rigor como condição para os bons resultados, na escola ou na economia, nada melhor do que esta febre da "pata de coelho" que nos invadiu nos últimas dias a propósito do Euro 2004. É o presidente da federação de futebol que não vai aos jogos para não dar azar ou o futuro ex-primeiro-ministro que não larga a gravata das riscas que dá sorte à selecção. (Hoje mesmo confessou: «só perdeu quando não a pus»!!!). Lá que guardassem a pata no bolso do casaco, seria um mal menor. Vir exibi-la para a televisão, cheios de orgulho, como se fossem iluminados sabe-se lá por quem, já me parece demais.

Maria Manuel Leitão Marques

No país das últimas coisas

Para a Sophia, este blog inteiro.

Sem escrúpulos

Depois de Manuela Ferreira Leite (ver post "Tempos Novos" abaixo) foi agora a vez de Cavaco Silva ser vítima de grosseira manipulação de informação em favor do novo líder do PSD, Santana Lopes.
Segundo o Expresso online, «o ex-primeiro-ministro Cavaco Silva desmente peremptoriamente informações segundo as quais teria dado o "aval" ao novo líder do PSD, Santana Lopes. "Desminto categoricamente", diz Cavaco em declaração ao EXPRESSO, considerando "desonesto" que o seu nome esteja a ser usado em "jogos políticos" em que não quer participar, ao mesmo tempo que evidencia preocupação com a crise resultante da ida de Barroso para Bruxelas».
Sabe-se obviamente de onde surgiram as ditas informações falsas. Se é assim com os correlegionários, o que será com os adversários? O novo PSD já dá para assustar!

Perguntas ao PS

«(...) No caso de haver eleições antecipadas era conveniente que o PS tivesse resposta para duas questões cruciais:
a) Se ganhar as eleições sem maioria absoluta, que é o resultado mais provável, vai o PS repetir a experiência dos governos minoritários de Guterres ou estará disponível para uma coligação governativa à sua esquerda? E com quem? Com o PCP, com o BE ou com ambos?
b) Que posição vai o adoptar em matéria de disciplina financeira e rigor orçamental? Vai abandonar o PEC? Vai abolir de novo portagens em auto-estradas? Vai repor o valor anterior das propinas unversitárias? Vai novamente empolar os quadros da função pública e aumentar os vencimentos acima da inflação?
(...)»

(JMS, Lisboa)

Comentário: Eu também penso que em caso de convocação de eleições estas (e outras) dúvidas devem ter oportunamente uma resposta clara. (VM)

«Tempos novos»

«Manuel Ferreira Leite afirma que votou contra o nome de Santana Lopes para a presidência do PSD. A ministra das Finanças desmente ainda que tenha pedido desculpa ao autarca de Lisboa e mantém a opinião de que a substituição directa de Durão Barroso por Santana é um golpe de Estado no partido.»
(website da SIC)

«Como se viu com a forma como foi "relatada" aos jornalistas a intervenção e o voto de Manuela Ferreira Leite no Conselho Nacional, já se percebeu como está a funcionar uma estratégia de "informação", ou seja, uma central de desinformação. Coordenada, organizada e intencional, destinada a obter efeitos políticos imediatos. Os jornais foram manipulados para contarem mentiras. Manuela Ferreira Leite nem pediu desculpas, nem votou Santana Lopes.
Está na altura dos jornalistas fazerem aquilo que sempre disseram que fariam quando as suas "fontes" deliberadamente mentem: denunciar os seus nomes.»

(J. Pacheco Pereira, link)
Sinais ominosos do que está para vir? "São Sampaio" nos valha!

Haja noção das proporções

«Vivemos a maior crise desde o 25 de Abril».
(Engª Maria de Lurdes Pintasilgo, antiga primeira-ministra (1979) e candidata à presidência da República (1985))

sexta-feira, 2 de julho de 2004

Sophia (1919-2004)

Hei-de ter algures a 1ª edição da "Geografia" (1967), por onde a "descobri". E também o cartaz com o seu poema dedicado à revolução de Abril («Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo /...»). Ou a memória deste outro poema, oportunamente assinalado numa antologia:
Exílio
Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades
Felizes os países que são feitos de poetas assim!

Marlon Brando (II)

«Após a leitura do seu post sobre Marlon Brando, senti uma imperativa necessidade de o contactar, acrescentando uma informação de carácter pessoal.
Marlon Brando foi um dos grandes actores da sua geração, se não mesmo o maior, sendo legítimo até, como o faz justamente o New York Times, dizer que em "acting there's a pre-Brando and an after-Brando"; tornou-se ainda um símbolo de toda uma geração, e de algumas seguintes, que viveram o seu surgimento esplendoroso nos anos 50, passando pelo arrefecimento dos anos 60, e assistindo ao reavivar da sua carreira nos anos 70.(...)
O que gostaria de acrescentar é o seguinte: o brilhantismo de Marlon Brando, não só na sua profissão artística de actor mas também no seu modo irreverente de encarar a sua carreira e as suas envolvências, fá-lo extravasar as gerações que viveram o seu apogeu. Eu tenho 23 anos, e Marlon Brando também está entre os meus heróis. Hoje, também o meu coração está de luto.»

(ASC)

Não estás sozinho, Daniel (Força!)

«Boa tarde, caros amigos:
Desconhecem-me, a maior parte de vocês. Contudo, fazem parte do meu dia-a-dia, com os vossos pensamentos, irritações, devaneios, suspiros.
Decidi dar-me também a conhecer. Quero que se disponibilizem para me ler, pois claro! Uma relação, ainda que virtual tem duas partes, e eu pretendo agora ser ouvido! Estive a aturar as vossas indisposições, mal-estares, estive presente nos momentos felizes, dolorosos, até nos desconcertantes.
Marquei a minha presença assídua, rogo agora a vossa atenção. O vosso carinho, e, (eu sei que não é fácil), o vosso tempo. É terrível ter de o pedir, quando nem sequer sabiam que eu existia. Quando se calhar, fui eu que me intrometi numa relação a dois, entre vocês e a blogosfera. Terei sido um intruso?
Essa dúvida vai torturar-me, garanto-vos.
Mas quero ter a certeza de ter alguém do outro lado. Ou descobrir que, afinal, estou sozinho.
melhores cumprimentos

Daniel

PS: O blog chama-se "esteiros".»

Brando forever!

Morreu Marlon Brando. Lembrá-lo-ei sempre pela sua notável declamação do discurso de Marco António aos cidadãos romanos depois do assassínio de César no filme Júlio César (1953), que vi uma meia dúzia de vezes em virtude da minha adoração juvenil por Shakespeare. Desde então até ao estupendo O Padrinho, passando por Um Eléctrico Chamado Desejo, pela Revolta na Bounty, pelo Há Lodo no Cais e pelo Apocalypse Now, para citar só os filmes que mais me impressionaram, nunca mais deixei de o admirar na sua portentosa carreira de actor, a que a juntou a sua tumultuosa história pessoal feita de rebeldia e provocação às convenções, bem como uma meritória entrega a causas cívicas (designadamente a defesa dos direitos dos índios norte-americanos). Ele está entre os meus heróis.

As eleições e a estabilidade

Silva Lopes apresentou um dos melhores argumentos que já ouvi a favor das eleições antecipadas: o de que só elas poderão garantir alguma estabilidade e consolidação financeira nos próximos anos. É caso para dizer que as aparências iludem!
Na verdade, fosse qual fosse o partido que viesse a ganhar agora as eleições, iniciar-se-ia uma nova legislatura de 4 anos e, por isso, o vencedor não teria a tentação de desenvolver de imediato políticas de tipo eleitoralista (que também já não tinha tempo de praticar antes do acto eleitoral). Pelo contrário, essa tendência será quase inevitável com o cenário de um governo da actual coligação, governando a dois anos de eleições. E não se adivinham meios de poder travar tal desvario. Promessas, como se ouviu ontem, não faltarão. Mas teria o Presidente da República algum instrumento para pôr o Governo "no sério", por exemplo, se este viesse, nos próximos meses, a libertar o endividamento das autarquias ou a subir o ordenado dos funcionários muito a cima do que o bom senso financeiro nos aconselha?

Maria Manuel Leitão Marques

Quem enganou quem

«Só aceitei [a presidência da Comissão Europeia] depois de estar intimamente e plenamente convencido de que não se punha a questão das eleições antecipadas», terá dito Durão Barroso ontem no Conselho Nacional do PSD que procedeu à eleição do seu sucessor à frente do PSD. Só há duas explicações para esta declaração: ou recebeu previamente, ou julgou ter recebido, alguma garantia por parte do Presidente da República quanto à viabilidade de formação de um novo governo pela actual maioria parlamentar; ou então ele quis desculpar-se perante o Partido pela imprudência de ter abandonado o Governo sem se aperceber da crise política que iria abrir. Uma vez que o Presidente já declarou há dias que não assumiu nenhum compromisso quanto à solução a adoptar, e não havendo razões para duvidar da sua inexistência, só resta a segunda alternativa. A verdade é que, na sua ânsia para aceitar a presidência da Comissão, Barroso não quis sequer encarar as possíves sequelas da sua decisão, querendo acreditar que tudo correria bem e que o Presidente nada faria. Poder ser que sim, mas isso não altera o juízo sobre a leviandade ou insinceridade do ainda primeiro-ministro...

quinta-feira, 1 de julho de 2004

Condizem bem

Depois de Alberto João Jardim também Isaltino Morais fez questão de expressar publicamente o seu apoio à designação imediata de Santana Lopes como presidente do PSD e candidato a primeiro-ministro, criticando os que defendem a necessidade de um congresso partidário.
Mesmo as manifestações de adesão maciça, como a que espera a unção do novo líder, precisam dos seus chefes de fila, não vá alguém deixar de dar por eles. Não podiam ser mais bem escolhidos! Ninguém melhor do que eles poderia simbolizar a imagem do novo PSD que está para emergir no meio da crise governamental e partidária aberta pelo abandono de Durão Barroso.

Requisitório

Ninguém como J. Pacheco Pereira poderia expor e denunciar com tanta clareza a natureza e os perigos do populismo "santanalopista". Leitura obrigatória: infelizmente não está em causa somente o PSD...

"Jornal de Coimbra"



Ao fim de quase duas décadas de publicação como semanário independente, o Jornal de Coimbra vai passar a ser publicado no âmbito do Diário de Coimbra, acompanhando o seu fundador e director de sempre, tendo agora publicado uma derradeira "edição especial", com depoimentos e testemunhos de numerosas pessoas, incluindo muitas das que colaboraram nas suas páginas ao longo dos anos. Contando-me entre os seus leitores regulares e colaboradores ocasionais, não quero também deixar de contribuir com o meu testemunho de gratidão e homenagem. Seja qual for o seu futuro, o Jornal de Coimbra ganhou direito a um lugar de destaque na imprensa regional, pela sua qualidade, pluralismo e independência e pelo profundo e apaixonado interesse pelas questões da cidade e da região Centro.
Obrigado, Jorge Castilho!

Privilégios de Lisboa

Passando em revista as obras de Santana Lopes em Lisboa, no jornal A Capital de hoje, lê-se esta passagem:
«Já em relação ao financiamento para a construção da nova ETAR de Alcântara, obra urgente que deverá custar 52,5 milhões de euros, a autarquia vangloria-se de ter "trabalhado com o ministério do Ambiente, para arranjar soluções". O Governo já mostrou disponibilidade para assumir essa obra
Já não basta que Lisboa usufrua das vantagens de ser capital do País, sedeando os principais serviços públicos, incluindo os grandes estabelecimentos culturais (teatro nacional, orquestra sinfónica nacional, ópera nacional, etc.) sustentados pelo orçamento do Estado. Ficamos agora a saber que também são encargos do Estado tarefas que no resto do País são encargo dos municípios. Sendo assim, o que é resta para o município de Lisboa?
Uma das preocupações políticas contemporâneas é a "coesão territorial", devendo as regiões mais pobres ser ajudadas pelas mais ricas. Em Portugal, as coisas funcionam ao contrário: são os contribuintes de todo o País, incluindo as regiões mais pobres, que sustentam os privilégios de Lisboa!

"A Capital" online



O diário agora dirigido por Luís Osório está desde agora disponível online, disponibilizando a reprodução da primeira página, quase todo o conteúdo da edição em papel, as imagens de cada edição, bem como diversos serviços ao leitor, desde as cartas ao director até à participação em fóruns.
Mas um jornal na Internet tem de ser mais do que a versão electrónica da edição impressa. Entre outro valor acrescentado, falta pelo menos uma página de notícias de última hora.
Só se pode manifestar apreço por este "upgrade" do renovado diário regional de Lisboa, que além do mais permite o acesso ao jornal aos residentes em áreas onde ele não tem difusão. O que era de admirar é como um jornal podia estar fora da Internet...

«Ao Dr Sampaio»

«De facto, a única e boa razão para rejeitar a opção PSL para Primeiro Ministro é a falta de estatura e credibilidade política do sujeito. É isso mesmo que é e será factor de instabilidade a curto prazo no Governo do país, se o PR aceitar a solução e, pior do que isso, é essa falta de credibilidade que arrastará Portugal para uma deriva populista até às eleições, quando o Dr. PSL, já Primeiro Ministro, perceber que ninguém lhe liga, e ao seu Governo, nenhuma e quiser assegurar a eleição de um Presidente de direita e a vitória do PSD nas legislativas.
O Dr. Sampaio, que já errou duas vezes sobre o personagem (quando lhe deu honras de recepção urgente em Belém após o episódio da "Cadeira do Poder" e da ameaça de abandono da política) e quando sorriu indisfarçavelmente de gozo com a eleição para Presidente da CML, derrotando a família Soares, prepara o terceiro erro, em nome da coerência da sua interpretação da Constituição.
(...) O que o PR não entende, aparentemente, é que à sua leitura dos poderes presidenciais, na versão pós-82 da Constituição, falta a componente da intuição e avaliação política sobre os efeitos da escolha de um certo PM na estabilidade política de Portugal.
Ao Dr. Sampaio, que deve achar que não pode, como Presidente da República, mesmo que o sinta como cidadão, ajuizar a estatura e a credibilidade política e pessoal de PSL, há que recordar que pode - e deve - fazer isso mesmo !
E é mesmo por isso que pode, e deve, indicar a Durão Barroso e ao País que, se a indicação do PSD for Pedro Santana Lopes, a rejeitará, como Eanes rejeitou Vítor Crespo, e lançará Portugal no turbilhão de eleições antecipadas.
Recorde-se, Dr. Sampaio, do moto de Sousa Franco: "quem teme a tempestade acaba deitado".
Não acredite, Dr. Sampaio, que conseguirá "domar" PSL na presidência do Governo. O jogo é perigoso e o Dr. Sampaio, campeão dos consensos, não tem estofo nem força interior para isso.»

(PA)

Garantia de maioria parlamentar absoluta?

«Considerando que está provada -- pela AD -- e comprovada -- pela "Força Portugal" -- a falência de coligações pré e pós-eleitorais;
E considerando que a governação anterior ficou objectivamente fragilizada por não dispor de mais três deputados na respectiva representação parlamentar de apoio e assim sem maioria absoluta
[no 2º governo Guterres havia um empate parlamentar entre o PS e as diversas oposições, pelo que só faltava um deputado para a maioria absoluta (nota minha, VM)];
E considerando que, nesse caso, tudo resultou de o Bloco de Esquerda ter eleito 2 deputados por Lisboa --, pergunta-se também face à situação que vivemos no momento:
- não será possível criar um mecanismo aritmético constitucional que a partir de um dado resultado eleitoral do partido mais votado, lhe provoque uma maioria parlamentar?
- não será de criar um mecanismo similar no sentido de a representação parlamentar ser vedada aos partidos que a nível nacional não consigam resultado eleitoral suficiente (evitando-se, em concreto, o que se está a passar com o BE -- mete dois deputados no parlamento pelo círculo de Lisboa, mas no demais país é política e eleitoralmente inexistente)--...»

(MT, Santa Maria da Feira)

Comentário:
a) Não creio estar provada a falência das coligações em geral; penso que elas são preferíveis a governos minoritários;
b) A Constituição garante a representação proporcional, pelo que seria inconstitucional assegurar uma maioria parlamentar artificial; mas, como se sabe, existe já uma majoração implícita a favor dos partidos mais votados, que permite obter uma maioria absoluta no Parlamento com pouco mais de 44% dos votos (podendo esta majoração ser ampliada se por exemplo se dividissem os círculos eleitorais maiores...);
c) A Constituição proíbe o estabelecimento de votações míninas como requisito de entrada no parlamento ("cláusulas barreira"), que existem em muitos outros países para vedar a entrada de pequenos partidos; penso que entre nós o número de partidos com representação parlamentar já é comparativamente exíguo, pelo que sou contra essa restrição.